O recente surto de Esgana que atingiu a União Zoófila – que já provocou a morte de três animais – foi o pretexto para investigarmos. Percebemos que a doença tem vindo a afetar principalmente canis municipais e associações de recolha e proteção de animais desde o início de 2015, tendo começado no norte e descendo para sul, afetando inclusive muitos animais vacinados. Nesta altura, a esgana continua a manifestar-se em várias zonas da grande Lisboa (Loures, Odivelas, Charneca da Caparica), mas começam também a haver animais com dono a ficarem doentes.
O facto de animais vacinados estarem a ficar doentes fez com que Andreia Severino (TojalVet), que segue habitualmente os animais da associação Chão dos Bichos, em Loures, decidisse fazer recolha em alguns dos cães afetados e enviar para o GeneVet “porque tinha visto a vossa notícia de que eles tinham um teste novo e rápido para a deteção da doença e identificação da estirpe” (ver Caixa), explica a médica veterinária. Os resultados identificaram a Estirpe Selvagem.
Questionados quatro laboratórios sobre se as suas vacinas também protegem os animais contra esta estirpe, os que nos responderam (Merial, MSD e Zoetis) garantem que a vacina confere imunidade cruzada, mas que seria necessário saber a estirpe selvagem específica para garantir se está coberta, sendo que garantem não terem reporte de falhas de eficácia das vacinas. “Levamos muito a sério a vigilância farmacológica e não tivemos qualquer reclamação em relação à nossa vacina, não temos reporte de falha de imunidade”, assegura Daniel Pinheiro, Gestor de produto de Animais de Companhia, na Merck Animal Health.
“A estirpe vacinal que é utilizada nas vacinas produz imunidade para a estirpe selvagem porque vem dela, dessa estirpe de campo, mas claro que foi trabalhada”, explica Pedro Fabrica, Gestor de produto e Serviços Técnicos Biológicos e Outros Farmacológicos de Animais de Companhia e Equinos, da Merial Portuguesa. O responsável acrescenta que o facto de animais vacinados estarem a dar positivo para a esgana “pode dever-se a diversos fatores, como o protocolo vacinal – se o animal tem todos os reforços e há quanto tempo foi vacinado – e o estado de imunidade do cão”. Pedro Fabrica adianta: “não temos nenhuma indicação que a vacina não esteja adequada à infeção de campo”.
Miguel Martins de Carvalho, Business Unit Manager – Companion Animals da Zoetis, reconhece que “de acordo com os dados de que dispomos, foi efetivamente identificada estirpe selvagem, o que apenas nos diz que à partida se trata de uma estirpe diferente da vacinal, mas não identifica a estirpe em questão” e diz ainda que “é também um facto que as vacinas convencionais disponíveis no mercado conferem proteção cruzada para esgana, no entanto sem sabermos exatamente qual a estirpe que está a provocar os surtos, o que só se conseguirá por tipificação viral, não é possível dar uma explicação com base em dados científicos sobre o nível de proteção conferido pelas vacinas que são comercializadas, sejam nossas ou de outras empresas”.
GeneVet quer sequenciar o vírus
Constança Pomba, que coordena o laboratório GeneVet, diz-nos estar “interessada em sequenciar o vírus que encontrámos, para identificarmos qual é a estirpe específica e percebermos se já é conhecida – se está na base de dados mundial de estirpes de esgana, ou se é uma mutação ou uma estirpe nova”, mas ressalva: “só que os custos são elevados, pelo que estou a pensar contactar os laboratórios para ver se estão interessados em apoiar esta investigação, uma vez que há muitos animais vacinados a serem afetados e já não só de associações e canis. Uma colega da área da Charneca da Caparica enviou-me materiais de doentes dela – animais com dono – que deram positivo para este vírus selvagem, que é altamente agressivo”.
Também Andreia Severino, da TojalVet, já tinha referido à VETERINÁRIA ATUAL que já começaram a surgir cães doentes entre os seus clientes. Apesar dos casos reportados na zona da Charneca da Caparica, Nuno Paixão, diretor do Hospital Veterinário Central, referiu que “houve alguns casos de animais de associações aqui da zona, e também de Almada e Seixal, que deram positivo”, mas “não detetámos na população em geral, até porque a esgana responde muito bem à vacina”.
Vanessa Grima e Maria João Nabais, veterinárias municipais de Loures e Odivelas respetivamente, reconhecem que os canis das autarquias tiveram focos da doença, com animais doentes e com alguns óbitos, mas “a sintomatologia dos animais afetados, alguns que acabaram por morrer e outros que reagiram bem à medicação e recuperaram, foi bastante inespecífica. O quadro mais frequente iniciou-se com prostração e letargia, acompanhadas na maioria das vezes por diarreia hemorrágica, o que também pode indicar infeções virais de outra origem, como parvovirose, entre outras”, sublinha Maria João Nabais.
Vanessa Grima refere “que sete animais adoeceram com esgana no nosso canil e acompanhámos de perto o caso da Associação Chão dos Bichos, mas continuamos a receber cadáveres de animais errantes com suspeita de esgana, das zonas de Camarate e Apelação, por exemplo” e salienta: “foi identificada a estirpe selvagem na Chão dos Bichos, não sabemos especificamente qual, mas sabemos que é um vírus muito contagioso e agressivo”.
União Zoófila isolou de imediato os animais
Luísa Barroso, diretora da União Zoófila, referiu à VETERINÁRIA ATUAL a suspeita de que “os animais que trouxeram este vírus são da zona do Lumiar, Alta de Lisboa e de Odivelas/Loures. Neste momento já faleceram três cães e temos dois com sintomas neurológicos… Isolámos de imediato os animais que testaram positivo, mesmo os mais de 30 que têm titulação baixa e imunidade alta, que estão em quarentena, e mesmo em isolamento temos mais sete com sintomas diversos, incluindo os dois mais graves que referi”.
Todas as boxes estão a ser desinfetadas diariamente e os médicos e voluntários estão a tomar todas as medidas de proteção. “Soubemos que houve um surto no final do ano na Casa dos Animais de Lisboa, porque até esteve fechada e nós tivemos de receber muitos animais na altura, mas agora fomos apanhados de surpresa, com a doença a afetar também alguns animais vacinados”, afirma.
Marta Videira, responsável pela Casa dos Animais de Lisboa (canil municipal), explicou à VETERINÁRIA ATUAL que “o surto começou em outubro e prolongou-se até ao final do ano, mas só o conseguimos controlar completamente já este ano, ao fim de muitos meses. Mas, como agimos muito rapidamente em termos de isolamento dos animais afetados, desinfeções e vacinação, conseguimos que a mortalidade não fosse muito elevada, perdemos nove animais”.
A médica veterinária admite “que alguns dos animais vacinados, principalmente os mais idosos, não tinham todos os reforços da vacina, mas desde aí estamos a vacinar todos os animais e a dar todos os reforços, nos cachorros chego a fazer três, e conseguimos controlar a situação”.
O protocolo utilizado pelo Laboratório de Diagnóstico Molecular Veterinário GeneVet é baseado no trabalho de Yi et al (2012), desenvolvido devido ao aumento de surtos causados pelo vírus da esgana em animais vacinados. Este método, baseado na técnica de reação em cadeia da polimerase (Polymerase Chain Reaction (PCR), tem por objetivo a distinção entre estirpes selvagens e estirpes vacinais.
O método inclui duas partes: deteção do vírus da esgana – PCR 1 e distinção entre estirpe selvagem e estirpe vacinal – PCR 2. Na primeira parte, o PCR incide numa zona do genoma do vírus da esgana conservada universalmente entre estirpes, permitindo detetar todas as estirpes em circulação.
A segunda parte incide numa secção do genoma correspondente a uma proteína essencial para o desenvolvimento da doença e que se encontra alterada nas estirpes vacinais. A sequência das estirpes selvagens, considerada como padrão, é identificada pelo PCR2, enquanto as mutações nas estirpes vacinais impedem a amplificação (Fig. 1).
Figura 1 – Ilustração esquematizada das zonas abrangidas pelos PCRs de identificação e distinção de vírus da esgana.
Este protocolo foi diretamente testado em vacinas com base na estirpe CDV-3 e comparado com três outras estirpes vacinais, Snyder Hill, Convac e Onderstepoort (Snyder Hill e Onderstepoort são utilizadas em Portugal), tendo todas as estirpes as mesmas mutações que impedem a amplificação no PCR2. O PCR2 amplifica todas as linhagens de estirpes selvagens testadas (Asia-1, Asia-2, America-2, Europe e Africa), ou seja, todas são positivas nos dois PCRs.
O teste pode ser realizado a partir de sangue em EDTA, zaragatoas conjuntivais, nasais e orofaríngeas, biópsias de pele, raspados conjuntivais, urina, LCR, lavados transtraqueais e em vários tecidos nos post-mortem.
*Texto enviado pelo GeneVet


