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Veterinários Portugueses pelo Mundo

“O ‘ahhhhhhh!’ de finalmente compreender algo que não se percebia tornou-se extremamente gratificante”

“O ‘ahhhhhhh!’ de finalmente compreender algo que não se percebia tornou-se extremamente gratificante”
A paixão com que fala da neurologia percebe-se em cada linha da entrevista onde revela como chegou ao Reino Unido, mais precisamente ao hospital académico da Universidade de Bristol. Enquanto se prepara para o exame da especialidade do ECVN, mantém um sonho (ou utopia): trabalhar num hospital veterinário de referência em Portugal. Conheça Alexandra Ferreira, DVM(Hons) MRCVS, Staff Clinician (Neurology), Langford Vets, o hospital académico da Universidade de Bristol.

Qual a sua área de especialidade e porque escolheu essa área?

A minha área de especialidade é a Neurologia. Na verdade, nos meus tempos universitários era a área que menos gostava. Felizmente fiz o estágio de final de curso numa clínica onde ainda hoje tenho bons amigos, os meus mentores. Entre eles estava um neurologista conhecido de todos os nossos veterinários. Ele costumava fazer-me perguntas sobre neurologia que provavelmente nenhum estudante de último ano saberia, eu não era exceção e isso irritava-me. E la ia eu, à hora de almoço, estudar para não voltar a ser apanhada. Mas ele nunca repetia perguntas e acabei por ler o livro de neurologia todo, assim.

 

De início nada fazia sentido, o que era frustrante, mas lembro-me quando começou a fazer. A partir desse momento, ainda em estágio de final de curso, apaixonei-me. A neurologia passou a ser fascinante, não só a neurologia clínica, mas a cirúrgica também. Ainda me lembro da primeira vez que vi a medula espinal de um cão paraplégico. Nunca irei esquecer esses momentos que definiram a minha carreira profissional e, por causa disso, a minha vida pessoal.

Como surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro? Onde trabalha neste momento e o que faz?

 

A oportunidade surgiu após dois anos a trabalhar em Portugal, a juntar dinheiro para me mudar e de enviar CVs para o Reino Unido. Tinha decidido que iria tentar a residência em Neurologia e isso não era (é) possível em Portugal. Nunca quis trabalhar numa clínica pequena, sempre quis trabalhar em hospitais multidisciplinares por isso escolhia bem para onde enviava os CVs. No dia em que fui ao Reino Unido para me inscrever no Royal College of Veterinary Surgeons (RCVS) consegui marcar duas entrevistas e decidi nessa viagem que era ‘agora ou nunca’.

Consegui trabalho num hospital no norte do Reino Unido, com uma equipa de veterinários fantástica, com os quais ainda mantenho relações de amizade. Daí, depois de uma recomendação fabulosa do meu patrão, consegui entrada direta na residência, num hospital veterinário privado. Acabei a residência e tive imensa sorte em ser convidada para fazer parte da equipa de Neurologia de Langford Vets, o hospital académico da Universidade de Bristol. Tudo aquilo que lia enquanto estudava e que achava que nunca iria fazer porque “só se fazia lá fora” faz agora parte do meu dia-a-dia e é fabuloso.

 

O que a fez tomar a decisão de sair de Portugal?

Há 10 anos foi querer muito a residência em Neurologia. Tive a sorte de estar a trabalhar em part time em dois centros de referência da zona de Lisboa, um deles foi o que me deu o meu estágio de final de curso. Trabalhava muitas horas, mas não me posso queixar. Estava feliz e teria sido feliz se tivesse ficado naquela situação. Mas o sonho falou mais alto…

No Reino Unido há uma pressão enorme nos veterinários e infelizmente é umas das classes com maior taxa de suicídio e depressão.”
 

Quais as diferenças que encontra entre os métodos de trabalho nos dois países? Ou seja, como é um dia de trabalho normal?

Já não trabalho em Portugal há muito tempo. Só sei o que vou lendo no fórum de veterinários portugueses no Facebook, do qual faco parte. Os dias são longos, sem saber o que nos espera ou a que horas acaba. Normalmente começam às 08h00 e acabam às 18h00 ou 19h00. E depois há as urgências que são urgências e as urgências que são conveniências e pouco tempo livre… No Reino Unido há uma pressão enorme nos veterinários e infelizmente é umas das classes com maior taxa de suicídio e depressão.

Como é viver fora de Portugal? Conseguiu adaptar-se bem?

Consegui adaptar-me bem. Como profissional especializada, com bom inglês falado e escrito, foi muito mais fácil. Mas a cultura inglesa é diferente da nossa e no início não foi fácil.

Do que mais tem saudades de Portugal?

Adoro Lisboa, onde tenho toda a minha família e a maior parte dos amigos. Sinto falta do calor (humano e ambiental), do mar perto do qual fui nascida e criada, do café com os amigos e das corridas no paredão de Oeiras. E da comida, sinto muita falta da comida portuguesa. O fish and ships, sunday roast e o english breakfast não são para mim…

Quais os seus planos para o futuro?

Para o futuro imediato preparar-me para ir a exame, que não é nada fácil e tem uma taxa de sucesso de 25%. A medio prazo provavelmente continuarei por aqui. Simplesmente porque há possibilidade de fazer mais: os animais tem seguro de saúde, o que nos permite avançar no campo da medicina veterinária. Também há mais tolerância para participar em projetos de treino de veterinários e de voluntariado em países subdesenvolvidos.

Equaciona voltar a Portugal?

Sempre. Nem que seja na reforma!

Se sim qual o trabalho/projeto gostaria de desenvolver?

Como trabalho num hospital académico, parte desse mesmo trabalho passa por ensinar e treinar não só estudantes, mas também internos e residentes na área de neurologia. O “ahhhhhhh!” de finalmente compreender algo que não se percebia tornou-se extremamente gratificante e acho que quando se gosta realmente de uma área, esse gosto transmite-se. Gostaria de um dia, se possível, ter uma oportunidade de fazer o mesmo que faço aqui, mas em Portugal. Para que a neurologia, se não for apaixonante, ao menos que deixe der ser um bicho-de-sete-cabeças para a maioria dos veterinários.

Que conselhos dá aos recém-licenciados em medicina veterinária que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

Clínica em medicina veterinária é vocação e paixão. É dedicação e muito mais que um trabalho das 9 as 5. Escolham uma área de interesse (e essa área inclui clínica de primeira opinião ou clinica geral) e estudem. Fazem-se muitos sacrifícios inicialmente. E que façam pressão junto as seguradoras para desenvolver seguros de saúde para animais de companhia.

São esses que permitem que avancemos com o nosso conhecimento, mas também que tenhamos a remuneração que o nosso esforço e dedicação merece. Depois há as outras vertentes de inspeção sanitária, farmacêutica, etc., mas disso não tenho muita noção da situação atual.

Como vê o estado atual da medicina veterinária em Portugal e no mundo?

A principal diferença que vejo é que no Reino Unido, mas principalmente nos Estados Unidos, os veterinários são uma classe respeitada. Por aquilo que percebo pelos meus colegas, o público vê os veterinários como uma obrigação em vez de profissão e isso é triste. Sim, fazemos o trabalho que fazemos por vocação, mas também temos contas para pagar. E os sacríficos que fazemos, o tempo que dedicamos ao trabalho ao invés da família, os anos a mais de estudo a que nos auto-propomos são conhecimentos e situações que devem e têm de ser renumerados corretamente.

Outro fator que considero extremamente importante é o número de veterinários que Portugal está a formar. Na minha opinião são demasiados, comparativamente a outros países.”

No que diz respeito aos veterinários em si, não acho que tenhamos de ter vergonha de nada. Somos tão bons como os estrangeiros, apenas temos menos acessibilidade a aspetos da nossa profissão que nos permitiram ser melhores. Falo por exemplo no acesso a artigos de investigação (essencial a qualquer clinica veterinária) ou ao facto dos estudantes de veterinária de último ano, aquando das suas rotações nas diferentes disciplinas, serem ensinados por diplomados ou residentes de cada área, estando sempre a receber a informação mais recente de cada especialidade. Também fazem rotações na clínica de primeira opinião, por isso não perdem o contacto com a realidade que vão encontrar assim que saírem da universidade. Mas compensamos essa limitação com dedicação e trabalho.

Outro fator que considero extremamente importante é o número de veterinários que Portugal está a formar. Na minha opinião são demasiados, comparativamente a outros países. Deixa de haver mercado justo para tanto veterinário.

Qual o seu sonho?

De imediato é passar o exame do European College of Veterinary Neurology (ECVN). A longo prazo tenho esta ideia, possivelmente utópica, que gostaria de fazer parte de um hospital veterinário de referência em Portugal, em que os portugueses que já se encontram diplomados pelo colégio europeu ou americano trabalhariam, possivelmente em part time, a treinar residentes (em residências aprovadas pelo European Board of Veterinary Specialists).

Já começamos a ter muitos portugueses que alcançaram esse título, em diferentes áreas. Tenho o privilégio de conhecer alguns deles. Seria extremamente gratificante poder proporcionar essa oportunidade no meu país, para que outros não tenham de fazer os mesmos sacrifícios que eu e outros fizeram, para concretizar um sonho.

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