Gonçalo da Graça Pereira falou em exclusivo com a VETERINÁRIA ATUAL no rescaldo da formaçãoQualitative Behaviour Assessment – Conseguiremos avaliar o estado de espírito dos nossos animais? realizada a 18 de junho na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa pela PsiAnimal, em conjunto com o AWIN (Animal Welfare Indicators).
“Precisamos de analisar a expressão de emoções positivas. Bem-estar não é simplesmente a ausência de emoções negativas, mas também (e mesmo principalmente) a presença de emoções positivas. Mais do que evitar o negativo, precisamos de investir em experiências positivas que os animais, que estão sob a responsabilidade dos humanos, possam desenvolver”.
Segundo o presidente da PsiAnimal, estiveram presentes cerca de 70 profissionais da área, o que foi “um verdadeiro sucesso para a organização. Superámos as nossas expectativas, uma vez que no passado esta temática não juntava tantos profissionais da mesma sala. Tivemos vários estudantes de veterinária e de outros cursos de ciências da vida (principalmente de Biologia), o que nos leva a pensar que há mudanças importantes na formação dos nossos alunos”.
O objetivo passou por criar um fórum de discussão para “todos os que trabalham em bem-estar (não só de animais de produção, como animais de companhia) para verem a importância do comportamento na avaliação do mesmo. A observação do comportamento num contexto e uma análise de várias ‘ferramentas’ que nos permitem analisar um determinado comportamento são auxiliares fundamentais para todos os profissionais que trabalham com animais, independentemente da sua espécie”.
Quanto à questão se é possível ou não avaliar o estado de espírito dos animais, Gonçalo da Graça Pereira afirma que “é mais fácil e menos subjetivo do que há uns anos considerávamos. Apesar de se continuar a investigar e a investir nesta área, começamos a ter várias ferramentas que nos permitem analisar cada vez mais e melhor as emoções dos animais e ‘catalogá-las’ da mesma forma que fazemos connosco. A ciência evolui a passos largos por este caminho e a oradora principal, Françoise Wemelsfelder, tem sido uma das pioneiras nos estudos científicos mais recentes”.
E não são apenas os veterinários que devem estar atentos aos sinais para conseguirem reconhecer melhor os sintomas de possíveis doenças nos animais. “O produtor, o proprietário, o criador, o enfermeiro, o biólogo, todos os profissionais que trabalham com animais precisam estar atentos. Em oncologia e em situações de dor crónica recorre-se a scores de avaliação em que o dono é que auxilia e responde baseado no que vê e nas evidências. O caminho é mesmo este. Reconhecer as emoções e saber interpretá-las em cada contexto. Por exemplo, um gato que se lambe é sinal de conforto e bem-estar, mas em situações de stresse poder-se-á lamber mais que o normal. O que poderá ser difícil é encontrar a fronteira entre o que é normal e o que passa a não o ser. Mas tudo isto encontra resposta numa correta análise das emoções do animal e de uma análise apurada do seu comportamento num contexto”.

