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Daniel Chan: «Aumentar a hipótese de sobrevivência do animal»

Daniel Chan: «Aumentar a hipótese de sobrevivência do animal»

Responsável pelo único centro mundial de cuidados intensivos respiratórios, no Royal Veterinary College, em Londres, Daniel Chan veio a Portugal partilhar a sua experiência durante o 18.º Congresso da APMVEAC. Explicou o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido naquele centro e as vantagens da utilização do ventilador mecânico. Ao mesmo tempo que elogia o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido na medicina veterinária em Portugal, o clínico espera que estas tecnologias venham a ser utilizadas brevemente nas universidades portuguesas.

Veterinária Actual – Quais são as valências do Nestlé Purina RVC Intensive Respiratory Centre, do The Royal Veterinary College?
Daniel Chan –
No instituto fazemos várias coisas, incluindo trabalho clínico para trazer o desenvolvimento e avanços terapêuticos para os animais de companhia. Mas o instituto tem também uma missão de educar, porque o que queremos fazer não passa apenas por proporcionar este tipo de cuidados, mas também formar os profissionais da área da medicina veterinária para que sejam capazes de trabalhar com estas técnicas terapêuticas, não apenas nos cuidados respiratórios, mas também nos cuidados intensivos.
A formação é mesmo uma das áreas mais importantes do instituto, pelo que estamos presentes em seminários com oradores internacionais, porque acreditamos que para progredirmos nesta área é fulcral a colaboração e troca de conhecimentos.

– Essa troca de conhecimentos passa também pela interdisciplinaridade?
– Sim, é importante haver esse trabalho de grupo que envolva diferentes especialidades e conhecimentos provenientes de vários locais, para que surjam novas ideias que fomentem o debate.
Para que tudo isto seja possível, estamos a fomentar parcerias com outras universidades – este centro fomenta mesmo esse espírito académico de troca constante de ideias e diálogo.

 

«Fizemos a diferença em muitos casos»

– Têm dados sobre o resultado desse trabalho em parceria?
– Decididamente tem havido progresso, mas não temos dados que comprovem essa evolução, porque não estamos apenas a desenvolver um estudo. Estamos a tentar construir uma relação sólida para o futuro.

 

– Mas certamente tem uma percepção, fruto da sua experiência…
– Aquilo em que acreditamos é que fizemos a diferença em muitos casos, que teriam resultado na morte do animal sem a nossa intervenção. Ao usarmos aparelhos como o ventilador mecânico não estamos a curar todos os animais, porque muitos deles já estão muito doentes, mas damos-lhe uma hipótese que não tinham anteriormente.
Antes, não havia nada que pudesse ser feito e esta tecnologia, só por si, permitiu a muitos animais terem uma hipótese de sobreviver e a outros a recuperação total, o que é deveras entusiasmante. Em muitos casos, se a situação clínica acontecesse há três anos, esses animais não teriam qualquer esperança de sobreviver e agora, não só podemos dar-lhe essa expectativa, como em muitos casos eles voltam a ser o mesmo animal de antes. Contudo, ainda temos muito para aprender, porque ainda não sabemos qual é a melhor forma de tratar todos os animais e estamos a fazer uma aprendizagem caso a caso.

– Quantos animais costumam receber para este tipo de tratamento?
– Actualmente, estamos a receber cerca de um caso por mês, ao passo que antes recebíamos dois ou três por ano, o que representa um grande progresso. No entanto, ainda estamos muito longe do objectivo de termos sempre um animal no ventilador mecânico.
Além disso, nem todas as famílias estão dispostas a submeter os seus animais de estimação a tanta intervenção. Porém, no caso daqueles que querem proporcionar aos seus animais o melhor tratamento possível que lhes permita ter esperança em relação ao mesmo, nós podemos fornecer esse tipo de cuidados.

 

– Em que casos pode ser usado este equipamento?
– Em doenças pulmonares, mas também em casos de falha cardíaca. Temos também obtido bons resultados em casos de intoxicações. Recordo-me de um animal que tratámos que havia ingerido uma embalagem de um relaxante muscular, que o paralisara. Sem o recurso a este ventilador, o cão teria morrido.

– Mas para tratar esse cão a actuação teve de ser muito rápida…
– De facto, o médico veterinário que o atendeu era muito bom e colocou-o logo com um ventilador manual e acompanhou-o em toda a viagem de carro até ao centro. Mal o animal chegou, colocámo-lo no ventilador mecânico que permitiu a sua recuperação total. O cão é, actualmente, um animal perfeitamente normal.
Também já tratámos casos em que o animal estava com hemorragia severa, que afecta os pulmões. Ligando o animal ao ventilador, é possível tratar o que provoca a hemorragia, mas ao mesmo tempo permite que o animal ultrapasse a crise respiratória que, de outra forma, provocaria a sua morte.

 

Utilização em universidades

– Estão a estudar a aplicação do ventilador mecânico em outras patologias?
– Temos de começar por algum lado e o centro optou por estudar as aplicações nos casos que já referi. Contudo, temos de ter em atenção que este é apenas o segundo ano do programa, pelo que o seu potencial é enorme. Estamos sempre a tentar investigar novas utilizações, mas os patrocínios que temos são limitados, pelo que temos de pensar em formas de progredir.

– O equipamento pode ser utilizado em todos os animais ou apenas nos de companhia?
– Este tipo de cuidados pode ser aplicado em várias espécies animais, mas nós recebemos sobretudo cães e gatos, dado que somos uma clínica de pequenos animais.

– Tem conhecimento de interesse de algum hospital português que esteja interessado em trazer este equipamento para Portugal?
– Creio que é possível que haja. Tem de se começar por implementar onde o especialista se encontre, pelo que imagino que universidades ou grandes hospitais veterinários possam ter a ambição de utilizar este equipamento.
Normalmente, este é um processo que leva algum tempo até à implementação em clínicas veterinárias. Muitos países que já utilizam o ventilador mecânico começaram por usá-lo em universidades e centros de investigação e só mais tarde começou a ser difundido pelas clínicas privadas. Por exemplo, na Austrália, como têm uma prevalência de doenças que afectam os cães e provocam a paralisação do animal, a utilização está generalizada.

Assegurar o melhor tratamento

– Dado que este tipo de tratamento é dispendioso, como se “convence” os proprietários do animal a adoptá-lo?
– Este é um tratamento muito dispendioso, pelo que temos de ter em atenção a capacidade económica da família. Contudo, há casos em que o animal é considerado parte da família e os proprietários estão dispostos a gastar o que for necessário para salvar o seu animal. Preferem tratar o seu animal a ir de férias ou comprar algo novo.
No Reino Unido, os seguros para animais também vieram introduzir mudanças no cenário, havendo já cerca de 30% da população com este tipo de produto. É mais fácil prosseguir com o tratamento quando o cliente tem seguro para os animais.

– Em Portugal, este cenário está ainda longe da realidade. Pela sua experiência, acredita que os seguros podem ser uma boa solução para implementar melhores cuidados de saúde animal?
– Penso que proporcionam uma maior flexibilidade nos tratamentos a aplicar ao animal, pelo que é uma boa solução, dependendo das possibilidades económicas de cada cliente. No Reino Unido, há mesmo diferentes níveis de seguros de acordo com as necessidades dos clientes.

– Contudo, o médico veterinário tem diariamente de enfrentar este dilema: aplicar o tratamento que o cliente pode pagar, quando sabe que há outro mais eficaz. Como se lida com esta questão?
– É complicado e é um dilema diário, porque nem toda a gente tem seguros e possibilidades económicas para suportar determinados tratamentos. Temos de adaptar o tratamento, de forma a proporcionar o melhor tendo em conta as necessidades do animal, mas também o orçamento do cliente. Temos de ter uma visão muito prática da questão e aprender a lidar com este tipo de situações.

Evolução da medicina veterinária portuguesa

– Como reagiu a audiência às suas palestras?
– Pareceram-me bastante interessados nesta temática e colocaram muitas questões. Creio que o tempo para perguntas teve uma duração de 20 minutos, o que demonstra que os congressistas estavam interessados em desenvolver e aprofundar os seus conhecimentos sobre esta temática.

– Teve a possibilidade de estabelecer contactos para o desenvolvimento de parcerias com profissionais portugueses?
– Já conhecia bem o Dr. Nuno Felix e o seu interesse nesta área, dado que é membro da European Veterenary Emergency and Critical Care Society (EVECCS) e já tivemos oportunidade de trocar informação. Contudo, não temos nenhuma parceria estabelecida com entidades oficiais portuguesas.

– E no Nestlé Purina RVC Intensive Respiratory Therapy Centre, tem profissionais portugueses a trabalhar consigo?
– Estão actualmente a estagiar dois médicos veterinários portugueses integrados no “Senior Clinical Training Scholarships” – um em radiologia e um em anestesia.

– O Royal Veterinary College é um centro de referência em toda a Europa, com condições excepcionais. Pela sua experiência, em que patamar se encontra a medicina veterinária em Portugal?
– Penso que é um grupo muito entusiasta, com recursos limitados. Acredito que quando há uma joint-venture europeia, o entusiasmo aumenta e a participação dos colegas portugueses tem sido muito interessante. A EVECCS tem uma forte representação portuguesa e isso diz muito sobre o potencial de um pequeno país nesta organização.

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