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Médicos Veterinários

O erro na prática clínica é inevitável, mas podemos aprender e melhorar com ele

O erro faz parte da natureza humana e pode dizer-se que é inevitável em todas as atividades que tenham como principal componente a mão do Homem. Mas, em vez de o esconder ou ignorar, o erro em medicina veterinária pode ser uma oportunidade para melhorar o desempenho do profissional e da equipa, como concluíram as duas sessões dedicadas à temática da segurança do doente que decorreram no congresso WSAVA 2023.

Entre os temas abordados no programa do encontro esteve a segurança do doente e o erro na prática clínica, tópicos que ocuparam o espaço de duas conferências no segundo dia de trabalhos, demonstrando a preponderância que estes assuntos têm vindo a ganhar entre as preocupações dos profissionais de medicina veterinária.

 

Na medicina humana há décadas que esta questão vem sendo estudada no sentido de melhorar os resultados obtidos, sem perder de vista a segurança dos vários procedimentos que são exercidos sobre os doentes. Contudo, apesar do trabalho já realizado e dos avanços nesta matéria, a Organização Mundial da Saúde estima que, anualmente, quatro em cada 10 doentes sejam alvo de um erro médico, sendo que 80% deles são preveníeis, e mais de 2,6 milhões de doentes morram devido a erros na prática clínica.

“95% dos erros que acontecem são cometidos por boas pessoas, bem treinadas e bem intencionadas” – Melinda Larson, Blue Pearl Pet Hospital, EUA

 

A medicina veterinária começa a dar os primeiros passos na análise do impacto do erro na prática clínica em consultórios e hospitais veterinários e Melinda Larson, diretora de qualidade no Blue Pearl Pet Hospital, nos Estados Unidos da América, começou por lembrar na primeira sessão sobre o tema que “o erro humano é complexo e quase inevitável” e está presente em todas as atividades que envolvam fatores humanos, da medicina à aviação, da indústria automóvel à energia nuclear. Só que, como frisou, “95% dos erros que acontecem são cometidos por boas pessoas, bem treinadas e bem intencionadas” e, nesse sentido, é necessário perceber o sistema que rodeia o indivíduo para entender o que pode estar na origem do passo mal dado que trouxe consequências para o doente.

 

Em primeiro lugar, nesta matéria é necessário começar por perceber do que se fala quando o assunto é o erro na prática clínica, seja praticado por médicos ou por enfermeiros. “Há muitas definições, mas, basicamente, entende-se por erro o dano ocorrido, ou potencialmente ocorrido, provocado por ação médica ou o tratamento que piorou a situação de saúde do doente”, esclareceu a médica veterinária americana, reafirmando que o “erro médico é algo extremamente complexo”, inerente à condição humana, mas que não depende apenas do indivíduo, mas também do ambiente que o circunda.

Um ponto que a oradora fez questão de sublinhar é que – ao contrário do que já acontece noutras indústrias, nas quais se encoraja a partilha do erro para análise e eventual correção futura – na medicina os profissionais “não gostam de admitir o erro e acabam por colocarem-se numa posição de perfeição” que não é, de todo, possível de alcançar e se assim é na medicina humana, na medicina veterinária não é diferente, onde a ideia que prevalece ainda é fazer tudo bem e à primeira, o que não é humanamente possível.

 

Num trabalho publicado em 2019, 74% dos médicos veterinários inquiridos admitiu ter registado eventos adversos nos 12 meses anteriores e com esses dados estimou-se que aconteçam cinco erros por cada mil doentes atendidos.

Outro caminho que ainda há para trilhar na medicina veterinária é conhecer a realidade da segurança do doente no terreno. Melinda Larson admitiu que não existem muitos dados sobre esta matéria na medicina veterinária, mas num trabalho publicado em 2019, 74% dos médicos veterinários inquiridos admitiu ter registado eventos adversos nos 12 meses anteriores e com esses dados estimou-se que aconteçam cinco erros por cada mil doentes atendidos. “As conversas estão a começar a acontecer, o conhecimento está a aumentar e, finalmente, estamos a tomar consciência de que se esta temática é um problema importante na medicina humana é provável que também o seja na medicina veterinária”, admitiu a oradora.

Em matéria de erro na prática clínica, há também que distinguir o que é um erro ativo e o que é um erro latente, sendo que o primeiro é o que ocorre de forma óbvia, como por exemplo dar a dose errada de um determinado fármaco, e os latentes caracterizam-se pela cadeia de acontecimentos que tem de ocorrer para que esse erro aconteça, nomeadamente, mau design de um equipamento, uma embalagem deficiente ou a falta de recursos humanos.

O que Melinda Larson considera importante ter em mente é que os benefícios de apostar na segurança dos doentes não só melhora os outcomes terapêuticos na prática clínica, como “também tem um impacto numa escala maior, não só nos indivíduos, como nas equipas que aprendem a debater o erro para encontrar soluções e, em última análise, o nosso objetivo é fazer alterações no sistema que melhorem a prestação de cuidados”.

Esta questão das repercussões da aposta na segurança do doente foi o ponto de partida da intervenção de Lisen Schortz, responsável pelo departamento de segurança do doente do grupo AniCura, ao sublinhar também que essas consequências não se verificam só na saúde dos animais, mas também nos tutores e nas equipas, que ainda continuam a não saber como lidar com o erro clínico.

No grupo AniCura a política de monitorização de incidentes começou já há uns anos e em 2022 foi possível publicar um trabalho com os dados obtidos do sistema de monitorização do grupo, nos quais se concluiu que os incidentes resultam em dano para os doentes em 40% dos casos e no topo das causas desses episódios estão os incidentes com medicação, enquanto os incidentes com a anestesia são considerados os mais graves, pois resultam na morte do doente em 19% dos casos. Foi ainda observado que os gatos são mais frequentemente vítimas de eventos do que os cães.

Esta especialista considera que o passo mais importante para as equipas começarem a lidar com o erro é reportar quando estes acontecem. Só quando estes incidentes são reportados e discutidos é possível evoluir, evitar que novas situações aconteçam, melhorar a segurança dos doentes e, no limite, “construir equipas mais fortes”.

Existem vários modelos que podem ser adaptados à prática clínica, a oradora deu o exemplo de um modelo que se pode dividir em três fases. Na primeira, o incidente ocorre e recolhe-se os dados do que aconteceu, quando aconteceu e qual a severidade associada, na segunda fase faz-se uma revisão do evento, tentando identificar os passos que contribuíram para este evento e que aprendizagens se podem tirar de forma a prevenir futuros acontecimentos semelhantes. Por fim, na terceira fase é quando se analisa o que de facto foi alterado depois do acontecimento e se partilha essas conclusões com a equipa.

Melinda Larson não tem dúvidas que apostar na segurança do doente, estabelecer circuitos de reporte user friendly para a equipa tem um lado positivo não só por aumentar a segurança dos atos praticados no doente, mas também porque “reduz o burnout” e aumenta o bem-estar físico e psicológico de todos os profissionais.

Independentemente do tipo de sistemas de reporte de erros clínicos, que podem ser em papel ou digitais, Lisen Schortz defendeu que estes devem ser acessíveis a todos os elementos da equipa, devem ser simples e rápidos de preencher e têm de ser voluntários e confidenciais. Com estas características, e sabendo que não estará em causa uma sanção, as pessoas vão sentir-se confiantes para reportar quando algo correu mal no acompanhamento de um doente.

Entre os benefícios de estabelecer um sistema de recolha de incidentes, a oradora apontou a sistematização da informação, dá dados que podem ser partilhados no sentido de identificar riscos, podem ser analisadas as tendências ao longo do tempo e também se pode identificar alguns perigos que podem resultar em incidentes. Mas, voltou a sublinhar, que “o melhor efeito secundário do sistema de reporte de incidentes é mesmo criar equipas mais fortes, pois, ao fomentar essa atmosfera em que se pode participar o incidente as pessoas participam também para ajudar a melhorar [a prática clínica] no futuro, o que ajuda a fomentar o espírito de equipa”.

Na segunda conferência, Melinda Larson voltou a intervir para abordar as consequências do erro. Para além do impacto para o doente, para o cliente e família, os efeitos das “ondas de choque” na clínica – desde o profissional que cometeu o erro, à equipa, ao possível impacto financeiro para a empresa – são muito extensos e variados. Em causa pode estar o óbvio receio de que o animal não sobreviva e a ansiedade que essa incerteza gera nos profissionais, o medo de possíveis sanções disciplinares, até o medo das consequências para o prestígio profissional que podem levar ao desenvolvimento de um quadro que ainda é muito controverso, o “second victim syndrome”. Esta condição afeta a pessoa que cometeu o erro, levando-a a desenvolver sintomas físicos e psicológicos “que nem sempre são temporários e por vezes estendem-se por algum tempo”, explica a oradora, culminando, em algumas situações, em quadros clínicos de burnout que levam o profissional a duvidar das suas capacidades individuais e até a ponderar a desistir da profissão.

“O melhor efeito secundário do sistema de reporte de incidentes é mesmo criar equipas mais fortes, pois, ao fomentar essa atmosfera em que se pode participar o incidente, as pessoas participam também para ajudar a melhorar [a prática clínica] no futuro, o que ajuda a fomentar o espírito de equipa” – Lisen Schortz, AniCura.

Pelas implicações que o erro médico tem na equipa, no profissional, no cliente e no animal, Melinda Larson não tem dúvidas que apostar na segurança do doente, estabelecer circuitos de reporte user friendly para a equipa tem um lado positivo não só por aumentar a segurança dos atos praticados no doente, mas também porque “reduz o burnout da equipa” e aumenta o bem-estar físico e psicológico de todos os profissionais.

Kathrine Blackie foi a outra oradora da segunda conferência sobre segurança do doente. A especialista, que faz parte do Quality Improvement Advisory Board do RCVS Knowledge, fundamentou que, entre os fatores que influenciam a prática clínica, não está apenas o indivíduo, mas também os fatores organizacionais da estrutura e os fatores ambientais do consultório ou hospital que condicionam os vários atos clínicos.

A especialista também fez questão de frisar que “as pessoas vão para o trabalho para fazer o seu melhor” e não com o intento de causar dano ao animal de que vão cuidar e, nesse sentido, é necessário normalizar que os erros são comuns e que não há ninguém que faça sempre tudo bem.

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