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Le Clep’s: para cães saudáveis e sustentáveis

A marca vende os seus produtos naturais e sustentáveis tanto ao consumidor final como a médicos veterinários e outras lojas.

Quando Elodie Génard era criança, o seu gosto por animais era tão evidente que a família lhe chamava “a pequena Bardot”, numa referência à reconhecida atriz francesa e ativista dos direitos animais. “Andava sempre atrás dos animais e com eles ao colo, desde os mais comuns animais domésticos até animais de quinta”, conta Elodie por escrito via e-mail à VETERINÁRIA ATUAL.

Apesar de não ter seguido o curso de medicina veterinária, a apetência pelos companheiros de quatro patas nunca esmoreceu. Elodie completou formações como assistente de cuidados veterinários e em comportamento animal, mas foi em meados do ano passado que a sua paixão realmente ganhou forma, ou melhor, ganhou nome de cão ‘rafeiro’ – Le Clep’s – termo francófono que designa genericamente um cão. Foi este o nome escolhido para a marca que criou com Jorge Cristinita, engenheiro mecânico de profissão e também apaixonado por animais.

“A ideia de fundar a Le Clep’s não é propriamente recente. Foi um projeto que levou alguns anos, algumas análises, a nossa própria experiência com os nossos cães, cães de amigos e familiares e sobretudo a nossa Shiva, a nossa ‘test drive’ e ‘barómetro’”, explica Elodie Génard.

Elodie Génard, Gibson, Physalis e Jorge Cristinita

A loja de animais online tem um conceito bem definido: oferecer aos detentores a possibilidade de adquirir produtos “realmente naturais”, garante Elodie, “sem nada a esconder e evitando o desperdício”.

Como pilares do seu conceito, a cofundadora da Le Clep’s elege o bem-estar do animal e seus detentores e também a sustentabilidade, além dos produtos naturais disponibilizados. “Conseguimos garantir essas três vertentes, pois selecionamos parceiros que partilham as mesmas visões e que conseguem certificar os seus produtos e assim validar a pegada ecológica. Não somos uma loja convencional e não serão encontrados produtos usuais do mercado,” afirma.

Ração com insetos

A marca de alimentação animal comercializada pela Le Clep’s é a Bugs for Pets Portugal, filial da holandesa Bugs for Pets, que produz ração à base de insetos, nomeadamente larvas da mosca-soldado-negra, já utilizada também em projetos nacionais.

As larvas são criadas por um produtor certificado, perto do local de produção da sede holandesa.

“O uso de insetos como fonte proteica para animais domésticos é um tema ainda bastante recente (e controverso) em Portugal, mas já começa a ser comum em muitos países e é utilizado largamente para alimentação de gado e peixes de aquicultura”, admite Elodie Génard. “Trata-se de uma nova geração de alimentação, mas que leva já com vários anos de estudos por várias entidades e comunidade científica (incluindo universitária em Portugal).”

Com mais proteína do que qualquer outra carne – segundo alguns estudos – e ricas em minerais, micronutrientes e vitaminas, as larvas desta mosca ajudam a criar um alimento completo e “ideal para cães com tendências alérgicas ou hipersensibilidades alimentares”, diz a cofundadora da Le Clep’s.

Depois, há também vantagens para o ambiente: a criação destas larvas requer menos espaço e menos água (5 400 litros de água para criar 1 kg destes insetos, por comparação a 34 mil litros para aves ou 115 mil litros para bovinos), sendo que estas ainda contribuem para a biodegradação do desperdício vegetal, estimado mundialmente em cerca de 30%.

“As próprias embalagens são biodegradáveis. Temos agora embalagens de 10 kg em sacos piloto que brevemente estarão disponíveis em sacos também biodegradáveis”, acrescenta ainda Elodie.

Mas a ração não é o único produto sustentável da Le Clep’s. A luta contra o desperdício da marca estende-se ainda à aquisição de partes de animais que os seres humanos normalmente não consomem, mas os animais, sim, como orelhas de coelho e cabra e pernas de veado.

A loja disponibiliza também, tanto para clientes finais como corporativos, treats para treinos produzidos a partir da larva-da-farinha (Tenebrio molitor). Na calha estão ainda novos produtos que serão lançados em breve no mercado.

“No que toca à globalidade dos produtos que temos e representamos em Portugal, focamo-nos sempre na qualidade, proveniência e impacto dos mesmos, não só a nível ambiental, mas sobretudo no próprio animal.”
Nesta avaliação feita pela Le Clep’s, acrescenta a cofundadora, entra também a eficácia, durabilidade e o impacto que o produto causa no animal e, consequentemente, nos seus detentores, sempre que se trata de itens de estimulação mental.

“Usamos produtos 100% naturais para que os cães possam realizar uma atividade inerente à sua espécie: roer”, sublinha. “Por exemplo, os nossos coffeewoods, tal como o nome indica, são paus de madeira da árvore do café. Surgem ao reaproveitarmos o desperdício de madeira oriundo das podas e tratamentos da árvore, sem colocar em causa a árvore em si. Este pau não tem tratamento químico e é seguro para os cães. Outro exemplo são as hastes de veado, que caem naturalmente dos veados. Portanto, a nossa seleção de produtos tem de ter uma funcionalidade própria e ser efetivamente natural.”

Consciência ambiental

Mas, a consciência ambiental da marca estende-se à sua própria atuação e não só aos produtos que comercializa: “Os nossos produtos são todos adquiridos em países próximos de Portugal, e todos na União Europeia para assim limitar, tanto quanto nos é possível, a nossa pegada carbónica para fornecer os nossos produtos e garantir a qualidade dos mesmos. Tentamos aumentar a quantidade de produtos adquiridos para limitar a quantidade de vezes que pedimos artigos.”

A Le Clep’s utiliza ainda sacos de e-commerce produzidos com partes vegetais compostáveis para o envio de pequenos artigos, bem como caixas certificadas FSC (Forest Stewardship Council). “Conjuntamente, reaproveitamos ao máximo embalagens dos materiais que recebemos!”, salienta Elodie Génard.

A loja, que se concentra mais nos cães devido à maior experiência dos fundadores neste segmento, pretende ainda expandir-se brevemente aos clientes felinos. “Os gatos são ainda mais peculiares do que os cães e, por isso, queremos também incluir produtos criteriosamente selecionados e aptos a carnívoros estritos.”

Aos médicos veterinários, os produtos são normalmente apresentados primeiro por e-mail, seguindo-se um contacto telefónico e, finalmente, presencial. “Também damos suporte para qualquer questão ou dúvida que possam surgir com os produtos”, garante Elodie Génard.

Duas receitas disponíveis

Elodie Génard explica as receitas da marca Bugs for Pets comercializadas pela Le Clep’s:

Na Bugs for Pets, temos duas receitas. A primeira, prensada, especialmente desenvolvida para cães com sensibilidade alimentar. A receita é simples para evitar reações alérgicas. Usamos uma única fonte de proteína, hidrato e gordura do próprio inseto nesta ração. Ela torna-se ideal, por exemplo, numa dieta de eliminação.

A segunda, extrusada, além do inseto e do mesmo hidrato, possui maior variedade de ingredientes interessantes. Portanto, para um cão que não faça alimentação mista (com outras opções além de ração seca) acaba por ser mais vantajosa pela variedade de ingredientes que contem, o que a torna mais completa e interessante do ponto de vista nutricional.

A extrusada também pode ser perfeitamente usada num cão com alergias alimentares porque não tem nenhum alérgeno muito comum. No entanto, para casos extremos, podem começar na prensada e depois então passar para a extrusada sem qualquer tipo de problema.

Ressalva-se igualmente a utilidade em cães que, além de alérgicos alimentares, são também doentes cardíacos. Isto porque os insetos são ricos em taurina, mas muito pobres em sódio. Para cães com excesso de peso também se torna interessante, pois é uma ração muito baixa em kcal. Existem inúmeros casos de cães com excesso de peso e ainda com alergias alimentares que não têm grandes opções no mercado e com a Bugs for Pets conseguem conciliar ambos os pontos.

Por ser baixa em gordura, é interessante também para cães com problemas gastrointestinais ou mesmo pancreatite.