Investigação

Estudo nega relação entre cardiomiopatia dilatada canina e dietas sem cereais

Comida crua para animais pode representar risco para os humanos

Não é a alimentação natural, orgânica e sem cereais que influencia o desenvolvimento de cardiomiopatia dilatada canina (CDC), mas, em grande parte, a hereditariedade. A afirmação vem contradizer os alertas dos últimos anos da reguladora estado-unidense Food and Drugs Administration (FDA), que, no ano passado, revelou inclusive num relatório 16 marcas de nutrição animal mais frequentemente associadas aos casos da doença reportados por clínicas veterinárias nos EUA.

De acordo com uma revisão de 150 estudos, publicada há dias no Journal of Animal Science e realizada por médicos veterinários, incluindo especialistas em cardiologia, e nutricionistas animais da consultora BSM Partners, “é impossível retirar quaisquer conclusões definitivas, nestes casos, relacionando dietas específicas ou ingredientes específicos à CDC”.

Isto porque, explicam os investigadores, a incidência da doença na população canina dos EUA situa-se entre 0,5% e 1,3%, segundo a literatura científica atual. “Contudo, o número de casos da FDA (560 cães) está muito abaixo da prevalência estimada”, concluem.

Além disso, os investigadores salientam que o historial clínico dos animais diagnosticados com CDC que foi fornecido pela FDA se encontrava incompleto, com lacunas sérias, como a idade do cão ou que tipo de alimentação o animal tinha antes de passar para a dieta sem cereais ou rica em legumes.

Os cientistas analisaram ainda outros fatores, incluindo deficiências nutricionais e outras patologias pré-existentes, como hipotiroidismo ou taquicardia crónica.

“A CDC é uma patologia médica multifatorial, com muitas etiologias comprovadas e causas potenciais que contribuem para o desenvolvimento da doença. Assim, estudos prospetivos que investiguem não só a dieta, mas também a infeção, metabolismo, e envolvimento genético, devem ser realizados. Na expetativa de melhor compreender uma potencial correlação entre as dietas e a CDC, é necessário recolher e analisar mais informação objetiva, sem viés de amostra e fatores de confusão”, notam os investigadores.

Em declarações à publicação espanhola Portal Veterinaria, a autora principal da revisão, a nutricionista animal Sydney McCauley, afirmou: “O que a ciência deixa claro é que a CDC é, em grande medida, uma doença hereditária.”