Animais de companhia

Centro de Recolha Oficial de Braga: um espaço de alma cheia

O Centro de Recolha Oficial (CRO) de Braga é um exemplo no âmbito nacional. Com instalações modernas, um sistema de gestão eficaz, parcerias sólidas com associações locais e uma equipa dedicada, este centro encabeça a luta contra o abandono no concelho bracarense, com uma taxa de adoções significativa e um apego feroz à manutenção do bem-estar dos seus animais.

“Saímos daqui com a alma cheia”, diz Alexandra, enquanto faz festas ao gato que se aninha no seu colo. A voluntária da Associação Bracarense Amigos dos Animais (ABRA), que já tem quatro gatos seus à espera em casa, passa as tardes (14 h às 17 h) no Centro de Recolha Oficial de Braga há mais de um ano, num trabalho que é tão de pormenor como necessário. “Nós damos-lhes festas, vemos como eles estão, alertamos caso não estejam bem e damos-lhe atenção”, descreve.
As 27 boxes deste gatil nortenho estão por vezes cheias, numa passagem que se pretende apenas temporária até à adoção, mas que se quer tão confortável quanto possível. Em formato de corredor amplo, com uma passagem para o exterior ao fundo da sala e até ar condicionado, o gatil em tons de cinza é limpo todos os dias em duas ocasiões, e todos os seus ocupantes – um animal adulto por box – saem individualmente para esticar as patas duas vezes por dia, uma de manhã e outra à tarde. Durante a visita da VETERINÁRIA ATUAL, no verão, estava a ser finalizada a ‘decoração’ de um parque exterior para os gatos, que conta agora com casinhas e outros elementos em altura, onde os felinos podem ainda colocar as suas capacidades acrobáticas à prova. A estrutura vai ser inaugurada assim que o bom tempo o permitir. Na mesma altura, vários voluntários passeavam os cães no exterior: os caninos são passeados diariamente e, embora contem com o conforto das boxes internas para as dormidas, são trazidos todos os dias para os espaços exteriores, mais espaçosos e com sombra e abrigo da chuva, onde podem socializar e farejar ar fresco. É esta salvaguarda do bem-estar animal e ainda as suas altas taxas de adoção – que rondam os 90% – que fazem deste CRO um exemplo em Portugal e o tornam alvo de visita da parte de médicos veterinários e outros responsáveis municipais, que aproveitam para questionar e partilhar experiências com Liliana Carvalho, médica veterinária da Câmara Municipal de Braga.

“Já não fazemos abates desde 2016 e o colega antes de mim também não o fazia. Desde que aqui estamos, nunca fizemos eutanásias para gestão da lotação”, garante Liliana Carvalho

“Nos últimos anos temos vindo a fazer constantes melhorias, desde o aumento do número de boxes para cães e gatos, a implementação de uma sala de esterilização, alterações na envolvente exterior do centro de recolha e estamos a trabalhar com associações de proteção animal, no sentido de podermos dar outros cuidados de carinho, atenção e passeio para conseguirmos ótimos resultados de bem-estar para os animais e reduzirmos o stresse”, enumera a médica veterinária, que trabalha no município minhoto desde 2016.
Para Liliana Carvalho, o sucesso deste CRO “prende-se com o trabalho em rede”. A instituição tem protocolos com duas associações de proteção animal do concelho de Braga (a ABRA e a Abandoned Pets), que não só prestam valioso trabalho de voluntariado, como ajudam a divulgar os animais abandonados e recolhidos pelo CRO nas redes sociais e noutras associações. “Temos reservas de outras associações e enviamos animais para Lisboa, para o Algarve…Muitas destas reservas são intermediadas pelas associações de proteção animal que nos apoiam”, explica a veterinária municipal. Para a gestão das colónias CED, há ainda um protocolo com a APPANIBRAG e, novamente, com a Abandoned Pets.

Um CRO à frente do seu tempo

Mas este é também um trabalho que já vem de trás: o canil de Braga já funcionava como CRO há cerca de 15 anos, enquanto muitos municípios só agora estão a realizar as reestruturações necessárias ou a construir instalações. Além disso, a lei que proíbe o abate de animais saudáveis como medida de controlo da população, e que entrou em vigor em 2018, já era ali aplicada. “Já não fazemos abates desde 2016 e o colega antes de mim também não o fazia. Desde que aqui estamos, nunca fizemos eutanásias para gestão da lotação”, garante Liliana Carvalho. “Temos a sorte de ter instalações muito boas. Nós já somos um CRO e a maioria dos outros não são e querem ser, e querem ver como estamos organizados. Já temos CRO há 15, 16 anos. Antes da imposição legal, já o fazíamos, aliás, até para testar o próprio funcionamento. É por isso que estávamos mais avançados”, admite. Para os 308 municípios portugueses, havia 167 centros de recolha até 15 de novembro de 2019, segundo dados da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária.
Em 2019, os números deste CRO são agridoces, mas reforçam o trabalho feito: se houve um aumento de 20% dos animais alojados em 2019 comparativamente a 2018, um aumento das capturas e o dobro da taxa de entrega voluntária de animais pelos detentores, houve também uma redução de 70% da taxa de eutanásia (por motivos de sofrimento animal, tendo sido eutanasiado apenas um canídeo em todo o ano) e mais 178 adoções, o que representa um crescimento de 60% em relação a 2018, com especial destaque para a maior adoção de felinos.
O método desenvolvido pelo CRO de Braga ao longo dos anos assenta em regras de recolha com prioridades bem definidas. Como explica Liliana Carvalho, a lotação de 30 boxes para cães e 27 para gatos é gerida em função da urgência dos casos. “Damos prioridade a animais doentes ou feridos e agressivos na via pública – é para atuarmos na hora, num trabalho em parceria com os bombeiros. Depois, são as outras recolhas, animais a deambular pela rua, que sinalizamos e vamos aos locais verificar; temos uma agenda de colaboradores que vão ao local verificar. Em último lugar, aqueles que são entregues voluntariamente pelos detentores, que não se enquadrem nas situações de urgência”, esclarece a médica veterinária. Para todas as outras situações de entrega voluntária, acrescenta, há uma lista de espera. “Há pessoas que nos dizem que vão abandonar o animal e até já tivemos de chamar a polícia, educamos os detentores e dizemos que é crime”, sublinha Liliana Carvalho.

“Ao início, quase tivemos de optar por uma estratégia de choque. Perguntávamos às pessoas o que é que fazíamos aos que estavam cá”, diz Daniela Vieira, responsável do CRO de Braga

O comportamento da própria população tem vindo a adaptar-se a estes procedimentos: “Quando dizíamos que não tínhamos espaço, era um bicho de sete cabeças, era muito mal interpretado. Agora, há já alguns anos aceitam melhor, sabem que há uma lista de espera e que têm de esperar”, conta Daniela Vieira, responsável pelo CRO de Braga. “Ao início, quase tivemos de optar por uma estratégia de choque. Perguntávamos às pessoas o que é que fazíamos aos que estavam cá”, diz. “Foi uma luta”, confirma Liliana Carvalho, abanando a cabeça.
O centro acolhe centenas de animais por ano, aos quais tem conseguido dar resposta, embora a veterinária saliente que o mérito é do sistema de gestão do CRO bracarense – “Só recolhemos um animal quando sai outro para adoção”, reitera – e não da queda do número de animais errantes. “Recolhemos em 2018 cerca de 500 animais. Em 2019, passaram pelo CRO de Braga mais de 700 animais.”

Os animais recolhidos podem ser submetidos a tratamentos ou cirurgias de assistência e são vacinados contra a raiva e doenças infetocontagiosas, desparasitados interna e externamente e esterilizados antes da sua adoção (caso sejam adultos), além de identificados eletronicamente com microchip. “Eu concordo a 200% [com a identificação eletrónica]. Nós temos uma taxa de devolução que ronda 11%, é um número muito baixo. Isto quer dizer que só conseguimos devolver ao dono 11% destes animais e, destes 11%, nem todos estão identificados, são os detentores que vêm verificar se o animal foi recolhido, e isto é dramático porque o nosso espaço é limitado”, afirma Liliana Carvalho. Para Daniela Vieira, há ainda outro problema: “Há muita gente que nem se lembra de procurar o seu animal aqui, quando deveria ser o primeiro sítio a verificar.”
Ainda assim, as limitações de espaço enfrentadas pelo CRO de Braga não implicam que as responsáveis queiram um espaço necessariamente maior. Liliana Carvalho diz ser “contra alojamentos de grandes dimensões porque em termos de bem-estar é terrível”. Aponta as maiores dificuldades no controlo de doenças, a necessidade de mais pessoal e a menor atenção prestada a cada animal como inconvenientes.
De momento, as instalações do CRO incluem consultório/enfermaria, sala de recobro, sala de esterilizações – equipamentos que estão ao nível dos de qualquer CAMV –, ala de cães e gatos, zona de quarentena, sala de conservação de cadáveres e um armazém. Num quadro perto do local onde os cães passam a noite, estão descritos todos os animais recolhidos nas diferentes alas, com a sua data de entrada, número de processo, descrição e estado (esterilizado ou em vias de). O município de Braga foi ainda o primeiro do País a ter uma viatura de emergência médico-veterinária com serviço de 24 horas, operada pelos bombeiros sapadores do concelho, para recolher animais doentes ou feridos na via pública. “Temos uma excelente relação com a Câmara e todos os pontos de melhoria têm sido aceites”, afirma a veterinária.

Projeto CED

Mas, como se este trabalho não fosse suficiente, Liliana Carvalho ainda supervisiona as várias colónias de felinos errantes existentes no concelho, de acordo com os programas CED (captura-esterilização-devolução) ao abrigo da lei nacional. As associações que colaboram com o CRO de Braga recebem verbas municipais para a obtenção das boxes de captura, recolhendo os gatos e levando-os às clínicas que aderiram ao programa cheque veterinário (cinco em todo o concelho, neste momento). Os animais são desparasitados externa e internamente, identificados eletronicamente, vacinados contra a raiva, esterilizados e, no caso de uma das duas associações, testados para a FIV e FeLV, antes de serem devolvidos à colónia. Se estiverem doentes, recebem ainda tratamento, já que são monitorizados pelas associações, que têm voluntários responsáveis pela alimentação dos animais. “As associações identificaram cerca de 50 colónias cada uma – cem, no total – em todo o concelho. Há algumas que se sobrepõem. Estas são intervencionadas segundo o plano CED, por etapas”, explica a veterinária municipal de Braga.
Segundo os resultados de uma destas associações de proteção animal, obtidos no curto espaço de dois meses e 12 dias, foi possível retirar das ruas através da adoção 15% dos felinos errantes.

* Texto publicado originalmente na VETERINÁRIA ATUAL de janeiro de 2020.