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Animais de Companhia

Leishmaniose canina: Projetos de investigação europeus com avanços no terreno em março

Leishmaniose canina: Projetos de investigação europeus com avanços no terreno em março Direitos Reservados

Neste mês de março, dois projetos de investigação europeus integrados no Programa I&D HORIZON EUROPE – o ISMED-Clim e o Planet4Health – dão mais um passo na agenda de trabalho. A VETERINÁRIA ATUAL falou com os representantes nacionais para ficar a conhecer os mais recentes desenvolvimentos, que em Portugal se centram no conhecimento e prevenção da leishmaniose.

Portugal é um dos países participantes em projetos de investigação da Comissão Europeia que estão a trabalhar cenários que façam face ao impacto das alterações climáticas na saúde animal, humana e ambiental, através de uma abordagem One Health. A vertente da medicina veterinária nacional está representada pela Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especializados em Animais de Companhia (APMVEAC), dando o contributo enquanto entidade especialista em animais de companhia, que convivem diretamente com os humanos, na avaliação do papel que estes têm na disseminação de doenças zoonóticas, nomeadamente a leishmaniose.

 

Lisa Mestrinho, presidente da Comissão Científica da APMVEAC, é parte integrante dos projetos e em declarações à VETERINÁRIA ATUAL explica a pertinência de olhar para “o risco de ocorrência de uma doença zoonótica, neste caso a leishmaniose”, para a saúde das populações humanas e animais. “Será que este risco se modifica ou se tem vindo a modificar com as alterações climáticas? Será que vai continuar a se modificar nos próximos anos?”, são perguntas que a também professora na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa e diplomada pelo European Veterinary Dental College espera virem a ser respondidas com estas investigações.

Lisa Mestrinho

Lisa Mestrinho, presidente da Comissão Científica da APMVEAC

Um desses trabalhos é o ISMED-Clim – que tem por objetivo abordar os riscos para a saúde relacionados às mudanças climáticas com ferramentas baseadas em evidências e ações colaborativas para proteger comunidades e ecossistemas – e terá nas próximas semanas avanços no terreno, pois os investigadores nacionais pretendem chegar até aos tutores de cães com o inquérito já validado para recolher as impressões destes sobre a leishmaniose, tenham ou não cães infetados com o protozoário. Será a partir desta recolha de dados que os investigadores vão “ter conhecimento sobre a perceção e as práticas que os tutores realizam, para ter uma ideia do que significa a leishmaniose para estes tutores. A partir deste questionário, vamos fazer uma seleção mais específica dos participantes, tendo em conta a representatividade geográfica de norte a sul de Portugal, de zonas rurais e de zonas não rurais, para posteriormente implementar os nossos training materials”, avança Filipe Gonçalves, o representante da APMVEAC no projeto, em declarações à VETERINÁRIA ATUAL.

Filipe Gonçalves, enfermeiro veterinário e investigador

 

O objetivo, explica ainda o enfermeiro veterinário, é recolher as respostas de um grupo que chegue aos 400/500 tutores, sendo para isso imperativa a colaboração dos médicos veterinários a trabalharem nos centros de atendimento médico-veterinário (CAMV) nas próximas semanas de forma a recolher os dados antes da época ativa do flebótomo transmissor da Leishmania.

A sensibilização dos tutores para a participação é, igualmente, determinante. Muito embora os detentores de cães já tenham algum conhecimento sobre a leishmaniose, a importância da vacinação e estão alerta relativamente aos sinais clínicos, Filipe Gonçalves lembra que grande parte “não tem bem a ideia de que se trata de uma zoonose. Por incrível que pareça, as pessoas já estão sensibilizadas para a toxoplasmose ou para a leptospirose, mas não associam a leishmaniose a uma zoonose. A grande maioria associa apenas a uma doença de animais”.

 

Depois de recolhidos os inquéritos aos tutores, será entregue ao grupo selecionado os materiais de apoio educativo entretanto desenvolvidos por outro país parceiro e que podem incluir flyers, animações ou vídeos pedagógicos que possam dar mais informação aos tutores sobre formas de prevenção da leishmaniose, as vias de transmissão, os sinais e sintomas, tratamentos disponíveis e riscos para os humanos.

Essa ação decorrerá durante o que hoje se considera ser a época ativa do flebótomo e, posteriormente, o mesmo grupo de tutores selecionado será alvo de novo inquérito para avaliar se os materiais disponibilizados foram eficazes na formação e na melhoria de conhecimento dos detentores de cães. O propósito, frisou Filipe Gonçalves,  “é consciencializar as pessoas, a partir destes training materials, no sentido de mitigar os efeitos da leishmaniose do ponto de vista de um tutor”.

 

“Por incrível que pareça, as pessoas já estão sensibilizadas para a toxoplasmose ou para a leptospirose, mas não associam a leishmaniose a uma zoonose. A grande maioria associa apenas a uma doença de animais” – Filipe Gonçalves, enfermeiro veterinário e investigador

No fundo, reforça Lisa Mestrinho, os materiais educativos têm por objetivo “melhorar as práticas que são usadas pela população para que os seus animais de companhia não venham a ficar em risco” de serem picados pelo flebótomo, nem que este pique animais doentes, perpetuando assim, a cadeia de transmissão da Leishmania. Algumas dessas medidas preventivas são já consensuais, como colocar redes mosquiteiras específicas para flebotomíneos em casa, sobretudo em áreas particularmente endémicas, vacinar os cães contra o leishmaniose, aplicar pipetas e colocar coleiras repelentes nos cães durante o período de atividade do flebótomo. Todavia, como alerta especialista europeia, esse período tem vindo a ser expandido no tempo. “Em Portugal, já é um período bastante alargado. Falava-se numa altura que ia do final da primavera até ao verão, em meados de setembro, mas hoje já estamos a falar em estender até outubro e começamos a prevenção logo em abril. Portanto, este intervalo tem sido aumentado”, explica.

A especialista europeia enalteceu igualmente a importância da participação do maior número de CAMV na distribuição do questionário aos tutores, de forma a que este alcance as várias regiões do País. Para este desígnio, a equipa conta ainda com a participação de Carla Maia, investigadora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e especialista europeia diplomada pelo European Veterinary Parasitology College.

Uma ferramenta para médicos veterinários monitorizarem o flebótomo

Sobre o projeto Planet4Health – uma abordagem multissetorial para a adaptação e mitigação dos efeitos adversos de doenças transmitidas por vetores, poluição ambiental e mudanças climáticas na saúde do planeta – a equipa já está a recolher os dados de cães com diagnóstico de leishmaniose junto dos CAMV que queiram colaborar, sejam ou não sócios da APMVEAC. A ideia é reunir os dados de animais diagnosticados com leishmaniose nos últimos 10 anos, nomeadamente o género do cão, da raça, a data de diagnóstico de leishmaniose, a idade do paciente na altura do diagnóstico e os primeiros quatro dígitos do código postal da residência do tutor. Filipe Gonçalves admite que este é “um projeto que leva o seu tempo, pois a recolha de dados leva tempo, é voluntária por parte dos nossos associados e não associados, mas quantos mais dados tivermos, melhor”, apelando, novamente à participação doa CAMV nacionais.

A esta informação irá juntar-se a que os restantes parceiros europeus estão a recolher, por exemplo a velocidade do vento, a humidade dos solos e a deslocação do flebótomo, para construir a ferramenta digital que monitorize a atividade flebotomínica com regularidade e possa ser consultada pelos médicos veterinários. “Basicamente, terá informação que pode ser consultada ao longo de todo o ano”, adianta o enfermeiro veterinário, explicando que será particularmente útil aos médicos veterinários “para saberem onde é que o flebótomo esteve mais ativo nos últimos dias, onde é que houve mais avistamentos, o tipo de flebótomo presente, embora em Portugal existam principalmente dois”. Com esta informação os clínicos poderão aconselhar os tutores relativamente a medidas de prevenção do contágio tendo em conta o risco a que o cão estará exposto.

Segundo Filipe Gonçalves, os parceiros do consórcio já tiveram a oportunidade de olhar para “um pequeno primeiro esboço” dessa ferramenta digital, puderam avaliar o que estava bem desenhado e o que necessitava de ajustas, não havendo ainda data apontada para apresentar a versão final .

Na perspetiva de Lisa Mestrinho, este instrumento de monitorização ajudará os médicos veterinários no aconselhamento dos tutores sobre uma das medidas preventivas do contacto com o flebótomo: os passeios higiénicos do cão. Não levar o cão a passear ao final da tarde, ou mesmo de madrugada, é uma medida importante, especialmente em zonas particularmente endémicas. “Sabemos que a Península de Setúbal é uma área particularmente exposta, assim como áreas do Alto Alentejo e o Algarve, nós sabemos que estas áreas existem. Vamos tentar percebê-las com um mapa um pouco mais concreto”, frisa.

No fundo, reforça Lisa Mestrinho, os materiais educativos têm por objetivo “melhorar as práticas que são usadas pela população para que os seus animais de companhia não venham a ficar em risco” de serem picados pelo flebótomo.

Outro ponto que os especialistas têm destacado na leishmaniose é a maior mobilidade dos tutores. Hoje, não raras vezes, as famílias levam os animais de férias e alguns desses destinos ficam em zonas endémicas do flebótomo e se a zona de residência habitual não for endémica, o profissional de saúde animal pode não estar tão sensibilizado na educação para a prevenção da picada.

Os mapas de vigilância de atividade de flebótomo produzidos pelo Planet4Health serão também um suporte importante para o “policy making, isto é, serão importantes para os nossos decisores políticos poderem tomar decisões de mitigação com base nesses dados. No caso da leishmaniose, é um universo um bocadinho mais reduzido, mas estamos a falar de um projeto que avalia múltiplos componentes do ambiente, nomeadamente o aquecimento global, o acesso à água, etc.”, acrescenta a especialista europeia.

 

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