Quantcast
Investigação

“Abordo a dimensão ética da investigação com animais como algo inseparável da boa prática científica”

“Abordo a dimensão ética da investigação com animais como algo inseparável da boa prática científica” Direitos Reservados

O investigador principal do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento da Universidade de Coimbra (MIA-Portugal) e do King’s College London, Alessio Vagnoni, conquistou recentemente o Prémio Internacional Global 3Rs 2025. Este galardão, atribuído pela Association for Assessment and Accreditation of Laboratory Animal Care International distingue anualmente contribuições inovadoras para a substituição, a redução e o refinamento – os chamados 3Rs – do uso de animais na ciência, tanto na academia como na indústria, apoiando o avanço ético da investigação.

A VETERINÁRIA ATUAL conversou com Alessio Vagnoni acerca do seu trabalho, sobre como o tráfego intracelular influencia a função neuronal e contribui para o envelhecimento saudável e a neurodegeneração.

 

Antes de mais, parabéns pela atribuição do Global 3Rs International Award 2025. O que significa este reconhecimento para si, a nível pessoal e profissional?
Muito obrigado! Do ponto de vista profissional, vejo este prémio como um reconhecimento da qualidade da ciência desenvolvida pela minha equipa e do compromisso de longa data com a investigação orientada pelos princípios dos 3Rs, que temos consistentemente defendido. Estou profundamente grato a todos os membros da minha equipa, anteriores e atuais, bem como aos nossos colaboradores. Este prémio traz também consigo um sentido de responsabilidade, incentivando-nos a continuar a manter os mais elevados padrões, tanto em termos de qualidade científica como de prática ética.

A nível pessoal, espero que não estejamos nesta profissão à procura de prémios ou distinções, mas é genuinamente significativo receber um reconhecimento público por uma investigação considerada valiosa e responsável. É uma experiência muito positiva e que representa um verdadeiro estímulo para a motivação de toda a equipa.

 

Na sua opinião, que aspetos da sua investigação foram mais decisivos para a atribuição deste prémio?
Muito provavelmente, os fatores decisivos foram a utilização da mosca-da-fruta como um verdadeiro modelo de substituição e o forte esforço de colaboração internacional subjacente ao nosso trabalho para implementar investigação de elevada qualidade, orientada pelos princípios dos 3Rs. Foi também importante termos conseguido demonstrar que descobertas fundamentais feitas em moscas-da-fruta são relevantes para organismos mais complexos. Desta forma, desenvolvemos simultaneamente abordagens que reduzem a necessidade de utilizar espécies animais protegidas nesta área de investigação.

Como vê o impacto dos princípios dos 3Rs (Redução, Substituição e Refinamento) no futuro da investigação científica baseada em laboratório?
A adoção dos princípios dos 3Rs já conduziu a ciência de melhor qualidade em toda a comunidade científica e espero – e acredito – que isso continue no futuro. No entanto, esta abordagem precisa de ser devidamente apoiada para ser sustentável e deve ser ativamente promovida a todos os níveis: dentro da comunidade científica, pelas agências governamentais e pelas entidades financiadoras de investigação.

 

Um exemplo prático, retirado da minha própria experiência (embora saiba que não é um caso isolado), ilustra por que razão ainda é necessário mais progresso. Tenho uma experiência limitada com o panorama de financiamento em Portugal, mas fiquei genuinamente surpreendido – se não ligeiramente chocado – ao saber que a principal crítica à minha única candidatura à FCT, até à data, foi o facto de não pretendermos utilizar modelos com roedores. Não consigo perceber de que forma esta atitude beneficia a qualidade científica ou a formação das futuras gerações de investigadores. Avaliações que solicitam a utilização de modelos com roedores não especificados, sem fornecer uma justificação científica credível, são, na minha opinião, cientificamente infundadas e eticamente problemáticas, sobretudo quando dizem respeito a investigação financiada com dinheiro dos contribuintes. Estas expetativas contrariam seriamente o espírito dos 3Rs e as orientações ARRIVE. Solicitar a utilização de espécies protegidas em investigação experimental quando existem alternativas válidas continua a ser uma preocupação generalizada na área: ignora os princípios dos 3Rs consagrados tanto nos enquadramentos portugueses como europeus e está fundamentalmente em desacordo com a legislação portuguesa e europeia atualmente em vigor que regula a investigação com animais.

Um equívoco comum relativamente às abordagens dos 3Rs na ciência experimental é pensar que se trata apenas de querer usar menos animais na investigação. Embora isso seja uma consideração importante, implementar estratégias dos 3Rs implica um esforço consciente para refletir sobre a forma como fazemos ciência e se conseguimos desenvolver soluções eticamente sustentáveis para responder a novas questões.

 

 Poderia descrever brevemente o principal foco da sua investigação atual e os desafios científicos que aborda?
O foco da nossa investigação é compreender os mecanismos fundamentais que preservam a função neuronal durante o envelhecimento do organismo. Em particular, estudamos a dinâmica interna dos neurónios: a forma como os componentes celulares são ativamente transportados e organizados dentro destas células altamente especializadas. Células saudáveis são o equivalente biológico de uma cidade movimentada, onde os recursos e componentes têm de ser eficientemente distribuídos para sustentar a função. Quando estes mecanismos de tráfego intracelular ficam comprometidos, os neurónios tornam-se mais vulneráveis à disfunção, à doença e ao declínio associado ao envelhecimento.

De que forma o seu trabalho contribui para a substituição ou redução do uso de modelos animais na investigação experimental?
O trabalho do meu grupo de investigação baseia-se principalmente na mosca-da-fruta Drosophila melanogaster, que não é classificada como uma espécie animal protegida pela legislação atual, uma vez que não é considerada senciente. Ao utilizarmos a Drosophila como principal modelo experimental, conseguimos substituir, pelo menos em parte, o uso de modelos vertebrados sencientes, como roedores e peixes-zebra adultos. Para além desta substituição direta, o nosso trabalho contribui também para a redução a um nível mais abrangente: transferimos várias abordagens experimentais baseadas em Drosophila para outros laboratórios e colaboramos ativamente com grupos que trabalham com modelos de roedores e peixe-zebra. Estas trocas conduziram a desenhos experimentais mais eficientes e, em última análise, a uma redução líquida do número de animais protegidos utilizados.

Tive também a oportunidade e o desafio de estabelecer o único laboratório de Drosophila da Universidade de Coimbra, no âmbito do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento. Espero que isto tenha um impacto positivo e duradouro na comunidade científica local, promovendo abordagens experimentais alternativas e de elevada qualidade, alinhadas com os princípios dos 3Rs.

Quais são os maiores obstáculos que os investigadores enfrentam ao tentar implementar estratégias dos 3Rs em ciência de ponta?
Um equívoco comum relativamente às abordagens dos 3Rs na ciência experimental é pensar que se trata apenas de querer usar menos animais na investigação. Embora isso seja uma consideração importante, implementar estratégias dos 3Rs implica um esforço consciente para refletir sobre a forma como fazemos ciência e se conseguimos desenvolver soluções eticamente sustentáveis para responder a novas questões. Implica também pensar melhor sobre o desenho experimental e se estamos a utilizar as ferramentas ou modelos mais adequados para responder às nossas perguntas. Os 3Rs podem ser vistos como um enquadramento poderoso para elevar a qualidade e a reprodutibilidade da ciência de forma eticamente aceitável.

Do ponto de vista da utilização de organismos modelo invertebrados, o desafio reside na resistência que por vezes se encontra ao tentar entrar em ambientes científicos fortemente centrados em modelos de roedores. Em alguns casos, estes modelos são utilizados não por uma justificação científica convincente, mas simplesmente porque “sempre foi assim que se fez”. Esta mentalidade pode atrasar a adoção de abordagens alternativas e tem efeitos significativos na formação da próxima geração de cientistas orientados pelos 3Rs.

Os veterinários desempenham um papel central na melhoria simultânea da investigação e dos padrões éticos nos laboratórios de investigação animal, e a sua experiência pode ir muito além da monitorização da saúde animal. São parceiros essenciais no desenho experimental e na implementação prática dos 3Rs.

Como aborda pessoalmente a dimensão ética da utilização de animais na investigação?
Abordo a dimensão ética da investigação com animais como algo inseparável da boa prática científica. Não encaro a discussão sobre ética como um requisito adicional imposto à investigação, mas como um princípio orientador que molda a forma como as perguntas são colocadas e como as experiências são concebidas desde o início.

Considera que a regulamentação atual é suficiente para proteger o bem-estar animal em contextos de investigação, ou ainda há progressos a fazer?
Na minha área, a regulamentação atual fornece uma base sólida para a proteção do bem-estar animal em contextos de investigação, e muitos países, incluindo Portugal, deram passos significativos para assegurar padrões éticos elevados e o cumprimento dos princípios dos 3Rs. Estas regulamentações destinam-se a minimizar o sofrimento, garantir cuidados adequados e promover a transparência e a responsabilização na investigação científica. Ao mesmo tempo, mesmo com uma base regulamentar forte, o caminho para práticas de investigação cada vez mais humanas e éticas é contínuo, havendo sempre margem para progresso.

Na sua perspetiva, que papel desempenham os médicos veterinários na melhoria da qualidade da investigação e dos padrões éticos da mesma e quão importante é a colaboração entre investigadores e profissionais veterinários para a implementação bem-sucedida dos 3Rs?
Não trabalho diretamente com médicos veterinários. No entanto, ao aconselharem de forma adequada sobre alojamento, maneio, contenção e cuidados clínicos, os veterinários ajudam a garantir que os animais experienciam os níveis mais baixos possíveis de stress ou desconforto. O bem-estar animal tem um impacto direto na qualidade dos dados, na reprodutibilidade e nos resultados experimentais. Assim, é claro que os veterinários desempenham um papel central na melhoria simultânea da investigação e dos padrões éticos nos laboratórios de investigação animal, e a sua experiência pode ir muito além da monitorização da saúde animal. São parceiros essenciais no desenho experimental e na implementação prática dos 3Rs.

Os avanços da sua investigação têm potenciais aplicações ou implicações na medicina veterinária clínica?
A minha investigação centra-se principalmente em mecanismos biológicos fundamentais, utilizando modelos como o invertebrado Drosophila melanogaster. Como tal, não tem aplicações diretas ou imediatas na medicina veterinária clínica. No entanto, demonstrar como os modelos invertebrados podem ser utilizados de forma eficaz para abordar questões biológicas complexas ajuda a reduzir a dependência de animais vertebrados, incluindo aqueles usados na investigação veterinária e biomédica, sem comprometer a qualidade científica.

Que conselho daria a jovens cientistas que queiram contribuir para práticas de investigação mais éticas e responsáveis?
Não sou assim tão velho (!) mas, se tivesse de dar um conselho a cientistas mais jovens, seria que se focassem em fazer boa ciência. A boa ciência é inerentemente ética e responsável; se não o for, então simplesmente não é boa ciência. Alcançar isto exige questionar constantemente não só como as experiências são realizadas, mas também por que razão o são.

Os jovens investigadores devem resistir à tentação de seguir práticas estabelecidas de forma acrítica, apenas porque “sempre foi assim que se fez”. Em vez disso, devem aprender cuidadosamente com colegas e mentores e depois refletir sobre se essas abordagens podem ser aplicadas de forma mais eficiente, mais rigorosa ou mais responsável. Independentemente do resultado, este processo de questionamento e reflexão é, em si mesmo, essencial, pois envolve ativamente os cientistas na construção de uma investigação cientificamente sólida e eticamente robusta.

Este site oferece conteúdo especializado. É profissional de saúde animal?