Realizou-se, há dias, no Porto, o evento “AI Day at Pet Hub”, que reuniu algumas das principais startups nacionais do setor pet atualmente responsáveis por soluções tecnológicas de grande impacto.
No rescaldo da iniciativa – que contribuiu para aproximar a comunidade médico-veterinária portuguesa do ecossistema de inovação, promovendo o diálogo entre profissionais, empreendedores e investidores – a VETERINÁRIA ATUAL conversou com Sandra Leonor, Head of Operations da Laika Ventures, organizadora do evento. À conversa juntou-se João Campaniço, CEO da Purrmi, uma das startups presentes no evento, onde se procurou abordar o impacto da inteligência artificial (IA) no setor pet, explorando de que forma esta tecnologia pode apoiar a medicina preventiva, a monitorização da saúde animal e o desenvolvimento de novas ferramentas de apoio à prática clínica e à relação entre tutores e profissionais.
Como faz o balanço global do AI Day at Pet Hub?
Sandra Leonor (SL) | De forma geral, foi exatamente o que esperávamos: um encontro informal e acolhedor de pessoas interessadas em IA e em pet tech. O evento foi constituído por duas partes: durante o dia as pessoas puderam trabalhar junto de duas empresas que trabalham na indústria no seu escritório (o recentemente aberto PetHub) e ao final do dia realizámos um painel de discussão com o título “Beyond the Leash” entre duas empresas a inovar neste mercado, representadas pelo João Campaniço (CEO da Purrmi) e Guilherme Coelho (CEO da Maven Pet). Esta sessão contou ainda com a participação de Tomás Rodrigues Magalhães (membro representante da Ordem dos Médicos Veterinários) e a moderação esteve a cargo de Ricardo Macedo (sócio gerente da Laika Ventures e cofundador da Barkyn).
Os objetivos iniciais do evento foram cumpridos? De que forma?
SL | O nosso objetivo com os eventos Orbit é criar um espaço para as pessoas se conectarem offline com outros parceiros da indústria. E foi cumprido! O espaço era confortável (desde coworking stations a sofás, salas de reunião e sala de almoço), as conversas no espaço giraram em torno de trabalhar na indústria pet e/ou IA. O painel foi a cereja no topo do bolo que levou a mais conversas com um pastel de nata na mão.
O que mais a surpreendeu positivamente neste encontro?
SL | Já tínhamos realizado eventos anteriormente, em variados espaços e com variados parceiros. Antes de mais, a equipa da Purrmi e da Maven foram extremamente atenciosas. O espaço, como disse, era bastante confortável e amplo, e os participantes do evento não estiveram limitadas nesse sentido. E, devo dizer, que há qualquer coisa sobre ter um amigo peludo – neste caso dois gatos – que simplesmente melhora o dia das pessoas!
Considera que a IA já está a ser encarada como uma prioridade no setor pet em Portugal?
SL | Esse foi um dos tópicos abordados no painel. O próprio Tomás, representante da Ordem dos Médicos Veterinários, mencionou que passos estavam a ser tomados, em especial no que toca à educação e conhecimento sobre a tecnologia e os seus benefícios, mas que ainda existe trabalho pela frente. Naturalmente, enquanto venture studio focado em IA acreditamos que deva ser um foco acelerar a educação e aplicação da tecnologia em qualquer setor, e já temos exemplos disso na indústria pet.
Que impacto acredita que este evento terá, a curto e médio prazo, na comunidade médico-veterinária e nas startups participantes?
SL | Acredito que o evento possa ter sido um catalisador de várias conversas que se iniciaram nele, nomeadamente sobre aplicações de IA, saúde e prevenção de doenças dos nossos animais, dados e estudos fidedignos para a tomada de decisão, etc..
Quais foram as ideias-chave que saíram deste debate?
SL | Alguns exemplos de ideias-chave que se falaram no debate foram desde a prevenção de doenças através da nutrição ao uso de telemedicina como potencial auxílio a médicos veterinários, passando pela maior coleção de dados biométricos que personalizam o tratamento do animal.
Como avalia a adesão e o envolvimento dos participantes durante o evento?
SL | Tivemos “casa cheia” e perguntas do público, o que é sempre um bom sinal! E foi possível observar participantes a interagirem uns com os outros, ainda que não se conhecessem antes.
Que tipo de feedback tem recebido de profissionais, empreendedores e investidores?
SL | Vários profissionais da indústria já nos agradeceram pelo evento, exatamente por impulsionar conversas sobre inovar em petcare, o que nos deixa muito felizes.
Acredita que este tipo de evento ajuda a quebrar resistências à adoção de novas tecnologias na área da saúde animal, considerando que elas persistem?
SL | Acredito que seja um passo nesse sentido, sem dúvida. Resistência a novas tecnologias existem sempre. A melhor forma de estabelecer o melhor caminho a traçar é através do diálogo e da partilha de perspetivas. Até porque, no final do dia, todos queremos o melhor cuidado para os nossos animais.
Que papel pode a Laika Ventures desempenhar na ligação entre veterinários, tecnologia e investimento?
SL | A Laika Ventures é um venture studio focado em IA, isto significa que desenvolvemos produtos de IA em mercados onde existam oportunidades. Neste mercado existem sem dúvidas muitas oportunidades e conseguimos conhecê-lo melhor. Talvez no futuro decidamos desenvolver uma solução na indústria pet.
Considera que o setor pet em Portugal está preparado para inovar de forma mais acelerada?
João Campaniço (JC) | Diria que o setor está num ponto de viragem. Existe abertura para inovar, especialmente por parte das novas gerações de médicos veterinários e empreendedores, mas a adoção ainda não é homogénea. A consciência sobre a importância dos dados, da prevenção e da personalização está a crescer rapidamente, e há um claro interesse em explorar tecnologias que possam melhorar a prática clínica e a experiência do tutor. Ainda assim, para acelerar, será necessário continuar a investir em educação tecnológica e na prática do impacto da IA na saúde animal.
Que desafios ainda existem para a integração da IA na prática clínica veterinária?
JC | Existem vários desafios relevantes. A saber:
▪ Literacia digital – muitos profissionais ainda não tiveram contacto suficiente com ferramentas de IA e existe uma resistência inicial;
▪ Falta de dados estruturados e fiáveis, essenciais para treinar modelos de IA de forma responsável;
▪ Questões regulatórias e éticas, que ainda estão a ser discutidas, nomeadamente sobre a responsabilidade das decisões assistidas por IA;
▪ Tempo e pressão clínica, que tornam difícil testar novas ferramentas no dia a dia.
Que oportunidades vê para as startups portuguesas neste contexto de transformação digital?
JC | Portugal tem uma comunidade tecnológica muito forte e, combinando isso com um setor veterinário que está aberto à colaboração, surgem oportunidades claras:
▪ Desenvolver soluções de triagem e suporte clínico, baseadas em IA generativa;
▪ Plataformas de gestão e integração de dados veterinários – algo ainda muito fragmentado;
▪ Ferramentas de prevenção e monitorização contínua para tutores, desde nutrição a bem-estar;
▪ Produtos de hardware e biometria, como wearables e sensores;
▪ Soluções B2B para clínicas, otimizando operações, atendimento e retenção de clientes.
▪ As startups portuguesas têm a vantagem de poder testar localmente e escalar para outros mercados europeus.
A nível internacional, como posiciona Portugal na inovação tecnológica para o setor pet?
JC | Portugal ainda não é um hub global de inovação pet tech, mas está rapidamente a ganhar relevância. Temos casos de sucesso reconhecidos internacionalmente, talento técnico de excelência e um ecossistema empreendedor dinâmico. Além disso, o país tem a vantagem de ser um mercado de teste ágil, com veterinários e tutores recetivos a novas abordagens.
Vejo Portugal a posicionar-se como um laboratório para soluções de IA aplicadas ao setor pet, com potencial para exportar tecnologia e conhecimento para mercados maiores como Espanha, Itália, França, Alemanha e EUA. Por isso é que o evento “Pet Hub” é um passo importante para isto acontecer e criar uma ponte entre os empreendedores e os médicos veterinários.
Que tendências acredita que iremos ver com maior força nos próximos anos?
SL | Uma das tendências que foi mencionada no painel foi exatamente que os animais cada vez serão cada vez mais tratados como humanos, isto é, existe uma tendência para as pessoas serem mais saudáveis, prestarem atenção ao sono, aos seus níveis de stress, usarem devices que permitam capturar dados, e procuram ser mais preventivos na sua saúde. E é o mesmo que os tutores dos animais começam a querer para os seus pets.
Este evento marca o início de novas iniciativas semelhantes?
SL | Esperemos que sim! A Laika Ventures continuará a realizar eventos para fomentar discussões sobre IA e conexões de profissionais de várias indústrias.
Já se pode falar numa próxima edição do AI Day at Pet Hub?
SL | Estaremos sem dúvida abertos a isso!

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