Nem todos os animais apresentam o mesmo risco e tratá-los como iguais pode comprometer a eficácia da desparasitação. Em populações especiais, as regras mudam: a idade, o estado fisiológico e o ambiente influenciam não só a exposição a parasitas, mas também a resposta ao tratamento. Neste artigo, analisamos o estado da arte da desparasitação em animais de companhia, com foco nos cenários onde a abordagem convencional pode já não ser a mais eficaz.
A desparasitação continua a ser um dos pilares da medicina preventiva em pequenos animais. No entanto, o conceito tradicional de protocolos padronizados tem vindo a evoluir para uma abordagem mais individualizada, baseada no risco. Esta mudança acompanha a evolução da própria medicina veterinária, que hoje valoriza fatores como estilo de vida, ambiente, estado imunitário e fase da vida, sendo os animais geriátricos, institucionalizados e/ou gestantes excelentes exemplos dessa necessidade de adaptação.
Organizações como a European Scientific Counsel Companion Animal Parasites (ESCCAP) recomendam precisamente esta abordagem estratificada, ajustando frequência e tipo de antiparasitário ao risco real.
Geriátricos: Tónica na prevenção
Os animais idosos apresentam características que influenciam diretamente a estratégia de desparasitação, desde logo alterações do sistema imunitário que podem reduzir a capacidade de controlo de infeções parasitárias, bem como comorbilidades frequentes, passíveis de interferir com o metabolismo dos antiparasitários e/ou a segurança de determinados fármacos. Entre as particularidades dos animais geriátricos, destaque também para o perfil polimedicado, que levanta risco de interações medicamentosas e maior sensibilidade a efeitos adversos. Posto isto, e de acordo com as recomendações da ESCCAP, nestes casos, a escolha dos produtos deve ser criteriosa, privilegiando moléculas com perfil de segurança adequado.
As alterações comportamentais e de estilo de vida são uma realidade nos animais seniores: habitualmente saem menos à rua e têm menor contacto com outros animais. Ainda assim, o seu risco não é nulo e, advogam as principais guidelines, mesmo em idade avançada, a prevenção continua crucial, não só para o animal, mas também para a saúde pública.
Desparasitação em animais geriátricos
Nos animais geriátricos, a desparasitação continua a ser essencial, mas deve ser cuidadosamente adaptada. O estado da arte atual privilegia decisões informadas, baseadas no risco individual e no estado clínico, em vez de protocolos uniformes. Esta mudança não só melhora a eficácia da prevenção, como também reduz riscos desnecessários – algo particularmente relevante numa população mais vulnerável como a geriátrica.
Para animais geriátricos, a desparasitação baseada no risco pode incluir:
Avaliação periódica
- Anamnese detalhada (hábitos, ambiente)
- Exames coprológicos regulares em vez de desparasitação “cega”
Ajuste da frequência
- Menor frequência em animais de baixo risco bem monitorizados
- Frequência mantida ou aumentada em animais com risco elevado
Seleção criteriosa de fármacos
- Considerar função hepática/renal
- Evitar moléculas com maior potencial de toxicidade
Controlo integrado de vetores
- Uso contínuo de antiparasitários externos quando indicado
- Prevenção de doenças transmitidas por vetores
Fonte: ESCCAP
Gestantes: Equilíbrio entre eficácia antiparasitária e segurança fetal
Em animais gestantes, a desparasitação assume um papel ainda mais crítico, mas também mais delicado. Tal como nos animais geriátricos, a tendência atual é abandonar protocolos universais e adotar uma abordagem baseada no risco, com a particularidade de haver dois (ou mais) organismos a considerar: a mãe e os fetos. Durante a gestação, ocorrem alterações fisiológicas importantes – modulação do sistema imunitário (para tolerância fetal); alterações farmacocinéticas (absorção, distribuição e metabolismo de fármacos) e possibilidade de transmissão vertical de parasitas – que exigem um equilíbrio cuidadoso entre eficácia antiparasitária e segurança fetal. Assim, e de acordo com a ESCCAP, a abordagem nas fêmeas gestantes deve envolver um planeamento pré-reprodutivo, protocolos adaptados ao risco e escolha criteriosa de fármacos, em que a decisão, para ser racional, deve integrar o ambiente, a região geográfica, o histórico parasitário, o estado geral e a condição corporal da fêmea.
Como estratégias práticas de desparasitação em animais gestantes, a ESCCAP recomenda como “ideal” antes da reprodução, de forma a diminuir drasticamente o risco de transmissão vertical; durante a gestação, adaptando aos diferentes níveis de risco; no pós-parto, fase crítica em que a transmissão lactogénica pode continuar e/ou o ambiente já pode estar contaminado.
Além dos parasitas intestinais, é crucial considerar doenças transmitidas por vetores como a leishmaniose ou a dirofilariose. E já que nem todos os repelentes/inseticidas são seguros na gestação, deve optar-se por produtos com indicação específica e pode ser necessário privilegiar medidas ambientais (controlo de mosquitos/flebótomos).
Rural versus urbano: Que desafios?
A prática veterinária em territórios de transição entre urbanidade e ruralidade é outro dos contextos que levanta desafios específicos no controlo das parasitoses e na abordagem e tratamento antiparasitários.
Em declarações à VETERINÁRIA ATUAL, Duarte Diz Lopes, diretor clínico da VetSantiago, em Bragança, traça um retrato claro dessas diferenças e defende uma abordagem cada vez mais ajustada ao contexto de cada animal. Apesar de exercer maioritariamente em meio urbano, o veterinário reconhece que a realidade local é marcada por uma forte ligação ao mundo rural. “Muitos tutores vivem na cidade durante a semana, mas mantêm contacto frequente com aldeias ao fim de semana, o que faz com que muitos cães acabem por viver em ambientes mistos, urbanos e rurais”, explica. Esta mobilidade cria um perfil de risco particular, obrigando a adaptar os planos de desparasitação “em função dos contextos ambientais, alimentares e sociais dos animais”, sublinha.
As diferenças entre animais urbanos e rurais são evidentes. Enquanto na cidade predominam os pequenos animais, essencialmente de companhia, no meio rural são mais frequentes cães de médio e grande porte, muitas vezes com funções específicas, como a guarda de rebanhos. Nestes casos, Duarte Diz Lopes salienta que a presença do Cão de Gado Transmontano “é marcante e está associada a práticas como a alimentação com vísceras, que aumentam o risco de determinadas parasitoses”, alerta.
Questionado sobre a evolução no domínio da desparasitação em animais de companhia, o médico veterinário recorda os “avanços significativos”, como “a introdução dos spot-on nos anos 90”, que “melhoraram o controlo das parasitoses externas”. Mais recentemente, destaca o papel das isoxazolinas, isoladas ou combinadas com nematocidas, que trouxeram “novas possibilidades terapêuticas”. Paralelamente, observa uma evolução positiva na literacia dos tutores, permitindo uma maior adesão a protocolos adequados.
No entanto, os riscos continuam presentes e variam consoante o contexto. Em Trás-os-Montes, Duarte Diz Lopes identifica a equinococose como uma das principais preocupações em meio rural, sublinhando que “não esquece a importância da desparasitação contra os cestodes”, sobretudo em cães de trabalho. Já nas parasitoses transmitidas por vetores, destaca a babesiose, associada à atividade de carraças como o Dermacentor reticulatus, particularmente no outono e inverno.
Entre as doenças emergentes, a telaziose assumiu relevância crescente desde o primeiro caso diagnosticado em Portugal, em 2011. Atualmente, é considerada endémica na região, com maior incidência no final do verão e outono, coincidindo com a atividade do vetor. A leishmaniose, por sua vez, mantém-se como uma preocupação transversal, afetando tanto animais urbanos como rurais.
Apesar da crescente disponibilidade de ferramentas terapêuticas, o veterinário acredita que a desparasitação ainda não atingiu o nível ideal de individualização. Reconhece que, no futuro, os planos tenderão a ser mais personalizados, mas alerta que “continuam a existir muitos cães que frequentam os espaços públicos que não estão devidamente desparasitados”. Nesse sentido, as recomendações da ESCCAP continuam a servir de referência.

A dimensão de saúde pública é central nesta discussão. Para além da equinococose, Duarte Diz Lopes alerta para doenças emergentes e transmitidas por vetores, incluindo infeções associadas a carraças e até novos riscos virais identificados na região. Neste contexto, considera fundamental o papel dos médicos veterinários na educação da população, numa lógica de “Uma Só Saúde”, onde a saúde animal e humana estão interligadas
Diagnóstico: O “calcanhar de Aquiles”
O papel do diagnóstico é outro ponto crítico. Na perspetiva do responsável da VetSantiago seria desejável um maior recurso a exames coprológicos, que permitiriam um melhor conhecimento da realidade parasitológica local e uma tomada de decisão terapêutica mais informada. “Este conhecimento científico iria permitir uma melhor decisão terapêutica”, afirma.
Em meio urbano, os riscos estão frequentemente subestimados. Parques e jardins são identificados como focos importantes de contaminação, agravados pelo facto de muitos tutores não recolherem os dejetos dos seus animais. Existe, segundo o clínico, uma “falsa sensação de segurança”, apesar da presença de parasitas zoonóticos como a toxocaríase e a ancilostomose. Entre os erros mais comuns em termos de desparasitação, Duarte Diz Lopes destaca a ideia de que os parasitas externos são apenas um problema sazonal e a crença de que animais exclusivamente indoor não necessitam de desparasitação. Acresce ainda o impacto de espaços como parques caninos, creches e hotéis para animais, que aumentam a exposição e o risco de transmissão.
No meio rural, os desafios passam sobretudo pela sensibilização dos tutores. O médico veterinário sublinha a dificuldade em garantir o cumprimento rigoroso dos planos de desparasitação e em transmitir o risco zoonótico associado. O contacto com fauna selvagem agrava este cenário, funcionando estes animais como reservatórios de diversos parasitas.
Apesar destas diferenças, Duarte Diz Lopes salienta que não existem ainda dados suficientes para confirmar uma maior incidência de resistência antiparasitária em meio rural. Ainda assim, reforça a importância de combater mitos persistentes, como a sazonalidade limitada de pulgas e carraças, que comprometem a eficácia dos planos preventivos.
Saúde pública não pode ficar de fora da equação
A dimensão de saúde pública é central nesta discussão. Para além da equinococose, Duarte Diz Lopes alerta para doenças emergentes e transmitidas por vetores, incluindo infeções associadas a carraças e até novos riscos virais identificados na região. Neste contexto, considera fundamental o papel dos médicos veterinários na educação da população, numa lógica de “Uma Só Saúde”, onde a saúde animal e humana estão interligadas.
Apesar de não considerar o uso excessivo de antiparasitários um problema significativo em Portugal, o veterinário reconhece que ainda há margem para melhorar a implementação dos planos preventivos. O equilíbrio entre prevenção e uso racional passa, no seu entender, por “conhecimento científico mais preciso”.
O futuro aponta para novas ferramentas, tanto ao nível do diagnóstico como da terapêutica, com destaque para o potencial da inteligência artificial. Ainda assim, Duarte Diz Lopes conclui que a decisão final continuará a depender do médico veterinário, que deverá adaptar os recursos disponíveis às necessidades específicas de cada animal e ao contexto em que este se insere.
Animais de abrigo: Exposição a parasitas é superior, diagnóstico é menos frequente e adesão aos protocolos é mais desafiante
Em entrevista à VETERINÁRIA ATUAL, Inês Oliveira aborda aqueles que são, atualmente, os principais desafios na desparasitação em animais de abrigo. A médica veterinária no Centro de Recolha Oficial (CRO) de Almada lamenta a falta de acesso a exames diagnósticos e reconhece na leishmaniose a zoonose mais preocupante.
Quais os principais desafios da desparasitação em animais de abrigo atualmente?
Os principais desafios são, muitas vezes, conseguir realizar um protocolo com a frequência adequada, porque nem sempre temos desparasitantes suficientes para conseguir desparasitar de forma constante mais de 60 animais, cumprindo os intervalos de administração. Isto acontece pela limitação no orçamento, que condiciona a escolha dos desparasitantes e dificulta um stock contínuo e adequado.
Em que medida a realidade de um abrigo difere da de um animal com tutor no que toca ao controlo parasitário?
Um tutor terá no máximo quatro animais. Um CRO tem mais de 60 animais. É necessário uma elevada logística, organização e disponibilidade de orçamento para garantir que temos sempre desparasitantes disponíveis e adequados a cada tipo de animal. Acresce a rotatividade elevada, novos animais que entram sem controlo parasitário, dificuldade em realizar tratamentos individualizados e maior probabilidade de contaminação cruzada. A exposição a parasitas é muito superior em animais presentes em abrigos, o diagnóstico é menos frequente e a adesão aos protocolos é exigente.
Que parasitas são mais prevalentes no contexto do CRO de Almada? Quais são os endoparasitas e ectoparasitas mais frequentes em cães e gatos de abrigo?
Em Almada, apenas conseguimos detetar alguns ectoparasitas como pulgas ou carraças. Temos alguns animais que nos chegam parasitados com ácaros (sarna). Endoparasitas não sabemos porque não são realizados exames coprológicos.
Existem variações sazonais relevantes?
Sim, são facilmente detetadas a nível dos ectoparasitas, como pulgas e carraças, mais frequentes nos meses mais quentes e maior risco de vetores (mosquitos).
Que fatores aumentam o risco de infestação (densidade populacional, stress, rotatividade, entre outros)?
Todos os fatores mencionados aumentam o risco de infestação se não existir um controlo parasitário adequado. Animais que entram no abrigo sem historial sanitário, potencialmente parasitados, com níveis de imunidade diferentes…
Há risco significativo de zoonoses? Quais as principais preocupações?
Leishmaniose principalmente. São animais que vivem em boxes com uma zona interior e outra exterior, estando por isso sujeitos aos mosquitos durante o verão. Desta forma, seria importante vacinar – porém não é possível, devido ao custo elevado destas vacinas – e desparasitar com desparasitantes eficazes contra mosquitos.
Que protocolo(s) de desparasitação utilizam no CRO de Almada?
Não temos um protocolo definido porque depende dos desparasitantes que conseguimos adquirir. Tentamos apenas garantir, além da desparasitação que realizamos durante todo o ano, que nos meses de verão são utilizados desparasitantes com eficácia contra mosquitos.
A abordagem é sistemática ou baseada em diagnóstico?
Sistemática e empírica.
Como gerem a desparasitação à entrada versus manutenção?
Todos os animais são desparasitados interna e externamente à entrada. Todos os outros seguem a frequência dos protocolos de desparasitação.
Existem diferenças entre cachorros/gatinhos, adultos e geriátricos?
Sim, todos os animais são avaliados individualmente. Se forem cachorros, gatinhos, doentes ou geriátricos é sempre que possível realizado um protocolo diferente dos animais adultos.
Como adaptam protocolos a animais debilitados ou doentes?
Em animais doentes ou debilitados priorizam-se desparasitantes mais fáceis de administrar, que causem menos stress, com protocolos menos agressivos e com uma via de administração adequada ao tipo de doença do animal. Em animais muito debilitados pode ser necessário adiar o protocolo. Tentamos sempre avaliar individualmente cada animal, estando ou não doentes, mas existe sempre a limitação do tipo de produtos disponíveis naquele momento.
Qual o papel dos exames coprológicos em abrigo?
Por norma não são realizados.
É viável implementar diagnóstico regular ou a abordagem empírica é inevitável?
Em ambiente de CRO, a abordagem empírica é inevitável, tendo em conta o número de animais e o reduzido orçamento disponível para utilizar em exames complementares. Estes são realizados sempre que necessário, de acordo com a importância no diagnóstico, mas sempre dentro do orçamento disponível.
Já observaram falhas terapêuticas? Como podem os médicos veterinários minimizar este risco?
As resistências e falhas terapêuticas são uma preocupação em contexto de abrigo pelo número de animais existentes, rotatividade e possibilidade de infestação. Desta forma, tentamos adquirir desparasitantes com comprovada eficácia. Já foram adquiridos desparasitantes com substâncias químicas com menor eficácia, que não foram adquiridos novamente. Tentamos sempre adquirir desparasitantes com diferentes substâncias químicas, tentamos não utilizar sempre os mesmos desparasitantes em todos os animais e garantir que a dose é correta, bem como a administração em intervalos adequados.
Como se garante a adesão a protocolos num ambiente com muitos animais e recursos limitados?
Com organização (registos rigorosos, planeamento e trabalho de equipa). Nem sempre conseguimos garantir que a desparasitação é realizada sem qualquer atraso, mas no geral, todos os animais se encontram desparasitados e todos os animais que entram no CRO são desparasitados à entrada.
Que estratégias ajudam a evitar reinfestações?
Controlar entradas de novos animais, manter a desparasitação em dia.
Que recomendações são dadas aos adotantes em relação à desparasitação?
Realizar desparasitação interna de três em três meses e desparasitação externa mensal ou trimestralmente, dependendo do desparasitante. Todos os animais saem do CRO desparasitados.
Há continuidade dos protocolos após adoção?
Se for realizada pelo adotante. O CRO não assegura a desparasitação após a adoção.
Que erros são mais comuns por parte dos novos tutores?
Desparasitar apenas quando encontram parasitas ou nos meses de verão.

