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Veterinários portugueses pelo mundo

“Longe vai o tempo em que a única opção aos laboratórios das faculdades era o Laboratorio Echevarne, em Barcelona”

Pedro Serra

Pedro Serra

Patologista clínico no Veterinary Laboratory Services Ireland, em Cork, na Irlanda. Licenciado em Medicina Veterinária, fellow do Royal College of Pathologists e diplomado pelo American College of Veterinary Pathologists

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área?

A patologia clínica — a área de diagnóstico laboratorial que, fazendo uso de disciplinas como a hematologia, a bioquímica clínica e a citologia, deteta estados de doença não definidos, define/classifica/confirma uma doença, elimina diagnósticos diferenciais e avalia mudanças do estado de doença (devido a progressão natural ou decorrentes de intervenção médica ou cirúrgica).

Lembro-me de, no final do ensino secundário, ver anúncios na televisão apelando às pessoas que se fizessem dadoras de sangue. “Quando fizer 18 anos, começo a dar sangue”, disse eu. Assim foi.

No final do meu primeiro ano de faculdade, apercebi-me do pouco que sabia sobre hematologia veterinária. Passei a ir umas tardes para a biblioteca da faculdade onde encontrei alguns livros de texto e atlas. Da hematologia foi um só um saltinho para a bioquímica. E chegado ao terceiro ano, nas aulas práticas de Semiologia Médica, onde estudamos Patologia Clínica, disse “É nisto que eu quero trabalhar!”. E assim passou-me a ideia de fazer clínica de espécies pecuárias.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro?

Meramente por acaso, em 2003. Encontrei uma oferta de emprego numa revista da especialidade. Enviei o CV. Telefonaram-me. Combinámos uma data para uma entrevista em Inglaterra. Visitei o laboratório (NationWide Laboratories) por dois dias. Na semana seguinte, enviaram-me uma proposta por e-mail e dois meses depois já tinha mudado de país. Reconheço que tive sorte.

 Como é que é um dia de trabalho normal para si?

No laboratório onde trabalho sou o único patologista clínico. Um dia normal consiste em validar e interpretar resultados de hematologia, bioquímica, análises de urina e fezes, serologia, microbiologia e citologia. Essencialmente, de cães e gatos. Em menor número, processamos também amostras de cavalos. Noutros laboratórios com equipas maiores, as tarefas são repartidas e é feita uma escala: na maior parte dos dias, os patologistas fazem citologia.

Como é que foi a adaptação a um trabalho fora de Portugal?

Em termos profissionais, a adaptação não foi difícil. Tinha alguma prática nalgumas áreas, noutras menos ou nenhuma. Havia assuntos de que apenas tinha lido ou ouvido falar. Mas fui sempre apoiado pelo diretor do laboratório e pela chefe da patologia.

A nível pessoal, a adaptação foi fácil. Em Lisboa, trabalhava muitas horas e a minha vida social era reduzida. O meu primeiro emprego fora foi num laboratório ainda em expansão, numa área rural do noroeste de Inglaterra. Começava às 8h30 e às 18h um dos diretores pedia-me educadamente que fosse para casa. Tinha muito tempo livre: fazer revisões, ler, ouvir música, enviar postais aos amigos, fazer fotografia e passear ao fim de semana nas cidades ali perto (Blackpool, Preston, Manchester; ocasionalmente, Edimburgo ou Londres).

O tipo de casuística/exames com os quais lida na Irlanda são muito diferentes comparativamente aos que encontraria em Portugal?

Por conversas que tenho com colegas a trabalhar em Portugal, sei que as técnicas/testes que os laboratórios comerciais oferecem na Irlanda e no Reino Unido não são diferentes daqueles oferecidos aos clientes em Portugal. Verdade que há sempre um teste mais específico que só um laboratório em Espanha, no Reino Unido ou Alemanha faz, mas fico com a ideia de que a patologia clínica praticada em Portugal está ao nível da que se pratica “cá fora”. Longe vai o tempo em que a única opção aos laboratórios das faculdades era o Laboratorio Echevarne, em Barcelona.

Quais os seus planos para o futuro? 

Planos a curto e médio prazo são os de continuar a aprender. Se houve algo que ter estudado para os exames de especialidade me deu a conhecer foi o quanto não sabia e o tanto que ainda tenho para aprender. A longo prazo, tenho uma bebé de três meses com quem tenho muito para partilhar e ensinar.

O regresso a Portugal está pensado há muito, mas está dependente também da outra metade (também veterinária). Trabalhar em diagnóstico laboratorial, privado ou estatal, com ou sem ensino associado, são opções.

De que forma é que o setor de medicina veterinária na Irlanda está a ser afetado pela pandemia de covid-19?

Desde a primeira semana de março, o governo da Irlanda impôs restrições ao movimento e ajuntamento de pessoas e obrigou ao fecho de estabelecimentos de ensino e muitas lojas. As clínicas veterinárias continuaram em funcionamento, mas num sistema de consultas com o mínimo de pessoal presente no consultório e clínica, o que obriga ao desdobrar de funções de cada funcionário e a consultas mais demoradas.

No nosso laboratório, inesperadamente, o número de amostras aumentou. A explicação que encontrámos prende-se com os atrasos que algumas clínicas não clientes verificaram no envio e processamento de amostras habitualmente enviadas para laboratórios concorrentes em Inglaterra.

O nosso laboratório reduziu momentaneamente o número de pessoas a trabalhar on site. Quem pudesse trabalhar a partir de casa, passou a fazê-lo, medida que, tendo em conta a recente chegada de uma bebé, me beneficiou grandemente.

Que conselhos dá aos recém-licenciados em medicina veterinária que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho em Portugal?

Há oportunidades de trabalhar bem e aprender muito fora de Portugal. Ofertas de emprego para clínica de pequenos e grandes animais são publicadas semanalmente no Veterinary Record, há sempre um colega já fora a quem fazer perguntas, procurar as páginas web de faculdades e centros de referência com ofertas para internatos e residências, contactos de colegas no Facebook e LinkedIn. Venham, nem que seja por uns meses (um ou dois anos passam a correr). Com certificado ou diploma ou, até, sem eles. E, como me disse um grande amigo, o Rafael Pratas Lourenço: “O gozo de teres aprendido, já ninguém to tira!”.

Como é que avalia o estado atual da medicina veterinária?

Nas suas mais variadas vertentes (pequenos, grandes, saúde pública, etc.), há avanços significativos na medicina veterinária em Portugal quando comparada com o final de século. Há muita informação (impressa e online), oportunidades de desenvolvimento profissional (congressos, ações de formação práticas), já vai havendo alguns colegas com especialidade a regressar a Portugal. Acredito que a nossa profissão em Portugal vai no bom caminho.

*Artigo publicado originalmente na edição de julho-agosto de 2020 da VETERINÁRIA ATUAL.

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