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Médicos Veterinários

Que futuro estamos a construir para a medicina veterinária?

Que futuro estamos a construir para a medicina veterinária? Direitos reservados

A VETERINÁRIA ATUAL chega à sua 200.ª edição num momento particularmente simbólico para a medicina veterinária. Mais do que um marco editorial, esta edição representa uma oportunidade rara de reflexão coletiva. Olhamos para trás com sentido crítico, procuramos compreender o presente com lucidez e, sobretudo, alicerçamos o futuro que queremos construir para a próxima década.

A medicina veterinária atravessa hoje um período de profunda transformação. A aceleração tecnológica, a digitalização dos processos clínicos, o surgimento da inteligência artificial (IA) e de novas ferramentas de apoio à decisão estão a redefinir a forma como se pratica, se ensina e se organiza a profissão. Em paralelo, emergem desafios estruturais que vão muito além da tecnologia: a sustentabilidade económica dos modelos de prática, a saúde mental e o bem-estar dos profissionais, a atratividade da carreira, a relação/comunicação com os tutores, a evolução das equipas e a integração do veterinário num ecossistema cada vez mais multidisciplinar, com o One Health como santo graal.

 

É neste contexto que lançamos a pergunta que serve de fio condutor a esta edição especial – “Que futuro estamos a construir para a Medicina Veterinária?” – convidando protagonistas do setor, líderes de opinião, académicos e parceiros de sempre a partilharem a sua visão. As reflexões que se seguem exploram o papel do médico veterinário nos próximos 10 anos, as competências críticas para uma prática relevante e ética, o impacto real da IA e das novas tecnologias, bem como as principais ameaças e oportunidades para a sustentabilidade da profissão em Portugal, numa perspetiva económica, humana e social.

Mais do que antecipar respostas definitivas, este conjunto de contributos pretende estimular o pensamento estratégico, promover o diálogo e reforçar a ideia de que o futuro da medicina veterinária não é algo que simplesmente acontece, mas antes algo que se constrói, com decisões conscientes, visão partilhada e, acima de tudo, colocando as pessoas no centro.

QUESTÕES

  1. Como evoluirá o papel do médico veterinário nos próximos 10 anos e que competências serão verdadeiramente críticas para a prática da medicina veterinária em Portugal?
  2. Que impacto terão a digitalização, a inteligência artificial (IA) e as novas tecnologias na prática clínica veterinária e estamos preparados para as integrar de forma ética e eficaz?
  3. Quais são as principais ameaças e oportunidades para a sustentabilidade da medicina veterinária em Portugal, tanto do ponto de vista económico como humano (ou outros)?
  4. Que decisão estratégica a profissão veterinária em Portugal não pode adiar na próxima década?
 

 

Pedro Fabrica
Bastonário da OMV

  1. Nos próximos 10 anos a evolução do papel do médico veterinário está intimamente relacionada com o impacto geopolítico da disputa de poder ao nível mundial. A indecifrável nova ordem mundial irá influenciar os recursos alimentares das populações, assim como a transferência de tecnologia e políticas de saúde pública e ambiental e a capacidade de resposta às próximas epidemias. Tal como os restantes profissionais de saúde, os médicos veterinários e o seu papel será profundamente influenciado pela mudança mundial do equilíbrio de poderes que influencia ao nível nacional as decisões de políticas governativas. Claramente, uma das competências base é a capacidade dos profissionais se adaptarem às necessidades do mercado do trabalho. Esta sempre foi uma forte competência do médico veterinário, a sua capacidade quase mutagénica de se adaptar às necessidades no âmbito da saúde animal e crescentemente ao nível da saúde global. Outra competência fundamental será o poder de influência nas decisões das políticas de saúde e cooperação transdisciplinar com as demais áreas da saúde. Finalmente, uma competência pilar da profissão, a vontade de aprender, de os profissionais se manterem atualizados, fará a diferença no destaque na vida profissional desses médicos veterinários e trará índices mais elevados de satisfação pessoal.
  2. Terá um impacto profundo na forma como toda a equipa médico-veterinária trabalha. A digitalização e IA trazem enormes desafios a começar pelo incremento de exigência por parte dos detentores dos animais aos serviços médico-veterinários, e por parte dos profissionais às suas entidades reguladoras. A Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) terá necessariamente de integrar e enquadrar o uso de toda esta tecnologia no âmbito dos direitos e deveres dos profissionais médico-veterinários, plasmados no código deontológico. Esse enquadramento já está a ser feito, com a preparação de regulamentação para o uso da telemedicina, assim como através do trabalho conjunto entre as Ordens Portuguesas da Saúde, onde a OMV está presente, com a redação de um documento comum orientador para os profissionais de saúde para o uso da IA nas suas atividades. Finalmente, haverá ainda mais desafios éticos que os órgãos regulatórios terão a responsabilidade de preparar as profissões para a sua análise crítica, agilizando o poder de decisão individual profissional.
  3. A maior ameaça à sustentabilidade da medicina veterinária passa pelo risco da pulverização de diversas tarefas e atos próprios por outros profissionais, a quem falta preparação, conhecimento e perspetiva de saúde pública, de saúde animal, de saúde integrada e individual. O desempenho de funções operacionais sem uma visão macroscópica da saúde animal colocam em risco a segurança dos pacientes e a qualidade da medicina veterinária. A diversidade de licenciaturas em áreas disciplinares que têm como denominador comum a saúde animal, sob o pretexto de uma variedade formativa para os estudantes, mas sem uma real visão de sua empregabilidade e propósito, é algo preocupante para a qualidade da medicina veterinária. Sejamos rigorosos, só existe um profissional totalmente habilitado em medicina veterinária, e esse profissional é aquele que termina o seu mestrado integrado e posteriormente lhe é atribuído o título profissional por parte da OMV. A outra principal ameaça, é a esquizofrenia dos decisores políticos, que reconhecem a importância e o contributo por parte dos médicos veterinários para a economia, para o setor primário do país, para a saúde pública e para a saúde animal e:
  • São incapazes de definir uma carreira para o médico-veterinário, onde esse reconhecimento seja realmente efetivo;
  • Não envolvem os médicos veterinários numa estratégia nacional de controlo populacional de animais de companhia;
  • Propõem medidas ao sabor das pressões mais vocais de alguns defensores animais, sem a validação e verificação científica do médico veterinário. Lembrando, o papel essencial, que a ciência teve na mitigação dos efeitos da recente pandemia;
  • Continuam a penalizar os detentores de animais de companhia, que responsavelmente cuidam, pagam a alimentação e os serviços médico-veterinários com IVA de 23%, que acaba por ter um efeito de pressão acrescido nos médicos veterinários de animais companhia no que diz respeito à perspetiva ao acesso de opções terapêuticas para os animais.As oportunidades da profissão estão precisamente do lado da resolução desta ambiguidade, entre o reconhecimento informal político e tomada de decisões que deem ao médico veterinário a valorização e o reconhecimento merecido.
  1. Com impacto direto, a implementação das especialidades médico-veterinárias, a definição dos atos próprios médico-veterinários, a criação de um órgão de coordenação transdisciplinar para a One Health onde a profissão está representada, e a atualização da legislação do licenciamento dos CAMV.
    Com impacto indireto, a criação de uma verdadeira estratégia de responsabilização de detenção de animais de companhia e uma política de sanidade animal nacional adaptativa à situação epidemiológica vivida.
 

 

Emir Chaher
Médico veterinário e presidente da APMVEAC

  1. Os animais de companhia assumem um papel cada vez mais relevante como membros das famílias, passando estas a incluir os cuidados veterinários como parte integrante do orçamento de saúde familiar.
    O papel do médico veterinário de animais de companhia irá evoluir para se transformar cada vez mais num general practitioner com competências clínicas e técnicas avançadas e com uma elevada capacidade diagnóstica independente no próprio CAMV (point-of-care).
    A formação contínua e a utilização de ferramentas de IA generativa tornam-se incontornáveis para responder à tendência de falta de profissionais e para aumentar a eficiência e eficácia das equipas clínicas. À medida que algumas tarefas humanas são substituídas por soluções de IA, o papel do veterinário como comunicador e educador irá ganhar ainda mais relevância.
  2. É difícil predizer o impacto futuro da IA na nossa profissão, mas o meu temperamento faz-me acreditar que será maioritariamente positivo. Acredito que será, como já é hoje em muitos campos, uma poderosa ferramenta para potenciar as capacidades que os médicos veterinários de animais de companhia já possuem.
    Conseguir que tecnologias como a telemedicina e a IA sejam integradas e aplicadas de forma ética dependerá de que as instituições e organismos que representam e regulam a nossa profissão (OMV, APMVEAC, FVE, WSAVA, etc.) liderem esta reflexão e consciencializem aos seus membros e associados de que devemos ser nós próprios a salvaguardar e defender a segurança e qualidade dos nossos serviços.
    Muitos especialistas na área afirmam que seria imprudente deixar esses assuntos unicamente nas mãos da tutela política e dos grandes agentes económicos, que têm um papel cada vez mais preponderante no nosso mercado.
    Os médicos veterinários de animais de companhia deverão futuramente estar devidamente familiarizados com estas tecnologias, compreendendo não só o seu potencial, mas também as suas limitações. A transparência é igualmente essencial: os tutores devem ser sempre informados quando a IA é utilizada no apoio ao diagnóstico, bem como das suas limitações.
  3. Atualmente verifica-se uma dificuldade significativa no recrutamento de médicos veterinários dedicados a animais de companhia, apesar de Portugal ser o país da Europa com o maior número de médicos veterinários por habitantes e o que mais faculdades de veterinária tem por habitante.
    São vários os fatores que contribuem para esta situação (emigração, burnout, etc.), mas o facto de que cada vez mais jovens colegas procuraram trabalhar exclusivamente numa área de especialidade e não exercer clínica e cirurgia geral pode vir a exacerbar ainda mais esta situação.
    É essencial que continuem a existir clínicos generalistas. A ausência destes profissionais generalistas pode levar a situações de cuidado fragmentado em que o paciente deixa de ser visto como um todo e passa a ser tratado como uma soma de órgãos ou sistemas. Esta fragmentação pode gerar sentimentos de abandono por parte dos tutores, que circulam entre vários especialistas sem uma abordagem global, além de favorecer diagnósticos parciais e dificultar o acesso aos cuidados devido à necessidade de múltiplas consultas. Esta é uma situação que já é hoje apontada como um problema crescente na medicina humana.
    Esta será também uma oportunidade para médicos veterinários e CAMV polivalentes com competências clínicas e cirúrgicas transversais já que estes serão sempre procurados por empregadores e tutores.
  4. A redução ou isenção do IVA aplicado aos serviços médico-veterinários de animais de companhia em Portugal é, há décadas, uma justa reivindicação da classe.
    Não existe medida nenhuma que tenha maior impacto na melhoria do acesso dos animais de companhia a cuidados veterinários de qualidade e à melhora nas condições laborais dos médicos veterinários e equipas em Portugal.
    Esta redução deverá ser alcançada com uma estratégia profissionalizada e factual, baseada na alteração do enquadramento regulamentar europeu e no consenso alargado acerca do papel social que têm os animais de companhia e o impacto da saúde dos animais de companhia na saúde pública.
 

 

Mário Hilário
Country Manager Portugal
Elanco

Quais considera que são as prioridades estratégicas de I&D da Elanco para a próxima década e como podem as mesmas contribuir para a evolução sustentada da medicina veterinária em Portugal?
Na Elanco, a I&D é o nosso motor há mais de 70 anos, guiada pela nossa visão de alimentos e companheirismo que enriquecem a vida, e pela perspetiva One Health, que abrange a saúde animal, humana e planetária. Para a próxima década, as nossas prioridades focam-se em aprofundar o nosso portefólio único, abrangendo tanto os animais de companhia como os animais de produção.
Para os animais de companhia, as nossas áreas de especialização cruciais são: Antiparasitários, Osteoartrite, Medicina Felina, Dermatologia e Medicina Interna. Estamos empenhados em desenvolver soluções inovadoras e baseadas em evidências, criando tratamentos eficazes e com um perfil de segurança comprovado, como o recente lançamento de Zenrelia em dermatologia, e os nossos desenvolvimentos em medicina felina, que respondem a necessidades únicas. Para os animais de produção, a I&D visa soluções que melhorem a saúde dos animais e a segurança alimentar. Isto passa por soluções para a sustentabilidade ambiental, soluções que otimizam a eficiência da produção pecuária e soluções que promovem a segurança dos alimentos produzidos (leite, carne, ovos), contribuindo assim para a sustentabilidade das empresas e do planeta. O nosso objetivo é melhorar a qualidade de vida, não só tratando doenças, mas elevando o bem-estar de todos os animais e dos seus tutores bem como dos produtores. Estas prioridades contribuirão para a evolução da medicina veterinária em Portugal ao fornecerem aos profissionais ferramentas com resultados comprovados, impulsionando a inovação.

Como pode a Elanco fortalecer a sua colaboração com médicos veterinários, instituições científicas e organismos reguladores, e que papel deveriam desempenhar no desenvolvimento do ecossistema veterinário nacional na próxima década?
Acreditamos que o desenvolvimento do ecossistema veterinário nacional é um esforço colaborativo, e a Elanco está profundamente comprometida em fortalecer estas parcerias, sempre pautadas pelos nossos valores de Integridade, Excelência e Respeito pelas Pessoas.
Com os médicos veterinários, a nossa colaboração é a força motriz do progresso. Nos animais de companhia aprofundamos esta parceria através de um trabalho de proximidade com KOL de longa data, de como é exemplo o Companion Vector-Borne Diseases (CVBD), estabelecendo um intercâmbio científico de excelência. Este compromisso resulta numa informação de vanguarda e numa oferta de produtos e soluções inovadoras que não só elevam a qualidade dos cuidados, mas também impulsionam o crescimento e a sustentabilidade dos centros de atendimento médico-veterinários. Tudo isto é amplificado pelo programa Vetnia, a nossa plataforma dedicada que apoia a profissão, promovendo ativamente o conhecimento, a formação contínua e o bem-estar integral dos profissionais. Destacam-se iniciativas como o VitaVet, um espaço com conselhos práticos e cientificamente comprovados, incluindo recursos em vídeo sobre saúde mental e gestão de stress diário, e os New Talent Awards, que reconhecem jovens talentos e promovem a prática baseada na evidência científica.
Com os médicos veterinários e produtores de animais de produção, a Elanco disponibiliza plataformas estratégicas que transformam a gestão. O Elanco Knowledge Solutions (EKS), por exemplo, cria parcerias através da análise de dados e inovação, identificando áreas de oportunidade e impulsionando a rentabilidade na produção. Estas iniciativas espelham a nossa Excelência na busca por soluções que otimizam a saúde e a produtividade.
Colaboramos ativamente com Faculdades de Medicina Veterinária e Enfermagem Veterinária e outras instituições científicas no desenvolvimento de metodologias baseadas em evidências e na investigação conjunta para soluções inovadoras, como por exemplo as ferramentas COAST (Canine Osteoarthritis Staging Tool – estadiamento da Osteoartrite) e COASTeR (Canine Osteoarthritis Staging Tool  excluding Radiography -indicações terapêuticas da Osteoartrite). Esta parceria é um pilar da nossa Integridade científica e do nosso compromisso com o avanço do conhecimento.
Mantemos um diálogo constante com entidades como a APIFVET, APMVEAC, ESCCAP, LEISHVET, IACA, FPAS, SCS, APB, APCA, entre outras associações relevantes do setor, e com os organismos reguladores. Esta interação, pautada pelo Respeito pelas Pessoas e pela Integridade, assegura que os nossos produtos cumprem os mais elevados padrões de segurança e de eficácia, contribuindo para a confiança na profissão e na saúde pública. Com todas estas entidades, fomentamos uma colaboração bidirecional, onde projetos podem ser desenvolvidos a partir de necessidades identificadas por nós ou pelos nossos parceiros, e onde a Elanco se posiciona como parte integrante da solução, contribuindo com o nosso know-how e inovação.
O papel da Elanco é ser um catalisador de mudança e evolução. Comprometemo-nos a prestar apoio contínuo para promover o crescimento profissional e o bem-estar dos médicos veterinários, garantindo que cada animal em Portugal receba os melhores cuidados. Queremos todas as nossas iniciativas sejam programas dinâmicos que ajudem a construir uma comunidade mais forte e preparada para o futuro, alinhada com a nossa visão de alimentos e companheirismo enriquecem a vida.

 

Luís Montenegro
Médico veterinário, diretor clínico do Hospital Veterinário Montenegro

  1. Vejo hoje a veterinária em Portugal como um setor composto por duas profissões indissociáveis: o médico veterinário e o enfermeiro veterinário. A qualidade da prática veterinária moderna já não é possível sem o contributo desta nova profissão, na qual sempre acreditei e que considero essencial.
    Quanto ao futuro, acredito firmemente que a próxima década será uma década de ouro para a veterinária. O conceito de One Health (Saúde Única) está cada vez mais presente e reconhecido, e o médico veterinário assume um papel crescente de liderança neste contexto. A pandemia de Covid-19 foi determinante para demonstrar que a saúde humana só pode evoluir de forma sustentada quando assente numa medicina veterinária forte.
    Paralelamente, assistimos a uma transformação social profunda: os animais de companhia passaram a integrar o núcleo familiar em todo o mundo, incluindo em culturas onde isso não era tradicional, como no Médio Oriente e no mundo muçulmano. O animal tornou-se um elo emocional e conciliador dentro da família, o que leva naturalmente a uma maior preocupação com o seu bem-estar e cuidados de saúde.
    Tudo isto obriga o setor a crescer, a profissionalizar-se e a dar resposta a novas exigências, o que se traduzirá em mais emprego, maior necessidade de profissionais qualificados e forte desenvolvimento do setor.
  2. A IA é muito bem-vinda, porque tudo o que melhora a tomada de decisão, aprofunda o conhecimento e aumenta a qualidade dos serviços deve ser encarado como um benefício. Ferramentas baseadas em IA permitem hoje interpretar rapidamente literatura científica, otimizar o acesso à informação e apoiar o raciocínio clínico. No entanto, a medicina veterinária continuará a depender fortemente do contacto humano, da observação clínica, do toque e da interpretação do comportamento animal – dimensões que a tecnologia ainda não consegue substituir. A IA não vem substituir o veterinário ou o enfermeiro, mas suportar o conhecimento e libertar tempo.
    Um dos grandes ganhos será a redução de tarefas burocráticas, que atualmente consomem um tempo desproporcionado: relatórios extensos, autorizações, comunicação excessiva e exigências administrativas que retiram foco ao essencial: o animal e o exame clínico.
    É também fundamental reforçar a governança clínica. Lidamos com famílias disponíveis para fazer sacrifícios pelos seus animais, e isso exige decisões ponderadas, éticas e sustentáveis. Fazer exames em excesso sem critério pode gerar custos incomportáveis, afastar famílias da possibilidade de ter animais e fragilizar o sistema no futuro. Os seguros são parceiros importantes, mas não resolvem tudo e também têm limites de sustentabilidade.
  3. Acredito que a medicina veterinária deve ser reconhecida como aquilo que é: uma atividade de saúde com o respetivo enquadramento fiscal, nomeadamente ao nível do IVA reduzido. Não defendo hospitais veterinários públicos ou serviços gratuitos, pois não seriam sustentáveis para os contribuintes, mas sim um enquadramento justo que reconheça o papel sanitário da profissão.
    Para além da dimensão política, há uma responsabilidade interna muito clara. Queremos profissionais bem remunerados e uma atividade economicamente saudável, mas isso exige rigor na gestão clínica e financeira. A observação clínica, o raciocínio e a ponderação devem preceder a realização de exames dispendiosos.
    Este conceito deve ser trabalhado desde a universidade: melhor comunicação, mais empatia e maior consciência económica. A desgovernança clínica pode, a médio prazo, afastar as famílias da posse responsável de animais, colocando em risco todo o setor. Pelo contrário, uma prática equilibrada garante sustentabilidade, confiança social e continuidade da profissão nas próximas décadas.
  4. A afirmação da veterinária passa, inevitavelmente, pela sua integração plena no conceito de One Health. Já vemos exemplos concretos em Portugal, com hospitais de referência e faculdades de medicina a integrarem médicos veterinários em equipas multidisciplinares, reconhecendo a importância da ligação entre saúde humana, animal e ambiental.
    Sem animais saudáveis e sem monitorização adequada de riscos — como o salto interespecífico de agentes patogénicos — a saúde humana fica seriamente comprometida. Por isso, os veterinários devem ocupar um lugar ativo na tomada de decisão, com formação, produção científica e presença institucional.
    Um exemplo claro disso é a aposta na formação conjunta em boas práticas no uso de antibióticos, envolvendo profissionais da medicina humana e veterinária. O uso racional de antibióticos só faz sentido se for pensado de forma global e integrada. Não se trata de impor decisões, mas de ser parceiro, competente e credível.
    A minha bandeira para a próxima década é clara: não deixar escapar o One Health. Este é o espaço onde a veterinária pode e deve afirmar definitivamente o seu valor para a sociedade.

 

Patrícia Poeta
Médica veterinária especialista europeia em Microbiologia

  1. A medicina veterinária em Portugal encontra-se num ponto de inflexão. As transformações tecnológicas, sociais e económicas em curso são demasiado profundas para serem tratadas como tendências passageiras. A próxima década obrigará a profissão a tomar decisões estratégicas claras sobre o seu papel na sociedade, sobre a forma como integra tecnologia e sobre como cuida, não apenas dos animais, mas também dos próprios profissionais. O médico veterinário do futuro deverá ser um profissional integrado num ecossistema complexo de saúde, tecnologia e relações humanas. A clínica continuará a ser central, mas já não será suficiente dominar apenas a técnica. A crescente humanização dos animais de companhia, o envelhecimento da população animal e a exigência de cuidados mais personalizados colocam o veterinário no papel de gestor de saúde a longo prazo, conselheiro do bem-estar e interlocutor privilegiado entre ciência e sociedade. Neste contexto, competências como comunicação, tomada de decisão ética, gestão e liderança deixam de ser complementares para se tornarem estruturais. A capacidade de explicar limites terapêuticos, gerir expetativas e lidar com a incerteza clínica será tão importante quanto a destreza técnica. Ao mesmo tempo, a pressão emocional da profissão exige que se reconheça, finalmente, que a resiliência e o bem-estar do veterinário são condições essenciais para a qualidade do ato médico.
  2. A digitalização e a IA já estão a transformar a prática veterinária. Sistemas de apoio ao diagnóstico, telemedicina, monitorização remota e automação administrativa prometem ganhos claros de eficiência e qualidade. Contudo, por outro lado, existe o risco real de a profissão adotar tecnologia de forma reativa, fragmentada ou acrítica. A confiança excessiva em algoritmos, a utilização de telemedicina sem critérios claros ou a falta de literacia digital podem fragilizar a autonomia clínica e a confiança dos tutores. Em Portugal, apesar de avanços regulatórios recentes, a preparação é desigual e muitos profissionais sentem insegurança ética e legal. A tecnologia só será uma aliada se for integrada de forma consciente, com regras claras, formação adequada e a afirmação inequívoca de que a decisão clínica continua a ser humana.
  3. Falar de sustentabilidade na medicina veterinária não é apenas falar de faturação. É falar de modelos de trabalho, de reconhecimento profissional e de qualidade de vida. O modelo económico tradicional, baseado quase exclusivamente no ato clínico presencial, mostra sinais de desgaste. Custos crescentes, margens reduzidas e expetativas irrealistas dos tutores criam um contexto de fragilidade, especialmente para clínicas pequenas. Ao mesmo tempo, a profissão enfrenta um problema silencioso, mas profundo: o desgaste emocional. Burnout, frustração e abandono da prática clínica são sinais de um sistema que precisa de ser repensado. Ignorar esta dimensão humana compromete não só os profissionais, mas também a qualidade dos cuidados prestados. Ainda assim, existem oportunidades claras. A diversificação de serviços, a medicina preventiva, os modelos híbridos (presencial e digital) e a cooperação entre profissionais podem criar um setor mais resiliente. Para isso, é necessário abandonar a ideia de que inovar é um luxo e assumir que inovar é uma condição de sobrevivência.
  4. Se houver uma decisão estratégica que a profissão veterinária em Portugal não pode adiar, é esta: definir, de forma clara e coletiva, como quer integrar a transformação digital sem perder identidade, ética e autonomia. Deixar essa definição ao mercado ou a atores externos é abdicar do controlo sobre o futuro da profissão. É tempo de assumir uma estratégia nacional que articule regulação, formação e apoio à implementação tecnológica, garantindo que todos os profissionais — e não apenas alguns — possam evoluir. Mais do que adaptar-se à mudança, a medicina veterinária portuguesa precisa de a liderar. A próxima década não será complacente com a inércia. Mas pode ser extraordinária para uma profissão que tenha a coragem de pensar criticamente, decidir estrategicamente e colocar, no centro de tudo, a saúde animal e humana — incluindo a dos próprios veterinários.

 

Jorge Moreira
Diretor-Geral
Virbac

Quais entende que são as prioridades estratégicas de I&D em saúde animal da Virbac nos próximos 10 anos e qual o contributo das mesmas para a evolução sustentada da medicina veterinária em Portugal?
As prioridades de I&D da Virbac são todas aquelas que possam melhorar o bem-estar dos animais, não só em Portugal, como no mundo inteiro, bem como todas aquelas que possam contribuir para o conceito One Health. Foi o caso nos últimos anos do Vikaly, o primeiro alimento medicamentoso para animais de companhia, bem como o primeiro tratamento para otites sem antibiótico, o Cortotic.

Como é que a Virbac reforçar a sua colaboração com veterinários, instituições científicas e entidades reguladoras e que papel deve assumir no desenvolvimento do ecossistema veterinário nacional na próxima década?
A Virbac acredita que esta colaboração é muito mais eficaz, se for uma ação conjunta da Indústria Farmacêutica Veterinária a nível associativo. Por isso é muito importante o papel da APIFVET, do qual a Virbac é um membro bastante ativo.

 

Rodolfo Oliveira Leal
Médico veterinário especialista europeu em Medicina Interna

  1. Esta pergunta é um pouco difícil de responder. A Medicina Veterinária nos últimos 10 anos evoluiu bastante e nos próximos 10 espera-se que o progresso continue. Acredito que, na clinica de animais de companhia, a setorização/especialização vai ser potenciada dado que só assim conseguimos oferecer aos tutores uma maior competência nas áreas individuais e, consequentemente, uma melhor abordagem à saúde global dos nossos animais de companhia.
    Quanto às competências, creio que o mais essencial é o aprofundamento das tão faladas “soft skills”. Cada vez mais sinto que são competências particularmente essenciais no exercício da clínica de animais de companhia. Também nos últimos 10 anos os clientes têm mudado. Temos hoje clientes/tutores exigentes, previamente informados e alguns “intimidantes”. Se não tivermos uma robustez de “soft skills” que nos permita lidar com estes clientes, rapidamente ocorre desgaste emocional e subsequentemente isso tem um impacto negativo no nosso dia-a-dia. Assim, ter as “soft skills” que nos permitam trabalhar uma maior robustez no contacto com o cliente são, a meu ver, competências cada vez mais essenciais numa profissão que se revela de desgaste emocional rápido. Só trabalhando estratégias de “soft skills” conseguiremos ultrapassar estas dificuldades e continuar a “gostar do que fazemos” a médio longo prazo.
  2. A IA divide um pouco opiniões. É certo que é particularmente útil no nosso dia a dia, mas há que saber utilizá-la e não abusar dela. Em exames de diagnóstico, claramente a IA pode ajudar-nos a otimizar a nossa abordagem, a clarificar dúvidas e abre muitas portas. Será capaz a IA de nos substituir? Tenho as minhas dúvidas. Falta-lhe o espirito crítico, a abordagem individual e a “parte humana”, tão necessária à nossa profissão. Estamos nós preparados para integrar de forma ética e eficaz? Creio que isso é possível mas há um “perigoso” nisto…! Cabe-nos dosear a IA e a sua ação no nosso dia a dia. Se permitirmos… A ética não será respeitada…
  3. Falando no meio académico (que é onde me insiro), as ameaças são a IA e o recurso à mesma para substituir o raciocínio… O que leva a uma perda de um possível espírito crítico. Também pessoalmente, acho que na era pós-covid, tudo o que é online e webinar ganhou outra dimensão! Enquanto, por um lado, isso é benéfico, ao tornar acessíveis eventos que só ocorriam em grandes centros, creio que se acaba por perder a parte humana subjacente e tão essencial ao progresso da profissão.
    Quanto às oportunidades, creio que naturalmente surgirão…! Os grandes grupos, o retorno dos especialistas, a criação de centros de referência e redes estruturadas de referência são tudo caminhos a explorar e oportunidades que têm pontos positivos e que potenciam o rigor na profissão.
  4. A valorização da profissão é, a meu ver, a decisão mais estratégica que é imperativa para o futuro em Portugal. Precisamos de ter salários mais condignos, um decréscimo do IVA e maiores regalias fiscais, numa profissão que tem de ser “melhor” reconhecida e essencial na perspetiva “uma só saúde”. Só assim conseguimos gostar (ainda mais) do que fazemos, ver-nos valorizados enquanto profissão e potenciar o seu enquadramento na sociedade.

 

Karla Pinto
Médica, acupunturista e canabinologista veterinária

  1. Eu acho que caminhamos para uma veterinária centrada na qualidade de vida. A empatia, a comunicação honesta, o pensamento crítico e a capacidade de personalizar cada decisão serão tão essenciais quanto qualquer nova tecnologia. No meu dia a dia, uma vez que basicamente atuo no diagnóstico e tratamento da dor e cuidados paliativos, vejo como o rigor científico só ganha sentido quando se encontra com a proximidade, o cuidado e a atenção verdadeira a cada paciente e família. É nesse encontro que a nossa profissão se torna profundamente humana.
  2. Eu penso que a IA e as novas tecnologias vão (ou já estão a) transformar profundamente a prática veterinária. Vejo um potencial enorme na imagiologia e, mais especificamente na minha área, nos softwares capazes de reconhecer expressões faciais e detetar a dor, o que acho fascinante! No entanto, como investigadora (enquanto aluna do último ano de doutoramento em Ciências Veterinárias na UTAD), vejo o reverso da medalha: na academia, a IA desafia-nos a manter a integridade perante o risco de fraude. Estaremos preparados se formos críticos e não deixarmos que a máquina substitua a nossa ética e o nosso “olho clínico”.
  3. A grande oportunidade é a especialização e a diferenciação. Áreas em crescimento como a medicina da dor, cuidados paliativos e a reabilitação física mostram que os detentores procuram qualidade de vida para os seus animais. A ameaça, para mim, é o esquecimento do fator humano. Se não cuidarmos da nossa saúde mental e não soubermos gerir o peso emocional da clínica e da investigação, a profissão perde sustentabilidade. Precisamos de ser economicamente viáveis sem perdermos a nossa alma.
  4. A decisão que não podemos adiar é cuidar, de forma séria e corajosa, da própria profissão. Precisamos garantir condições dignas para quem todos os dias carrega o peso de aliviar sofrimento, tomar decisões difíceis e defender vidas que não têm voz. Sem tempo para pensar, estudar e evoluir, e sem reconhecimento do nosso valor científico e humano, não haverá futuro sustentável para a medicina veterinária. Ao mesmo tempo, não podemos deixar que outros decidam por nós o rumo das novas terapias e da tecnologia. É urgente unirmo-nos para liderar a regulamentação do ato médico veterinário, da IA e das abordagens inovadoras, assegurando que o médico veterinário permanece no centro das decisões. Só assim protegemos o bem-estar animal, a verdade científica e a essência profundamente humana da nossa profissão.

 

Marta Sánchez de Lerin
General Manager Zoetis Portugal
Zoetis

Quais são, a seu ver, as prioridades estratégicas de I&D em saúde animal da Zoetis na próxima década, e de que forma essas prioridades podem contribuir para a evolução sustentada da medicina veterinária em Portugal?
A Zoetis encara a próxima década como uma oportunidade para consolidar a sua liderança em inovação na saúde animal, apostando em áreas estratégicas que vão ao encontro das necessidades dos médicos veterinários portugueses e do setor em geral. Em primeiro lugar, a inovação na terapêutica e no diagnóstico continuará a ser o grande motor do nosso investimento em I&D, com destaque para o desenvolvimento de soluções avançadas para doenças crónicas em animais de companhia, como a dor osteoarticular, doenças dermatológicas, renais, cardíacas e oncológicas. Juntamente com a evolução dos nossos equipamentos de diagnóstico permitirão uma medicina veterinária mais preventiva, personalizada e contribuir para a melhoria dos cuidados médico-veterinários e da qualidade de vida dos pacientes.
No setor dos animais de produção, a aposta em vacinas de última geração, genética e soluções integradas para a prevenção de doenças será fundamental para garantir a sustentabilidade alimentar, a segurança dos alimentos e o bem-estar animal. Acreditamos que estas prioridades, aliadas à forte incorporação de inteligência artificial e ferramentas digitais, vão elevar o padrão de cuidados veterinários em Portugal, promovendo uma prática baseada em evidência, com diagnósticos precoces e tratamentos eficazes.
Por fim, a sustentabilidade será transversal a todas as áreas de atuação da Zoetis, desde a redução da pegada ambiental à promoção do bem-estar animal, passando pelo apoio a cadeias de abastecimento. Estas prioridades estratégicas contribuirão para uma evolução sustentada da medicina veterinária em Portugal, alinhada com as exigências da sociedade, dos profissionais e das entidades reguladoras.

De que modo a Zoetis pode reforçar a sua colaboração com médicos veterinários, instituições científicas e entidades reguladoras e que papel deve assumir no desenvolvimento do ecossistema veterinário nacional a 10 anos?
Acreditamos que a colaboração é essencial para a evolução do ecossistema veterinário nacional. A Zoetis está empenhada em aprofundar as parcerias com médicos veterinários, universidades, centros de investigação e entidades reguladoras, promovendo programas de formação contínua e iniciativas de partilha de conhecimento. Pretendemos, assim, contribuir para a capacitação dos profissionais portugueses, facilitando o acesso à mais recente inovação e às melhores práticas.
Além disso, procuramos fortalecer o diálogo com as entidades reguladoras nacionais, nomeadamente através da APIFVET, em ações que promovam a inovação, a segurança e a sustentabilidade do setor, sempre com foco na saúde animal, humana e ambiental (o conceito One Health). A Zoetis assume o compromisso de ser um parceiro de confiança, promovendo a adoção de soluções inovadoras e sustentáveis, e contribuindo ativamente para a valorização da profissão médico-veterinária em Portugal.
Na próxima década, o nosso papel enquanto empresa líder mundial, será o de catalisador da modernização do setor, potenciando a integração das novas tecnologias, a digitalização dos serviços e o desenvolvimento de soluções que respondam aos desafios de uma sociedade tendencionalmente global e em constante mudança. Juntos, acreditamos poder criar um ecossistema médico-veterinário mais forte, inovador e preparado para o futuro.

 

Paulo Pimenta
Diretor de Operações OneVet Group

  1. O mercado veterinário tem registado um crescimento sustentado na última década, acompanhado por uma maior exigência dos tutores, que procuram cada vez mais serviços especializados e cuidados avançados.
    Esta evolução está diretamente ligada a mudanças sociais significativas. Mais pessoas vivem sozinhas, aumentando a procura por companhia animal. As gerações mais jovens têm uma maior taxa de adoção de animais. Humanização dos animais: cerca de 35% dos animais dormem na cama dos tutores, refletindo uma relação afetiva intensa. A abordagem ao animal deixou de ser apenas clínica: o animal é visto como um membro da família, muitas vezes como um filho.
    Este novo contexto exige uma transformação profunda na prática veterinária, adaptando-se a um conceito que vai muito além do modelo tradicional. É necessário preparar profissionais e estruturas para responder a esta realidade, com serviços personalizados, comunicação empática e tecnologia avançada.
  2. A IA terá um papel determinante no suporte ao diagnóstico veterinário, especialmente na área de imagiologia, com aplicações na interpretação de radiografias, ecografias, exames tomográficos e de ressonância magnética. Também na interpretação de análises laboratoriais como é o caso já de alguns novos equipamentos que realizam análises morfológicas de hematologia, exames coprológicos, citológicos, urinários ou de fluídos.
    No âmbito da gestão dos CAMV, a IA poderá otimizar processos como a gestão de chamadas e agendamento de consultas, telemedicina e organização de dados clínicos (anamnese, exame físico, diagnósticos diferenciais, exames complementares e tratamentos).
    Outra vantagem será a automatização da elaboração de relatórios médicos, poupando tempo e reduzindo carga administrativa das equipas.
    A IA também permitirá também a segmentação de animais e clientes, criando bases de dados clínicas para abordagens personalizadas, especialmente na medicina preventiva. Permitirá ainda a realização de estudos retrospetivos em diversas especialidades, o apoio à formação e ao diagnóstico, cruzando dados clínicos com informação científica atualizada.
    Contudo, é essencial reforçar que a IA deve ser vista como um suporte ao diagnóstico, nunca substituindo a validação humana constante. O papel do médico veterinário continuará a ser central na tomada de decisões clínicas.
  3. As principais ameaças ao setor em Portugal incluem os custos elevados CAMV, a dificuldade na retenção de profissionais, a falta de regulamentação laboral e os desafios relacionados com a saúde mental dos intervenientes.
    A evolução da medicina veterinária exige investimentos significativos em equipamentos modernos (imagiologia, laboratório, diagnóstico e tratamento), instalações maiores e mais eficientes, além de enfrentar uma carga fiscal elevada com uma taxa de IVA elevada, aumento dos custos com pessoal e pressão inflacionária. Estes fatores contribuem para uma crescente pressão financeira sobre os CAMV.
    Segundo um estudo do Conselho de Jovens Médicos Veterinários da OMV, quatro em cada cinco veterinários já consideraram emigrar devido a baixos salários, falta de progressão na carreira e condições de trabalho insatisfatórias. Estas dificuldades estão associadas à ausência de um contrato coletivo de trabalho e à necessidade de os profissionais gerarem valor acrescentado que sustente melhores remunerações.
    A exigência crescente dos clientes por diagnósticos rápidos e tratamentos eficazes aliada às expetativas defraudadas no exercício da profissão aumenta os níveis de stress e ansiedade entre os profissionais.
    Entre as principais oportunidades da medicina veterinária em Portugal destacam-se o crescimento sustentado do setor, a consolidação dos seguros de saúde, a formação e inovação tecnológica e a integração plena do conceito One health.
    O mercado veterinário tem demonstrado resiliência em períodos de crise, e o crescimento consistente na última década torna-o atrativo para investimentos de médio e longo prazo.
    Os seguros de saúde animal, apesar das inúmeras reservas iniciais, podem impulsionar o setor, reduzindo barreiras financeiras ao cliente, estimulando a medicina preventiva e aumentando a procura por serviços especializados.
    A formação contínua, cada vez mais acessível à classe, permite criar profissionais altamente especializados, com competências avançadas, abrindo novos nichos de mercado.
    Por fim, surtos recentes como a gripe aviária e a peste suína africana reforçam o papel essencial do médico veterinário na gestão de zoonoses e na sua integração como membro estruturante da saúde pública, consolidando o conceito One Health.
  4. A criação de um contrato coletivo de trabalho é, atualmente, a medida mais urgente para garantir a valorização e sustentabilidade da profissão veterinária em Portugal.
    Quase todas as profissões – médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, bem como setores como restauração ou hotelaria – dispõem de um estatuto de carreira que define escalões profissionais, tabelas remuneratórias e horários ajustados à natureza da atividade. Esta estrutura assegura previsibilidade e progressão na carreira.
    Na vizinha Espanha, este modelo está implementado há alguns anos. Os médicos veterinários espanhóis beneficiam de um contrato coletivo de trabalho que contempla uma estrutura da carreira médico-veterinária, escalões salariais e respetivas atualizações, gestão da formação contínua e regulamentação de horários, férias, folgas, turnos e urgências.
    A ausência deste enquadramento em Portugal coloca os profissionais em desvantagem, fragiliza a retenção de talento e compromete a evolução da profissão. A implementação de um contrato coletivo é, por isso, essencial para garantir condições dignas, progressão profissional e qualidade nos serviços prestados.

 

Paulo Teixeira
Médico veterinário e presidente do CRN da OMV

  1. Nos próximos 10 anos, o papel do médico veterinário será cada vez mais central no conceito One Health, num contexto em que a larga maioria das doenças emergentes terá origem zoonótica. O veterinário afirmar-se-á como profissional fulcral na prevenção, vigilância e controlo destas patologias, assumindo uma responsabilidade acrescida na proteção da saúde animal, humana e ambiental.
    Na clínica de animais de companhia, assistiremos a uma crescente exigência por parte dos tutores, que encaram os animais como membros da família, exigindo respostas técnicas mais diferenciadas, maior qualidade assistencial e um progressivo desenvolvimento da especialização. Os seguros de animais de companhia tenderão também a assumir um papel relevante na organização e acesso aos cuidados de saúde animal em Portugal.
    Na produção animal, a evolução para sistemas cada vez mais integrados, sustentáveis e tecnologicamente avançados reforçará a importância da profilaxia, do bem-estar animal e do maneio, permitindo que menos médicos veterinários acompanhem um número igual ou superior de animais, mas com maior responsabilidade técnica e estratégica.
    Será determinante que a profissão consiga reforçar o seu papel na sociedade, afirmando o médico veterinário como um pilar essencial da saúde pública e conquistando o reconhecimento social que corresponde à sua verdadeira relevância.
  2. A medicina veterinária, à semelhança da medicina humana, será provavelmente uma das áreas em que a substituição do trabalho humano pela “máquina” será mais longínqua – se é que alguma vez será plenamente possível. Em determinadas áreas, como a imagiologia e alguns processos diagnósticos, a IA e a digitalização serão uma ajuda decisiva para uma medicina veterinária mais rigorosa e eficiente. Tal como em todas as profissões, teremos de saber adaptar-nos e moldar-nos aos novos tempos, mas sempre com o foco central no animal e no homem. A digitalização, a IA e as novas tecnologias terão um impacto profundo na prática clínica veterinária, melhorando a capacidade diagnóstica, a monitorização de doentes, a gestão clínica e a tomada de decisão baseada em dados. Ferramentas de IA apoiarão – mas não substituirão – o julgamento clínico do médico veterinário, permitindo uma medicina mais precisa, preventiva e personalizada.
  3. A sustentabilidade da medicina veterinária em Portugal enfrenta ameaças sérias, tanto económicas como humanas. Entre elas destacam-se a pressão crescente sobre a rentabilidade dos serviços, o aumento dos custos, a concentração do mercado e, sobretudo, um problema transversal a todas as profissões de elevado valor acrescentado: a emigração e a fuga de jovens veterinários qualificados. Mais grave ainda é a incapacidade da própria profissão em fixar estes profissionais, levando muitos a abandonar a medicina veterinária poucos anos após a formação.
    Este cenário é paradoxal: Portugal apresenta um dos maiores rácios de formação de médicos veterinários por população na Europa e, ainda assim, o mercado revela uma carência real de profissionais. Encontrar resposta para este antagonismo – não formar mais, mas reter melhor – será um dos grandes desafios da próxima década, pois não interessa termos mais veterinários se aqueles que ficam não encontram na profissão as condições, o reconhecimento e a realização que esperavam.
    A isto acresce a necessidade de afirmar, na prática e não apenas no discurso, que os médicos veterinários são os profissionais mais competentes para intervir em determinadas áreas. Não basta reivindicar espaços: é necessário ocupá-los com qualidade, rigor científico, responsabilidade ética e resultados visíveis, evitando que outras profissões assumam funções que nos são próprias.
    Do ponto de vista económico, torna-se essencial acrescentar valor ao setor veterinário privado e, em paralelo, criar uma verdadeira carreira especial de médico veterinário no setor público, que reconheça a sua importância estratégica na saúde pública, na segurança alimentar e no conceito One Health.
    A sustentabilidade futura da profissão dependerá, em última análise, da capacidade de equilibrar viabilidade económica, valorização humana e relevância social, garantindo que os médicos veterinários que escolhem ficar em Portugal – e na profissão – encontrem razões concretas para o fazer.
  4. A decisão estratégica que a profissão veterinária em Portugal não pode adiar – não na próxima década, mas já nos próximos anos – é a de se organizar e afirmar de forma clara, coerente e unida como um pilar essencial da saúde pública, da economia agroalimentar e do bem-estar da sociedade.
    Isso passa, necessariamente, pela valorização económica do setor veterinário privado, pela criação de uma verdadeira carreira especial de médico veterinário no setor público e pela definição, reconhecimento e estruturação das especialidades veterinárias em Portugal, permitindo diferenciar competências, elevar a qualidade da prática clínica e alinhar a profissão com os padrões internacionais.
    Em paralelo, é fundamental investir na fixação e retenção de médicos veterinários no país e na profissão, assumindo a liderança efetiva nas áreas que nos são próprias e demonstrando, com trabalho e resultados, que somos os profissionais mais qualificados para as ocupar.
    Adiar estas decisões é continuar a formar excelentes médicos veterinários para os perder para o estrangeiro, para outras áreas profissionais ou para a frustração silenciosa de uma vocação que não encontra reconhecimento nem futuro.

 

Rosanna Cabré
Diretora Técnica
Cotecnica

Quais as prioridades estratégicas de I&D da Cotecnica para a próxima década e qual o contributo das mesmas para a evolução sustentada da medicina veterinária em Portugal?
As prioridades estratégicas da Cotecnica para a próxima década centram-se – e continuarão a centrar-se – em garantir a máxima qualidade, funcionalidade e segurança nutricional dos seus produtos. Através da Ownat, a empresa aposta no desenvolvimento de formulações baseadas em ingredientes naturais, sustentáveis e de elevada qualidade, apoiadas pela inovação tecnológica, pela rastreabilidade e por critérios de sustentabilidade cada vez mais exigentes.
O investimento em I&D está orientado para alcançar o mais elevado nível possível de naturalidade, eficácia e fiabilidade nutricional, mantendo os padrões que definem a marca. Neste contexto, os alimentos funcionais desempenham um papel fundamental na gestão de necessidades específicas, como alergias, controlo de peso, saúde articular ou perturbações digestivas, consolidando a nutrição como uma ferramenta essencial para a saúde, a prevenção e a longevidade de cães e gatos.
Estas prioridades contribuem diretamente para a evolução sustentada da medicina veterinária em Portugal. A Ownat disponibiliza aos profissionais veterinários soluções nutricionais alinhadas com a evidência científica, com a prevenção e com uma abordagem clínica moderna, promovendo uma integração cada vez mais estreita entre nutrição e prática veterinária. Um exemplo claro deste compromisso é a gama Ownat Care, que continua a expandir-se em variedades e formatos, de forma a responder de modo cada vez mais preciso às necessidades de animais com requisitos especiais.
No seu conjunto, esta estratégia de investimento e inovação em nutrição animal impulsiona um modelo de medicina veterinária mais preventivo, mais científico e melhor alinhado com as expectativas dos tutores de animais de companhia em Portugal.

Como pode a Cotecnica reforçar a sua colaboração com veterinários, instituições científicas e organismos reguladores, e qual o seu papel no desenvolvimento do ecossistema veterinário nacional na próxima década?
Os cães e os gatos ocupam atualmente um lugar cada vez mais relevante no seio das famílias, o que reforça o papel do médico veterinário como figura central nos cuidados, na prevenção e na saúde animal. Neste contexto, torna-se essencial continuar a fortalecer o seu papel, prestígio e reconhecimento profissional dentro do ecossistema da saúde.
A Cotecnica pode desempenhar um papel ativo neste processo através de uma colaboração próxima e contínua com médicos veterinários, instituições científicas e organismos reguladores, assente na partilha de conhecimento, na formação contínua e no rigor científico. Este trabalho conjunto permite impulsionar a investigação, a atualização das boas práticas e a integração da nutrição como parte integrante da abordagem clínica.
Desta forma, contribui-se para a construção de um ecossistema veterinário nacional mais sólido, no qual a nutrição de qualidade, a prevenção e a evidência científica assumem um papel central no bem-estar animal ao longo da próxima década.

 

Mónica Roriz
Médica veterinária diplomada em medicina do comportamento

  1. O papel do médico veterinário tornar-se-á cada vez mais integrador e transversal. Para além da especialização e de uma base científica sólida, serão críticas competências como pensamento crítico, tomada de decisão ética, comunicação eficaz e visão global do animal como um ser biológico, emocional e social.
    A especialização é fundamental, mas não pode fazer-nos perder a essência da profissão: cuidar do animal como um todo, inserido num contexto humano e ambiental.
  2. A digitalização e a IA terão um papel crescente no apoio ao diagnóstico, na organização de dados e na otimização de processos, libertando tempo clínico.
    Na clínica de animais de companhia, esse tempo é essencial para a gestão humana das famílias, a comunicação, a contextualização e a gestão emocional dos tutores – e do próprio médico veterinário. A IA pode ser uma excelente ferramenta de apoio, mas não substitui o raciocínio clínico, o exame físico, a empatia nem a relação terapêutica.
    Na área do comportamento, esta distinção é particularmente clara: a anamnese é longa e contextualizada, os quadros são frequentemente multifatoriais, e a capacidade de integrar fatores médicos, emocionais, ambientais e relacionais continua a exigir presença humana e experiência clínica.
  3. A principal ameaça continua a ser a desvalorização humana da profissão: burnout, precariedade, excesso de carga horária e pressão emocional e económica, muitas vezes normalizadas como parte do “amor aos animais”.
    A tecnologia só será uma oportunidade se não for usada para substituir o ato médico nem para reduzir o veterinário a um gestor de dados. O exame físico, o raciocínio clínico e a relação com o tutor são insubstituíveis.
    Existem, contudo, oportunidades reais: maior reconhecimento social do bem-estar animal, integração do conceito One Health, diversificação de áreas de atuação e maior procura por cuidados especializados e personalizados. Estas mudanças devem traduzir-se em mais reconhecimento profissional e menos burnout.
  4. Colocar o bem-estar do médico veterinário no centro da sustentabilidade da profissão. Sem profissionais protegidos e valorizados, não haverá medicina veterinária de qualidade, independentemente do avanço tecnológico.

 

Rui Onça
Médico veterinário dedicado à área de ortopedia e de cirurgia

  1. Infelizmente, o nosso trabalho será cada vez mais feito entre quatro paredes, com ecrãs à frente e o médico veterinário terá de ser tecnologicamente habilitado, sendo a tecnologia e literacia digital a competência que fará a diferença na adaptação e evolução do médico veterinário. Dentro da área onde me movo, que é o ensino e prática clínica, é fácil perceber que o processo ou modo de fazer as coisas obedece a um protocolo e este modelo protocolar, associado à digitalização, fará todos nós, caminhar no sentido da automatização. Perde-se algum brilho com a automatização, mas a segurança vem primeiro! Quem não se adaptar a isto… Está feito!
  2. Venho do tempo em que num sábado fazíamos 40 consultas de forma rotineira e, por vezes, à hora de almoço, ainda fazíamos uma cirurgia não programada, emergente. Hoje em dia é totalmente impossível fazê-lo, não porque os profissionais tenham menos capacidade de trabalho, mas porque é necessário registar tudo – desde a entrada do paciente na receção, requisição/agendamento de analises e exames, historial clínico completo com registo do exame físico com os parâmetros obtidos em cada consulta, realização dos procedimentos em consulta inclusive com realização de exames que devem ser analisados com cuidado e, muitas vezes, ainda fazer um relatório desse exame dentro da própria consulta, voltar a escrever novamente acerca de tudo, relacionando os achados, falar com tutores e, por vezes ainda, elaborar um relatório clínico ou para a seguradora.
    A nossa produtividade diminuiu muito e a digitalização e a IA, irá seguramente melhorar não só a produtividade em todo este processo, motivante por um lado, mas com passos morosos e aborrecidos, que podem ser melhorados, como por exemplo a elaboração de um relatório, de forma facilitada. A sensibilidade e especificidade no diagnóstico com ajuda do IA, digitalização e machine learning seguramente irão melhorar. No tratamento novas técnicas, quer no aspeto do tratamento conservador, com novas tecnologias como a orientação espacial na colocação de implantes, fabrico de guias de corte e implantes metálicos customizados, etc., que estão à distância do desenvolvimento de software. A compreensão do que nos rodeia e a realização de tarefas é melhorada, como é possível não aceitar esta oportunidade de ser melhor por temer má prática? Também não me parece que nos vamos tornar seres mais preguiçosos, menos criativos… Vamos é enveredar por novos caminhos, mas com atenção, porque não se pode confiar demasiado!
  3. A sustentabilidade da medicina veterinária depende de um equilíbrio entre condições económicas, valorização profissional e bem-estar humano e animal. É óbvio que estas condições não estão reunidas, senão não tínhamos 40% dos médicos veterinários abaixo dos 35 anos a receberem menos de 1.250€ brutos, complicado com o facto de termos uma profissão altamente suscetível ao burnout, e agravado ainda pela fadiga da compaixão. Isto diz muita coisa. Temos de sair deste buraco!
    Posso manifestar, revelando a minha inveja, as oportunidades que deslumbro, quando penso que determinados casos clínicos que tive, poderiam ter tido um desfecho completamente diferente se tivesse à minha disposição a tecnologia e know how que tenho atualmente e a que virá num futuro próximo. Os colegas que virão depois de mim irão fazer certamente um trabalho melhor do que o meu e esta é a maior oportunidade que vejo na nossa profissão: fazer um trabalho melhor, mais preciso, em todas as áreas, desde a cirurgia à proteção da saúde pública e ambiente.
  4. Especialização e Contrato Coletivo de Trabalho. Ponto final parágrafo!

 

Eduardo de Santos
Co-Founder & CEO
Vetnova

Quais considera serem as prioridades estratégicas de I&D da Vetnova na próxima década, e de que forma essas prioridades podem contribuir para a evolução sustentada da medicina veterinária em Portugal?
Ao longo da próxima década, a Vetnova deverá focar os seus investimentos e a I&D em inovação prática, sempre suportada por evidência científica e construída a partir da escuta ativa das necessidades dos médicos veterinários, com um desenvolvimento atualmente direcionado para produtos para animais de companhia e cavalos. Embora a empresa ainda não atue na área dos animais de produção, essa possibilidade não está excluída para o futuro, sempre que fizer sentido do ponto de vista científico e clínico.
Isso passa pelo desenvolvimento de novas opções terapêuticas e de formas de administração mais simples e fáceis de usar, pensadas para melhorar a eficácia dos tratamentos, a palatabilidade e a adesão por parte dos tutores, tornando os produtos cada vez mais acessíveis ao proprietário. A Vetnova tem também uma preocupação crescente em desenvolver produtos sem ingredientes de origem animal, de forma a minimizar o risco de alergias e responder às necessidades de uma população animal cada vez mais sensível.
A empresa tem vindo a desenvolver o seu portefólio em quatro grandes categorias principais. Nos PUVs, destaca-se a área da dermatologia, com soluções para a pele e ouvidos, assim como a medicina dentária e a oftalmologia. Outra grande área é a dos suplementos, com soluções direcionadas para diferentes sistemas, como o renal, cardíaco, digestivo, entre outros. A área do comportamento animal tem igualmente vindo a crescer, com novas feromonas e suplementos que ajudam a reduzir o stress e a melhorar o bem-estar dos animais. Por fim, a categoria dos medicamentos tem ganho peso, com dois lançamentos recentes em Portugal: um medicamento para a área do comportamento em pequenos animais e outro para o controlo de parasitas externos em cavalos.
Em todas estas áreas, a aposta da Vetnova passa pela prevenção, pelo controlo das doenças crónicas e pelo desenvolvimento de soluções que contribuam para a redução do uso de antibióticos. A ideia é clara: juntar ciência sólida com soluções práticas para melhorar os resultados clínicos e o bem-estar dos animais.
Outro ponto importante é o reforço da presença da Vetnova nos diferentes mercados, incluindo Portugal, e uma maior integração a nível local. Isto permite que os médicos veterinários portugueses tenham acesso mais rápido a produtos inovadores, a dados clínicos relevantes para a realidade nacional e a um apoio técnico mais próximo e ajustado à prática veterinária em Portugal.

De que forma pode a Vetnova reforçar a sua colaboração com médicos veterinários, instituições científicas e entidades reguladoras, e que papel devem estes intervenientes assumir no desenvolvimento do ecossistema veterinário nacional nos próximos 10 anos?
A Vetnova foi evoluindo para lá de uma relação apenas comercial com os médicos veterinários e passou a apostar num verdadeiro modelo de co-criação, onde os clínicos participam ativamente no desenvolvimento dos produtos. Ao ouvir de perto as suas necessidades, integrar o seu feedback e envolvê-los ao longo de todo o processo, a Vetnova mantém-se fiel ao seu lema: “For pets, for vets, by vets.” O apoio à investigação em contexto real de prática clínica e a utilização de sistemas estruturados de recolha de feedback garantem que a inovação responde a desafios clínicos concretos. Neste modelo, os médicos veterinários têm um papel central, seja na validação clínica, na partilha de dados ou na promoção de uma utilização responsável e baseada em evidência científica.
Para além disso, a Vetnova contribui ativamente para o desenvolvimento sustentável das clínicas veterinárias e para a valorização do papel dos próprios veterinários. A estratégia comercial da empresa é pensada para que o valor das vendas permaneça no canal veterinário, mesmo existindo outros canais de comercialização, assegurando que o trabalho das clínicas é respeitado e protegido. Esta proteção financeira permite que os veterinários possam continuar a investir em formação, tecnologia e recursos humanos, criando melhores hospitais e clínicas veterinárias e elevando a qualidade dos cuidados prestados aos animais.
A colaboração com instituições científicas e académicas assenta em parcerias de longo prazo e na partilha de conhecimento. A Vetnova co-investe em ensaios clínicos, apoia estudos científicos e incentiva a participação dos médicos veterinários em seminários, webinars e outras iniciativas de formação. Nestes espaços, líderes de opinião ajudam também a sensibilizar os tutores para novas abordagens nos cuidados de saúde animal. Só em 2025, a Vetnova marcou presença em cerca de 20 congressos em toda a Europa e em mais de 30 seminários, webinars e eventos patrocinados, reforçando o seu compromisso com a formação contínua e com a colaboração científica.

 

Mafalda Pires Gonçalves
Médica veterinária – Hospital Escolar Veterinário

  1. O papel do médico veterinário está a mudar de forma evidente. Continuamos a ser clínicos, mas assumimos cada vez mais responsabilidades como referências para os tutores, membros centrais das equipas e profissionais que tomam decisões com impacto clínico, humano e organizacional. O futuro passa por uma visão mais integrada da prática, que considere o animal, a família, a equipa e a sustentabilidade financeira das estruturas onde exercemos.
    Para além da base científica, serão decisivas competências como pensamento crítico, comunicação eficaz, literacia digital, capacidade de adaptação e noções de gestão. A par disso, é fundamental reconhecer que a exigência crescente da profissão torna indispensável investir em condições de trabalho saudáveis e em estratégias que protejam a saúde mental das equipas veterinárias.
  2. A digitalização e a IA já fazem parte do nosso dia a dia e funcionam como ferramentas de apoio às consultas, à organização da informação e à eficiência dos processos. Quando bem utilizadas, podem libertar tempo e reduzir carga administrativa, contribuindo também para menor desgaste profissional. O principal desafio é garantir uma integração responsável. Isso exige formação, espírito crítico e enquadramento ético, assegurando que a tecnologia reforça o ato médico-veterinário, valoriza o raciocínio clínico e não contribui para desumanizar a prática nem aumentar a pressão sobre os profissionais.
  3. Entre as principais ameaças destacam-se a desvalorização do ato médico-veterinário, a pressão emocional constante, o burnout e a dificuldade em manter modelos de trabalho equilibrados e economicamente viáveis. Estes fatores afetam diretamente a saúde mental e a capacidade de retenção de profissionais.
    Em contrapartida, existem oportunidades claras na diferenciação dos serviços, na melhoria dos processos de gestão, na potenciação dos cuidados e serviços através de uma rede integrada entre CAMV localizados na mesma região e na reorganização das equipas e dos horários. A sustentabilidade da profissão depende de conseguirmos valorizar o nosso trabalho de forma justa, sem perder de vista o bem-estar de quem o exerce.
  4. A profissão não pode continuar a adiar a valorização clara do ato médico-veterinário, do reconhecimento desta profissão pela sociedade e a criação de modelos de exercício que protejam a saúde mental, promovam a progressão na carreira e permitam uma vida profissional equilibrada. Cuidar de quem cuida dos animais é uma decisão estratégica incontornável e não apenas um tema secundário.

 

João Oliveira
Médico veterinário pós-graduado em imagiologia

  1. Falando sobre o médico veterinário de animais de companhia, penso que será cada vez mais importante que invista na sua formação contínua e atualização de conhecimentos. Num mundo globalizado e com quantidades enormes de informação acessível através de um clique, será cada vez mais essencial uma formação sólida de base nas faculdades, para depois evoluir progressivamente para uma maior diferenciação ou especialização dentro de áreas específicas. Também será cada vez mais necessária e valorizada a comunicação eficaz com os clientes, assim como a gestão inteligente de eventuais conflitos e reclamações, que hoje em dia facilmente extravasam para o domínio público através das redes sociais.
  2. A medicina veterinária sempre foi capaz de integrar eficazmente as novas tecnologias disponíveis, tentando acompanhar de perto as melhores práticas da medicina humana. Dentro dos constrangimentos financeiros a que estamos (e estaremos) sujeitos, penso que esse trabalho tem sido feito com muito mérito pelas várias especialidades médicas e cirúrgicas de animais de companhia.
    Em relação à IA, penso que teremos de nos habituar e adaptar à sua presença, utilizando-a em nosso benefício e dos animais que tratamos. É muito importante termos noção das suas limitações, e não cair na ilusão de que esta tecnologia substitui a formação certificada e baseada na melhor evidência científica.
  3. Pergunta muito difícil de responder de forma curta e concisa. As ameaças são (quase todas) crónicas: pouca notoriedade da profissão e baixa perceção da população em geral sobre a importância da mesma na sociedade; precariedade laboral em muitos CAMV; falta de recursos humanos qualificados, jovens, disponíveis para primeiro emprego no nosso país; baixa taxa de cobertura e divulgação de seguros de saúde animal dificulta o acesso mais generalizado da população a cuidados avançados; preço muito elevado de medicamentos e nutracêuticos específicos para animais de companhia; dificuldades legislativas acerca do ato médico-veterinário, redução da taxa do IVA associado a serviços veterinários… As oportunidades também são múltiplas, cabendo a nós saber aproveitá-las: foram criadas nos últimos anos várias sociedades científicas dedicadas à divulgação de conhecimento em áreas específicas; muita oferta de formação pós-graduada no nosso país, com qualidade igual ou superior à que se oferece no resto da europa; cada vez maior disponibilidade de formação online, acessível em horário pós-laboral, que não existia até há poucos anos atrás; entrada de grupos veterinários multinacionais no nosso mercado pode funcionar como estímulo para melhorar a qualidade dos serviços, investimento em equipamento avançado, criação de redes de referenciação que beneficiem todos os elos dessa cadeia. Muito fica ainda por dizer…
  4. É importante regulamentar, certificar e valorizar a formação ao longo da vida na nossa profissão. Não faz sentido que, aos olhos da população em geral, haja alguns (felizmente cada vez mais) especialistas diplomados a trabalhar no nosso país, e depois todos os outros 99% são médicos veterinários indiferenciados. Isto gera desigualdade, equívocos, e uma falsa perceção de que somos uma profissão pouco capacitada. É necessário que algo seja feito nesse sentido, porque é uma questão de autorregulação da profissão, que os sucessivos órgãos dirigentes da OMV prometeram colocar como prioridade, e tem sido sucessivamente adiada.

 

Filipe Nunes
CEO
HiFarmax

O que identifica como prioridades estratégicas de I&D da Hifarmax nos próximos 10 anos e como podem as mesmas contribuir para a evolução sustentada da medicina veterinária em Portugal?
No ano de 2026 – tal como temos feito desde a nossa entrada no mercado português e espanhol – pautamos o nosso trabalho com investigação aprofundada de novas soluções veterinárias (alimentos compostos complementares, produtos de uso veterinário ou medicamentos veterinários) que permitam ao médico veterinário oferecer as melhores soluções para os seus pacientes. O nosso foco está em antecipar as necessidades do mercado veterinário com ferramentas seguras, eficazes e com os melhores standards de qualidade. Queremos ainda acompanhar, de forma ágil, a evolução da medicina veterinária e das novas tecnologias indo, também, ao encontro de um setor em transformação e às expectativas dos tutores.

De que modo a Hifarmax pode reforçar a sua colaboração todos os stakeholders do setor e que papel pretende assumir no desenvolvimento do ecossistema veterinário nacional na próxima década?
Neste ano, é nosso objetivo e vontade, efetuar parcerias junto de entidades de ensino, instituições científicas e projetos de investigação, dando suporte aos nossos produtos atuais e contribuindo para o desenvolvimento de novos que possam vir a servir a atividade veterinária. Contamos que esses projetos possam, envolvendo diretamente os médicos veterinários, poder tornar-se uma mais-valia para o crescimento do negócio veterinário, quer do ponto de vista financeiro quer do ponto de vista tecnológico, na atividade clínica diária.

 

Rui Patrício
Médico veterinário dedicado à área de animais exóticos

  1. A evolução do papel do médico veterinário nos próximos 10 anos, no meu entender, será um pouco imprevisível e estará sempre dependente das novas gerações, tanto de veterinários como de tutores. Considero que a adaptabilidade a novas situações, a novos contextos e às novas tecnologias será um fator preponderante e a principal competência a ter em consideração. Seria “agradável” dizer que o papel do médico veterinário será cada vez mais importante na sociedade, no entanto existem, ainda, condicionantes culturais e económicas que interferem com essa importância. Será sempre mais fácil falar da evolução nos últimos 10 anos, que certamente aponta para melhorias significativas, no entanto, a meu ver, muito lentas. Os próximos 10… Espero que sejam melhores, mas infelizmente não estou seguro disso.
  2. Como em muitas outras áreas, a IA certamente terá impacto em medicina veterinária, no entanto será da nossa responsabilidade fazer com que tenha um impacto positivo. Nunca poderemos descurar a vertente humana, pelo que devemos fazer uso da digitalização e da IA para melhorar as nossas capacidades e não para as substituir. Se soubermos gerir de forma adequada a vertente tecnológica e a vertente humana a introdução de novas tecnologias só irá melhorar as nossas capacidades. De forma ética e eficaz? Só o tempo o dirá.
  3. Ameaças e oportunidades estão certamente relacionadas com o fator económico e humano, mas a nível global. Como irá evoluir a economia e como irá evoluir a perceção que todos temos da medicina veterinária. A valorização da profissão, tema recorrente, mas ainda atual, depende muito de nós próprios e acho que ainda há muitas falhas. Acho que ainda não fazemos todos um esforço conjunto, e no mesmo sentido, para que a perceção da qualidade e do valor dos nossos serviços seja uma realidade mais ou menos óbvia e generalizada. Penso que a sustentabilidade está dependente de fatores externos, como a economia, e como já referi, da capacidade que cada um terá de se adaptar a novas realidades.
  4. Acho que a decisão estratégica mais importante é a valorização dos recursos humanos e da qualidade do serviço prestado. Não é um tema novo, é um tema recorrente, mas considero o mais importante. Com ou sem IA a criação de equipas competentes e valorizadas no seu trabalho é a estratégia a seguir. Adaptar-nos a novas realidades, utilizar a tecnologia e a IA sem vivermos dependentes de visualizações ou likes e fazer do rigor, e do cumprimento do mesmo, a decisão estratégica mais importante.

 

Xavier Canavilhas
Médico veterinário e presidente da APJMV

  1. O médico veterinário encontra-se, e encontrar-se-á de forma crescente, no centro de uma constelação de crises estruturais que definem o nosso tempo: alterações climáticas, zoonoses emergentes, resistência antimicrobiana, segurança alimentar. Isto não constitui novidade. O que muda, e muda de forma irreversível, é a exigência de uma resposta integrada que ultrapasse a especialização técnica fragmentada que nos habituámos a valorizar.
    A competência verdadeiramente crucial não será de ordem técnica, mas antes a capacidade de pensamento crítico aplicado em contexto de pressão crescente e informação abundante mas não necessariamente fiável. O médico veterinário de 2036 terá de possuir resistência intelectual suficiente para não sucumbir a lideranças messiânicas e competência analítica para distinguir evidência sólida de retórica repetida.
    Precisaremos, em suma, de profissionais capazes de se organizarem democraticamente, de construírem compromissos que funcionem na prática, e de estabelecerem relações de confiança mútua que ultrapassem a desconfiança atávica que caracteriza o nosso sector. Sem estas competências relacionais e organizativas, que insistimos erradamente em chamar “soft”, nenhuma excelência técnica nos salvará da irrelevância progressiva.
  2. A IA trará ganhos evidentes que seria desonesto negar: automatização de triagem, interpretação imagiológica com taxas de erro inferiores às humanas em determinadas condições, entre outros exemplos já comuns. Tornará também partes significativas da nossa prática obsoletas. O diagnóstico diferencial standard, os protocolos terapêuticos de rotina, a interpretação de análises laboratoriais convencionais já são ou serão em breve automatizáveis de forma mais fiável do que a nossa capacidade média.
    O risco principal não reside na tecnologia em si, mas na habituação acrítica, isto é, na confiança progressiva e não monitorizada nas respostas fornecidas pelos sistemas. Quando esta confiança se generaliza sem esta validação crítica, os erros graves são interiorizados pelos modelos e perpetuados sistemicamente, numa escala que nenhum erro humano individual conseguiria atingir.
    Existe ainda um segundo risco pouco antecipado: as ferramentas de inteligência artificial estarão progressivamente acessíveis ao público em geral, criando detentores informados ou pseudo-informados que exigirão justificações que muitos de nós não estão preparados para fornecer de forma pedagogicamente competente.
  3. A principal ameaça, convém dizê-lo sem ilusões, somos nós próprios, ou mais precisamente, a incapacidade histórica de constituirmos um corpo profissional que seja algo mais do que a soma atomizada de interesses individuais em concorrência perpétua. Criámos, por omissão ou por um individualismo que julgávamos empreendedor, as condições de possibilidade da nossa própria irrelevância. E há, naturalmente, quem saiba aproveitar estas condições com a eficácia fria de quem identifica um mercado em disfunção. Estes, que populam cada vez mais o espaço animal, não inventaram a nossa precariedade, compraram-na a preço de ocasião num mercado que nós próprios desregulamos.
    A oportunidade é simetricamente direta: escolher organização funcional, confiança mútua e compromisso coletivo sobre fragmentação individual.
  4. A decisão mais estratégica para mim é a integração formal do médico veterinário como profissional de saúde na Lei de Bases da Saúde, não por meras razões simbólicas ou de prestígio profissional, mas porque esta exclusão tem consequências práticas concretas: impede acesso a mecanismos de financiamento, bloqueia reconhecimento institucional adequado, impossibilita coordenação eficaz entre sectores da saúde, e perpetua a ideia socialmente disseminada de que saúde animal constitui uma espécie de luxo opcional e não uma necessidade clara de saúde pública. Num contexto de One Health, esta exclusão não é apenas anacrónica, é conceptualmente absurda.

 

Rita Horta Devesa
Managing Director
MSD Animal Health Portugal

Quais as prioridades estratégicas de I&D da MSD Animal Health para a próxima década e qual o seu impacto na sustentabilidade da medicina veterinária em Portugal?
Na MSD Animal Health temos uma estratégia clara para avançar na saúde animal e impulsionar a medicina veterinária. Trabalhamos para investigar, desenvolver e apresentar inovações biofarmacêuticas e soluções tecnológicas que melhorem o cuidado prestado aos animais, promovam o seu bem-estar e o das suas famílias, alinhados com o conceito One Health. Estamos a investir em tecnologia e aplicações baseadas em inteligência artificial (IA), Internet of Things (IoT) e Big Data, acelerando o desenvolvimento de soluções que elevam a qualidade de vida dos animais e reforçam a prática clínica. A medicina 4P – preditiva, preventiva, personalizada e participativa – orienta a nossa I&D, e já trouxemos para o mercado inovações como Numelvi e Bravecto injetável, que estão a transformar o cuidado médico-veterinário e a capacitar os médicos veterinários. Paralelamente, temos vindo a desenvolver soluções tecnológicas que permitem monitorizar de forma contínua a saúde e o bem-estar dos animais, antecipando riscos e suportando decisões clínicas. Nesta linha, destacam se tecnologias como Sure Petcare (comedouros e portas inteligentes, monitores de comportamento), SenseHub (monitorização animal), Allflex (identificação e rastreabilidade), e IdentiGEN – DNA TraceBack (rastreabilidade baseada em DNA), entre outras inovações. Quanto maior for a comunidade de animais conectados, mais robustos serão os padrões e insights gerados – com benefícios individuais e coletivos. Em complemento, os nossos processos de produção estão cada vez mais digitalizados, permitindo maior sustentabilidade, eficiência e qualidade, com impacto direto na segurança alimentar e na confiança do consumidor.

De que modo a MSD Animal Health pode reforçar a sua colaboração com os médicos veterinários, instituições científicas e organismos reguladores e que papel deve assumir no desenvolvimento do ecossistema veterinário nacional nos próximos 10 anos?
Na MSD Animal Health, estamos sempre disponíveis para aprofundar a colaboração com todos os stakeholders, com o objetivo de impulsionar o cuidado médico-veterinário, melhorar a saúde e o bem-estar dos animais e, consequentemente, proteger a saúde pública e o ambiente, de acordo com a abordagem One Health. Valorizamos parcerias transparentes, orientadas por evidência científica e dados do mundo real, que acelerem a adoção de boas práticas e soluções eficazes no terreno. De forma contínua, desenvolvemos programas de formação para médicos veterinários, bem como iniciativas de atualização científica e apoio técnico, acompanhadas pela introdução de inovações biofarmacêuticas e soluções tecnológicas capazes de transformar a prática clínica e a gestão das explorações. Estas ferramentas reforçam a capacidade de diagnóstico e intervenção, enquanto ajudam estes profissionais a crescer como negócio, com qualidade, segurança e eficiência. A MSD Animal Health é a única empresa de saúde animal que proporciona um tratamento para pulgas e carraças – Bravecto injetável – com administração exclusiva na clínica veterinária permitindo 12 meses de desparasitação. Com o lançamento de Numelvi, o único inibidor JAK registado para cães a partir dos 6 meses de idade, potenciamos a adesão ao tratamento da dermatite alérgica através de um medicamento veterinário de segunda geração com elevada seletividade para JAK1 (apenas uma administração diária desde o primeiro dia). Temos um portefólio onde 95% dos medicamentos veterinários são de prescrição e 100% dos novos lançamentos são medicamentos veterinários sujeitos a receita médico-veterinária. A realidade é que, cada vez mais, se reconhece o impacto da saúde animal na saúde pública. Nesta linha, é amplamente conhecido o trabalho ativo que desenvolvemos na prevenção de doenças zoonóticas, na vigilância epidemiológica e na rastreabilidade animal, contribuindo para a segurança alimentar e reforçando a confiança do consumidor. A nossa posição é única para liderar a abordagem One Health: atuamos em saúde animal e saúde humana, somos líderes multiespécie e somos uma das empresas que mais investe em I&D, mobilizando IA, IoT e análise de dados para gerar evidência acionável e orientar políticas de prevenção. Em realidade, quando falamos de Saúde Animal, ninguém entende como nós.

 

Miguel Lourenço
Médico veterinário e presidente do CJMV

  1. O médico veterinário deverá receber, cada vez mais, uma posição de destaque no contexto One Health, em concordância com o seu papel central na interseção entre saúde pública, saúde animal e ambiente. Esta posição será particularmente importante na vigilância e prevenção de zoonoses, na gestão responsável do uso de antimicrobianos e na promoção do bem-estar animal. Por outro lado, deveremos assistir a uma tendência crescente de especialização, com diminuição do número de clínicos gerais e aumento do número de colegas a exercer maioritariamente uma determinada área, com adaptação de conhecimentos e competências interpessoais. Estas competências interpessoais serão cada vez mais críticas na formação dos médicos veterinários, pois, num setor cada vez mais especializado e tecnologicamente avançado, será a forma como ouvimos, explicamos e acompanhamos que diferenciará um bom clínico de um bom profissional.
  2. As novas tecnologias terão um impacto profundo na profissão, não como substitutas do médico veterinário, mas como auxiliares na sua prática. A IA, por exemplo, não será apenas uma ferramenta importante de pesquisa e de diagnóstico, nomeadamente, no apoio à interpretação analítica e imagiológica, mas também um instrumento operacional e organizacional cada vez mais relevante. Por exemplo, tarefas como gestão de stocks, agendamento de consultas, elaboração de estimativas de custos, redação de relatórios, entre outras, poderão ser maioritariamente realizadas por estes softwares, libertando tempo aos profissionais. Por outro lado, a maior facilidade com que os detentores conseguem aceder à informação desafiará a prática clínica. A opinião do médico veterinário será escrutinada em detalhe, por vezes baseada em fontes não verificadas pelos detentores, por limitada literacia em saúde animal. Assim sendo, é extremamente importante que o médico veterinário continue a contribuir para formação dos detentores de animais, capacitando-os para a identificação de fontes de informação fiável e contextualizando-os relativamente às suas decisões clínicas, para que tomem consciência do trabalho imprescindível do médico veterinário. Além disso, os médicos veterinários terão também em mãos o desafio de gerir muitos dados, alguns deles pessoais, com recurso a tecnologias. Deste modo, será também importante a nossa formação, para que consigamos, neste e noutros pontos, integrar as preciosas ferramentas tecnológicas que temos disponíveis, de forma ética e eficaz.
  3. Será provável que a procura por médicos veterinários continue a crescer em Portugal nos próximos anos, criando, assim, novas oportunidades para o crescimento da profissão. Este aumento de procura verificar-se-á quer na clínica de animais de companhia, com a crescente valorização social dos mesmos e a maior disponibilidade dos tutores para investir em cuidados especializados, mas também na clínica de animais de produção, acompanhando a exigência crescente do mercado para o bem-estar animal, produtos de qualidade e rastreabilidade ao longo da cadeia, seguindo a lógica “do prado ao prato”. Também na saúde pública o médico veterinário será cada vez mais requisitado a exercer as suas funções na prevenção e controlo de zoonoses, na inspeção e segurança dos alimentos de origem animal e na vigilância sanitária e epidemiológica, a qual se reveste de especial importância num contexto de mudança ambiental.
    Por outro lado, a maior ameaça para a sustentabilidade da medicina veterinária em Portugal são as condições em que os próprios profissionais da área trabalham. Atualmente, assistimos a uma perda constante de profissionais, quer para o estrangeiro, quer para outras áreas que não a medicina veterinária. A remuneração baixa e desadequada, a elevada carga horária, frequentemente com horas-extra não compensadas, a falta de oportunidades de progressão na carreira e, acima de tudo, a deterioração da saúde mental dos profissionais da classe, levam a que Portugal corra o risco de não ter Médicos Veterinários suficientes para suprir as suas necessidades num futuro a médio prazo.
  4. Devem ser tomadas medidas que permitam a retenção de talento na área da medicina veterinária em Portugal no futuro próximo. Tal como o inquérito realizado pelo Conselho de Jovens Médicos Veterinários da OMV demonstrou, os profissionais da área até aos 35 anos sentem que existem poucas oportunidades de progressão na carreira, quer ao nível de condições laborais, quer ao nível da formação. Assim sendo, a implementação de especialidades veterinárias em Portugal deverá ser uma prioridade para os próximos anos. O estabelecimento de colégios de especialidade reconhecidos pela OMV, à semelhança da realidade aplicada noutros países da União Europeia, permitiria ampliar a oferta de formação avançada no país, promover a diferenciação técnica e melhorar a capacidade de resposta às exigências crescentes do mercado, com potencial impacto positivo na valorização salarial e na estabilidade das carreiras.

 

Nuno Renato Lima e Ana Seco
Presidente e vice-presidente da direção da AEVPORT

  1. Nos próximos 10 anos, o papel do médico veterinário evoluirá para uma função cada vez mais estratégica, centrada na tomada de decisão clínica e na articulação dos cuidados de saúde animal, assumirá responsabilidades que variam consoante o contexto de prática e o modelo organizacional. A eficácia da prática clínica dependerá crescentemente de equipas multiprofissionais bem estruturadas, onde a enfermagem veterinária assumirá um papel essencial na continuidade dos cuidados, monitorização do doente, execução técnica especializada e relação com o tutor. Para além das competências técnico-científicas, serão críticas outras aptidões transversais, como a comunicação, o trabalho em equipa, o pensamento crítico, a literacia digital e a capacidade de colaboração entre diferentes profissionais da área veterinária.
  2. A digitalização, a IA e as novas tecnologias terão um impacto significativo na prática veterinária, quer ao nível do apoio ao diagnóstico e à decisão clínica, quer na monitorização dos animais, gestão de dados e organização do trabalho clínico. A sua integração eficaz exigirá equipas preparadas, com médicos veterinários e enfermeiros veterinários formados para utilizar estas ferramentas de forma crítica, ética e complementar. A tecnologia deve ser encarada como um instrumento de suporte à decisão clínica e à qualidade dos cuidados, reforçando uma prática veterinária humanizada, centrada no bem-estar animal, na relação com o tutor e no trabalho clínico em equipa, e não como substituto do raciocínio clínico, da experiência profissional ou da relação humana entre profissionais, tutores e animais.
  3. A medicina veterinária em Portugal enfrenta desafios relevantes, como a pressão económica sobre os CAMV, a sobrecarga de trabalho, o desgaste emocional dos profissionais e a dificuldade em reter talento, aos quais se junta, de forma cada vez mais evidente, a dimensão da sustentabilidade ambiental, exigindo uma reflexão crítica sobre o impacto dos cuidados de saúde animal nos recursos, nos resíduos produzidos e nos modelos de consumo associados à prática clínica. Num contexto de One Health, não é sustentável que os sistemas de saúde contribuam para problemas ambientais que, a médio e longo prazo, afetam a saúde animal, humana e dos ecossistemas. Paralelamente, surgem oportunidades associadas à valorização crescente do bem-estar animal, à especialização técnica, à inovação tecnológica responsável e à consolidação de modelos de trabalho baseados em equipas multiprofissionais, com uma forte contribuição da Enfermagem Veterinária na eficiência, qualidade e humanização dos cuidados, bem como na implementação de práticas mais sustentáveis no dia a dia clínico. Investir em equipas equilibradas, bem definidas e ambientalmente conscientes é apostar na sustentabilidade humana, ética e ecológica das profissões veterinárias, contribuindo para uma abordagem verdadeiramente integrada e sustentável da saúde animal para as gerações futuras.
  4. A saúde animal em Portugal não pode adiar a clarificação e valorização das competências dos diferentes profissionais que integram as equipas médico-veterinárias, em particular da Enfermagem Veterinária. Neste contexto, torna-se pertinente refletir sobre a adoção de modelos organizacionais mais equilibrados, inspirados em experiências internacionais, como as observadas no Reino Unido e noutros países europeus e anglo-saxónicos, onde a distribuição de funções e o rácio entre médicos veterinários e enfermeiros veterinários têm sido associados a maior eficiência, sustentabilidade e qualidade dos cuidados. A definição de modelos de exercício profissional mais estruturados, colaborativos e sustentáveis, alinhados com a realidade da prática clínica, da formação e dos desafios ambientais e humanos da profissão, constitui uma decisão estratégica incontornável para garantir a qualidade assistencial, a atratividade das profissões veterinárias e o bem-estar no exercício profissional na próxima década.

 

Pedro Morgado
Administrador/Direção Comercial-Marketing
Univete

Quais serão as prioridades estratégicas de I&D da Univete num horizonte a 10 anos e de que forma poderão contribuir para a evolução sustentada da medicina veterinária em Portugal?
A grande missão da Univete vem sendo e será a de agregar soluções viáveis que sirvam a comunidade veterinária. Assim, continuará a ser aposta a busca por um portfólio diferenciado e inovador, mas simultaneamente, credível e sustentado pela eficácia dos resultados. A Univete mantém a sua aposta sobre os diferentes setores, visando intensificar a sua presença em três segmentos fundamentais: animais de produção, animais de companhia e biossegurança. Ambicionamos dispor de ferramentas que acrescentem valor aos serviços veterinários prestados e que permitam trabalhar mais e melhor. Manteremos assim, a nossa busca por uma medicina veterinária prática de maior precisão e ética. Desta forma, contamos também fomentar um mercado veterinário mais sustentável e cooperativo na sua vertente socioeconómica. Neste sentido, a nossa grande prioridade será a participação num cenário futuro mais preventivo e orientado para o bem-estar animal, consolidando a integração do conceito global One Health.

Como pode a Univete reforçar a sua colaboração com médicos veterinários, instituições científicas e entidades reguladoras e que papel deve assumir no desenvolvimento do ecossistema veterinário nacional na próxima década?
A Univete conta com 48 anos de caminho junto deste setor e tanto o nosso contributo como a nossa presença, sempre foram e serão ambos pautados por valores atemporais. Esta abordagem procura dar um contributo ativo sobre as necessidades reais dos médicos veterinários e do restante ecossistema envolvente. Com isto, promovemos melhores cuidados clínicos que permitem uma otimização nos impactos e resultados gerais decorrentes. Acrescentamos que ao longo do tempo, temos sabido adaptar-nos às mudanças científicas, regulamentares e sociais, mantendo uma trajetória consistente e confiável. Podemos afirmar que, recorrendo à nossa experiência, um dos objetivos será manter uma presença ativa neste mercado tão competitivo e dinâmico, como se prevê. A Univete continuará a ser uma referência nacional no mercado, continuando o seu percurso com respeito e em estreita proximidade com a classe veterinária. Assim, a maior garantia que podemos firmar para a próxima década é a de que trabalharemos sempre e mais em prol de interesses comuns que elevem toda a comunidade veterinária. Por fim, quanto ao nosso papel neste ecossistema veterinário, o mesmo é bem espelhado através do slogan que nos acompanha desde o início: Responsabilidade em saúde animal. Isto traduz o nosso compromisso, que sem dúvida, continuará assente sobre os grandes pilares da sanidade e bem-estar dos animais, sempre defendendo a interligação Uma Só Saúde, a qual se estende à saúde humana e ao ambiente.

 

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