Animais de companhia

Menos stresse, animais mais cooperantes

A abordagem low stress começa a ganhar terreno hoje em dia, consistindo num conjunto de medidas de maneio do animal e do ambiente clínico que pretendem minimizar o stresse do indivíduo. Dizem os especialistas que, com a redução de stresse, teremos animais mais cooperantes, aos quais é possível prestar mais e melhores cuidados de saúde, e clientes satisfeitos, que não hesitam em voltar.

Em Portugal, nos centros de atendimento médico-veterinários (CAMV), já se começa a aplicar a abordagem low stress, embora seja algo ainda recente e esteja em expansão, revelam Marta Vieira, Margarida Câmara e Sofia Arroube. As médicas veterinárias já utilizam a abordagem low stress no seu dia a dia e fizeram parte da comissão organizadora do evento ‘Abordagem low stress em clínica veterinária’, que aconteceu em junho, em Évora, e que foi da responsabilidade do GIECBA – Grupo de Interesse Especial em Comportamento e Bem-estar Animal, da Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC).

Segundo Margarida Câmara, existem estudos que indicam que “a visita ao CAMV pode ser um momento de stresse para os animais e para os seus tutores, que por isso evitam a situação”. Mas, ao conseguir-se “minimizar o stresse no CAMV, teremos animais mais cooperantes, aos quais é possível prestar mais e melhores cuidados de saúde; clientes que não hesitam em voltar sempre que necessário e, além disso, permite reduzir os riscos relacionados com a agressividade dirigida à equipa clínica”, remata Marta Vieira.

Avançar com esta formação que decorreu no Alentejo tornou-se num imperativo para a associação, exatamente porque, explica Sofia Arroube, “o maneio low stress nas clínicas veterinárias é um tema que está em grande desenvolvimento e cuja importância é cada vez mais reconhecida em todo o mundo”. Porém, em Portugal, “não há uma abordagem consistente em termos de formação das equipas clínicas”, garante Marta Vieira.

Este evento formativo, na opinião de Margarida Câmara, veio proporcionar “uma mais-valia para todos os profissionais que trabalham em clínica de animais de companhia, pois pretendeu dar-lhes ferramentas para lidar com o tutor de modo a que este melhore a perceção que tem sobre as visitas ao CAMV e contribuiu, igualmente, para melhorar o bem-estar dos próprios profissionais”. No fundo, acrescenta Sofia Arroube, o evento permitiu “perceber, na prática, os resultados que os profissionais têm e falar sobre diversas possibilidades de aplicação das técnicas low stress adaptadas a cada realidade”.

Low stress

Mas o que é, afinal, o maneio ou a abordagem low stress?

“Consiste numa série de medidas de maneio do animal e do ambiente clínico que tem como objetivo reduzir o stresse do indivíduo”, responde Camino Garcia-Morato, médica veterinária do Serviço de Etologia do Hospital Clínico Veterinário da Universidade Autónoma de Barcelona. “Normalmente, estas medidas são focadas no próprio dia de consulta. No entanto, embora ajudem o animal a perceber de uma forma menos aversiva/stressante a situação no centro veterinário, é necessário fornecer, igualmente, uma abordagem preventiva.”

Em suma, de acordo com a médica veterinária, que está a fazer a residência no Colégio Europeu de Bem-estar Animal e Medicina do Comportamento, a abordagem low stress visa “preparar os cães e os gatos para a sequência de eventos que geralmente geram stresse quando vão ao CAMV, que inclui, no mínimo, o transporte e tudo relacionado com a atividade veterinária”. A única maneira de os animais deixarem de percecionar a experiência clínica como algo desagradável, diz Camino Garcia-Morato, é “habituá-los a essa situação e fornecer-lhes previsibilidade em relação ao que experimentarão nesse contexto”.

Quando é chegado o momento da interação entre a equipa do CAMV e os animais, “a forma como cumprimenta os cães e gatos deve ser adequada, evitando invadir-lhes o seu espaço”

A linguagem

Os cães e os gatos comunicam principalmente “através da sua linguagem corporal, nomeadamente a posição das orelhas e da boca, os olhos, a cauda e da posição do corpo”, refere Marta Vieira. A sua colega, Margarida Câmara, continua a explicação: “Observando a linguagem corporal e o comportamento do animal em determinado contexto, poderemos perceber se determinada situação lhe causa ou não stresse”, afirma. O maneio low stress respeita as necessidades emocionais e comportamentais dos animais, garantindo que lhes são prestados os melhores cuidados clínicos possíveis, “o que favorece o bem-estar dos animais e torna as tarefas da equipa clínica mais simples e seguras”, salienta Sofia Arroube.

Assim sendo, explicam as médicas veterinárias, o maneio low stress vai desde o transporte para a clínica veterinária, a forma como as instalações do CAMV são usadas, passando pelos conhecimentos da equipa sobre comportamento geral e linguagem corporal de cães e gatos que lhes permita avaliar o estado emocional dos animais. Só aliando estes vários componentes “pode ser traçado um plano que permita fazer todas as intervenções clínicas necessárias, com o menor stresse possível de acordo com o animal, o tutor e os meios humanos e materiais disponíveis”, conclui Marta Vieira.

As técnicas

São várias as técnicas que podem ser colocadas em prática no âmbito da abordagem low stress. Margarida Câmara especifica: “Os animais podem ser treinados para estarem relaxados na transportadora e durante as viagens de carro, evitando que cheguem à clínica nervosos; podem ser colocadas nas salas de espera estruturas que permitam separar os gatos dos cães; pode-se cobrir as transportadoras dos gatos com uma toalha ou manta; seguir estratégias para evitar que animais mais nervosos estejam em contacto com os restantes enquanto esperam; e podem ser usadas feromonas para ajudar na redução do stresse tanto nas viagens como na clínica”.

Quando é chegado o momento da interação entre a equipa do CAMV e os animais, “a forma como cumprimenta os cães e gatos deve ser adequada, evitando invadir-lhes o seu espaço”, acrescenta Sofia Arroube, sublinhando que “as intervenções clínicas devem ser feitas de forma a que o animal sinta que tem escolha e controlo para evitar situações desagradáveis tanto para o animal como para as pessoas envolvidas”. As médicas veterinárias ressalvam ainda que, em casos em que os níveis de stresse sejam elevados e não é possível fazer os tratamentos necessários, podem ser usadas medicações ansiolíticas e sedativas que são dadas previamente em casa ou mesmo no momento, caso se trate de uma emergência.

É também recomendado, no âmbito do maneio low stress, que os espaços de internamento sejam separados entre espécies (cão e gato) para reduzir o stresse, indicam.

 As vantagens

As vantagens do maneio low stress são várias: “[Permite] facilitar o diagnóstico e aumentar a segurança do processo. Além de, como é óbvio, garantir o bem-estar do animal durante a permanência no centro de atendimento médico veterinário”, salienta Camino Garcia-Morato.

Por outro lado, segundo a especialista, esta abordagem minimiza os riscos para os colaboradores dos CAMV, o que melhora a segurança do pessoal. Contribui ainda para “melhorar o relacionamento com o cliente e aumentar a fidelidade”, porque muitos tutores “sentem-se stressados ​​apenas com a ideia de ter de levar o seu animal a um centro veterinário devido a experiências passadas”, elucida a também oradora do evento ‘Abordagem low stress em clínica veterinária’.

Ao trabalhar para melhorar este aspeto, Camino Garcia-Morato garante que os resultados aparecem: “É fácil aumentar sua satisfação e, em consequência, as visitas ao centro de atendimento médico veterinário”, garante.

Não obstante, apesar das mais-valias expostas, a especialista acrescenta que é preciso ter em conta que este é um investimento de tempo, não necessariamente de dinheiro: “Embora a implementação destas medidas não pressuponha um gasto económico extra, implica um maior investimento de tempo. [Há que] propor aos tutores as medidas que devem ser estabelecidas de forma preventiva e explicar como devem proceder no dia em que vão ao centro veterinário”, remata.