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Rede Vet-OncoNet: Conhecer a realidade da oncologia veterinária a bem da saúde dos animais, dos humanos e do planeta

Rede Vet-OncoNet: Conhecer a realidade da oncologia veterinária a bem da saúde dos animais, dos humanos e do planeta ©iStock

Seis anos depois de começarem a recolher os dados da atividade oncológica na medicina veterinária nacional, os responsáveis da Rede Vet-OncoNet falaram com a VETERINÁRIA ATUAL para um balanço do projeto. O interesse pela plataforma tem crescido, mas, como acontece de forma geral no panorama da investigação científica nacional, a nuvem negra da falta de financiamento está sempre num horizonte que os académicos e clínicos teimam em querer que seja mais soalheiro.

Os pressupostos foram lançados a 6 de dezembro de 2019, aquando da apresentação da Rede Vet-OncoNet (Veterinary Oncology Network): produzir evidência e conhecimento científico e dinamizar a comunicação em Oncologia animal, tendo sempre presente a perspetiva One Health. Arrancava, logo em janeiro de 2020, o website do projeto, começando oficialmente a receber os contributos dos centros de atendimento médico-veterinário (CAMV) e dos laboratórios de diagnóstico veterinário parceiros.

 

Passados seis anos, os números alcançados são expressivos: colaboram com a Vet-OncoNet em permanência seis laboratórios de diagnóstico veterinário e mais de 20 CAMV, já foram realizados cerca de 80 mil registos, que, depois de analisados e trabalhados, já resultaram na publicação, até dezembro de 2025, de 12 papers e dois documentos com o Registo Oncológico Animal (ROA).
No mês em que o projeto nascido da parceria entre o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) celebrou o 6º aniversário, a VETERINÁRIA ATUAL falou com os dois responsáveis do Grupo de Coordenação e Dinamização da iniciativa – João Niza Ribeiro, docente no ICBAS e membro da Direção do ISPUP, e Kátia Pinello, docente de Epidemiologia e Saúde Pública Veterinária no ICBAS – que recordaram o nascimento do projeto.

Kátia Pinello trabalhava na área da investigação em Oncologia veterinária na Universidade de São Paulo quando veio para Portugal no decorrer da tese de doutoramento. Com foco no linfoma não-Hodgkin – uma patologia que apresenta muitas semelhanças entre humanos e animais – o trabalho encabeçado pela investigadora, publicado no The Veterinary Journal, encontrou numa georreferenciação dos casos deste linfoma em humanos e caninos que existe uma correlação geográfica nos diagnósticos registados na região do Grande Porto. Ou seja, onde existe uma maior incidência de casos humanos de linfoma não-Hodgkin é também onde há um maior número de diagnósticos da doença em cães, sendo que as zonas urbanas do Porto, Matosinhos e Maia foram as que apresentaram maior número de diagnósticos em ambas as espécies. As conclusões apresentadas apontam para o eventual valor do cão como sentinela para a epidemiologia oncológica humana, com potenciais benefícios para ambas as espécies, e alerta para papel do meio ambiente e de potenciais agentes carcinogéneos no desenvolvimento de doenças oncológica.

 

Todavia, esta investigação teve muito trabalho manual, com os dados da Oncologia veterinária dispersos por várias fontes, de CAMV a laboratórios, ficando evidente “a necessidade de ter um sistema que respondesse muito rapidamente quantos tumores [de animais de companhia] existem em Portugal”, lembra a investigadora, à semelhança do que acontece com o Registo Oncológico Nacional (RON) para a doença humana.

“Apercebemo-nos da oportunidade que existia em Portugal de criação desta ferramenta, porque por cá não havia registo sistemático, não havia nada estruturado, aliás é assim em grande parte do Mundo, e também percebemos que havia uma grande dificuldade em termos epidemiológicos quando queríamos fazer o ajustamento dos casos para a população de animais e calcular o risco [de desenvolverem doença oncológica]”, acrescenta João Niza Ribeiro.
Afinal, uma coisa é dizer que um em cada cinco cães vão desenvolver tumores baseado em alguns dados internacionais, ou pesquisas feitas em realidades muito diferentes do que se passa nos consultórios de medicina veterinária nacionais, outra bastante diferente é saber quantos casos são diagnosticados em Portugal, em que espécie, quais os mais frequentes em cada género e que morfologias são mais comuns.

 

Uniformizar para falar a mesma linguagem
A plataforma informática da Rede Vet-OncoNet permitiu reunir a informação sobre os diagnósticos de neoplasias nos animais de companhia dos lares nacionais com os dados enviados pelos laboratórios que realizam as análises patológicas, tanto de faculdades de medicina veterinária, como os privados. “A disponibilidade dos laboratórios para colaborar, dando essa informação, é algo que tem de ser reconhecido, porque não é muito típico em empresas privadas, que não ganham com isto diretamente, alinharem neste conjunto de boas vontades”, enalteceu o responsável.

Imprescindível para a concretização deste projeto foi também o contributo da Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e do Sindicado Nacional dos Médicos Veterinários por permitirem o acesso ao Sistema de Informação de Animais de Companhia (SIAC), onde estão os dados totais dos animais de companhia com microchip – espécie, raça e idade – que servem de numerador às investigações.

 

Um passo fundamental para a qualidade de informação registada foi a publicação do Vet-ICD-O-canine-1 na Cancers, uma uniformização da classificação das patologias em cães baseado no ICD-O-3.2, o sistema de codificação de tumores utilizado para registar a morfologia (histologia) e topografia (localização) do cancro em humanos. Com este sistema de codificação, a Oncologia veterinária e a Oncologia humana passaram a falar a mesma linguagem quando se regista o diagnóstico de um doente, seja ele uma pessoa ou um cão. Nas palavras de João Niza Ribeiro, este documento “é algo único e é a uma ferramenta sem a qual não poder haver a atividade de comparação. Foi mais um passo para gerar evidência, neste caso a evidência comparada, e já temos resultados positivos”. Mas já lá iremos.

O trabalho de codificação realizado por Kátia Pinello em conjunto com outros patologistas a nível mundial culminou nesta publicação e na criação da Global Initiative for Veterinary Cancer Surveillance (GIVCS), a rede global de pesquisadores que trabalham no registo e na epidemiologia do cancro em animais de companhia, da qual a Vet-OncoNet faz parte. “Em 2026 deve sair o Vet-ICD-O 2, que é para outras espécies, isto é, felinos, cavalos, suínos, cabras”, avança a investigadora, em resultado também das recentes atualizações das codificações na Oncologia humana.

Entretanto, a plataforma passou a englobar também a Pet-OncoNet, um website onde os tutores têm acesso a informação sobre o cancro em cães – numa parceria com a Oncowaf, da Universidade de Ghent, na Bélgica – mas são ferramentas que também pode ser úteis para estudantes ou médicos veterinários.

Conhecer a realidade oncológica para trabalhar a prevenção
Depois do trabalho inicial de operacionalização da plataforma e de harmonização de linguagem científica, os frutos desse trabalho começam a brotar. A Vet-OncoNet já publicou dois relatórios com o Registo Oncológico Animal (ROA) – um em 2020 com os dados registados em 2019 e 2020, e outro com os dados de 2021 [ver caixas] – sobre os diagnósticos feitos em território nacional. A publicação do relatório anual não tem ocorrido desde então, mas a investigadora avança que pretendem retomar a regularidade do documento que dá conta da atividade anual da Oncologia veterinária nacional.

Entre os 12 trabalhos publicados com dados da Rede, conta-se a investigação sobre tumores do aparelho digestivo de cães e gatos, encabeçada por Diana Araújo, do ICBAS, cujas conclusões mostraram que a taxa de incidência de tumores digestivos foi 3,5 vezes maior em gatos do que em cães, sendo que os felinos também apresentaram 16 vezes mais risco de linfoma gastrointestinal e o dobro do risco de adenocarcinoma em comparação com os cães. Nos cães, os tumores estavam localizados principalmente no fígado e nos ductos biliares (25,8%), no reto (19,0%), no intestino delgado (13,8%) e no estômago (8,9%), enquanto nos gatos o intestino delgado foi o local primário (39,6%), seguido pelo fígado/ductos biliares (7,4%), pelo estômago (7,3%) e pelo cólon (3,5%). O linfoma foi o tipo tumoral mais comum em ambas as espécies (42,2%), seguido pelo adenocarcinoma (19,0%) e raças como o Labrador Retriever, o Pastor Alemão e o Bulldog Francês apresentaram um risco mais elevado de desenvolvimento destas patologias.

Kátia Pinello liderou outro estudo sobre os subtipos de linfomas em cães na região do Porto no qual ficou patente que os linfomas de células B são mais comuns (57,4%) do que os linfomas de células T (37,3%). Os subtipos de linfomas de células B mais frequentes foram o linfoma difuso de grandes células B (DLBCL) (16,3%) e o linfoma imunoblástico de grandes células (14%), enquanto o linfoma de zona T (21,4%) e o linfoma intestinal (18%) foram os subtipos de linfoma de células T mais comuns.

Foi também publicado um trabalho sobre a esperança de vida à nascença em cães, liderado por Helena Geraz, também do ICBAS, que aponta para os 8,91 anos a média geral observada nos cães em Portugal. O Yorkshire Terrier apresentou a média mais elevada (10,89 anos) e no espectro oposto ficou o Bulldog Francês com 6,27 anos de esperança média de vida à nascença.

Kátia Pinello ressalva que todas estas publicações “dão uma visão para o clínico tomar decisões não só de prognóstico, de tratamento, mas também de prevenção” de algumas patologias. Por exemplo, sabendo que o hemangiossarcoma é bastante frequente no Cão d’Água Português, sobretudo a partir dos sete anos, é possível falar com o tutor para um acompanhamento mais regular do animal e educar para os possíveis sinais de alerta. O mesmo pode ser aplicado ao Bulldog Francês pois, reconhece a investigadora, com o ROA “percebemos que esta raça tem uma idade de aparecimento do cancro em idade muito jovem, pelos seis, sete anos, mas com os dados do SIAC vimos que a sobrevida desta raça é muito curta, então não é que ele desenvolva a doença mais cedo, mas, dentro da expectativa de vida desse cão, essa idade é comparável com a de um Labrador que desenvolve a doença aos nove anos, mas é uma raça que pode viver até aos 14 anos”.

Outro exemplo é o Yorkshire Terrier, que apresenta maior incidência de tumores mamários. Todavia, com a classificação do Vet-ICD-O-canine-1, os investigadores perceberam que, na grande maioria dos casos, eram tumores benignos, o que dá ao clínico mais espaço de manobra na abordagem. O contrário acontece na raça Pitbull, na qual os tumores mamários são, na grande maioria, malignos e, por isso, necessitam de uma abordagem clínica mais rápida. “É também o que acontece com os gatos. Publicámos a comparação de tumores malignos e benignos entre cães e gatos e vimos que nos gatos 80% ou mais dos tumores são malignos. Por isso, quando um gato chega os oito, nove anos, é preciso tomar decisões muito mais assertivas, muito mais rápidas porque se aparecer [um tumor], há uma elevadíssima probabilidade de ser maligno”, explica Kátia Pinello.

“Publicámos a comparação de tumores malignos e benignos entre cães e gatos e vimos que nos gatos 80% ou mais dos tumores são malignos. Por isso, quando um gato chega os oito, nove anos, é preciso tomar decisões muito mais assertivas, muito mais rápidas porque se aparecer [um tumor], há uma elevadíssima probabilidade de ser maligno”
Kátia Pinello, Grupo de Coordenação e Dinamização da Rede Vet-OncoNet

Oncologia comparada: Em prol da saúde de todos
Na senda do trabalho de doutoramento de Kátia Pinello, e como prometido, a Vet-OncoNet já esteve na génese de trabalhos de Oncologia comparada entre medicina humana e medicina veterinária. Paulo Tiago Carvalho, médico veterinário que se tem diferenciado em Oncologia e fundou o serviço ambulatório Mimu.Vet, publicou na Frontiers in Veterinary Science uma comparação epidemiológica entre o tumor na mama em mulheres e em cadelas. Ao falar com a VETERINÁRIA ATUAL, o médico veterinário reconhece ter encontrado “uma correlação muito relevante entre a distribuição de tumores mamários malignos na cadela e o cancro de mama na mulher no distrito do Porto”, objetivamente naquilo a que denomina de hotspots geográficos. “Tudo o que são, basicamente, zonas mais urbanizadas, como Vila Nova de Gaia, Porto, Matosinhos e Maia”, adianta, admitindo que os dados possam “corroborar um bocadinho a ideia de que o cão pode ser usado como sentinela” para o cancro nos humanos.

“Este estudo permite pensar que não são só os fatores hormonais que envolvem o aparecimento deste tipo de tumores [na mama de mulheres e cadelas]. No fundo, existem fatores epigenéticos, ou seja, tudo que é relacionado com fatores ambientais que podem provocar alterações genéticas e levar ao aparecimento da doença”, admite Paulo Tiago Carvalho.

“Este estudo permite pensar que não são só os fatores hormonais que envolvem o aparecimento deste tipo de tumores [na mama de mulheres e cadelas]. No fundo, existem fatores epigenéticos, ou seja, tudo que é relacionado com fatores ambientais que podem provocar alterações genéticas e levar ao aparecimento da doença”
Paulo Tiago Carvalho, médico veterinário

Este trabalho, apesar das diferenças na morfologia tumoral entre mulher e a cadela, observou que existem características epidemiológicas semelhantes entre as duas espécies, nomeadamente, aponta o investigador, a “proximidade na distribuição da idade”, já que a incidência da doença na mulher ocorreu maioritariamente entre os 40 e os 69 anos e, extrapolando para a cadela, a maioria dos diagnósticos aconteceu entre os 7 e os 12 anos.

O médico veterinário destaca que, através dos dados da Vet-OncoNet, também verificou o “risco relativamente superior” de algumas raças de cães desenvolverem tumores mamários, a saber o Cocker Spaniel e o Yorkshire Terrier, enquanto as raças Pinscher e Podengo demonstraram um efeito protetor contra o desenvolvimento da patologia.

O estudo comparativo sobre tumores melanocíticos publicado na Veterinary and Comparative Oncology valeu a Catarina Alves Pinto a abertura de portas para concluir o doutoramento em melanoma canino no Japão. De passagem por Portugal, a médica veterinária abordou as conclusões do trabalho que olhou para as incidências em cães, gatos e humanos, tendo observado que o melanoma é a patologia mais frequente nas três espécies. “São muito semelhantes em tudo, na apresentação, na agressividade, são muito agressivos, passam muito facilmente para os mesmos órgãos também e são muito semelhantes também a nível histológico”, caracteriza a médica veterinária. E são igualmente semelhantes na apresentação geográfica, pois “Porto, Lisboa e Faro foram os principais distritos com maior incidência de tumores melanocíticos no geral”, o mesmo acontecendo para o melanoma. E se a incidência de doença humana e animal no Porto e em Lisboa têm correlações que já foram encontradas noutras patologias, como no trabalho de doutoramento de Kátia Pinello, “Faro foi a primeira vez que apareceu e aqui a hipótese levantada foi a exposição solar, mas não está descrito que tenha um papel no melanoma de pele em cães”, refere Catarina Alves Pinto, admitindo: “Não conseguimos concluir nada, mas são dados que abrem hipóteses de investigação no futuro”.

Este trabalho também sugere que o estrogénio pode ter um papel no desenvolvimento de tumores melanocíticos em cães uma vez que foram encontradas diferenças na incidência observada em cadelas esterilizadas e não esterilizadas – tal como parece acontecer nas mulheres, que registam maiores incidências na idade da menarca e na menopausa – sendo que nos gatos tenham sido os machos jovens a apresentar uma tendência maior para o desenvolvimento deste tipo de tumores.

Entre as raças mais predispostas ao desenvolvimento deste grupo de doenças o Golden Retriever, como esperado, destaca-se no melanoma, e o Yorkshire terrier nos melanocitomas, tendo a investigadora ficado surpreendida com a incidência mais alta registada em raças menos comuns em Portugal, nomeadamente o Shar-pei e o Leão da Rodésia.

Olhando para estes trabalhos, João Niza Ribeiro, corrobora a visão dos investigadores e reconhece que se encontraram “associações geográficas muito interessantes e algo inesperadas. Afinal, quando falamos, com os nossos colegas de Oncologia humana, eles não atribuem grande importância ao ambiente geográfico onde as pessoas vivem. Olham mais para outros determinantes, como os hábitos de saúde ou a genética, mas ao encontrarmos este tipo de associação numa dispersão geográfica permite levantar hipóteses de que podem existir outros fatores a contribuir [para o aparecimento de cancro] que, até agora, não são muito estudados”. No futuro, admite o responsável, podem perspetivar-se novas linhas de investigação que consigam interligar as incidências das várias doenças oncológicas, a genética de cada espécie e as características do ambiente que partilham cada vez com maior proximidade, isto é, a perspetiva One Health da doença oncológica que está na génese do projeto.

A opinião de Kátia Pinello vai no mesmo sentido: “Ouvimos muito dos médicos [de medicina humana] que não íamos achar nada porque o cancro de mama tem uma forte carga genética. Mas observamos que tanto em cadelas, como em mulheres a incidência é muito mais alta nos centros urbanos”, o que levanta a hipótese de o ambiente das grandes cidades ter uma influência nos disruptores endócrinos que estão por trás da doença, tanto no animal, como no humano. “No melanoma então foi muito inesperado porque não há evidência de que o sol desempenhe um papel no cancro de pele canino. Nos gatos sim, no carcinoma espinocelular, mas no melanoma não havia evidências”.

Um caminho que não se faz sem desafios
O olhar da Medicina humana para este projeto e para a Oncologia comparada, efetivamente, continua a ser de desconfiança. “Ainda estamos em caminhos paralelos. Não é fácil”, reconhece João Niza Ribeiro. Ainda assim, o IPO do Porto já acolheu investigadores da rede, premiou até uma apresentação feita pela Vet-OncoNet num evento da instituição e quem se dedica à investigação na área da Oncologia humana está, aos poucos, a abrir-se ao potencial do trabalho em conjunto.

João Niza Ribeiro também aponta a exigente vida dos médicos veterinários nos CAMV como entrave ao crescimento da participação dos clínicos na Rede. “A prática clínica é muito desafiante e nas clínicas e nos hospitais, de facto, as pessoas estão assoberbadas pelo trabalho diário. Efetivamente têm mais dificuldade em produzir dados, em extrair dados de uma forma que para nós seja útil”, explica o responsável, admitindo que, em termos operacionais, “neste momento, é o nosso maior desafio: conseguir obter, da parte das clínicas e dos hospitais, as informações e dados que lá estão”. Dados que serão fundamentais para avançar com outro objetivo da plataforma: a construção de um registo oncológico clínico com informação da prática clínica, desde o estadiamento do doente, os métodos de tratamento usados e ao desfecho de cada caso. Este registo assemelharia a informação da Oncologia veterinária à produzida pelo RON, em que cada doente tem um filme inteiro da doença – desde o diagnóstico, tratamento, recidivas, desfecho – e Kátia Pinello acredita que, com a identificação de cada animal no SIAC e com as ferramentas de Inteligência Artificial que já estão a ser testadas, em breve surgirá uma ferramenta que auxilie os clínicos neste trabalho.

Todavia, João Niza Ribeiro sinaliza “o segundo grande desafio do projeto, que é o desafio da perenidade”. Por perenidade, entenda-se financiamento que assegure a continuidade da Rede Vet-OncoNet, que tem contribuído para o aumento do conhecimento científico e consequente melhoria da evidência praticada em clínica. “Temos tentado várias possibilidades e o facto de o projeto estar vivo ao sexto ano já é uma vitória, mas estes projetos precisam ser financiados para se manterem e vamos continuar a tentar que se mantenha vivo”, assegura, acabando por reconhecer a “perspetiva conservadora” de algumas linhas de financiamento que acaba por não facilitar o andamento de iniciativas mais disruptivas e inovadoras.

“O facto de o projeto estar vivo ao sexto ano já é uma vitória, mas estes projetos precisam ser financiados para se manterem e vamos continuar a tentar que se mantenha vivo”
João Niza Ribeiro, Grupo de Coordenação e Dinamização da Rede Vet-OncoNet

“Esse realmente é o grande desafio, porque os desafios tecnológicos, hoje, são cada vez mais fáceis de ultrapassar. Os veterinários têm mostrado interesse desde o início e os tutores também, então o desafio é mesmo o financiamento. Isso acontece no mundo inteiro com os registos oncológicos animais: nascem, crescem e depois o financiamento morre e eles encerram. Temos de encontrar uma estratégia para que os registos se mantenham ativos”, corrobora Kátia Pinello.

Não obstante, já existem mais investigações a aguardar publicação. “No forno”, diz a investigadora, está a publicação sobre o cenário epidemiológico da doença oncológica nas raças de cães nacionais, em peer review já está outro trabalho sobre mastocitomas e está a ser preparada mais uma investigação de Oncologia comparada, desta feita sobre os tumores gastrointestinais em cães, gatos e humanos.

E quando se fala cada vez mais na One Health, “a Oncologia comparada deve estar incluída nesse conceito”, acrescenta Paulo Tiago Carvalho, recebendo apoios das instituições académicas e governamentais, no sentido de perceber, dentro do carácter multifatorial do cancro, que riscos epigenéticos são partilhados pelas espécies e como, eventualmente, podem ser mitigados a bem da saúde de humanos, animais e planeta.

“São estudos que abrem muitas portas para termos mais investigação que nos levem a outras respostas sobre como aparecem os tumores, o que leva ao seu aparecimento e o motivo por que alguns animais ou humanos têm uma progressão mais rápida ou não. Poderá não ser só apenas a genética e o ambiente em que vivem, o que comem também pode influenciar”, acrescenta Catarina Alves Pinto, reconhecendo a importância da Oncologia comparada entre a veterinária e a humana para o crescimento do conhecimento na Oncologia mundial.

Dados do ROA 2021: a realidade epidemiológica do cancro em animais de companhia em Portugal

7714
Número de diagnósticos de doença oncológica em animais de companhia registados na plataforma em 2021

20,3%
Percentagem de aumento de diagnósticos face ao relatório publicado em 2020

80%
A grande maioria dos registos de diagnóstico de doença oncológica foi na espécie canina

18,8%
Percentagem de registos de doença oncológica na espécie felina. Outras espécies como equídeos, roedores ou logomorfos representaram menos de 1% dos diagnósticos registados

60,8%
A grande maioria dos diagnósticos de doença oncológica em animais de companhia acontece nos animais do sexo feminino

10 anos
O pico da incidência da doença oncológica ocorreu nesta idade, tanto nos cães, como nos gatos. Praticamente metade dos tumores (48,6%) ocorre na faixa etária dos 8 aos 11 anos de idade (49,7% nos cães e 43,8% nos gatos)

53,3%
A pele foi o órgão mais acometido por tumores, representando mais de metade dos diagnósticos. A glândula mamária surge a seguir, com aproximadamente 27%. Nos cães, na terceira posição aparecem os tumores do sistema reprodutivo masculino (5,6%) e nos gatos são os tumores dos órgãos digestivos com 7,2%.

 

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