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Médicos Veterinários

“Em 2036, espero que os veterinários olhem para trás e possam dizer que escolheram a cooperação em vez da fragmentação”

“Em 2036, espero que os veterinários olhem para trás e possam dizer que escolheram a cooperação em vez da fragmentação” Direitos Reservados

A Federação de Veterinários da Europa (FVE) apresentou recentemente a sua estratégia para o período 2026-2030, definindo as prioridades que irão orientar a profissão veterinária europeia nos próximos anos, num contexto marcado por profundas transformações sociais, ambientais e tecnológicas. Em entrevista exclusiva à VETERINÁRIA ATUAL, o presidente da FVE, Siegfried Moder, vai um pouco mais além, identificando os desafios da próxima década e partilhando o desejo de que os veterinários saibam fazer as escolhas certas: “Escolhas que protejam a profissão, a prepararem para o futuro e criem oportunidades reais para a próxima geração”.

Como presidente da FVE, quando olha para o futuro a 10 anos, o que acredita que definirá o sucesso da medicina veterinária na Europa?
Quando olho para 2036, o meu desejo é ver uma profissão veterinária forte e unida, com veterinários preparados para todas as funções, incluindo a produção alimentar, a saúde pública e a medicina de animais de companhia. Espero ver colegas felizes e realizados no seu trabalho, apoiados pela inovação, a trabalhar com menos carga administrativa. Colegas reconhecidos e merecedores da confiança da sociedade pela contribuição essencial que dão para a saúde animal, a segurança alimentar e o conceito One Health. Uma profissão que trabalhe em conjunto em toda a Europa, que aprenda com a sua diversidade e que se mantenha resiliente para as gerações futuras é essencial para que esta visão se concretize.

 

A visão da FVE afirma que a profissão deve ser “digna de confiança” para salvaguardar a saúde animal, humana e planetária. Na sua opinião, qual é atualmente a principal ameaça a esse sentimento de confiança e como é que esta pode ser reforçada?
Acredito que uma das maiores ameaças à confiança atualmente é o crescente afastamento entre as expetativas da sociedade e a realidade em que os veterinários trabalham.
A confiança é reforçada quando os veterinários são claramente reconhecidos como profissionais independentes, baseados na ciência e orientados para o interesse público. Isto exige transparência, fortes padrões éticos e uma comunicação muito mais eficaz, explicando não apenas o que fazemos, mas também porque o fazemos, de uma forma acessível aos cidadãos. Implica igualmente apoiar os veterinários através de enquadramentos regulatórios e profissionais adequados, para que consigam corresponder às expetativas da sociedade. A FVE tem um papel importante na amplificação da voz da profissão e no reforço dos veterinários como atores de confiança no âmbito do One Health, num panorama informativo cada vez mais ruidoso.
Outro problema é a desinformação que, por vezes, se dissemina. Questões científicas complexas relacionadas com a saúde animal, a produção alimentar, a vacinação ou o uso de antimicrobianos são frequentemente distorcidas na Internet e nas redes sociais, minando a tomada de decisões baseada em evidência.

A medicina veterinária tem sido tradicionalmente reativa à mudança social. Acredita que a profissão está agora preparada para liderar a mudança em vez de a seguir? E porquê ou por que não?
A profissão veterinária nunca foi puramente reativa; sempre combinou liderança com adaptação. Os veterinários têm estado, há muito tempo, na linha da frente da prevenção de doenças, da segurança alimentar, do bem-estar animal e do One Health, muitas vezes antecipando necessidades da sociedade antes de estas serem plenamente reconhecidas.
O que está a mudar agora é a velocidade e a visibilidade da mudança social. Isto exige que a profissão seja mais intencional e mais vocal no seu papel de liderança. Acredito que a profissão está preparada para liderar, desde que seja apoiada por fortes enquadramentos profissionais e regulamentares, recursos adequados e uma visão clara e partilhada. Ao reforçar a sua credibilidade científica e fundamentos éticos, a medicina veterinária pode passar de liderar na prática para liderar também de forma mais visível no debate público e político.

 

A FVE acaba de lançar a sua Estratégia 2026-2030. Qual considera ser a mudança mais transformadora em relação aos ciclos estratégicos anteriores?
A mudança mais transformadora da Estratégia 2026-2030 da FVE é o foco na liderança proativa, na prevenção e na preparação, passando de uma abordagem reativa às crises para uma atuação que molda o futuro da profissão e previne doenças antes de estas surgirem. A estratégia dá prioridade ao One Health, à inovação digital, à sustentabilidade da força de trabalho e a um envolvimento mais forte com a sociedade. Baseada numa ampla contribuição dos membros, é também mais inclusiva e mais alinhada com as realidades nacionais do que nunca.

A mudança mais transformadora da Estratégia 2026-2030 da FVE é o foco na liderança proativa, na prevenção e na preparação, passando de uma abordagem reativa às crises para uma atuação que molda o futuro da profissão e previne doenças antes de estas surgirem”

 

A estratégia enfatiza a redução de encargos administrativos desnecessários. Porque se tornou a burocracia um problema tão crítico para os veterinários e que mudanças concretas fariam maior diferença?
A burocracia tornou-se um problema crítico não apenas para os veterinários, mas para muitas profissões. Embora algumas tarefas administrativas sejam necessárias para a responsabilização, a regulação e a segurança pública, a burocracia desnecessária desvia tempo e energia daquilo para que os veterinários são formados: tratar e cuidar dos animais.
Reduzir este peso significa eliminar “papelada” desnecessária e simplificar os processos de reporte dos requisitos essenciais, tornando-os mais simples, rápidos e, sempre que possível, mais digitais. Isto permite aos veterinários concentrarem-se no seu papel central, melhora a eficiência e beneficia, em última análise, a saúde animal, a saúde pública e a sociedade como um todo.

Como irá a FVE garantir que esta estratégia traz benefícios concretos para os veterinários no terreno e não apenas ao nível das políticas?
A maior parte da legislação veterinária na Europa tem origem ao nível da UE, pelo que acertar nas políticas a este nível tem um impacto direto nos veterinários de todos os países. A FVE garante que a estratégia traz benefícios concretos no terreno ao combinar influência política com apoio prático aos veterinários.
Muitas atividades da FVE são direcionadas diretamente aos veterinários, incluindo workshops sobre resistência antimicrobiana, recursos para o bem-estar mental e inquéritos como o 4.º VetSurvey, que ajudam a compreender e a responder a desafios reais. Ao estabelecer uma ligação entre a defesa dos interesses a nível europeu com ferramentas, formação e dados concretos, a FVE assegura que a sua estratégia se traduz em melhorias significativas para os veterinários em toda a Europa.

 

One Health/One Welfare é central na missão da FVE, mas a sua implementação muitas vezes fica-se pela retórica. O que precisa de mudar (política ou estruturalmente) para que os veterinários assumam plenamente este papel de liderança?
Para que os veterinários liderem em pleno o One Health e o One Welfare, é necessário que sejam reconhecidos como decisores-chave na saúde pública e animal. A sociedade e os decisores políticos precisam também de compreender que a saúde humana está intimamente ligada à saúde animal e ambiental, pelo que todas as áreas devem receber atenção e financiamento adequados para tornar o One Health numa realidade. Barreiras estruturais e silos profissionais precisam de ser ultrapassados, para que a colaboração intersetorial se torne a norma. Politicamente, isto exige uma integração mais forte da experiência veterinária na formulação de medidas e no apoio a iniciativas transversais.

No contexto das alterações climáticas, das doenças emergentes e da instabilidade geopolítica, como vê a evolução do papel do veterinário para além da prática clínica tradicional?
O papel dos veterinários está a evoluir para além da prática clínica convencional, especialmente nos três contextos que menciona. A prevenção, a vacinação, a biossegurança e a deteção precoce de doenças tornam-se cada vez mais centrais, juntamente com a adaptação das políticas e das práticas aos riscos em rápida mudança.
A FVE está a trabalhar ativamente para capacitar os veterinários a assumir estas responsabilidades alargadas – através de orientações, formação, recursos e advocacia – para que possam liderar na saúde pública, no One Health e na preparação da sociedade, protegendo animais, seres humanos e o ambiente.

A digitalização e a inteligência artificial (IA) estão a transformar os cuidados de saúde a um ritmo sem precedentes. Que oportunidades vê para a IA na medicina veterinária e onde devem ser traçados os limites profissionais e éticos?
A IA e a digitalização oferecem enormes oportunidades na medicina veterinária, desde melhoria no diagnóstico e na vigilância de doenças, até ao apoio à telemedicina, à tomada de decisões baseada em dados e aos cuidados preventivos. A Estratégia 2026-2030 da FVE destaca estas ferramentas como essenciais para melhorar a eficiência, a prática baseada na evidência e os resultados em One Health.
Ao mesmo tempo, os limites éticos e profissionais devem ser claros: a IA deve apoiar – e não substituir – o julgamento clínico, proteger os dados de clientes e pacientes e garantir a responsabilização. As orientações da FVE sobre telemedicina sublinham que os veterinários permanecem responsáveis pelas decisões clínicas e que as ferramentas digitais devem sempre complementar a competência profissional, nunca substituí-la.

Acredita que a tecnologia ajudará a restaurar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal dos veterinários, ou existe o risco de intensificar ainda mais a pressão e as expetativas?
A tecnologia tem o potencial de melhorar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal dos veterinários ao simplificar tarefas administrativas, apoiar a telemedicina e permitir fluxos de trabalho mais eficientes. Ao mesmo tempo, existe o risco de aumentar a pressão e as expetativas, se não for implementada de forma ponderada. Por isso, enquanto profissão, devemos garantir proativamente que a tecnologia é utilizada para apoiar os veterinários, reduzir encargos desnecessários e permitir que os profissionais se concentrem nos cuidados aos animais, em vez de criar novas exigências.

Como pode a FVE ajudar a garantir que a inovação tecnológica serve os veterinários e os animais, em vez de substituir o julgamento clínico ou a ligação humana?
A FVE está a trabalhar com outros atores veterinários, como a European Association of Establishments for Veterinary Education (EAEVE) e o European Board of Veterinary Specialisation (EBVS), para estabelecer orientações claras, normas e enquadramentos éticos para o uso da tecnologia, incluindo IA e telemedicina, garantindo que estas ferramentas apoiam os veterinários em vez de substituírem o julgamento clínico ou a ligação humano-animal. Trabalhamos também neste sentido com as Ordens e entidades estatutárias nacionais. Não é um trabalho fácil, dada a rápida evolução tecnológica, mas através de orientações, por exemplo no Código de Conduta, formação, recursos e aconselhamento político, a FVE capacita os veterinários para adotarem a inovação de forma segura, melhorando os cuidados e a eficiência, e mantendo sempre a responsabilidade profissional e a compaixão no centro.

A distribuição da força de trabalho e o bem-estar profissional são preocupações crescentes em toda a Europa. Que mudanças estruturais são necessárias para tornar as carreiras veterinárias mais sustentáveis e atrativas a longo prazo?
Para tornar as carreiras veterinárias sustentáveis e atrativas são necessárias mudanças estruturais que melhorem a distribuição da força de trabalho, reduzam o burnout e promovam o bem-estar profissional. Isto inclui remuneração justa, cargas de trabalho geríveis, regulação de apoio e acesso a recursos de saúde mental. Iniciativas como o portal de bem-estar mental da FVE – VetJoy.org – apoiam o bem-estar dos veterinários através de orientações práticas, apoio entre pares e recursos para lidar com as pressões profissionais. A educação e os percursos de carreira devem também preparar e reter veterinários em todos os setores, garantindo uma profissão resiliente e capaz de responder às necessidades da sociedade em toda a Europa.

Quão importante é o papel da equipa veterinária alargada no futuro da profissão e como devem a educação e a regulação evoluir para refletir esta realidade?
A equipa veterinária alargada é essencial para o futuro da profissão. O seu papel é cada vez mais reconhecido na Estratégia 2026-2030 da FVE, refletindo o facto de que cuidados veterinários de elevada qualidade dependem da colaboração de toda a equipa. A educação e a regulação devem evoluir para apoiar o desenvolvimento de competências, a progressão na carreira e o reconhecimento profissional de todos os membros da equipa. É também por isso que enfermeiros veterinários e outros profissionais foram incluídos como público-alvo adicional no 4.º VetSurvey, ajudando a FVE a compreender as suas necessidades e a garantir que as políticas e os recursos são relevantes para toda a profissão.

“A equipa veterinária alargada é essencial para o futuro da profissão. O seu papel é cada vez mais reconhecido na Estratégia 2026-2030 da FVE, refletindo o facto de que cuidados veterinários de elevada qualidade dependem da colaboração de toda a equipa”

Que competências – para além do conhecimento científico – definirão o veterinário “preparado para o futuro” na próxima década?
O veterinário “preparado para o futuro” precisará de muito mais do que conhecimento científico. Fortes competências de comunicação são essenciais para interagir com clientes, decisores políticos e o público. Liderança, competências de gestão e literacia digital serão cruciais para gerir clínicas, equipas e tecnologias emergentes. Além disso, competências em compreensão de políticas, envolvimento social e pensamento One Health permitirão aos veterinários atuar de forma proativa na saúde pública e animal, na sustentabilidade e nos desafios globais. A FVE apoia esta evolução através de orientações, formação e recursos que ajudam os veterinários a desenvolver estas competências alargadas em paralelo com a sua experiência clínica.

Considera que a educação veterinária deveria mudar de forma mais radical no sentido de preparar os diplomados nas competências de liderança, comunicação e responsabilidade social, e não apenas na excelência clínica?
A educação veterinária é, por natureza, abrangente, indo além das competências clínicas para incluir epidemiologia, One Health, saúde pública e responsabilidades sociais. Esta amplitude é uma força; é o que torna os veterinários “uma das profissões mais empregáveis do mundo”, como foi destacado num recente simpósio da FVE.
À medida que a sociedade e a profissão evoluem, a educação também deve adaptar-se, preparando os diplomados não só para a excelência clínica, mas também para a liderança, a comunicação e a tomada de decisões. A FVE está ativamente a contribuir para a revisão das “Competências do Dia 1”, garantindo que os veterinários estão preparados para estes desafios modernos, em paralelo com iniciativas globais como as lideradas pela Organização Mundial para a Saúde Animal (WOAH).

A FVE representa veterinários de 38 países com realidades muito diferentes. Como pode a liderança a nível europeu manter-se relevante para os contextos nacionais, como o de Portugal?
Embora os veterinários em toda a Europa trabalhem em contextos nacionais muito diferentes, é muito mais o que nos une do que aquilo que nos divide. Onde quer que se vá, os veterinários enfrentam, em grande medida, os mesmos desafios e oportunidades – escassez de profissionais, expetativas da sociedade, bem-estar mental, sustentabilidade, digitalização e confiança na ciência.
A liderança a nível europeu mantém-se relevante ao concentrar-se nestes desafios comuns, permitindo simultaneamente flexibilidade para as realidades nacionais. A FVE pode criar valor acrescentado ao facilitar a troca de conhecimentos, partilhar boas práticas e aprender com países que já enfrentaram problemas semelhantes. Isto evita reinventar a roda e reforça as profissões nacionais através da experiência coletiva.
Ao mesmo tempo, a liderança europeia pode amplificar as vozes nacionais ao nível da UE, garantindo que realidades diversas – incluindo as de países como Portugal – são refletidas em posições comuns e nos debates políticos.

Que papel podem desempenhar os países mais pequenos na construção do futuro da medicina veterinária a nível europeu e global?
Todos os países, independentemente da sua dimensão, desempenham um papel crucial na construção do futuro da medicina veterinária. Os surtos de doenças, a resistência antimicrobiana e os desafios da segurança alimentar não conhecem fronteiras, e as lições aprendidas em qualquer país podem beneficiar toda a profissão.
Para a FVE, todos os países membros são importantes. Os países mais pequenos conseguem, por vezes, organizar-se com maior facilidade, testar abordagens inovadoras e partilhar soluções práticas. Ao contribuírem com as suas perspetivas e experiências, reforçam a colaboração veterinária europeia e global e ajudam a impulsionar o progresso para todos.

A nível pessoal, o que mais o motiva a liderar a FVE num momento tão decisivo para a profissão?
O que mais me motiva é um profundo sentido de responsabilidade para com a nossa profissão, num momento em que nunca foi tão essencial. Os veterinários estão no coração da sociedade, protegendo a saúde animal e humana, garantindo a segurança alimentar e respondendo a ameaças biológicas num mundo cada vez mais complexo. Acredito sinceramente que um mundo sem veterinários seria inimaginável. Liderar a FVE neste momento crucial dá-me a oportunidade de ajudar a preparar a nossa profissão para o futuro: apoiar colegas em toda a Europa, trabalhar em conjunto para além das fronteiras, reduzir burocracia desnecessária e garantir que novas ferramentas, como a IA, são usadas para apoiar os veterinários no seu trabalho diário, e não para os substituir. Acima de tudo, motiva-me a necessidade de deixar uma profissão forte e resiliente para a próxima geração. Uma profissão que continue a servir os animais, as pessoas e a sociedade através da abordagem One Health.

“Motiva-me a necessidade de deixar uma profissão forte e resiliente para a próxima geração. Uma profissão que continue a servir os animais, as pessoas e a sociedade através da abordagem One Health”

Se os veterinários em 2036 olharem para esta década, o que gostaria que dissessem sobre as escolhas feitas hoje?
Gostaria que os veterinários em 2036 olhassem para trás e dissessem que, durante esta década, fizemos as escolhas certas – escolhas que protegeram a profissão, a prepararam para o futuro e criaram oportunidades reais para a próxima geração. Que tivemos a visão de antecipar o que era necessário, não apenas para garantir a sustentabilidade, mas também para preservar a alegria e o significado de trabalhar como veterinário. Gostaria que sentissem que, em toda a Europa, escolhemos a cooperação em vez da fragmentação, aprendendo uns com os outros, respeitando as nossas diferenças e compreendendo que só trabalhando em conjunto podemos ser verdadeiramente fortes.

 

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