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Veterinários portugueses pelo mundo

“[Um] fator de pressão é a expectativa crescente que os clientes têm dos serviços veterinários”

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Na clínica, com um cordeiro com claudicação. Foto de Marte Svedjesten

Ana Rita Santos

Médica veterinária de pequenos e grandes animais no serviço público, Suécia

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área?

Por agora não tenho uma área definida. Trabalho nos “Distriktsveterinärerna” (Veterinários Distritais), entidade estatal, cuja função é a de assegurar serviços veterinários 24 horas por dia, todos os dias do ano. Trabalho com grandes animais e animais de companhia. Esta oportunidade surgiu no seguimento do estágio realizado no sexto ano de curso. No inverno, tenho participado como veterinária nas corridas internacionais de cães de trenó.

Porque é que resolveu tirar um mestrado em Biologia após o curso de Medicina Veterinária?

Eu concluí o mestrado em Biologia em 2005 e iniciei Medicina Veterinária (MV) em 2010. MV sempre foi o curso que desejei tirar, mas foi um projeto adiado por algum tempo. Durante esse tempo, estudei Biologia, trabalhei com o lobo e lince na Suécia e, posteriormente, trabalhei alguns anos em Portugal na indústria farmacêutica. Em 2010 voltei ao plano inicial e iniciei MV.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro? 

A ideia de trabalhar no estrangeiro esteve sempre presente desde que ingressei no curso de MV. Através do programa Erasmus, fiz o estágio curricular na Suécia em dois locais diferentes, Distriktsveterinärerna e SVA (Laboratório Nacional de Veterinária — Departamento de Parasitologia). Foi-me então oferecida a oportunidade de trabalhar durante o verão nos Distriktsveterinärerna. Esse contrato foi sendo prolongado conforme as necessidades da clínica e, um ano e meio depois, fui contratada como efetiva por uma outra clínica do mesmo grupo.

Como é que é um dia de trabalho normal para si? O que faz?

O horário normal é das 8 h às 17 h. Das 8 h às 9 h, veterinários e enfermeiros estão disponíveis ao telefone, esclarecendo questões e fazendo marcações. Às 9 h, planeamos o dia consoante as chamadas. Um ou dois veterinários estão escalados para os pequenos animais na clínica, os restantes para os animais de grande porte no campo. Além do trabalho normal, temos dois veterinários em serviço de urgência por chamada: uma vez por semana, das 17 h às 8 h da manhã do dia seguinte e, sensivelmente um fim de semana por mês, das 17 h de sexta até às 8 h da manhã de segunda-feira.

Como é que foi a adaptação a um trabalho fora de Portugal?

No meu caso, foi um pouco mais desafiante pois nunca tinha trabalhado como veterinária e iniciei atividade diretamente na Suécia sem dominar a língua. Os primeiros três a seis meses foram complicados, mas com o tempo vai-se aprendendo a língua, ganhando experiência, e os dias tornam-se mais leves. Contei também com a ajuda preciosa de alguns dos meus colegas que me ajudaram no dia a dia, quer com o trabalho, quer com a escrita dos relatórios que são obrigatoriamente em sueco. Os donos dos animais foram em geral muito compreensivos, comunicando em inglês numa fase inicial, e ensinando as expressões suecas locais.

Trabalha com pequenos e grandes animais. Ainda é muito comum na Suécia existirem clínicas mistas?

As clínicas privadas geralmente não são mistas. As clínicas mistas das quais tenho conhecimento pertencem aos Distriktsveterinärerna, que são uma parte do Jordbruksverket (Ministério da Agricultura), e estão distribuídas por todo o país num total de cerca de 80 clínicas.

Quais os seus planos para o futuro? Equaciona regressar a Portugal?

Para já pretendo continuar na Suécia. Aprecio bastante a clínica onde trabalho e os colegas, a zona onde vivo tem paisagens lindas e gosto bastante do clima do Norte. Sinto muita falta da minha família e da vida social em Portugal, mas, por mais que gostasse de regressar a casa, com base no que oiço dos meus colegas de profissão a trabalhar em Portugal, considero as condições de trabalho bastante precárias e os salários demasiado baixos para as horas de trabalho e responsabilidades inerentes à nossa função.

De que forma é que o setor de medicina veterinária na Suécia está a ser afetado pela pandemia de covid-19?

Como é do conhecimento de todos, a Suécia adotou uma estratégia totalmente diferente dos restantes países da Europa. Como tal, nós continuámos a trabalhar normalmente, com o mesmo número de marcações que seria esperado nessa altura do ano, adotando algumas medidas essenciais para proteger quer o pessoal da clínica, quer os clientes. A principal limitação que sentimos esteve relacionada com a restrição do uso de alguns medicamentos, que tiveram de ser direcionados para os hospitais de medicina humana, e também do uso de luvas e máscaras.

Que conselhos dá aos recém-licenciados em medicina veterinária que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho em Portugal?

Eu diria para não terem receio de arriscar trabalhar no estrangeiro. Pode ser desafiante no início, mas pode trazer grandes benefícios e uma experiência de vida gratificante. Não esquecer que estar longe da família, amigos e raízes culturais pode ser bastante complicado, por isso, é uma decisão muito individual dependente da personalidade de cada um.

Como é que avalia o estado atual da medicina veterinária?

Com base na minha experiência e nos relatos de amigos com a mesma profissão, quer em Portugal, quer em outros países da União Europeia, penso que seja uma profissão que se está a deteriorar. Muitas horas de trabalho, muitas noites e serviços, o nível exigido é cada vez maior, os cursos de especialização são extremamente caros e os salários são cada vez mais baixos. A carga emocional associada é elevada, pois frequentemente lidamos com o sentimento de perda. Outro fator de pressão é a expectativa crescente que os clientes têm dos serviços veterinários, e muitas vezes o veterinário tem de lidar com a falta de reconhecimento e ingratidão por parte de alguns clientes que desconhecem a complexidade e estrutura da profissão. Todas estas dificuldades estão a levar muitos colegas a desistir da profissão e a optar por áreas totalmente distintas. Felizmente, a maioria continua a ter a motivação necessária para avançar e frequentemente sentimo-nos recompensados e somos relembrados do porquê da escolha desta profissão.

LEGENDA:
Foto  de capa  – Exame clínico de um cão de trenó durante a corrida Femund 2019, na Noruega. Foto de Peter Varga/ Tying Knots ( http://www.tk-studios.com)

*Artigo publicado originalmente na edição de setembro de 2020 da VETERINÁRIA ATUAL.

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