Um projeto pioneiro junta cães abandonados e pessoas privadas de liberdade em sessões terapêuticas que beneficiam ambos, com resultados cientificamente validados. O Pelos2 mostra-nos que os cães podem, efetivamente, ser muito mais do que animais de companhia, funcionando como catalisadores de transformação pessoal e social. A iniciativa é a prova de que a reabilitação pode, e deve, ser feita a quatro patas.
Criado pela Associação Cães Pelas Pessoas, o projeto Pelos2 representa uma inovadora interseção entre bem-estar animal, psicologia e reinserção social. A iniciativa nasce da visão da DTC – Doing Things to Connect, uma escola de cães que, desde 1994, pretende ser mais do que isso, procurando transformar a relação entre humanos e animais.
Nas palavras de Inês Vieira, da DTC, “somos uma escola de cães que quer mudar a vida de cães e pessoas”. A DTC começou com serviços básicos como treino, daycare e alojamento, e foi evoluindo para uma missão mais ampla, formalizando-se como associação em 2010. Desde então, passou a investir em intervenções assistidas por animais, em contextos tão diversos quanto clínicas, escolas e, mais recentemente, estabelecimentos prisionais (EP).
A primeira experiência da DTC no sistema prisional surgiu em 2016, com o projeto-piloto Fronteiras, que introduziu cães em sessões terapêuticas com reclusas. Os objetivos passavam por promover autoestima, autoeficácia, regulação emocional e gestão de conflitos. A intervenção revelou-se tão promissora que serviu de base ao que viria a ser o projeto Pelos2.
“Os nossos cães têm competências sociais e comunicacionais muito fortes e percebemos que podiam ir além da resposta a desastres ou treino básico. Podiam ser agentes de mudança”, explica Inês Vieira.
Assim, entre 2018 e 2019, a equipa da DTC começou a desenhar o Pelos2, que foi implementado oficialmente em 2020, com financiamento da iniciativa Portugal Inovação Social, apoio da Câmara Municipal de Gaia e da Missão Continente. O projeto levou cães sem família – provenientes de Centros de Recolha Oficial (CRO) e associações locais – até aos EP, onde foram escrupulosamente emparelhados com reclusos, tendo em conta critérios de comportamento e perfil psicológico. Ao todo, entre 2020 e 2023, 365 pessoas reclusas e cerca de 100 cães participaram no programa.
  Mais do que um projeto de intervenção terapêutica, o Pelos2 representa um modelo inovador de reinserção social e reabilitação animal, em que reclusos e cães abandonados se ajudam mutuamente a encontrar novas oportunidades de vida. Para Inês Vieira, o impacto vai muito além dos dados: “Estamos a devolver humanidade às prisões e a dignidade aos animais. Ambos ganham uma nova narrativa”
“Não é qualquer cão que pode participar”, sublinha a responsável. “Selecionamos animais com perfis comportamentais equilibrados – nem muito tímidos, nem agressivos. E também os reclusos são sujeitos a critérios específicos, incluindo tempo de pena, tipo de crime e perfil cognitivo.”
Além do contacto semanal com os cães, os participantes trabalham competências relacionais e emocionais com apoio de uma equipa multidisciplinar que junta profissionais da psicologia e especialistas em treino e comportamento animal. A intervenção visa não só desenvolver capacidades nos reclusos, mas também preparar os cães para adoção futura.
Os resultados foram expressivos: 93,4% dos participantes apresentaram melhorias em pelo menos uma das 14 dimensões avaliadas, incluindo autoperceção positiva, controlo de impulsos e autorregulação emocional. Todos os dados foram recolhidos com rigor metodológico e o programa é gratuito para os beneficiários, o que garante a adesão espontânea e genuína.
“Sabemos, com base na evidência científica, que a simples presença de um cão pode baixar o cortisol, aumentar oxitocina e reduzir a tensão arterial”, refere Inês Vieira. “Estes efeitos são particularmente valiosos em contextos de privação de liberdade.”
Mais do que um projeto de intervenção terapêutica, o Pelos2 representa um modelo inovador de reinserção social e reabilitação animal, em que reclusos e cães abandonados se ajudam mutuamente a encontrar novas oportunidades de vida. Para Inês Vieira, o impacto vai muito além dos dados: “Estamos a devolver humanidade às prisões e a dignidade aos animais. Ambos ganham uma nova narrativa”.
Impacto na reabilitação dos reclusos e bem-estar dos cães
O programa Pelos2 é estruturado em ciclos de três meses, durante os quais os reclusos trabalham em binómios com os cães, desenvolvendo competências como controlo de impulsos, socialização e adaptação ao ambiente. As sessões de treino são realizadas em grupos de seis binómios, com a supervisão de profissionais da DTC Social, que inclui psicólogos e educadores caninos. Além disso, os reclusos mantêm diários de bordo, onde registam reflexões e experiências, promovendo a autoavaliação e o desenvolvimento pessoal.
A participação no programa tem demonstrado efeitos positivos na saúde mental dos reclusos, reduzindo níveis de ansiedade e agressividade e melhorando a comunicação interpessoal. Para os cães, o treino contribui para o aumento das suas competências comportamentais e sociais, tornando-os mais adaptados à vida em família e aumentando as suas probabilidades de adoção.
Estudos realizados pela I3S da Universidade do Porto confirmam que o bem-estar dos animais não é comprometido durante o programa, sendo, em muitos casos, melhorado.
Até ao momento, o projeto “Pelos 2” envolveu mais de 100 cães e 369 reclusos, com uma taxa de adoção responsável de cerca de 50%, o que é considerado um resultado positivo, especialmente tendo em conta o perfil dos cães, que são geralmente adultos e de características físicas menos procuradas.
A iniciativa tem sido bem recebida tanto pelos reclusos quanto pelas equipas técnicas dos estabelecimentos prisionais, com muitos participantes expressando o desejo de continuar a sua participação após o término dos ciclos.
O Pelos 2 exemplifica uma abordagem eficaz e humanizadora à reabilitação prisional, mostrando que é possível transformar passados negativos em futuros positivos através da colaboração entre seres humanos e animais. Este modelo de intervenção não só contribui para a reintegração social dos reclusos, mas também proporciona uma segunda oportunidade para cães que, de outra forma, poderiam permanecer em abrigos por longos períodos. O sucesso do projeto evidencia a importância de iniciativas que promovam a inclusão, a responsabilidade e o bem-estar, tanto humano quanto animal.
Capacitação e intervenção individualizada
Cada par formado por cão e recluso é cuidadosamente preparado para trabalhar em conjunto, garantindo que o acompanhamento seja feito um a um. “Por exemplo, o cão Bolinhas trabalha exclusivamente com o recluso António, o que permite um vínculo forte e uma intervenção personalizada. O progresso é avaliado periodicamente, com especial atenção à mudança comportamental do cão e do recluso, observando melhorias como a diminuição de comportamentos agressivos ou receosos”, explica Inês Vieira.
Um ponto fundamental do programa é o compromisso firmado entre jovens e equipa, onde a assiduidade e o envolvimento são essenciais. A metodologia inclui sessões de apresentação que explicam a importância da responsabilidade, da continuidade e da criação de narrativas para facilitar a adoção dos cães, assegurando que tanto os jovens como os animais beneficiam desta experiência transformadora.
Entre 2020 e 2023, o projeto enfrentou dificuldades adicionais devido à pandemia de Covid-19, especialmente no ambiente prisional, onde as restrições foram mais severas. Para mitigar esses desafios, os ciclos de intervenção foram adaptados, com trocas regulares de duplas cão-pessoa a cada três meses, sem perder a essência do programa. A impossibilidade de migração para intervenções online manteve o foco no contacto direto e na qualidade do acompanhamento.
No terreno, a implementação de projetos sociais inovadores enfrenta diversos desafios, e o Pelos2 não é exceção. Um dos principais obstáculos, segundo a responsável do projeto, é a dificuldade em levantar rondas de investimento. Apesar das oportunidades existentes, como o Portugal Inovação Social e uma rede de mecenas, as necessidades financeiras são contínuas, e os beneficiários finais — no caso, cães e pessoas — não geram receita direta.
“Tentamos envolver entidades que percebam o potencial do projeto para que possam investir e garantir a continuidade dos programas”, explica Inês Vieira. Os fundos comunitários são uma importante fonte de financiamento, mas apresentam limitações: os projetos têm, geralmente, duração máxima de 36 meses, criando um fluxo financeiro instável, sujeito a mudanças políticas e outras incertezas.
Esta instabilidade obriga a uma intervenção flexível e intercalada, com ações em diferentes locais, para garantir que o impacto se mantém constante, apesar dos desafios logísticos.
A participação no programa tem demonstrado efeitos positivos na saúde mental dos reclusos, reduzindo níveis de ansiedade e agressividade, e melhorando a comunicação interpessoal. Para os cães, o treino contribui para o aumento das suas competências comportamentais e sociais, tornando-os mais adaptados à vida em família e aumentando as suas probabilidades de adoção.
Pelos2 Teens: Expansão e validação metodológica
Desde 2022, o Pelos2 tem-se redesenhado para integrar canis dentro dos EP, como acontece atualmente no estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo. Essa integração permite otimizar o tempo de intervenção, reduzindo custos logísticos e aumentando a eficiência dos treinos, enquanto se assegura o bem-estar dos cães.
Além da continuação do trabalho com reclusos adultos, o projeto expande-se agora para atuar com jovens em centros educativos e acolhimento residencial especializado, com idades e contextos variados. O objetivo é trabalhar de forma precoce com jovens em risco, ainda antes da sua institucionalização definitiva. “Portugal não dispõe de dados específicos sobre taxas de reincidência, mas sabe-se que a maior parte das pessoas presas acaba por voltar ao sistema prisional. O projeto visa, assim, atuar nas causas e trajetórias que levam à criminalidade, incluindo jovens sob a tutela da segurança social, muitos dos quais sem antecedentes criminais, mas expostos a condições de vida vulneráveis”, avança Inês Vieira.
Depois do sucesso inicial com o programa, o foco atual é implementar o Pelos2 Teens com rigor, validando se a metodologia proposta promove mudanças reais nos jovens envolvidos. A equipa aposta numa abordagem iterativa, ajustando o número de sessões e o formato com base nos dados recolhidos durante a execução.
“A vantagem destes instrumentos de financiamento é a flexibilidade para testar e adaptar a metodologia conforme vamos percebendo o que funciona melhor”, afirma a responsável da DTC. Depois do Norte e de Lisboa, é desiderato dos mentores do Pelos2 expandir o programa para a região centro de Portugal, sempre sustentado em resultados concretos, para garantir que o modelo pode ser replicado e ajustado consoante as necessidades locais.
A tendência do bem-estar animal e o mercado pet
Apesar dos avanços, a logística continua a ser um dos maiores desafios do Pelos2 Teens. “As entidades parceiras são, muitas vezes, instituições fechadas, com pouca flexibilidade para intervenções externas. Os horários restritos dos canis e outras limitações físicas e operacionais impedem que a equipa possa estender o acompanhamento por mais horas”, sublinha Inês vieira, acrescentando que a criação de regimes permanentes para alojar os cães com a organização é uma das estratégias em análise, com o objetivo de proporcionar um ambiente mais estável e eficaz para o trabalho de ressocialização.
“No fundo, o nosso sonho é acabar com os cães em canis. O ideal seria que não fosse necessário intervir nesses espaços”, afirma.
A preocupação crescente da sociedade com o bem-estar animal tem criado um cenário favorável para projetos como o Pelos2. O setor pet, em expansão global, torna-se terreno fértil para intervenções que aliem cuidado, responsabilidade social e inovação.
“Há uma retroalimentação entre o crescimento do mercado pet e a sensibilização para o bem-estar animal”, diz a responsável. “Se conseguirmos associar isso a uma missão clara e um propósito, o impacto será ainda maior.”
A organização por detrás do projeto tem como missão transformar vidas, tanto de cães como de pessoas, procurando combater estigmas associados a ambos e promover futuros mais promissores. Para isso, investem no desenvolvimento de competências sociais, como comunicação, empatia e resiliência — as chamadas soft skills — que muitas vezes são negligenciadas, mas fundamentais para o sucesso pessoal e comunitário.
“Estamos cá para mudar vidas e fazemos isso todos os dias, procurando sempre dar um bocadinho mais”, remata Inês Vieira.

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