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Fobias sociais em cães e gatos: Articulação entre veterinários e treinadores é crucial para abordagem eficaz

Fobias sociais em cães e gatos: Articulação entre veterinários e treinadores é crucial para abordagem eficaz ©iStock

As questões relacionadas com o comportamento animal têm vindo a merecer vez mais a atenção dos tutores e, consequentemente, a chegar ao consultório do veterinário sob a forma de queixas específicas. As fobias sociais em cães e gatos estão entre as situações mais frequentes no espectro das perturbações de comportamento. O que são, quais as suas principais causas, que impacto têm no animal/tutor e como podem ser prevenidas e tratadas foi o que procurámos saber junto de médicos veterinários especialistas em comportamento animal e de treinadores que lidam com estes problemas.

As fobias sociais em animais de companhia são uma realidade cada vez mais visível nas consultas veterinárias. Em cães e gatos, este problema manifesta-se de formas distintas, refletindo as diferenças biológicas e sociais entre as duas espécies. “O cão é socialmente dependente, caça em grupo e precisa da interação; o gato é uma unidade social independente, sobrevive sozinho”, explica o médico veterinário e especialista europeu em comportamento animal, Gonçalo da Graça Pereira.
Nos cães, a fobia social é mais facilmente identificada porque se manifesta no espaço público: dificuldades nos passeios, reatividade a outros cães ou pessoas e até comportamentos agressivos. Já nos gatos, o problema desenvolve-se sobretudo dentro de casa, quando são criados grupos artificiais que não correspondem à sua natureza social. “Podem viver anos em tensão silenciosa até que, de repente, começam as brigas”, refere o clínico.
Apesar de não se poder afirmar que existem mais casos do que no passado, há uma maior procura por ajuda. Segundo o veterinário, os tutores estão mais informados e atentos, sobretudo no caso dos cães. Com os gatos, a tendência ainda é recorrer ao especialista apenas quando a situação já é extrema. Identificar sinais precoces é, por isso, fundamental: orelhas para trás, postura defensiva, lamber os lábios, tentativas de fuga ou esconderijos constantes são alertas que não devem ser ignorados.

Prevenção: Importância da socialização precoce
As causas das fobias sociais são variadas. Nos cães, a principal está nas falhas durante o período crítico de socialização, quando o cérebro está em desenvolvimento. Experiências negativas, como ruídos intensos, encontros forçados ou situações traumáticas em qualquer fase da vida, podem também desencadear fobias. Nos gatos, o problema agrava-se quando não existem zonas seguras ou locais de refúgio dentro do território.
A prevenção passa por respeitar a história natural de cada espécie. Nos cães, é essencial uma socialização positiva desde cedo, associando novos estímulos a experiências agradáveis. Nos gatos, garantir esconderijos e controlo do espaço é uma regra básica. “A janela de socialização felina é muito mais curta do que nos cães e termina cedo”, alerta Gonçalo da Graça Pereira.
Maria Batista, consultora em comportamento animal depara-se frequentemente com casos de fobias sociais em cães. “A origem destas situações está, na maioria das vezes, numa sociabilização insuficiente durante o período de vida que decorre até sensivelmente aos três meses. É uma fase em que os cães precisam de contacto variado e seguro com pessoas, cães, sons, superfícies e ambientes diferentes. O problema é que este período coincide com o calendário de vacinação, e muitos tutores evitam levar os cachorros à rua até terem todas as vacinas. Mesmo quando informados, tendem a subestimar a importância desta etapa para a construção de um cão equilibrado”, refere a profissional, que gosta de explicar que a sociabilização funciona quase como uma “vacina comportamental”: quando não é aproveitada, aumenta o risco de surgirem medos e fobias sociais mais tarde. Isto é especialmente evidente nos cães menos resilientes ou com predisposição genética para o medo, para quem esta fase precoce é ainda mais determinante, esclarece.

O papel do treinador e a necessidade de certificação da profissão
O impacto das fobias sociais na qualidade de vida é profundo. O stress prolongado afeta não apenas o comportamento, mas também o organismo. Podem surgir doenças associadas ao medo crónico, como problemas urinários, digestivos e inflamatórios. “O stress altera o funcionamento de todos os órgãos”, afirma Gonçalo da Graça Pereira, lembrando que a saúde mental influencia diretamente a saúde física.
Neste processo, o papel e a intervenção dos treinadores é crucial (ver entrevista). Para Tiago Mendonça, médico veterinário e especialista europeu em comportamento animal, estes profissionais são parte integrante da equipa de saúde animal. O problema em Portugal é a ausência de certificação oficial desta profissão. E se parece não haver consenso em torno da designação – treinador, educador ou professor –, relativamente à necessidade de certificação da profissão a nível nacional há unanimidade. “Uma aula de socialização mal conduzida pode gerar ou agravar fobias em vez de as prevenir”, alerta Gonçalo da Graça Pereira, ao mesmo tempo que critica a falta de regulamentação nas creches para animais, onde experiências traumáticas podem comprometer cães inicialmente equilibrados.
Comparativamente a outros países, Portugal encontra-se ainda em fase de consolidação nesta área. Houve avanços claros, mas persistem lacunas legais e formativas. Internacionalmente, a medicina comportamental está mais integrada na prática veterinária, enquanto em Portugal continua a ser vista, muitas vezes, como secundária. Para Gonçalo da Graça Pereira, investir em prevenção é o caminho: “Grande parte destes casos podia ser evitada com mais educação, mais formação e mais atenção à saúde mental dos animais.”

DICAS ÚTEIS DOS TREINADORES

→ Que conselhos daria a quem vai ter um cão pela primeira vez?
Maria Batista: Procure apoio logo desde o início. Fale com um treinador ou consultor em comportamento canino para preparar a chegada do cão e evitar erros comuns. O senso comum não chega para educar um cão… É preciso saber como ele aprende, comunica e reage. Uma boa orientação inicial evita muitos problemas no futuro.

Laura Pereira & Pedro Castelo: Aceitem o processo de descoberta. Procurem informar-se, ponderem bem a vossa escolha, conscientes de que há sempre um fator de imprevisibilidade que vai existir. Não vão conseguir moldar tudo à vossa vontade, mas parte da beleza de viver com um cão é testemunhar a sua individualidade.

→ Quais são os sinais de alerta que indicam que é urgente procurar ajuda?
Maria Batista: O medo é sempre um sinal de alerta. Quanto mais medroso for o cão, maior a urgência em procurar ajuda, porque o medo não desaparece sozinho — tende a agravar-se e pode evoluir para reatividade ou agressividade defensiva. Outros sinais importantes incluem evitar pessoas ou cães, congelar ou recuar nos passeios, esconder-se em casa, reagir de forma exagerada a sons ou movimentos, ou mostrar tensão constante no corpo. Também é preocupante quando o cão segue o tutor por toda a casa, não consegue relaxar sem ele, ou apresenta comportamentos desadequados quando fica sozinho — desde vocalizações intensas a destruição, eliminação ou tentativas de fuga. Quanto mais cedo houver intervenção, mais fácil é ajudar o cão a recuperar e evitar que estes sinais progridam para problemas mais complexos.

Laura Pereira & Pedro Castelo: Se o cão se recusar a sair de casa ou a colocar o arnês, se está sempre a bloquear durante os passeios, se tenta fugir de pessoas ou outros cães.

→ O que NÃO devem os tutores fazer perante um cão com medo?
Maria Batista: Não devem, em circunstância alguma, aumentar o medo do cão. Isso inclui ralhar, castigar ou utilizar qualquer técnica que cause dor ou intimidação. Um cão com medo precisa exatamente do contrário. O tutor deve ser o porto seguro do cão – alguém em quem ele confia e junto de quem se sente protegido. É essencial criar ambientes seguros, evitar exposições bruscas ao que o assusta e mostrar, com calma e delicadeza, que aquele estímulo não representa perigo real. Este processo pode demorar meses; exige paciência, consistência e disponibilidade emocional. Mas é assim que o cão recupera confiança e deixa, pouco a pouco, de reagir com medo.

Laura Pereira & Pedro Castelo: Não repreendam o cão ou apliquem punições. O cão não está a ser chato ou mal comportado, o medo é uma emoção que ele não consegue controlar.

 

Não há saúde, sem saúde mental
A medicina veterinária tem vindo a incorporar uma dimensão que durante décadas foi negligenciada: a saúde mental dos animais. Para Tiago Mendonça, dedicar-se à área do comportamento não é “uma arte abstrata” nem “encantar cães”. “É um trabalho baseado em ciência”, sublinha, lembrando que a etologia clínica assenta na fisiologia do cérebro, tal como qualquer outra especialidade médica.
Segundo o clínico, muitos problemas comportamentais surgem quando o ciclo natural da ação animal se altera. Normalmente, há uma fase de preparação, uma fase de consumo e uma fase de descanso. Quando este padrão falha — por dor ou stress intenso — o comportamento torna-se imprevisível. “Na agressividade patológica já não há comunicação prévia. O ataque acontece sem aviso”, alerta. Nestes casos, “por norma requerem a utilização de fármacos”, associados ao trabalho comportamental.
A mensagem aos colegas da medicina veterinária é clara: “Não se pode falar só de saúde física. Saúde mental é medicina.” Pede que os veterinários percam o medo e chamem especialistas quando necessário. “Não somos o colega do lado. Trabalhamos um órgão específico: o cérebro”, diz o especialista, reforçando que a etologia clínica não é marginal, mas central na medicina. A realidade portuguesa, lamenta, é tardia e curativa. “Uso aqui 80% mais fármacos do que em França. Os casos chegam demasiado tarde.” Lá, diz, a prevenção começa na criação e continua na clínica. Cá, ainda se “corre atrás do prejuízo”. Apesar das fragilidades, prefere pensar em termos de possibilidades. “Não há só problemas. Há oportunidades.” E é nesse espaço que acredita que a saúde mental animal em Portugal ainda pode crescer.

Veterinário e treinador têm que trabalhar como psiquiatra e psicólogo
Nas fobias sociais, a intervenção começa pela origem: privação sensorial, trauma ou predisposição genética. “Genética ao dia de hoje não se trata. O que tratamos é o comportamento e o estado emocional”, explica. O objetivo não é transformar o animal num ser sociável, mas ajudá-lo a tolerar o ambiente. “Eu não quero que ele seja o melhor amigo de todos. Quero que consiga estar bem, sem ansiedade/stress”, afirma Tiago Mendonça, sublinhando a importância de gerir as expetativas dos tutores.
Duas ferramentas centrais são o contra-condicionamento e a dessensibilização. No primeiro, associa-se o estímulo negativo a algo positivo; no segundo, expõe-se o animal ao estímulo em baixa intensidade e de forma repetida. “É baixa intensidade e alta frequência. Se aproximarmos demasiado, fazemos o processo contrário”, alerta.
A colaboração entre veterinários e treinadores é essencial, destaca o especialista. “Nós diagnosticamos e tratamos a saúde mental. Eles [treinadores] aplicam as técnicas no terreno”, resume Tiago Mendonça. Uma ideia corroborada pelo treinador de cães Henrique Paquete, para quem “a atuação do treinador é estratégica e multidisciplinar e o trabalho conjunto entre treinador e veterinário é como a relação entre psicólogo e psiquiatra”. Enquanto o veterinário comportamental abre uma janela de estabilização fisiológica e comportamental, o treinador entra depois para modificar o comportamento e melhorar a qualidade de vida do animal e do tutor, revela o profissional.
Por sua vez, Laura Pereira e Pedro Castelo, fundadores e treinadores da escola “O Cão Sabichão”, destacam que o trabalho com animais que sofrem de fobias sociais tem que ser “um trabalho multidisciplinar, durante o qual recorremos frequentemente à colaboração dos colegas médicos veterinários para diagnóstico e tratamento de patologias que têm impacto nestes comportamentos, assim como para avaliarem a necessidade de terapêutica com fármacos psicotrópicos”. As experiências, ressalvam, têm sido muito positivas: Felizmente temos tido a sorte de trabalhar com profissionais extremamente competentes e abertos à discussão de casos connosco com vista a atuarmos de forma complementar. Muitos casos precisam de uma equipa para assegurarmos que as “engrenagens” estão todas a funcionar na direção que materializa resultados positivos, pelo que a articulação com os profissionais de medicina veterinária é fundamental”, reforçam.

Pode uma fobia social ser curada?
“Sucesso” é uma palavra utilizada com muita cautela na abordagem das fobias sociais em cães e gatos. Questionados sobre se uma fobia social pode ser totalmente resolvida, Laura e Pedro explicam que “depende do que consideramos ‘totalmente resolvida’. É sempre possível conseguirmos melhorias quando existe colaboração por parte dos tutores, mas cada cão está no seu lugar de um espectro. Normalmente, vemos os comportamentos a diminuir de intensidade e frequência, mas não é comum vermos uma extinção completa”, esclarecem.
O envolvimento do tutor é, de acordo com Henrique Paquete, um dos fatores mais importantes neste processo. “Mais do que treinar o cão, eu treino quem se interessa em treinar, porque é o tutor que vai (ou não) permitir melhorar o ambiente do animal”, explica o treinador. “Se conseguirmos, pelo menos, melhorar a qualidade de vida do animal e do tutor, já é um ganho”, conclui.
De acordo com Maria Batista, na maioria dos casos, os cães com fobia social melhoram e conseguem ter vidas com qualidade, mas mantêm sempre alguma tendência natural para o medo. “A diferença é que, com intervenção adequada, esse medo deixa de interferir de forma significativa com o bem-estar e com o dia a dia”, ressalva. “O objetivo não é transformar o cão num animal extrovertido se ele não o é por natureza; é ajudá-lo a alcançar a melhor versão possível de si próprio. E isso traduz-se em mais conforto, mais segurança e mais qualidade de vida”, remata a consultora em comportamento animal.

Maria Batista, consultora em comportamento animal

“Para se trabalhar como treinador comportamentalista, estudar e ter formação sólida de base científica não é opcional!”

 

Há quanto tempo trabalha como treinadora/comportamentalista?
Comecei em 2017. No entanto, mais do que “treinadora”, trabalho sobretudo como consultora em comportamento: ajudo os tutores a compreenderem os seus cães, a treiná-los de forma eficaz e a resolverem os problemas comportamentais no dia a dia. São sempre os tutores que fazem o trabalho com o cão – eu oriento, ensino e ajusto o plano. E estes oito anos têm sido também de formação contínua, porque na área do comportamento não há mesmo outra forma de trabalhar.

Que tipo de formação tem na área do comportamento animal?
Fiz duas pós-graduações (uma em treino de animais de companhia e outra em intervenção na doença comportamental), um curso dedicado à aprendizagem social em cães e um Master Course in Aggression. Concluí recentemente um doutoramento em ciências veterinárias (aguardo apenas a defesa), no qual estudei a influência dos tutores nos problemas comportamentais dos seus cães e, em sentido inverso, o impacto que esses problemas têm na saúde mental dos tutores, num enquadramento claro de One Health. Além disso, tenho um doutoramento em psicologia social, onde também trabalhei temas relacionados com comportamento e interação humana, o que me dá uma perspetiva adicional muito útil na compreensão dos tutores e na forma como se relacionam com os seus cães.

Trabalha mais em contexto de treino básico, reabilitação comportamental, modificação de comportamento ou ambos?
O meu trabalho é quase exclusivamente em consultoria de modificação comportamental. Embora também acompanhe tutores que querem começar bem desde a fase de cachorro, esses casos são relativamente poucos. A maioria das pessoas só procura ajuda quando os comportamentos começam a interferir com a sua própria rotina ou qualidade de vida. Na prática, trabalho sobretudo com problemas comportamentais já instalados, ajudando os tutores a compreenderem as causas e a implementarem estratégias baseadas em evidência.

Qual é o tipo de casos que mais frequentemente acompanha?
Os casos mais frequentes são de reatividade a outros cães e a pessoas. Em contexto urbano, observo também muitos cães com medo de sons intensos ou imprevisíveis, como obras, trânsito ou equipamentos pesados, e cães que têm dificuldade em lidar com ambientes muito movimentados. São problemas comuns nas cidades e que causam bastante stress, tanto aos cães como aos tutores.

Já acompanhou casos em que o problema levou ao abandono do animal?
Ao abandono, que eu saiba, não. Mas, acompanhei um caso particularmente difícil em que o cão acabou por ser eutanasiado devido a reatividade grave a pessoas.
Tratava-se de um casal que tinha adotado um cão enquanto iniciava também o processo de adoção de duas crianças. Explicaram claramente a sua situação e pediram um cão pequeno e calmo. No entanto, foram encaminhados para um cão de pequeno porte, mas com reatividade severa a pessoas: atacava visitantes, saltava, mordia e chegava a ficar pendurado com os dentes. Estes casos exigem tempo, consistência e uma intervenção prolongada. A família não tinha esse tempo, porque as crianças estavam prestes a chegar e havia risco real de segurança. Tentaram encontrar uma solução alternativa, tentaram devolver o cão à instituição, mas a instituição não o aceitou de volta. Sem opções viáveis e com a chegada das crianças iminente, o cão acabou por ser eutanasiado. É uma situação muito triste para todos: o cão, obviamente, mas também para a família humana, que ficou com sofrimento e culpa apesar de só querer ajudar um animal. Por isso, considero fundamental que as organizações e canis façam uma triagem rigorosa e informada, garantindo que cada cão é encaminhado para um perfil de tutor compatível com as suas necessidades. Uma boa correspondência evita situações dolorosas como esta e protege tanto os cães como as famílias que os acolhem.

Em que fase o treinador deve intervir: prevenção, correção ou ambas?
O ideal seria que o consultor interviesse logo na fase preventiva, antes sequer de o cão chegar a casa. Preparar a família humana desde o início evita muitos erros comuns e reduziria substancialmente a probabilidade de surgirem problemas comportamentais. Na prática, porém, isso quase nunca acontece. Até a educação básica é frequentemente negligenciada, e só mais tarde, quando surgem dificuldades que interferem com a vida diária, é que os tutores procuram ajuda. Muitos destes problemas seriam perfeitamente evitáveis com uma intervenção precoce.
Felizmente, também há casos que mostram o valor da persistência e do investimento contínuo. Lembro-me de uma tutora que adotou um cão com um medo intenso de pessoas e com hipersensibilidade ao toque: não aceitava sequer o peitoral ou uma capa de chuva. Acompanhei-a durante quase um ano até termos a certeza de que o cão estava confortável e seguro. Ela teve uma paciência exemplar e seguiu cuidadosamente todas as orientações. O resultado fala por si: hoje desfruta plenamente da companhia do cão e pode levá-lo consigo para qualquer lugar. Por isso, a resposta é ambas: a prevenção seria o ideal, mas a intervenção corretiva continua a ser essencial quando os tutores chegam tarde, o que é, infelizmente, o mais comum.

Como é o trabalho conjunto entre treinadores e médicos veterinários?
Uma parte dos cães com problemas comportamentais apresenta alterações reais ao nível dos neurotransmissores – como a serotonina – que são tão físicas quanto uma perna partida. No entanto, ainda existe muita resistência por parte dos tutores em aceitar a necessidade de medicação.
É por isso fundamental que consultor e médico veterinário transmitam a mesma mensagem: a medicação não serve para “sedar” o cão. Serve para reduzir a ansiedade para níveis que permitam aprendizagem. Um cão sedado não aprende; um cão ansioso em excesso também não. Precisamos de encontrar aquele intervalo em que o cão está suficientemente calmo para conseguir processar informação, focar-se no tutor e formar novas associações. Nesses casos, o trabalho tem de ser conjunto. O médico veterinário avalia clinicamente o cão, prescreve e ajusta a medicação; eu trabalho com a família na implementação das estratégias comportamentais. Muitas vezes, só com esta combinação é possível avançar. A medicação pode ser temporária ou, nalguns casos, necessária a longo prazo para garantir qualidade de vida. O importante é compreender que estamos a tratar de um problema clínico e comportamental em simultâneo — e que o cão precisa de condições neurobiológicas para conseguir aprender aquilo que queremos ensinar-lhe.

Que tipo de formação considera essencial para um treinador que trabalha com problemas de medo e fobia?
É essencial uma formação com base científica. Não é necessário fazer investigação, como eu faço, mas é indispensável compreender o que a ciência nos diz sobre aprendizagem, emoção e bem-estar animal. Em Portugal, existe um problema estrutural: a profissão de treinador ou consultor em comportamento animal não é regulamentada. Isso significa que qualquer pessoa pode autointitular-se treinador ou consultor depois de fazer apenas um curso de treino de cães – ou, por vezes, sem formação relevante. Como não há controlo, cada um faz o que quer. Aplicam-se técnicas que prejudicam os cães e muitos tutores seguem essas indicações porque acreditam que aquela pessoa “sabe mais” do que eles.
O resultado é preocupante. Ainda existem muitos treinadores a utilizar métodos aversivos, incluindo coleiras estranguladoras e até dispositivos de choque (já proibidos por lei). Estes métodos não resolvem medos nem fobias – aumentam-nos. O cão não deixa de ter medo; apenas passa a ter ainda mais medo daquilo que o tutor lhe está a fazer. E o medo é exatamente aquilo que queremos reduzir. Apesar disso, algumas pessoas chegam até mim depois de passarem por esses métodos e dizem-me que, mesmo seguindo as orientações do treinador anterior, sentiam que “aquilo não estava bem”. Sentiam desconforto, sentiam que estavam a magoar ou assustar o cão. E procuram então ajuda para trabalhar de outra forma, baseada na ciência e no respeito pelo animal.
Por tudo isto, estudar e ter formação sólida não é opcional — é absolutamente necessário para proteger os cães e para orientar corretamente as pessoas que querem ajudá-los.

 

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