Medicina Veterinária

24 horas no bloco operatório

24 horas no bloco operatório

É um verdadeiro trabalho de equipa. Entrámos no bloco do VetOeiras – Hospital Veterinário para assistir a cirurgias diversas, programadas ou imprevisíveis, urgentes ou de rotina, e que envolvem profissionais dedicados e cuidados rigorosos de assepsia e segurança. A VETERINÁRIA ATUAL colocou a máscara cirúrgica e acompanhou no terreno algumas intervenções diferenciadas e respetivos pós-operatórios.

Começa mais um dia de cirurgias no VetOeiras – Hospital Veterinário. Antes de entrarmos para o bloco operatório, existe uma zona de preparação onde os animais são lavados e anestesiados. O médico veterinário Luís Chambel, com larga experiência na área de ortopedia e de neurologia, é conhecido pela equipa (atualmente composta por 27 pessoas) como “muito exigente e cauteloso”. É ao seu comando que vão acontecer algumas das cirurgias acompanhadas pela VETERINÁRIA ATUAL.

Para começar, a assepsia não é negociável, tal como referiu o também membro da Sociedade Europeia de Ortopedia Veterinária, na 4.ª edição do Vet Summit, realizada em Lisboa, em maio, no qual foi orador. Apesar de toda a evolução científica, as infeções cirúrgicas ainda são um problema, e no VetOeiras, tudo é acautelado para evitar a sua ocorrência.

Uma hora antes da realização de cada cirurgia, já uma equipa composta por médicos e enfermeiros veterinários é responsável pela preparação pré-cirúrgica. Fora da sala de cirurgia, os animais são tosquiados, sendo removido o pelo da zona a operar.

Quando chega, Luís Chambel prepara-se, coloca a bata cirúrgica, a touca, o calçado limpo e descartável, uma máscara, e quer ele, quer a equipa presente na sala, replicam os devidos cuidados. O hospital tem dois blocos cirúrgicos, que ficam lado a lado, com uma janela que permite visualizar o que está a acontecer em ambos os locais, mas também com portas exclusivas para isolar ambos os espaços, se necessário.

Cada sala é limpa e desinfetada várias vezes ao dia e, no dia da nossa reportagem, o médico chama à atenção da jornalista, menos habituada a estas rotinas, para que não se aproxime do cirurgião e do ajudante. Uma das regras para que a cirurgia decorra sem incidentes é aumentar a distância entre pessoal “estéril” e não “estéril”. Também o fotógrafo Rodrigo Cabrita teve os devidos cuidados para garantir que as cirurgias se realizariam de forma segura e sem incidentes.

 “Costumo dizer que procuro providenciar um ambiente cirúrgico aos nossos pacientes, no qual eu me sentiria seguro a ser operado”Luís Chambel

Equipa de reportagem devidamente informada e equipada para o arranque de um dia de cirurgias diferentes, mas com um denominador comum: assegurar as condições de assepsia e segurança. O campo operatório é devidamente preparado, os materiais e instrumentos a utilizar também passaram pelos devidos procedimentos de esterilização, e o cirurgião repete, algumas vezes, a limpeza e desinfeção das mãos, a medida mais eficiente para prevenir e reduzir a transmissão de bactérias. Luís Chambel coloca depois luvas esterilizadas e a equipa já está em posição para iniciar a cirurgia ao Jota, um cão de raça indefinida, com 12 anos. “Este cão entrou há dois dias na urgência, com hemorragia abdominal, foi controlado por hematócrito abdominal e sanguíneo e verificou-se que não era um sangramento ativo. Estabilizámos o cão, não houve mais perda de sangue e controlámos ontem por ecografia. O cão tem uma massa esplénica no baço e várias massas de menor tamanho no fígado. Acredita-se que possa ser um tumor”, explica.

Apoio a estagiários
Com 800 m2, o VetOeiras tem vindo a melhorar e a alargar as instalações, tendo duplicado o espaço nos últimos anos. Com mais de um quarto de século ao serviço da saúde e bem-estar dos animais de companhia, as cirurgias são uma prática rotineira e diária. “Tentamos agendar as cirurgias para a parte da manhã, e por norma, não programamos intervenções para o período da tarde para que possamos limpar, desinfetar e preparar os blocos para o dia seguinte”, diz Luís Chambel. “Os procedimentos cirúrgicos deveriam ser todos realizados em salas dedicadas apenas à cirurgia, com protocolos de anestesia seguros e por quem domina as técnicas da assepsia cirúrgica e da cirurgia propriamente dita, de forma a reduzirmos, a um mínimo razoável, as complicações associadas. Costumo dizer que procuro providenciar um ambiente cirúrgico, aos nossos pacientes, no qual eu me sentiria seguro a ser operado”, acrescenta.

No entanto, os casos são imprevisíveis e vão surgindo, havendo a possibilidade de realizar cirurgias de emergência a qualquer hora do dia. “Privilegiamos os dias da semana com a equipa de enfermagem e anestesia toda reunida, mas há situações que aparecem sem aviso prévio e às quais temos de dar resposta.”

No mínimo, estão três pessoas em cada cirurgia: um cirurgião, um médico veterinário que funciona como ajudante e um anestesista (pode ser um médico veterinário ou um enfermeiro veterinário com formação avançada em anestesia). Por ano, o VetOeiras recebe cerca de 12 médicos veterinários para estágio, começando agora também a contar com enfermeiros.

No dia da reportagem da VETERINÁRIA ATUAL, duas estagiárias do curso de Enfermagem Veterinária da Escola Superior Agrária de Elvas acompanharam a cirurgia. O VetOeiras fomenta esta política de ajudar os futuros médicos e enfermeiros veterinários a ter uma maior proximidade com a prática clínica. A enfermeira veterinária Catarina Gonçalves dá uma ajuda preciosa durante toda a cirurgia e vai explicando o passo a passo da monitorização da cirurgia às estagiárias. “Em enfermagem, não existe muita formação em anestesia. Mesmo que tenham alguma prática na universidade, não têm casos como os que acompanhamos aqui, o que acaba por ser muito importante para perceberem as áreas com que se identificam mais”, explica.

“Há estudos que demonstram que, quando comparada com técnicas normais em que foi utilizada anestesia convencional, a avaliação clínica e os fatores endócrinos de stresse melhoram em animais em que é administrada anestesia regional”, explica o médico veterinário José Diogo dos Santos

Cada bloco cirúrgico tem dois ventiladores mecânicos, o que permite assegurar melhores condições de monitorização e dar uma maior assistência a quase todo o tipo de procedimentos. A primeira sala de cirurgia está apetrechada de microscópios, o que acaba por ser muito importante para as cirurgias às cataratas e outras intervenções oftalmológicas que exigem equipamentos muito específicos.

Luís Chambel revela que a comunicação entre pares é essencial para que tudo corra bem. Cada elemento tem as suas funções e a atenção é um dos fatores chave para avaliar qualquer pormenor que coloque em causa a assepsia. E nem a música de fundo desvia do que é essencial.

 Anestesia diferenciadora
Com uma equipa com formação direcionada para a anestesia, o médico veterinário José Diogo dos Santos tem vindo a delinear os protocolos de praticamente todas as cirurgias, dando um grande apoio aos cirurgiões. A trabalhar no hospital há cinco anos, começou a sua formação em anestesia regional há dois, estando neste momento a realizar o seu doutoramento nesta área. “Há estudos que demonstram que, quando comparada com técnicas normais em que foi utilizada anestesia convencional, a avaliação clínica e os fatores endócrinos de stresse melhoram em animais em que é administrada anestesia regional”, afirma. Este interesse foi crescendo e o médico veterinário encontrou apoio no VetOeiras através do investimento em equipamentos, pois foi percetível a melhoria que esta técnica traz, quer durante as cirurgias, quer na recuperação dos animais.

Neste hospital, sempre que possível, é utilizada anestesia regional. “Com auxílio de ecografia, identificamos exatamente onde estão os nervos e aplicamos o anestésico local mais próximo dos mesmos. Desta forma, reduzimos os fármacos que poderíamos administrar por via endovenosa, mas que teriam efeitos secundários mais severos, e acaba por ser mais eficaz para tirar a dor ao animal”, garante. Existem vários tipos de técnicas direcionadas a cada caso e a cada cirurgia. No caso do Jota, foram realizados bloqueios de volume, o que viria a refletir-se na melhor recuperação no pós-operatório.

“Aplicámos o anestésico em vários locais. É um bloqueio intrafascial, em que o anestésico é aplicado entre faixas musculares que se encontram próximas da inervação dos órgãos abdominais e também das saídas das raízes que inervam a parede abdominal. Dessa forma, com uma pouca quantidade de anestésico local, conseguimos ‘bloquear’ vários nervos e a parte abdominal dos órgãos em si. Tem um funcionamento semelhante à epidural, por exemplo, mas com menos volume e menos risco associado”, afirma José Diogo dos Santos.

Com a anestesia regional, a equipa tem notado que os animais recuperam mais rapidamente, têm maior conforto após a cirurgia, começam a alimentar-se espontaneamente mais cedo, têm menos efeitos secundários e não ficam tão sedados. “Não estamos apenas a dessensibilizar o cérebro, mas a bloquear o estímulo na origem.” Esta é uma área em expansão, defende o médico veterinário, e só alguns centros de referência em Portugal é que executam estas técnicas. O VetOeiras é um deles, uma vez que tem equipa e casuística para o desenvolvimento deste tipo de analgesia.

Ainda que nem todos os pacientes tenham indicação para este procedimento, José Diogo dos Santos defende que devem ser aplicados “anestésicos locais sempre que possível”. O médico veterinário integra o Primeiro Grupo de Interesse em Anestesia, criado recentemente, e que junta colegas dedicados à área, e confessa que existem ainda técnicas muito específicas, que espera um dia vir a realizar. “Estou na fase de desenvolvimento e de me sentir à vontade com todo o tipo de bloqueios para evoluir, porque é possível bloquear desde a ponta do nariz à ponta da cauda. Quanto mais formação e pessoas qualificadas existirem, menos riscos os animais correm. Espero que este seja o futuro”, diz.

O pós-operatório
Luís Chambel fez uma sutura intradérmica – utilizada em 95% dos animais submetidos a cirurgia abdominal – que implica que os donos venham posteriormente a consulta para que seja avaliada a sua evolução. Nas outras cirurgias, são realizadas suturas de nylon ou agrafos que devem ser retirados 12 dias depois em consultas de enfermagem. No caso de cirurgias ortopédicas, o seguimento respetivo envolve ainda acompanhamento radiográfico. O follow-up de cada cirurgia é delineado consoante cada caso e respetiva evolução.

É enviado material extraído do baço para biopsia, e em cerca de uma semana, o médico vai confirmar se se trata de uma massa tumoral, uma das suspeitas iniciais, ou não. Se vier a confirmar-se que se trata de uma neoplasia, o tratamento será discutido com as duas médicas dedicadas à área de oncologia, Rita Serras e Cláudia Rodrigues.

O Jota fica em recobro e é internado posteriormente, havendo um médico veterinário responsável que o acompanha durante a noite. A equipa que ficou responsável pela cirurgia passa toda a informação oralmente e por escrito, ao colega do turno noturno, sobre o procedimento, a anestesia, o plano do animal ao nível de analgesia e os cuidados necessários para uma boa recuperação. “Cada animal tem um tratamento específico aqui, não é assim tão generalista quanto isso e tentamos perceber o que podemos fazer de melhor por cada um”, explica José Diogo dos Santos.

Depois de o animal estar acordado, é feito um contacto telefónico aos donos para informar como correu a cirurgia, e durante o período de internamento, existe a possibilidade de visita, duas vezes por dia, uma hora de cada vez. A enfermeira Catarina Gonçalves acompanhou a fase inicial do recobro, juntamente com a estagiária Madalena Valentim: “A cirurgia teve a duração de uma hora, e ao fim de 60 minutos de recobro, o animal estará pronto para começar a comer”, diz a enfermeira. Vão sendo colocadas mantas para que o Jota estabilize a temperatura, e há uma monitorização contínua. “Neste caso, utilizámos lidocaína, que foi iniciada durante a anestesia para detetar arritmias, mas que também é um fármaco muito bom como analgésico”, acrescenta.

João Moreira foi o médico veterinário que monitorizou o Jota durante a noite e explica que o mais importante é controlar a dor na fase pós-cirúrgica. Foi com ele que falámos na manhã seguinte: “No caso de esplenectomia, temos de ir monitorizando a pressão arterial, verificar se não há hipotensão ou hipertensão e controlar os parâmetros vitais (frequência respiratória, frequência cardíaca, controlo da dor, avaliação das mucosas, hidratação, o estado mental, se está ainda muito sedado com a anestesia, o pulso, se fez fezes ou não, etc.). Ele já passeou, foi à rua, urinou e está muito bem-disposto. É um bom paciente”, diz. É ainda feita uma análise para controlar o hematócrito e repetido o exame físico, três vezes ao dia, nas mudanças de turno. “Se tudo correr como previsto, deverá ter alta hoje.”

Um novo dia, sete cirurgias
Vinte e quatro horas depois, foram realizadas sete cirurgias, três delas na área de oftalmologia. A dinâmica cirúrgica é muito variável, com dias mais calmos do que outros. A manhã começa com uma cirurgia ortopédica ao Balzac, um labrador com cinco anos. “Este cão coxeia desde cachorro dos dois membros anteriores. Surgiu na consulta com uma claudicação severa. O Balzac tem uma displasia do cotovelo gravíssima, ou seja, doença degenerativa articular e doença do compartimento medial (DCM). Além disso, e apesar de não ser uma queixa inicial, reparei durante a consulta que ele também estava a apoiar mal o membro posterior direito. Apoiava em pinça e a perna tremia. Fizemos um raio-X e percebemos que ele tem uma rotura do ligamento cruzado anterior, o que é mais um problema para agravar o bem-estar deste cão”, explica Luís Chambel.

O médico veterinário sugeriu aos donos a realização de uma tibial plateau leveling osteotomy ou TPLO (apesar de não ter o valor exato, Luís Chambel já terá mais de 600 TPLO realizadas até hoje), e na mesma intervenção, realizar uma artroscopia aos dois cotovelos para confirmação da suspeita inicial da DCM. “A TAC e a ressonância magnética não permitem a visualização da cartilagem, é preciso ‘olhar para dentro da articulação’ através desta técnica que é menos invasiva e menos traumática. Tenho 98% de certeza de que a minha suspeita se vai confirmar, e se assim for, teremos de planear um tratamento para os cotovelos, provavelmente, a técnica PAUL ou a técnica CUE”.

A TPLO é uma cirurgia muito bem programada em que o cirurgião antecipa o procedimento. “Vou fazer um corte proximal na tíbia, circular, e através de radiografia, consigo perceber que tamanho de serra vou usar, quantos graus vou rodar esse fragmento, que placa vou utilizar, e onde é que a irei colocar.” Ao exportar as imagens para a sala de cirurgia, durante a mesma, o cirurgião consegue saber exatamente o que tem a fazer.

Maria Ferreira, 58 anos, e Augusto Costa, 65, são os donos do Balzac e não moram perto do hospital, mas decidiram viajar propositadamente para pedir uma opinião a Luís Chambel. Antes da cirurgia, era notório algum nervosismo, mas também a confiança de que estavam em boas mãos. “Temos dois cães, mas este está connosco desde que nasceu. É a primeira vez que vai ser operado”, conta a tutora. Na semana anterior, tinham estado em consulta e foi-lhes transmitido o que estaria pensado para esta cirurgia. “Acima de tudo, pretendemos que o Balzac tenha mais qualidade de vida e não sinta dor”, acrescenta, garantindo que os quilómetros de distância do hospital valem a pena para a melhoria do animal. Ao VetOeiras, chegam regularmente pacientes de todo o País, incluindo Ilhas, para consultas e cirurgias de ortopedia e também de neurologia.

No que respeita ao custo associado, Maria Ferreira não tem dúvidas. “Pelos nossos animais, fazemos tudo. O Balzac é como se fosse um filho. Os donos dos animais recebem uns formulários com sugestões e orientações para a fase pré-cirúrgica e pós-cirúrgica. “Vivemos numa vivenda com escadas e sabemos que vamos ter de ajudar o Balzac a andar”, comenta, antecipando os cuidados a ter após a alta – que ocorreu no mesmo dia, tal como sucede na maioria das cirurgias ortopédicas – que incluem também algumas consultas de seguimento e vigilância.

Também nesta cirurgia, futuros médicos e enfermeiros veterinários ajudam a restante equipa, com a supervisão de Luís Chambel e de Catarina Gonçalves. Ana Margarida Jorge é estagiária de final de curso de Medicina Veterinária na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, está no final do estágio de quatro meses, tem um orientador no VetOeiras, outro na faculdade, e a partir da defesa da tese que virá a concluir depois da experiência neste hospital, passará a exercer.

Ao mesmo tempo que o cão é conduzido para o recobro, Luís Chambel faz um raio-X pós-cirúrgico para confirmar a posição da placa colocada no joelho, os ângulos e o comprimento dos parafusos. Se alguma coisa não estiver do seu agrado, tem de voltar ao bloco para ajustar o que for necessário. “Felizmente, é muito raro acontecer”, diz o médico. Também neste caso, tudo correu bem, e só depois de o médico dar o OK é que o bloco é limpo, e os materiais preparados para a nova cirurgia que começa minutos depois.

Não há tempo a perder. No outro bloco cirúrgico, também Cristina Seruca, especialista europeia em oftalmologia veterinária certificada pelo European Board of Veterinary Specialisation e diplomada pelo Colégio Europeu de Oftalmologistas Veterinários, se prepara para começar a operar. As cirurgias na área de oftalmologia realizadas no VetOeiras são feitas única e exclusivamente pela médica veterinária. “A casuística cirúrgica oftalmológica atual é bastante elevada e comparável à média realizada por oftalmologistas europeus em centros de referência internacionais. Apesar de haver técnicas cirúrgicas realizadas com maior frequência, cada caso é um caso e todos têm as suas particularidades e desafios”, afirma.

Além de uma cirurgia de catarata bilateral a uma cadela, Luna, de 10 anos e de raça indefinida (ver caixa), Cristina Seruca realizou outras intervenções, nomeadamente, “a um gato, British shorthair, com sequestro de córnea profundo axial que foi submetido a queratectomia lamelar profunda e transposição córneo-conjuntival”, e a um cão sharpei, jovem, com entrópion superior e inferior marcado,  que foi submetido a técnica combinada brow-suspension Celsus-Hotz superior e inferior bilateral”. O dia acabou com uma “cantoplastia medial realizada a um cão pug, jovem, com macroblefaro, entrópion infra-medial e queratite pigmentar secundária bilateral”.

A cirurgia de catarata por facoemulsificação com colocação de lente intraocular acrílica é uma cirurgia de rotina feita, no mínimo, semanalmente. Dois dias da semana são destinados “à cirurgia oftálmica eletiva, que normalmente inclui cirurgia palpebral, da membrana nictitante, córnea e cirurgia intraocular, tal como, cirurgia de catarata”. As cirurgias de urgência são frequentes e realizam-se a qualquer dia da semana. “Dentro destas salientam-se, pela sua frequência, os casos de úlcera corneana perfurada ou em risco de perfuração eminente, laceração corneana e luxação de cristalino”, explica a especialista.

Salvar vidas
Susy é uma cadela labrador, de 11 anos, que foi a uma consulta no dia anterior por deteção de uma ferida suspeita, de evolução rápida. Foi de imediato realizado o despiste através de radiografia torácica, citologia do gânglio linfático que drena a zona, ecografia abdominal e punção aspirativa com agulha fina de zonas onde se suspeita que possa haver metástases, nomeadamente, no baço. “A cadela tinha tirado um mastocitoma mamário de baixo grau há um ano, estava ótima, e surge agora com uma ferida que também confirmámos ter o mesmo tipo de células e que suspeitamos ser um mastocitoma. Neste caso, vamos tirar a massa localizada antes que cresça demasiado ainda que esteja numa zona onde será difícil operar com margens de segurança”, explica Luís Chambel.

Esta é uma doença muito frequente no VetOeiras e existem alguns tratamentos opcionais de controlo. Depois da resolução cirúrgica e de confirmação do diagnóstico, as médicas dedicadas à oncologia, Rita Serras e Cláudia Rodrigues definem o protocolo de tratamento a seguir.

“A casuística cirúrgica oftalmológica atual [no VetOeiras] é bastante elevada e comparável à média realizada por oftalmologistas europeus em centros de referência internacionais. Apesar de haver técnicas cirúrgicas realizadas com maior frequência, cada caso é um caso e todos têm as suas particularidades e desafios” – Cristina Seruca

Barbotes, um schnauzer miniatura, de 11 anos, foi operado em seguida. O dono tinha dois cães que foram atacados por outros quatro. Um deles morreu e o segundo chegou em estado muito grave à urgência, tendo sido operado de imediato. “Fizeram-se muitas lavagens, porque um dos grandes problemas das dentadas, além dos traumas imediatos, são as hemorragias fatais, as fraturas de coluna, das patas, entre outras complicações. Este cão foi suturado, esteve dois dias muito mal, entre a vida e a morte, sobreviveu, está bem-disposto, mas a ferida lombar infetou. Já fizemos a cultura, já sabemos o agente e estamos a tratar em conformidade, mas infelizmente, as infeções associadas a dentadas são muito agressivas e é com isso que temos de lidar agora.” A cirurgia consiste em aproximar os topos de ferida e tentar anular um pouco o espaço morto de forma a acelerar o processo de cicatrização. “É uma cirurgia mais simples. A sutura abriu devido a infeção e o objetivo é tentar reduzir ao máximo a quantidade de tecido exposto”, acrescenta o médico.

À data de fecho de edição, todos os animais tiveram alta e estavam a ter uma boa recuperação, enquanto se aguardavam resultados de biópsias (nos casos em que as mesmas foram solicitadas para definição do plano de tratamento consequente), e se preparavam as consultas de seguimento. O schnauzer Barbotes continuava internado para fazer pensos diariamente e a “cirurgia de aproximação estava a correr muito bem”, partilhou depois Luís Chambel.

Nestas 24 horas, como em tantas outras, a rotina é acelerada, os casos nem sempre são óbvios, a equipa trabalha numa partilha contínua de conhecimentos e opiniões, procura-se a excelência no tratamento e nos cuidados médico-veterinários. No VetOeiras, pensa-se na saúde dos animais, mas sobretudo, salvam-se vidas.

Cirurgia a catarata bilateral

Luna é uma cadela esterilizada, de raça indefinida, com 10 anos de idade e foi referenciada a Cristina Seruca por um colega que trabalha noutra clínica veterinária para avaliação de catarata bilateral com uma evolução muito rápida nos últimos dois meses, cegueira quase completa e inflamação aguda marcada do olho esquerdo. “Foi diagnosticada com diabetes mellitus em fevereiro deste ano, e desde então, faz administração diária de insulina”, explica a especialista. Na avaliação oftalmológica, feita pela primeira vez no dia anterior à cirurgia, apresentava “catarata intumescente diabética bilateral, imatura tardia no olho direito e madura com rotura capsular equatorial espontânea e uveíte facoclástica aguda no olho esquerdo”. A catarata é uma das complicações mais frequentes e importantes de diabetes mellitus, tendo uma prevalência de 68%, devendo ser referenciada para avaliação oftalmológica atempadamente, e caso a cirurgia esteja indicada, deve ser realizada, o quanto antes, para evitar complicações secundárias como rotura espontânea da cápsula.

Alguns animais com cataratas têm problemas adicionais, como uveíte, degenerescência ou descolamento da retina, glaucoma, entre outros, que podem diminuir a taxa de sucesso ou invalidar a cirurgia. Por este motivo, além do exame oftalmológico completo, são necessários exames complementares, como a eletrorretinografia e a ecografia ocular, para confirmar que o animal está apto à realização da cirurgia e pode contar com as melhores probabilidades de sucesso. “A percentagem de sucesso da cirurgia de cataratas é muito alta (95%). Para o assegurar, é fundamental que o tutor cumpra rigorosamente todas as recomendações dadas no momento da alta, aplique a medicação de forma correta e compareça às consultas de seguimento. Também é importante estar atento a sinais de alerta que podem indicar o aparecimento de complicações, a curto ou longo prazo. Um diagnóstico precoce pode salvar a visão”, afirma Cristina Seruca.

“A cirurgia do olho direito foi realizada de forma rotineira e, após remoção da catarata, colocou-se uma lente intraocular acrílica, o que permitiu recuperar a visão e emetropia. No olho esquerdo, a doente apresentava uma rotura capsular equatorial espontânea extensa de 180 graus, com uveíte secundária marcada, sinéquias posteriores e extrusão de conteúdo lenticular cortical no vítreo anterior periférico, o que representou uma dificuldade cirúrgica maior. A extensão da rotura capsular impediu a colocação de lente acrílica intra-capsular, uma vez que tal está contraindicada em casos de roturas iguais ou superiores a 180 graus. No entanto, apesar da hipermetropia resultante pela ausência de lente, a visão pôde ser igualmente recuperada”, explica a médica veterinária.

Com um total de 1 hora e 20 minutos, a cirurgia e anestesia foram realizadas sem incidências. “Utilizámos a técnica extra-capsular (facoemulsificação), através de duas incisões límbicas-anteriores, de 1 e 2,75 mm, respetivamente. Colocou-se uma lente intra-capsular artificial acrílica com 13 mm de diâmetro e 41.0 dioptrias no olho direito. No olho esquerdo, confirmou-se intra-operatoriamente a longitude extensa (180 graus) da rotura capsular equatorial espontânea, contraindicando a colocação de uma lente artificial intra-capsular. As incisões corneanas foram suturadas com um ponto simples e um em X modificado, nas incisões de 1 mm e 2,75 mm, respetivamente, com sutura PGA 9-0. O tempo de facoemulsificação total no olho direito foi de 1.55 minutos e do olho esquerdo 1.31 minutos”, partilha a especialista.

A doente ficou hospitalizada durante as primeiras 24 horas após a cirurgia, para controlo de inflamação e pressão intraocular, assim como dos parâmetros vitais e glicemia. “Foi administrada analgesia, antibioterapia e medicação anti-inflamatória sistémica e tópica. Não se detetaram picos de hipertensão ocular durante o período de hospitalização. A Luna recuperou a visão imediatamente após a cirurgia e manteve-se estável do ponto de vista sistémico.”

A alta foi dada passadas 24 horas, com indicação para “administração de antibioterapia profilática e medicação anti-inflamatória sistémica e tópica. A aplicação de colírios é feita a cada seis horas no máximo e vai sendo diminuída progressivamente, ao fim da primeira semana. As consultas de seguimento, por protocolo e no caso de não haver incidências, são realizadas na primeira, segunda e quarta semanas pós-cirúrgicas. A partir daí, dependendo da evolução do caso, os seguimentos são espaçados progressivamente durante os primeiros seis meses. De rotina e a longo prazo, deve ser feita uma consulta de seguimento cada seis meses a um ano”, conclui Cristina Seruca.