Medicina Veterinária

Há ou não excesso de médicos veterinários?

Há ou não excesso de médicos veterinários?

Apesar das sucessivas notícias sobre o excesso de profissionais no setor, alguns diretores clínicos sentem dificuldades em recrutar. No entanto, alguns jovens só encontram oportunidades fora de Portugal. De um lado é difícil preencher vagas. Do outro não é fácil encontrar um emprego. Mas afinal porque é tão difícil recrutar?

Há anos que se fala no número excessivo de médicos veterinários em Portugal. Muita oferta, pouca procura. Parece ser este um problema generalizado do setor, muitas vezes focado nas conferências organizadas pela VETERINÁRIA ATUAL, bem como em alguns artigos publicados na revista. No entanto, a realidade sentida por alguns diretores clínicos é um pouco diferente. Têm dificuldades em recrutar novos colaboradores. O que se passa atualmente? Existe ou não precariedade em Portugal? Porque é que é tão difícil recrutar?

Isabel Maia, diretora do Grupo Hospital Veterinário de Viseu (HVV) considera que “o cenário das vagas por preencher nas diversas clínicas tornou-se mais evidente nos últimos dois a três anos e é realmente difícil de compreender o que se passa”. Apesar de considerar que a falta de experiência pode inibir os jovens licenciados no arranque da sua atividade profissional, tem notado que o problema de recrutamento parece idêntico em clínicas junto ao litoral.

“O que é certo é que é elevada a quantidade de médicos veterinários que saem todos os anos das várias faculdades e que andam por aí (a avaliar pela presença de gente nova em formações, congressos, eventos em Medicina Veterinária, que também é cada vez maior). Não penso que seja por culpa dos vencimentos que as pessoas não apareçam para trabalhar principalmente numa fase de início de carreira. Noto, sim, uma preocupação com horários e tipo de funções a desempenhar”, explica.

Esta é uma realidade transversal a outros Centros de Atendimento Médico Veterinários (CAMV) e não é exclusiva de ambiente hospitalar. Beatriz Sinogas, diretora clínica da Clínica Veterinária das Avencas (CVA), na Parede (Lisboa), concorda. “Efetivamente existem veterinários a mais, mas a dificuldade do preenchimento das vagas passa pelo horário de trabalho e principalmente pela remuneração inicial do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). Os recém-licenciados não são uma mais-valia para os estabelecimentos comerciais, pois não só têm de aprender clínica, como é normal, e não sabem lidar com o cliente final, pelo que se opta por apostar em estágios profissionais, que são um incentivo à empregabilidade. Depois deste estágio de nove meses já estão mais aptos ao mercado. Os horários não são fantásticos porque temos urgências, seja no hospital, seja numa clínica, e poucos são os que querem trabalhar num horário diferente do convencional (das 09h00 às 17hOO). Também há quem não queira sair do trabalho fora de horas”.

Beatriz Sinogas, diretora clínica da Clínica Veterinária das Avencas (CVA), na Parede (Lisboa), refere que “efetivamente existem veterinários a mais, mas a dificuldade do preenchimento das vagas passa pelo horário de trabalho e principalmente pela remuneração inicial”.

Quando precisou de contactar o IEFP para recrutar profissionais para a CVA, Beatriz Sinogas deparou-se com algumas barreiras. “Recebi cinco currículos de candidatos, apenas três apareceram para entrevista e só um deles tinha disponibilidade para trabalhar, mas só depois das férias que iriam acontecer nesse mesmo mês”, conta a diretora clínica que já tinha tentado outras vias, nomeadamente anúncios em todos os canais de veterinária tendo obtido apenas uma resposta e quatro meses depois.

A realidade vivida por Ana Guerra, diretora clínica da Clínica Veterinária “Os Nossos Bichos”, sedeada em Belas, e o Hospital Pet24, em Alfragide, ambos pertencentes ao distrito de Lisboa, é distinta. Confessa que não tem sentido qualquer constrangimento para encontrar funcionários sempre que há necessidade. “Estive recentemente em Liverpool num encontro de médicos veterinários de todo o país e defrontei-me com a dificuldade em recrutar. Na altura emiti a minha opinião e partilhei que felizmente não tive, até ao momento, qualquer dificuldade em contratar profissionais para o hospital. Temos a sorte de a nossa equipa ser muito estável ao longo dos anos, com pessoas a trabalhar connosco desde o início, em ambas as estruturas”, explica.

Por ter trabalhado quase dez anos no Hospital da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa (FMV-ULisboa), nem sempre necessitou de colocar um anúncio pois acabava por ter referências para os cargos disponíveis. “Recentemente, por motivos de licenças parentais realizámos poucas entrevistas, mas correu muito bem. Ao contrário do que acontecia há 20 anos, quando me formei, existem muitos jovens a formarem-se. É uma realidade completamente diferente, sendo verdade que também há maior procura por parte dos mesmos para realizar residências no estrangeiro e uma grande aposta em formação mais especializada”, sublinha.

Há cerca de dois meses, o Grupo HVV teve em perspetiva o alargamento do seu quadro médico, desta vez com duas vagas, valorizando a experiência, mas não excluindo ninguém, apenas pedindo que os candidatos tivessem como objetivo a permanência no quadro da empresa e que não procurassem apenas mais uma experiência. “Tivemos bastantes currículos brasileiros e pouquíssimos portugueses. Destes últimos vieram à entrevista duas pessoas que não quiseram ficar, uma alegando ter encontrado algo mais próximo e outra afirmando que preferia ficar num outro local, também perto e que já lhe era familiar… Como no Grupo HVV acreditamos que todas as dificuldades são oportunidades vamo-nos adaptando a estas novas realidades, reforçando e criando sinergias com outros colegas e apostando mais na enfermagem veterinária, redistribuindo funções, o que em muitas situações se tem tornado até mais vantajoso para a fluidez do trabalho médico”, explica Isabel Maia.

Entraves à oferta

Para as médicas veterinárias entrevistadas não subsistem dúvidas: não há falta de trabalho. “Acho que há bastante oferta de emprego com perspetiva, inclusive, de fazer carreira. Quando comecei a trabalhar poder substituir alguém temporariamente já era muito bom! O lema era ‘arregaçar as mangas e agarrar o trabalho’. É certo que hoje a exigência é grande e quando se pensa verdadeiramente em entrar no mercado de trabalho talvez a pressão seja maior e a fuga para mais formação, nomeadamente no estrangeiro, se afigure como uma saída”, afirma Isabel Maia.

Também Mónica Andrade, diretora clínica da Myvetcare, na Covilhã, tem assistido a uma grande oferta de emprego em clínicas e hospitais. “No entanto, a deslocação para fora da área de residência, o investimento que tem de se fazer em habitação no local, os horários que, às vezes, ultrapassam a hora convencionada e as urgências são fatores que poderão desmotivar em certas zonas, como é o caso da Covilhã. A precariedade só existe se continuarem a existir colegas a fazer ‘contabilidade’ por fora e a praticar preços muito baixos ao público. Além de ser uma concorrência desleal, inviabilizam outros colegas ao lado de poderem contratar e remunerarem com um vencimento digno porque essa prática não permite esta dinâmica e evolução”, reforça.

A tentação de acabar o curso e abrir um negócio por conta própria em vez de querer trabalhar para terceiros, na sua opinião, “é um erro”. E explica: “muitas clínicas abrem e fecham com todo o prejuízo que causam, entretanto, a elas próprias e a colegas que já trabalham na zona há já mais tempo. Aí sim, o mercado fica saturado”.

Numa fase de licença parental de uma colega, a médica veterinária teve dificuldade em arranjar um substituto. “Consegui à última hora, por cedência de umas colegas na zona da Guarda, fazer um intercâmbio com duas delas que lá trabalhavam e em que conjugávamos os dias. Temos tido bastante dificuldade em trazer para a zona consultas de referência de especialidade, pois o custo que os colegas cobram de deslocação é muito grande e não é viável o seu suporte para os clientes”, adianta.

No Hospital Pet24, um recém-licenciado integrou a equipa recentemente. “Achamos que temos de dar oportunidade aos mais novos”, explica Ana Guerra. Para a médica veterinária, a aposta em clínicas com preços abaixo dos praticados no mercado acaba por ser uma das alternativas encontradas que, na sua opinião, em nada dignifica o setor. “Não considero que exista falta de trabalho, mas as condições do mercado existentes levam a que muitas pessoas apostem em negócios próprios, umas vezes mais ponderados do que outras. Isto explica o grande boom de serviços domiciliários e de clínicas low cost. A nossa estrutura e o grau de exigência dos serviços que prestamos exigem o recrutamento de pessoas com experiência e com alguns anos de profissão”, afiança.

Está na moda ir para o estrangeiro?

E será que trabalhar fora de Portugal é mais dignificante do que ficar no país? “Parece-me que é também uma moda ir lá para fora. Aqui também se pode aprender e fazer muito. É certo que as remunerações e o reconhecimento do papel do médico veterinário em países mais procurados são porventura [de imediato] mais atraentes, mas não vejo ninguém fazer contas ao custo de vida nesses locais, nem tão pouco ao valor do estilo de vida a que a distância pode obrigar”, explica Isabel Maia.

Considera ainda que nem é preciso ir tão longe para fazer comparações. “Basta pensar, por exemplo, no custo do arrendamento no interior do país e no litoral. Depois, não menos importante, será comparar a qualidade de vida que se pode ter numa cidade como Viseu, Seia ou qualquer outra em Portugal comparativamente com qualquer uma que se escolha por esse mundo fora, já para não deixar de referir o nosso clima, a segurança, a gastronomia, bem como o fácil acesso a eventos formativos e culturais relevantes.”

Para Xavier Canavilhas, co-coordenador do Gabinete Jovem na Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) e aluno do 4º ano na FMV-UL, a formação tida no estrangeiro tem “um bilhete de regresso na esperança de se encontrarem condições mais favoráveis de trabalho e um maior reconhecimento entre colegas. Existe também um crescimento exponencial no número de estudantes interessados em Medicina da Conservação e Medicina de Selvagens, campos em que a procura de profissionais é considerada de ‘nicho’ havendo necessidade de abandonar o país para poder seguir este percurso clínico”.

Tendo em conta a sua experiência pessoal, Mónica Andrade confessa que tem sido difícil arranjar colegas que queiram fazer horários, tanto de part-time, como a tempo inteiro ou ainda para substituição de férias. “Nos grandes centros urbanos, mesmo assim, é mais fácil porque a concentração de licenciados é maior (nas zonas de Lisboa e Porto). Não considero os vencimentos baixos para quem acaba de se licenciar e está a iniciar um primeiro emprego. Pelo que me apercebo, as pessoas têm tendência a querer fazer logo um contrato com as regalias inerentes (subsídios, entre outros) e muitas vezes esquecem-se que quem recruta vai ter grandes encargos com os impostos. Há que avaliar se os candidatos têm ou não experiência distinguindo-se a partir daí a remuneração”, defende.

A diretora clínica diz-nos que o vencimento médio para um médico veterinário que trabalha a tempo inteiro num CAMV ronda os 1000 / 1200 euros líquidos. “Não me parece mal para quem está a começar. Muitas vezes, dentro de uma determinada cidade é possível conciliar trabalhos em várias clínicas e até conseguir honorários mais altos mesmo sem contrato, mas dá-me ideia que os mais novos não pensam assim. Se eu vou contratar alguém preciso que o meu lucro aumente, e se essa pessoa tiver experiência em alguma área da veterinária obviamente que isso vai fazer a diferença na minha capacidade de remuneração”, destaca.

A OMV, por falta de dados estatísticos significativos, desconhece a situação atual relativa às oportunidades de trabalho em Portugal para jovens médicos veterinários. “Por esse motivo não pode ter uma posição formal. No entanto, a atual direção está determinada em conhecer e caracterizar a classe e o mercado de trabalho estando já a trabalhar nesse sentido. Logo que haja informação poder-se-á analisar a realidade de forma abrangente para que se possa compreendê-la com exatidão e então dimensionar o problema intervindo de forma sensata e objetiva”, garante Xavier Canavilhas.

Pela voz dos jovens profissionais

E do lado dos recém-licenciados ou daqueles que começaram a trabalhar há pouco tempo? Qual é a perspetiva? A VETERINÁRIA ATUAL quis dar oportunidade aos recém-formados de contarem o seu lado da história.

João Catela tem 29 anos e trabalha na Sonae. É um dos que optou por ficar a exercer a profissão em Portugal. “Pessoalmente gosto de trabalhar cá e foi para isso que estudei. Mais, foi para isso que o meu país financiou mais de 90% do custo do curso que tirei. Sempre quis ser veterinário, mas estava longe de saber, quando entrei na faculdade, que iria estar a fazer o que faço hoje”, explica.

Foi ainda durante o curso de Medicina Veterinária, no quarto ano, que decidiu seguir uma via alternativa à mais comum. Depois de ter concorrido para o programa de trainees da Sonae foi selecionado e é lá que permanece. “Estive dois anos na equipa da direção comercial do talho, um ano e meio a coordenar um departamento no centro de processamento e distribuição de carne e estou há pouco mais de um ano como auditor dos fornecedores de matéria-prima e matérias subsidiárias e coordenador do programa de melhoria de fornecedores de carne. Felizmente, as diferentes mudanças de posição ocorreram por vontade própria por intermédio de concurso e representam promoções”, partilha. Paralelamente, João tem uma nano empresa de distribuição de cerveja artesanal e uma atividade política ativa.

Com 34 anos, Ângelo Pitães é médico veterinário no Hospital Vale Referrals, no Reino Unido. Depois de ter exercido pouco menos de quatro anos em Portugal (licenciou-se em 2012) e em diferentes áreas da clínica, tanto no que respeita a animais de companhia, como na área de produção, sentiu que o desenvolvimento profissional que poderia ter em Inglaterra se adequaria mais às suas pretensões. Pesou ainda na decisão a perspetiva de trabalhar diretamente com colegas altamente especializados em áreas muito específicas.“A minha mudança para Inglaterra surgiu no verão de 2016, onde iniciei um internato em Medicina Interna e Cirurgia num centro de referência, o Vale Referrals. Após ter terminado esse primeiro internato iniciei um segundo no Animal Health Trust, em Newmarket. Neste momento encontro-me a exercer clínica de primeira opinião junto dos colegas que me acolheram no primeiro internato”, conta. O objetivo passa por regressar a Portugal assim que achar que a aventura no estrangeiro tenha sido produtiva para o seu desenvolvimento profissional.

João Catela não pondera sair do país. “Fiz tudo o que podia para poder ter uma opção real. Lutei para trabalhar com condições no meu país e tenho esse privilégio e alegria.”

São dois casos distintos de jovens profissionais no setor e em relação à precariedade também têm uma palavra a dizer. Temos médicos veterinários a mais ou não? “Será necessário e realmente importante perceber a magnitude do excesso de veterinários em Portugal. Pessoalmente, e tendo em conta o número de profissionais formados por ano, em Portugal, quando comparados com outros países da Europa e a sua população entendo que os números serão exagerados. Temos sem dúvida universidades e faculdades a mais para um país da dimensão do nosso. A verdade é que continuamos a pensar em veterinária e o emprego muito com base na clínica de pequenos animais (sendo eu um clínico de animais de companhia), mas é certo que há muitos setores em que o veterinário pode exercer funções e talvez nesses as vagas estejam longe de também serem preenchidas”, defende Ângelo Pitães.

No caso dos CAMV tem noção que continua a existir procura e tem conhecimento de casos particulares de colegas, mas considera ainda “que algumas ofertas não são tentadoras e, muitas vezes, o vencimento baixo é um fator importante. Continuamos a ter colegas recém-licenciados a fazer longas horas por valores salariais inadequados.”

Ao contrário de Ângelo Pitães, João Catela não pondera sair do país. “Fiz tudo o que podia para poder ter uma opção real. Lutei para trabalhar com condições no meu país e tenho esse privilégio e alegria. Felizmente sou bem remunerado e tenho boas regalias. Já tive oportunidade para trabalhar no estrangeiro, mas ainda não surgiu nenhuma oferta aliciante o suficiente para me fazer sair”, defende. João Catela não tem dúvidas de que existe precariedade e realça que os alunos de Medicina Veterinária investem cerca de seis anos na sua formação em Portugal. “A maioria, na hora de acesso ao curso, imagina-se a fazer uma de duas coisas: trabalhar com animais de companhia ou com animais de quinta (grandes animais).

Ao longo do curso, estes jovens acabam por se aperceber da maior abrangência da atividade dos profissionais noutros setores e após o longo período de estudo há várias opções disponíveis. Muitos dos que decidem seguir o sonho de fazer clínica de animais de companhia deparam-se com a precariedade laboral. Estão em causa ordenados baixos e horários de trabalho, muitas vezes, e do meu ponto de vista, desumanos”, explica. O desgaste físico que o trabalho com grandes animais envolve, mas também as situações de falta de remuneração são fatores que caracterizam o setor, para o jovem. “Há muitas situações de subemprego e a escolha (ou tentativa) acaba por recair em posições nas diferentes indústrias que colocam veterinários. Nesta última situação, o problema é não haver muitas vagas. Desta feita, para muitos, a alternativa é a emigração”.

Ângelo Pitães afirma ter conhecimento de casos de colegas que trabalham “por um salário baixo, com horários longos ou que, após um período de meses a um ano são obrigados a procurar outro emprego, mas com situações semelhantes”. Beatriz Sinogas também refere a existência de precariedade. “A Autoridade para as Condições de Trabalho fecha os olhos de uma forma incrível: proprietários de clínicas que pagam ‘por baixo da mesa’, ou seja, sem contrato e outros que mantêm profissionais a recibos verdes indefinidamente. O que noto é que são os colegas mais velhos (com 50 / 60 anos) que tentam explorar os mais novos e falo por experiência própria, infelizmente, mas como tinha vontade de aprender acabei por sujeitar-me”, explica, referindo-se a uma fase profissional antes de se tornar empreendedora e constituir a sua própria clínica.

Isabel Maia não se revê nesta posição de precariedade embora assuma que se se mantiver a tendência de não aparecerem médicos veterinários portugueses para ocupar as várias ofertas de trabalho, em particular na área da clínica de animais de companhia, “é natural que as diversas entidades empregadoras evoluam para outros modelos de funcionamento, apostando mais, por exemplo, noutras classes do mercado de trabalho da veterinária e abrindo portas aos muitos estrangeiros que proactivamente enviam currículos. No futuro isto levará inevitavelmente à perda de postos de trabalho para os nossos médicos veterinários”.

Traçar novos caminhos

Mónica Andrade aconselha os jovens a apostar na zona interior do país e aos colegas empregadores “que sejam justos nas remunerações e nas horas de trabalho. As horas excedentes têm que ser compensadas”, afirma.

Já Isabel Maia sugere que os estudantes de Medicina Veterinária aproveitem todos os períodos livres para estagiarem em locais onde possam ver e aprender. “Aos jovens recém-licenciados digo para se manterem em Portugal caso o desejem pois, apesar das dificuldades, é muito estimulante contribuir para a mudança de mentalidades na melhoria dos cuidados prestados aos animais e a possibilidade de vir a fazer carreira com o devido reconhecimento. A quem recruta, como o Grupo HVV, desejo que se continue a apostar nos nossos jovens, que partilhem com eles as glórias, mas também as dificuldades da nossa realidade, porque só assim terão perfeita noção do esforço necessário para o sucesso”, defende.

Beatriz Sinogas deixa uma mensagem: “diria aos jovens que é preciso aprender, que ninguém nasce ensinado e que é preciso fazer. Se forem corrigidos é para o bem deles, de forma a evitarem cometer os mesmos erros. Temos casos de pessoas que acabam o curso e que não aceitam críticas com facilidade. Aos que recrutam, como eu, remunerem de acordo com a experiência, mas acima de tudo pela assiduidade e vontade de aprender”.

João Catela revê-se nesta perspetiva assumindo que o desafio maior é a adaptação à exigência do mercado. “Seja qual for o setor ou a posição que se procura é preciso conseguir corresponder com aquilo que é esperado de nós. De nos moldarmos ao que é esperado. Precisamos de ser maleáveis e de ter uma grande capacidade de aprender com os erros”, afirma. Não desistir de procurar e exigir boas condições são dois conselhos que sugere a quem procura trabalho. “Não deixem de fazer contactos, por muitas portas fechadas com que se possam deparar. A rede de contactos é das coisas mais valiosas que podemos ter. Aos que empregam não se esqueçam que já estiveram na mesma posição. Que é preciso formar continuamente e respeitar a humanidade das suas pessoas”.

Ângelo Pitães considera que as oportunidades podem estar à espreita, mas não se resumem à clínica de rua ou ao hospital da zona. “Há sempre algo a acontecer e sítios para ver e experimentar. Aos colegas que recrutam gostaria de lhes relembrar que nunca é fácil quando se procura um novo emprego e que temos um dever para com os colegas mais novos de lhes passar ensinamentos e ajudar numa fase importante das vidas profissionais. Gostaria também de deixar a mensagem a todos os colegas no sentido de que temos um compromisso para com a sociedade e todos os nossos pacientes, de tentar sempre prestar o melhor serviço e de elevar a qualidade da profissão veterinária em Portugal”, defende.

Relembrar os tempos em que o recrutador esteve na mesma posição é algo sublinhado por Xavier Canavilhas. “Apesar das óbvias diferenças, acredito que são as semelhanças que devem definir esta relação: a vontade profunda de exercer medicina com a maior qualidade possível e a humildade de estarmos sempre dispostos a aprender. Este é um ideal com que qualquer veterinário se pode identificar, abrindo caminho para descobrir pontos comuns que sirvam de ponte e permitam a dignificação da profissão. Independentemente das visões que temos e da disparidade entre todas elas, é e será sempre necessária a sua partilha interna e debate construtivo. Apenas uma classe ativa, com capacidade introspetiva, será capaz de progredir e enfrentar os desafios do futuro de forma digna e assegurando sempre os nossos compromissos basilares”.

Outras precariedades do setor

O Gabinete Jovem da OMV segue a preocupação da Ordem com os recém-formados e os jovens veterinários. Do trabalho que desenvolve neste Gabinete, Xavier Canavilhas considera que existe precariedade no setor, mas mais importante do que esta realidade é a falta de investimento em áreas que considera fundamentais para a classe, que “está muitas vezes assoberbada em condições de trabalho que são altamente danosas à sua saúde e em particular à sua saúde mental. Em Portugal é ainda irrelevante a formação para a saúde mental, inteligência emocional e gestão de conflitos, perpetuando-se assim o preconceito e dificultando a deteção e resolução destes casos. Torna-se ainda mais indispensável esta formação se considerarmos a elevada taxa de depressão clínica, transversal a estudantes e profissionais, e ainda um risco de suicídio quatro vezes superior ao da população geral. A fraca deteção desta problemática é resultado de uma cultura de normalização e aceitação destas afeções como parte integrante do percurso profissional, quando na realidade são apenas recorrentes. Esta entrega incondicional à profissão é, na minha perspetiva, a maior e mais preocupante forma de precariedade que assola a classe”, defende.

Denotando um claro desequilíbrio entre um grande número de quadros de profissionais em clínicas de pequenos animais, sobretudo nos grandes centros urbanos, e o défice de profissionais em áreas como a da inspeção alimentar e a sanidade animal, defende que o setor é regularmente reduzido a uma “Medicina de Humanos para Animais” por muitos e estudantes/recém-formados apenas dispostos a aceitar um ambiente de trabalho hospitalar, em detrimento de outras formas de trabalho veterinário. “Julgo que as maiores dificuldades na procura de profissionais ocorra particularmente no interior do país, onde apesar de as condições de trabalho serem mais atrativas em comparação aos grandes centros urbanos, ainda existem carências. Com uma população estudantil cada vez mais urbana, as condições oferecidas no interior não refletem o elevado custo do afastamento das famílias ou o acesso dificultado e esparso à cultura, entretenimento e educação em zonas mais rurais”, salienta Xavier Canavilhas.