O estado da arte em dermatologia e osteoartrite esteve em destaque na mais recente edição dos TechTalks Live da Zoetis, que decorreu no passado dia 11 de abril, em Lisboa. Especialistas nacionais e internacionais partilharam o seu conhecimento e experiência sobre a abordagem clínica e tratamento do prurido e inflamação e da dor crónica em animais de companhia. Houve ainda lugar à apresentação de Lenivia e Portela, dois novos anticorpos monoclonais desenvolvidos e comercializados pela Zoetis, indicados no controlo da dor associada à osteoartrite em cães e gatos, respetivamente.
Num contexto em que a medicina veterinária tem registado avanços significativos, a Zoetis reuniu profissionais do setor em mais uma edição dos “TechTalks”, um evento dedicado à atualização científica nas áreas da dermatologia e da dor osteoarticular.
A sessão de abertura esteve a cargo de Miguel Carvalho, responsável pela unidade de animais de companhia da empresa, que destacou o caráter formativo da iniciativa. “O programa foi pensado para partilhar conhecimento baseado em evidência científica e apoiar a prática clínica no dia a dia”, afirmou, sublinhando o compromisso da organização com a formação contínua dos médicos veterinários.
O papel da Zoetis no desenvolvimento de soluções inovadoras para a prática clínica foi destacado por Miguel Carvalho. Entre os exemplos apresentados, destacou-se a vacina oral Versican Plus BB Oral, destinada à prevenção da infeção por Bordetella bronchiseptica, bem como a plataforma de diagnóstico assistido por inteligência artificial, Vetscan Imagyst, capaz de realizar análises parasitológicas, citológicas, urinárias, de massas e esfregaços sanguíneos de forma rápida em ambiente clínico.
Na área da dermatologia, foi referido o impacto de terapêuticas como o Apoquel, introduzido há mais de uma década e amplamente utilizado no controlo do prurido em cães com doença alérgica. Segundo dados apresentados, o medicamento já terá sido utilizado em milhões de animais, consolidando-se como uma ferramenta relevante na prática clínica. Mais recentemente, a empresa apostou no desenvolvimento de anticorpos monoclonais para uso veterinário, uma abordagem considerada emergente. Entre os exemplos encontram-se Cytopoint, indicado para dermatite alérgica e atópica, e Librela e Solensia, utilizados no controlo da dor associada à osteoartrite.
Dermatite atópica canina: Doença dinâmica e progressivamente complexa
A dermatite atópica canina (DAc) é uma doença crónica, complexa e multifatorial que continua a desafiar a prática veterinária. De acordo com a definição mais recente do International Committee on Atopic Diseases of Animals, trata-se de uma condição hereditária, predominantemente inflamatória e pruriginosa, resultante da interação entre alterações da barreira cutânea, sensibilização alérgica e disbiose microbiana.
Essa base genética explica por que a doença acompanha o animal ao longo da vida, exigindo monitorização e tratamento contínuos. Ao mesmo tempo, a sua natureza inflamatória e pruriginosa justifica a necessidade de terapias que atuem simultaneamente sobre ambos os processos.
No evento da Zoetis, coube a Michela De Lucia, médica veterinária com especialidade europeia em dermatologia e patologia de pequenos animais, abordar o tema “Optimizing Apoquel in Canine Atopic Dermatitis: Lessons from 10+ Years of Data and Clinical Experience”. Na sua apresentação, a especialista ressalvou que a DAc não é estática. Pelo contrário, tende a tornar-se mais complexa com o tempo. Fases iniciais, frequentemente subclínicas ou leves, podem evoluir para quadros crónicos marcados por inflamação persistente, infeções secundárias (bacterianas ou por Malassezia) e múltiplos mecanismos imunológicos envolvidos. Essa progressão reforça uma mensagem central na prática clínica, a de que intervir precocemente é decisivo. Quanto mais avançada a doença, mais difícil se torna o controlo, exigindo abordagens terapêuticas combinadas e individualizadas.
No centro da fisiopatologia estão as citocinas, moléculas de comunicação intercelular essenciais para processos como imunidade, hematopoiese e inflamação. Em condições normais, coordenam respostas protetoras; porém, quando desreguladas, podem sustentar inflamação crónica. A transmissão desses sinais depende, em grande parte, das enzimas da família Janus quinase (JAK). Ao bloquear estas enzimas, é possível interromper a cascata inflamatória. No entanto, esse bloqueio levanta um desafio: equilibrar eficácia terapêutica com segurança, uma vez que múltiplas citocinas – algumas vitais – utilizam as mesmas vias de sinalização, explicou Michela De Lucia.
Neste contexto, sublinhou a oradora, o Apoquel (oclacitinib) destaca-se como uma opção terapêutica relevante. O seu mecanismo de ação baseia-se na inibição preferencial da JAK1, o que permite reduzir prurido e inflamação associados à dermatite atópica e alérgica, preservando em grande medida vias críticas mediadas por outras JAK, como a JAK2, JAK 3 e TYK. Esse perfil confere ao fármaco uma característica-chave: um equilíbrio clínico entre eficácia e segurança, apontou a especialista.
Em jeito de conclusão, Michela De Lucia reforçou a ideia de que a DAc é complexa e progressiva e que “o tratamento deve ser instituído o mais precocemente possível, ser individualizado e mantido por um período de tempo prolongado”; e de que o Apoquel demonstrou atingir o equilíbrio ideal entre eficácia e segurança em milhões de cães. Recomendou, ainda, que os colegas utilizem a estratégia T2T (treat to target) e repitam a fase de indução, se necessário (em caso de pioderma, por exemplo). Sendo a adesão à terapêutica um desafio para cães e tutores, a especialista destacou a utilização do Apoquel mastigável como forma de aumentar essa compliance.
Abordagem prática ao prurido
Numa intervenção assumidamente pragmática, centrada na realidade do consultório, a abordagem ao prurido agudo em animais de companhia revela-se menos teórica e mais orientada para decisões rápidas, eficazes e contextualizadas. Quem o diz é Diana Ferreira, especialista europeia em dermatologia veterinária que na sua intervenção sobre “Prurido agudo no cão: intervenção imediata sem comprometer o diagnóstico” lembrou que este é um dos motivos de consulta mais frequentes, sendo que grande parte dos casos se enquadra em dois grandes grupos etiológicos: processos parasitários e doenças alérgicas.
Um dos pontos centrais da intervenção é a natureza não estática das doenças alérgicas cutâneas. A dermatite atópica, por exemplo, caracteriza-se por uma evolução flutuante ao longo da vida do animal, alternando entre fases de relativa estabilidade e episódios de agravamento (flares).
Esses agravamentos podem ser desencadeados por múltiplos fatores e, de acordo com a oradora, importa sublinhar que mesmo em fases assintomáticas pode persistir inflamação cutânea subclínica – um dado relevante, evidenciado por estudos histopatológicos – o que reforça a ideia de que o controlo não equivale à cura.
Perante um quadro agudo, a abordagem deve ser reativa e célere. “O objetivo imediato é induzir remissão clínica, restaurando o conforto do animal e reduzindo o impacto no bem-estar do tutor”, explicou a especialista, justificando esta rapidez com a necessidade de alívio do sofrimento, prevenção de complicações e evicção da cronicidade.
A mensagem final é clara: “O tratamento do prurido agudo não deve ser encarado como um fim em si mesmo, mas como parte de uma estratégia mais ampla. Controlar o episódio atual é apenas o primeiro passo; prevenir recaídas e limitar a progressão da doença são os verdadeiros desafios”, rematou Diana Ferreira. Todos os casos de prurido devem ter um plano futuro que garanta um diagnóstico (em algum momento) e controlo adequado da sintomatologia no longo prazo.
Na manhã do evento, dedicada à dermatologia, houve ainda tempo para ouvir Ana Mafalda Lourenço, professora de Dermatologia na FMV da ULisboa, a falar sobre “Prurido controlado: manutenção, follow-up e estratégia a longo prazo” e a destacar a necessidade de atuar em quatro áreas para o controlo da DAc: prurido, barreira, disbiose, inflamação. De acordo com a oradora, é essencial gerir as expetativas dos tutores face a esta patologia, passando-lhes a noção de incurabilidade, dado que “o controlo é muito relativo”. Ana Mafalda Lourenço partilhou algumas dicas no plano da prevenção/eliminação de fatores agravantes, como: “gerir o stress, ter atenção aos shampoos, mas também aos detergentes usados para lavar a cama dos animais; e evitar os ácaros (fechar ração em caixas herméticas e utilizar sprays acaricidas)”.
No que diz respeito a terapêutica farmacológica, a médica veterinária sublinhou que “o one size for all e para sempre não é um protocolo ideal para os atópicos: pode-se e deve-se escalar e descalar”.
Quando o comportamento esconde dor
Comportamento e bem-estar andam de mãos dadas e a dor é muitas vezes o elo invisível entre ambos. Esta foi a principal mensagem da apresentação de Gonçalo da Graça Pereira, médico veterinário e especialista europeu em comportamento animal, que encetou a parte da tarde deste evento, dedicada à osteoartrite.
Durante anos, muitos problemas de comportamento foram tratados como entidades isoladas. No entanto, a evidência atual aponta para algo mais profundo e em muitos casos, o comportamento é apenas a ponta do icebergue, referiu o orador. “É que nem sempre aquilo que parece é e um animal agressivo, ansioso ou apático pode não estar apenas a ‘portar-se mal’ – pode estar a sofrer”, revelou Gonçalo da Graça Pereira, adiantando que estudos indicam que cerca de 68% dos cães encaminhados para consultas de comportamento apresentam dor subjacente. Ainda assim, esta continua a ser muitas vezes ignorada, sobretudo quando os exames clínicos não revelam alterações evidentes, pelo que, advoga, “é crucial uma anamnese proativa”.
Um exemplo comum surge nos gatos: a partir dos 7/8 anos, uma grande percentagem desenvolve osteoartrite. No entanto, em vez de claudicação evidente, podem surgir sinais como alopecia psicogénica, diminuição da atividade, alterações no grooming e aumento aparente do sono (frequentemente um “sono fingido”), alertou o especialista frisando que, nestes casos, tratar apenas o comportamento raramente resulta.
Segundo Gonçalo da Graça Pereira, a dor não afeta apenas o corpo – altera também o cérebro e o comportamento. Animais com dor tendem a tornar-se mais impulsivos e isto acontece devido a vários fatores: aumento do cortisol (associado ao stress), redução da atividade física, diminuição da libertação de serotonina, entre outros. E o resultado é um ciclo difícil de quebrar: mais dor, mais impulsividade, mais stress, ainda mais dor…
Importa ter bem ciente que “a agressividade é um sintoma (resposta adaptativa à dor) e não um diagnóstico”, esclareceu o preletor, que alertou que “sem intervenção adequada, o animal pode desenvolver aprendizagem associativa: começa a relacionar estímulos neutros com experiências dolorosas. Um simples toque, um som ou a presença de uma pessoa podem passar a desencadear reações negativas”.
A longo prazo, a dor pode tornar-se mal-adaptativa, persistindo mesmo sem causa física evidente. Assim, alterações neurológicas, como sensibilização central, podem amplificar a perceção da dor e expandir a sua localização. Além disso, recordou Gonçalo da Graça Pereira, “a dor crónica está associada a alterações hormonais (como aumento do cortisol), imunossupressão e desenvolvimento de comportamentos compulsivos”.
Perante tamanha complexidade, a resposta não pode ser isolada. “O tratamento eficaz exige uma abordagem multidisciplinar. Na sua apresentação intitulada “Dor disfarçada de alteração comportamental – Será que não estamos a diagnosticar a dor crónica?”, o veterinário lembrou que a avaliação da dor deve ser contínua. “Ferramentas como questionários, vídeos e monitorização de comportamentos específicos ajudam a acompanhar a evolução. Mais importante ainda, permitem avaliar a qualidade de vida – um fator crucial em decisões clínicas mais delicadas”, destacou.
Em jeito de conclusão, Gonçalo da Graça Pereira ressalvou que os médicos veterinários não tratam diagnósticos, mas sim indivíduos. “Cada animal expressa a dor de forma única. E muitas vezes, aquilo que parece um problema comportamental é, na verdade, um pedido silencioso de ajuda. Reconhecer este facto pode ser a diferença entre tratar um sintoma… ou resolver o problema”, rematou.
Esta edição das TechTalks da Zoetis terminou com as intervenções de Beatriz Monteiro, médica veterinária diplomada, que abordou o tema “5 anos de evidência científica com Librela e Solensia”, destacando a importância do NGF no maneio da dor, enquanto alvo terapêutico crucial na osteoartrite; e de Ignacio Calvo, médico veterinário diplomado, que trouxe a Lisboa a “Experiência prática com Librela e Solensia” e que com recurso a vários casos clínicos mostrou a importância de definir o “sucesso” e gerir as expetativas dos tutores na abordagem e tratamento da osteoartrite.
Além das apresentações científicas, o evento da Zoetis incluiu espaços de demonstração tecnológica e contacto direto com especialistas, permitindo aos participantes que vieram de todo o país – incluindo das ilhas – conhecer ferramentas de diagnóstico e esclarecer dúvidas técnicas. Tratou-se de um encontro que procurou aliar rigor científico, inovação tecnológica e aplicação prática – três pilares cada vez mais relevantes na medicina veterinária atual.
Lenivia e Portela: Dois novos “aliados” no controlo da dor associada à osteoartrite
O final do evento ficou marcado pela apresentação, em primeira mão em Portugal, dos dois novos anticorpos monoclonais da Zoetis: Lenivia (izenivetmab) e Portela (relfovetmab). Susana Silva e Margarida Vazquez, respetivamente Marketing Manager e Technical Manager de Animais de Companhia da Zoetis, elencaram as mais-valias destas novas soluções terapêuticas que, sustentaram, “trazem um avanço relevante no controlo da dor associada à osteoartrite em medicina veterinária e marcam uma nova era na melhoria da qualidade de vida dos pacientes”.
Ambos os fármacos introduzem uma abordagem inovadora baseada em anticorpos monoclonais, de formulação injetável (uma única injeção trimestral) e com uma duração de ação prolongada de três meses, oferecendo novas alternativas no tratamento de cães e gatos, destacaram as responsáveis.
No caso dos cães, Lenivia surge como uma opção terapêutica trimestral destinada ao controlo sustentado da dor osteoarticular. O seu princípio ativo, izenivetmab, é um anticorpo monoclonal dirigido contra o NGF, um mediador-chave na fisiopatologia da dor. “Embora partilhe o mesmo alvo terapêutico de outros fármacos já existentes, trata-se de uma molécula distinta, com propriedades farmacocinéticas e farmacodinâmicas próprias. Estas características permitem uma ligação mais prolongada ao alvo, traduzindo-se num efeito analgésico duradouro. Esta abordagem possibilita não só um controlo eficaz da dor, mas também melhorias na mobilidade e na qualidade de vida desde a primeira administração. Adicionalmente, o regime de administração trimestral contribui para uma maior adesão à terapêutica, reduzindo a frequência de visitas à clínica veterinária e o stress associado, tanto para o animal como para o tutor”, sublinharam Susana Silva e Margarida Vazquez.
Os dados clínicos que suportam o lançamento do Lenivia resultam de um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, envolvendo cerca de 570 cães. Os resultados demonstraram uma melhoria estatisticamente significativa na dor, avaliada através da escala CBPI (Canine Brief Pain Inventory), no grupo tratado com izenivetmab. Em termos de segurança, o perfil observado foi favorável, sendo a letargia o evento adverso mais frequentemente reportado. Estudos de sobredosagem, com administrações até seis vezes superiores à dose recomendada, não evidenciaram aumento relevante de eventos adversos, os quais se mostraram, na maioria dos casos, transitórios e autolimitados.
“Importa salientar que o izenivetmab não corresponde a uma formulação de libertação prolongada, nem a uma simples variação de dose de terapêuticas existentes, mas sim a uma nova molécula com características próprias. A sua metabolização ocorre por catabolismo proteico, com impacto hepático e renal residual”, salientaram as responsáveis da Zoetis.
No caso dos felinos, Portela introduz uma solução igualmente inovadora e adaptada às particularidades desta espécie. O seu princípio ativo é relfovetmab, também um anticorpo monoclonal anti-NGF, que oferece uma abordagem “cat-friendly”, permitindo o controlo da dor associada à osteoartrite com uma única administração trimestral.
Tal como no caso do Lenivia, o relfovetmab distingue-se por se ligar a uma região diferente do NGF, o que lhe confere uma duração de ação prolongada. Estudos clínicos demonstraram uma eficácia superior ao placebo, com melhorias detetáveis logo nos primeiros dias de tratamento, avaliadas através da escala CSOM (Client-Specific Outcome Measures). Foram também observadas melhorias significativas na qualidade de vida, comportamento e bem-estar geral dos animais.
De acordo com a Zoetis, “o perfil de segurança de Portela revelou-se consistente, com uma incidência de eventos adversos semelhante à do grupo placebo. As reações mais comuns limitaram-se a desconforto no local de injeção, sendo geralmente ligeiras e autolimitadas. Importa destacar que o fármaco demonstrou ser bem tolerado em gatos com doença renal crónica em estadios iniciais a moderados (IRIS 1 a 3), uma comorbilidade frequente nesta população”.
Ambos os fármacos ampliam o leque de opções terapêuticas disponíveis, permitindo uma maior individualização do tratamento. A escolha entre regimes mensais ou trimestrais poderá ser ajustada às necessidades clínicas do animal e às circunstâncias do tutor, promovendo maior flexibilidade e adesão terapêutica. De salientar que, e de acordo com a companhia farmacêutica, “estas novas terapêuticas não devem ser administradas concomitantemente com outros anticorpos monoclonais dirigidos ao NGF (tais como o Librela e o Solensia). A transição entre tratamentos deve respeitar os intervalos correspondentes à duração de ação de cada fármaco, garantindo a sua utilização segura e eficaz”.
Em suma, Lenivia e Portela representam uma evolução significativa na abordagem da dor crónica em medicina veterinária, combinando inovação científica, eficácia clínica e conveniência terapêutica.















