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Médicos Veterinários

“É completamente falso” que os jovens médicos veterinários sejam demasiado reivindicativos

“É completamente falso” que os jovens médicos veterinários sejam demasiado reivindicativos Direitos reservados

No rescaldo da apresentação no XI Congresso da Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) dos primeiros resultados do inquérito feito aos médicos veterinários com menos de 35 anos, a VETERINÁRIA ATUAL conversou com o presidente do Conselho de Jovens Médicos Veterinários (CJMV) para tomar o pulso aos profissionais mais jovens. Falam de baixos salários, de horas extraordinárias não remuneradas, de vontade de emigrar e até de abandonar a profissão. Miguel Lourenço assegura que não são uma geração demasiado exigente, apenas procuram o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional e espaço para progredir na profissão.

 

 

No recente Congresso da OMV declarou que “o futuro da medicina veterinária está em risco em Portugal”. Pensa que o mercado da medicina veterinária e os dirigentes governamentais estão conscientes do que os jovens médicos veterinários sentem quando iniciam o seu percurso profissional?
Penso que há uma consciencialização a nível nacional em relação às dificuldades que os jovens sentem. Isso tem sido um tema de debate recorrente com as notícias sobre a habitação, a falta de condições, a emigração, mas acho que ao nível da veterinária, em concreto, não há essa noção.
Infelizmente, continua a existir muito a cultura – especialmente por parte das entidades empregadoras, sejam elas grandes empresas, grupos mais pequenos, ou clínicas individuais – de que esta geração de médicos veterinários é demasiado exigente e demasiado reivindicativa. Isso, na nossa opinião, é completamente falso. Há, efetivamente, uma maior exigência da nossa faixa etária, especialmente dos médicos veterinários que estão agora a entrar no mercado de trabalho, mas que é acompanhada também pela alteração no custo de vida global. Ou seja, se calhar quando os médicos veterinários que estão agora nos cargos de chefia entraram no mercado de trabalho, apesar de receberem muito menos do que nós recebemos agora em termos absolutos, o nível de vida a que isso correspondia era completamente diferente. Hoje, um jovem médico veterinário que entra a ganhar aquilo que é a prática comum acaba por ter muitas dificuldades em conseguir formar uma vida, ter uma vida independente… E isso foi uma coisa muito patente no nosso inquérito, porque quando perguntámos se os jovens médicos veterinários consideram a sua remuneração suficiente para fazer frente às suas necessidades, 61,3% disse que essa remuneração não é suficiente.

“Infelizmente, continua a existir muito a cultura – especialmente por parte das entidades empregadoras, sejam elas grandes empresas, grupos mais pequenos, ou clínicas individuais – de que esta geração de médicos veterinários é demasiado exigente e demasiado reivindicativa. Isso, na nossa opinião, é completamente falso”

 

Mas esta é também a geração que está a ver os profissionais com mais experiência a depararem-se com problemas de saúde mental, com burnout, por exemplo. Essas reivindicações também estão relacionadas com o facto de não quererem a mesma organização profissional, com um balanço desequilibrado entre vida pessoal e profissional?
Sem dúvida. E isso, na minha opinião, é ótimo porque, infelizmente, continuam a ser frequentes as notícias que dão conta do estado da saúde mental da classe médico-veterinária, seja de médicos, enfermeiros ou auxiliares.
Esses dados mostram, taxativamente, que esta é uma profissão altamente suscetível ao burnout. Em grande medida pelas condições profissionais, não só em termos de salário, mas da carga horária, da relação com os clientes e também muito por causa daquilo a que cada vez damos mais atenção: a fadiga de compaixão.
Relativamente ao equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional, no inquérito perguntámos se os jovens médicos veterinários sentem que existe esse equilíbrio e mais de metade não concorda com esta afirmação: 12,5% disse que discorda totalmente e 44,2% que discorda. Quando questionados se horários de trabalho permitem conciliar a vida pessoal, profissional e familiar, mais de 50% disseram que não permitiam.

Continuam a avaliar estatisticamente os dados do inquérito. Consegue avançar mais interpretações do que foi respondido pelos jovens médicos veterinários?
Neste momento, conseguimos criar um modelo estatístico que permite prever a probabilidade dos jovens médicos veterinários considerarem emigrar com base na idade, na perceção se a remuneração é justa ou não, no índice de bem-estar e também no tipo de contrato que têm.
Conseguimos também perceber que existe uma tendência bastante clara para a relação entre o índice de bem-estar e a remuneração salarial que os jovens médicos veterinários recebem, obviamente sem grandes surpresas.
Um dado que também achei interessante, e que tem de ser analisado posteriormente com mais detalhe, é a distribuição do salário por género. Ficou bastante notório que a percentagem de homens que recebe um salário mais elevado é maior do que a percentagem de mulheres que recebe salários mais elevados. Cerca de 40% dos jovens médicos veterinários até aos 35 anos recebe menos de 1250€ brutos por mês e 76% recebe menos de 1500€ brutos por mês. E existe uma maior percentagem de homens nos patamares superiores de rendimento. Ficou bastante patente essa diferença, sendo que 77% dos respondedores ao inquérito eram de género feminino.

“É necessário compensar adequadamente” o trabalho extraordinário
 

Um dos dados do inquérito que mais chamou a atenção no Congresso da OMV foi a desilusão dos jovens para com a profissão médico-veterinária: 59% de médicos veterinários até aos 35 anos admitiram abandonar a carreira. Ficaram surpreendidos?
Chamou-nos bastante a atenção e não estávamos à espera destes números. Tradicionalmente atribui-se a falta de jovens médicos veterinários no mercado de trabalho à emigração, mas estes dados evidenciaram que o problema não é apenas irem para fora. É a vontade, ou pelo menos a não certeza, de que querem seguir a profissão a longo prazo. São jovens que desde pequeninos dizem que querem ser veterinários, é o sonho de vida deles e agora, face à realidade laboral generalizada no nosso país, veem que não é possível fazer a sua vida assim. Isto, obviamente, preocupa-nos bastante e tem uma face multifatorial. Não é apenas devido às condições salariais que existe esta tendência. Há uma série de outros fatores, nomeadamente a falta de oportunidade de desenvolvimento profissional, o facto de não termos uma carreira de especialização médico-veterinária em Portugal, e, entre outras coisas, o número de horas extra em noites, feriados trabalhados e fins de semana.

“Tradicionalmente atribui-se a falta de jovens médicos veterinários no mercado de trabalho à emigração, mas estes dados evidenciaram que o problema não é apenas irem para fora. É a vontade, ou pelo menos a não certeza, de que querem seguir a profissão a longo prazo”

 

Em relação às horas-extra, por exemplo, 24% dos jovens médicos veterinários disseram que fazem mais do que cinco horas extras semanais e 6% que fazem mais de 10 horas extras por semana. Acaba por ser um número ainda bastante significativo dentro da amostra e se juntarmos as noites trabalhadas, 20% dos inquiridos disseram que faz parte do seu trabalho normal, 40% disse que trabalha fins de semana e 29% diz que trabalha nos feriados. É uma realidade que sabemos ser inevitável.

Não obstante, a medicina assenta muito no trabalho extraordinário. Na medicina humana, o trabalho extraordinário faz parte da rotina desde a formação pré-graduada. Parece-lhe que há um desfasamento entre a preparação realizada pelas faculdades de medicina veterinária e o que hoje o mercado de trabalho pede aos profissionais?
Isso é parte do problema, mas na maior parte das universidades os estudantes têm de fazer as noites e fins de semana no hospital escolar. Só que uma coisa é fazer uma noite ou um fim de semana por semestre, outra é trabalhar fim de semana sim, fim de semana não como muitos colegas fazem.
No entanto, não acho que seja apenas esse o problema. Na nossa opinião, o problema passa muito por esses “extras” não serem devidamente compensados. Dos colegas que responderam ao inquérito e fazem horas extras, 47,2% reconheceu que não são compensados por essas horas e 27,6% dos que trabalham nos feriados também não são compensados. A compensação não tem de ser obrigatoriamente monetária, pode ser em bancos de horas ou outras regalias.
Obviamente sabemos que é preciso trabalhar nessas alturas, porque há uma maior procura pelos serviços veterinários, seja em clínica, em animais de produção ou na indústria, mas é necessário compensar adequadamente esta procura.

Os médicos de medicina humana estão mais protegidos por contratos coletivos de trabalho, no setor público, que moldam também o enquadramento contratual setor privado. A matéria contratual é mais arbitrária na medicina veterinária?
Esse é um ponto importante: o contrato coletivo de trabalho. Na opinião do Conselho de Jovens Médicos Veterinários, obviamente alinhada com a opinião do Conselho Diretivo [da OMV], o contrato coletivo de trabalho é um passo lógico a seguir. Obviamente, é necessário trabalhar primeiro na carreira especial de médico veterinário, algo que também já foi bastante falado, inclusive foi o tema do Congresso da Ordem do ano passado.
Se olharmos, por exemplo, para a Espanha, que está já aqui ao lado e não têm uma realidade profissional assim tão diferente da nossa, os médicos veterinários espanhóis têm um contrato coletivo de trabalho que protege os profissionais.

Essa também poderá ser uma forma de aumentar a baixa percentagem de jovens médicos veterinários na inspeção sanitária?
É uma percentagem muito pequena. Em 439 respostas recebidas, apenas 2% trabalham em inspeção sanitária.

E isso ameaça, de alguma forma, a saúde pública? Os médicos veterinários garantem que aquilo que nos chega ao prato não nos vai fazer mal…
É uma das funções mais importantes da nossa profissão e assustou-nos um pouco. No nosso inquérito também questionámos o que os médicos veterinários refletem sobre o seu percurso académico e, sabendo desta tendência para um desinteresse grande pela área da inspeção sanitária, estaríamos à espera de que houvesse um maior descontentamento com esta formação a nível universitário. Todavia, esse descontentamento não foi tão gritante como aconteceu noutras áreas. Isto leva-nos a pensar que, efetivamente, o problema pode não estar tanto na formação, mas na entrada na profissão e nas condições que esta oferece.
E na saúde pública, tivemos uma percentagem ainda mais baixa. Arredondando, são apenas 0,5% os jovens profissionais que trabalham nesta área.
São números que nos levam a pensar que, efetivamente, existe interesse nestas áreas, mas não existem as condições para reter o talento. Por exemplo, na área da saúde pública, muitas das pessoas que querem seguir esta carreira, acabam por emigrar.

Nesse campo da emigração, 39% dos respondedores reconheceu ponderar sair do país e, desses, 60% pondera fazê-lo para desenvolvimento profissional. São números que mostram a necessidade de rever a formação pós-graduada da profissão?
Acho que isso ficou bastante patente nos dados que recolhemos e, felizmente foi um assunto bastante bem debatido no Congresso da Ordem, que teve o tema a especialização médica veterinária. Quando olhamos, por exemplo, para o caso de França, nota-se claramente uma diferença gritante nas oportunidades de especialização que existem em Portugal e nas oportunidades de especialização que existem no estrangeiro.
Felizmente, temos cada vez mais programas de residência e mais diplomados no nosso país. Mas, obviamente, ainda estamos muito longe daquilo que seria o ideal para a procura que existe neste momento.

Especialização é um caminho necessário para a medicina veterinária

A discussão sobre a especialização veterinária, já tem quase tantos anos como a própria OMV. Aliás, foi um tema tratado, sob várias formas, em todos os 15 Congressos da Ordem. Desta vez, pelo menos naquela sala, foi unânime que é necessário trabalhar em alguma forma de especialização para aliciar os profissionais a ficarem no país. Qual vai ser o contributo do CJMV para esta discussão?
Acima de tudo, somos o órgão consultivo do Conselho Diretivo. Não podemos ter um impacto direto na tomada de decisões, mas penso que o nosso papel vai passar muito por aquilo que apurámos com este inquérito. Funcionará como base do nosso trabalho para os próximos anos, pois permitiu-nos ter um diagnóstico bastante assertivo das dificuldades dos jovens. Agora, estamos a analisar estatisticamente todos os dados recolhidos e, dentro de pouco tempo, esperamos começar a partilhar resultados definitivos.
A partir daí, o nosso trabalho vai passar muito pela sensibilização de quem toma as decisões, seja o Conselho Diretivo ou outras autoridades, para as dificuldades dos jovens e para a importância que a especialização médico-veterinária pode ter na retenção de talento.

Já existem algumas residências de especialidade validadas pelo European Board of Veterinary Specialisation (EBVS) no País e já mais de 50 especialistas europeus estão a trabalhar em Portugal. A especialização, com este nome ou outro, no seio da OMV terá de aproveitar esses recursos?
Vai ter de passar muito por aí. E isto não é a minha opinião, é uma opinião que ficou bastante patente no Congresso. Foi um assunto que foi mais ou menos unânime na discussão, de que é preciso aproveitar os especialistas que fizeram formação lá fora e perceber como é que podemos aplicar isso cá dentro, seja no estabelecimento dos especialistas de facto, que foi outro aspeto bastante falado, seja como base para depois formarmos os nossos programas de especialização nas áreas que se acharem convenientes na altura.
E tal como acontece noutras áreas da saúde – com farmacêuticos, nutricionistas, psicólogos ou médicos – este acabará por ser um processo dinâmico. Os colégios de especialidade, ainda não sabemos se vão ser esse formato, que existirem numa primeira fase depois vão-se adaptando àquilo que forem as necessidades e a realidade da classe médica veterinária.
Penso que o CJMV pode ter um impacto bastante grande nesta tomada de decisão porque, para definirmos este plano vai ter de ser algo a pensar no futuro. A especialização é urgente e é uma necessidade óbvia dos médicos veterinários em Portugal.

“A especialização é urgente e é uma necessidade óbvia dos médicos veterinários em Portugal”

CJMV trabalha para dar “um futuro melhor” aos médicos veterinários

O CJMV foi criado há pouco mais de um ano, em setembro de 2024. Que balanço faz destes primeiros meses de mandato?
O Conselho de Jovens foi criado pela atual direção da OMV com o objetivo de ter um órgão que fosse o mais representativo possível na classe. Ou seja, juntar jovens médicos veterinários de contextos diferentes, quer regionais, quer da área de atuação, para ter uma opinião que fosse o mais abrangente e representativa possível.
E foi exatamente isso que aconteceu. Somos sete elementos e estamos espalhados pelo País. Temos pessoas da Região Autónoma da Madeira, da Região Autónoma dos Açores, do Norte, Centro, pessoas do Algarve – que é o meu caso, por estar lá a trabalhar – e também temos pessoas de áreas diferentes de atuação: médicos veterinários de pequenos animais, de inspeção sanitária, de animais de produção e de animais de Zoo.
Acaba por ser uma experiência muito enriquecedora poder comparar a realidade destas áreas distintas e isso tem sido um ponto muito positivo do trabalho do Conselho.
Temos um grupo que, felizmente, é muito unido e temos sentido também um grande apoio da parte do Conselho Diretivo, especialmente da pessoa do bastonário, que nos tem incentivado a sermos ambiciosos e a sonharmos alto naquilo que podemos efetivamente fazer pelos nossos colegas.
Muitos de nós temos condições laborais que são consistentes com aquilo que vimos no inquérito, há outros que felizmente não têm exatamente os mesmos problemas, mas estamos a trabalhar pelos nossos colegas e pela possibilidade de darmos um futuro melhor não só aos médicos veterinários que atualmente têm menos de 35 anos, mas também aos nossos futuros colegas que ainda se vão formar.
Daí que estejamos também a trabalhar com os estudantes, através das associações académicas, porque o nosso trabalho só faz sentido se for numa perspetiva a longo prazo.

Até agora, o trabalho mais visível foi a realização do inquérito. Que projetos têm pensado concretizar a curto prazo?
Este ano que passou foi de estruturação interna. É um órgão recente e, portanto, tivemos todos de nos adaptar e de saber exatamente qual é que seria o nosso lugar. Daí que a nossa primeira iniciativa tenha sido fazer este inquérito. Tal como na prática clínica, antes de passarmos ao tratamento temos de fazer um diagnóstico correto.
Este inquérito acabou por ser o diagnóstico dos problemas da classe. Estamos nesta fase final do diagnóstico e, quando tivermos esta análise estatística concluída, vamos alinhar as nossas perspetivas com o Conselho Diretivo e perceber de que forma é que podemos, efetivamente, contribuir para o futuro dos nossos colegas.

 

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