A iCatCare Veterinary Society publicou no Dia Mundial da Diabetes as mais recentes guidelines para o diagnóstico e acompanhamento dos gatos com esta patologia endócrina. Os médicos veterinários ouvidos pela VETERINÁRIA ATUAL falam num novo paradigma no tratamento desta patologia.
Uma década passou desde que a International Society of Feline Medicine (ISFM), agora identificada como iCatCare Veterinary Society, publicou as linhas de orientação para o diagnóstico e tratamento da diabetes mellitus na população felina. Nesses 10 anos, muito aconteceu no panorama científico e urgia uma atualização de conceitos, desde o diagnóstico à terapêutica, que foi agora publicada no Dia Mundial da Diabetes, assinalado a 14 de novembro, no Journal of Feline Medicine and Surgery. Uma necessidade que foi sublinhada por uma das autoras do documento, Martha Cannon – especialista em medicina felina reconhecida pelo Royal College of Veterinary Surgeons e médica veterinária na Oxford Cat Clinic, no Reino Unido – em declarações à VETERINÁRIA ATUAL, à margem do IX Congresso de Medicina Felina da Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC). “Considero que as guidelines devem ser renovadas e reforçadas sempre que possível, mas sobretudo quando algo novo muda significativamente o panorama terapêutico. Aconteceu o surgimento dos iSGLT2 e as anteriores guidelines tinham de ser atualizadas porque não incorporavam estes fármacos”, declarou.
A publicação destas novas orientações foi bem recebida pelos clínicos nacionais. Rodolfo de Oliveira Leal, especialista europeu pelo European College of Veterinary Internal Medicine – Companion Animals (ECVIM-CA) e atual presidente da European Society of Veterinary Endocrinology (ESVE), também sublinha o aparecimento dos inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 (iSGLT2), a par do ajuste na insulinoterapia com base nas novas insulinas basais da medicina humana, como um dos fatores principais para rever a prática clínica no maneio da diabetes mellitus nos gatos. “É um documento importante porque experts na área fizeram a compilação de tudo o que é inovação e de todos os pontos-chave que ocorreram nos últimos 10 anos na diabetes mellitus felina”, declara à VETERINÁRIA ATUAL.
  “É um documento importante porque experts na área fizeram a compilação de tudo o que é inovação e de todos os pontos-chave que ocorreram nos últimos 10 anos na diabetes mellitus felina”
Rodolfo Oliveira Leal, especialista europeu pelo ECVIM-CA e presidente da ESVE
Também na opinião de Tomás Magalhães, presidente do Grupo de Interesse Especial em Medicina Felina (GIEFEL) da APMVEAC, estas “são guidelines muito completas”, pois fazem a atualização da intervenção clínica da gestão da doença nos gatos, incluindo o acompanhamento dos casos mais complexos de animais diabéticos com comorbilidades associadas.
Novas terapêuticas ajudam gatos e tutores
Em termos de diagnóstico, Martha Cannon considera que, atualmente, esta “é uma questão simples”, sem novidades no documento, pois os médicos veterinários já têm instituída a pesquisa de hiperglicemia nas consultas de rotina, quer se trate ou não de um animal com obesidade, uma das principais causas de desenvolvimento da patologia.
Todavia, a notícia de ter um gato com diabetes mellitus pode difícil para o tutor, admitiu a especialista do Reino Unido. Aliás, em determinadas situações, pode “até ser uma razão para ponderarem a eutanásia”, confessa, tendo em conta os condicionalismos que uma doença crónica traz à vida do animal e, consequentemente, à vida da família que o acolhe. Contudo, Martha Cannon reforça que ter um gato com diabetes “não significa que os tutores não vão poder ir de férias ou não vão sair à noite para jantar fora, só porque têm de injetar o gato [com insulina] em intervalos de 12 horas, ou seja, duas vezes ao dia”. Hoje, como demonstram as novas guidelines, já estão disponíveis várias opções terapêuticas para tratar estes animais e é possível “encontrar uma solução de compromisso que funcione bem para o tutor e seja financeiramente acessível”. Para alguns cuidadores, “a insulina continuará a ser a melhor opção, pois é a terapêutica que dá a oportunidade de controlar os sinais clínicos e, potencialmente, fazer o gato entrar em remissão”, refere a especialista. Para outros, lidar com injeções e agulhas duas vezes ao dia, mais os riscos de hipoglicemia, continua a ser uma perspetiva assustadora.
Rodolfo Oliveira Leal relata que a doença pode, efetivamente, ter uma carga “emocionalmente negativa”, mas assegura que “a diabetes mellitus já não é o bicho-papão que era há uns tempos. Existem alternativas terapêuticas onde a qualidade de vida, não só dos gatos, como também dos tutores é mais do que assegurada”. E na opinião do especialista europeu, foram precisamente os iSGLT2 que “vieram revolucionar a qualidade de vida dos animais e dos tutores, porque se o gato for candidato a esta terapêutica, o maneio da diabetes torna-se muito mais fácil”.
“Diria que estamos perante uma mudança de paradigma no maneio da diabetes”, reforça Tomás Magalhães, já que os iSGLT2 alargaram as possibilidades terapêuticas a quem antes tinha como única opção a administração de insulina. Os novos fármacos “têm a vantagem de ser por administração oral, em formato de xarope uma vez ao dia, e evitam os injetáveis, que para muitos tutores são um desafio muito grande”, relatou o médico veterinário que se dedica à medicina felina.
O paradigma agora é olhar para o algoritmo terapêutico das guidelines e ver onde se encaixa o gato após o diagnóstico de diabetes. Se for aquilo a que os autores denominaram de “gato feliz” – um animal com um apetite normal, bem hidratado e sem outras patologias – é um bom candidato a receber iSGLT2, se o tutor assim o desejar. Se for um “gato feliz”, mas tiver sinais clínicos de outra doença, é recomendado investigar e tratar essa patologia concomitante e só depois apresentar a escolha entre iSGLT2 e insulinoterapia ao tutor. Se essa comorbilidade não for debelada ou se o clínico estiver perante um “gato infeliz” – sem apetite, desidratado, com sinais de doença, como vómitos e diarreia – aí o algoritmo apresenta como escolha mais acertada a insulinoterapia.
Segundo explicação de Martha Cannon, os novos fármacos são indicados para os gatos que ainda têm alguma capacidade de produzir insulina, embora de forma insuficiente, já que os iSGLT2 “permitem que o gato responda melhor à insulina que ainda produz”. No entanto, até agora a experiência clínica não aponta para a possibilidade de remissão com os iSGLT2, daí que seja necessário esclarecer os tutores que, em princípio, essa será uma terapêutica que acompanhará o gato para o resto da vida. Assim sendo, estas orientações apresentam ao tutor o dilema citado por Martha Cannon: “Tratar a diabetes de forma intensa [com insulinoterapia], com uma dieta apropriada, mantendo o peso adequado do animal e com a possibilidade de alcançar a remissão ou ter um gato com a diabetes controlada, mas para o resto da vida”. “Para os tutores com receios relativamente às implicações de injetar a insulina, de monitorizar a glicose e ao risco de hipoglicemia, então o iSGLT2 é a melhor escolha, se o gato for candidato [a essa terapêutica]”, resume a médica veterinária.
  “Para os tutores com receios relativamente às implicações de injetar a insulina, de monitorizar a glicose e ao risco de hipoglicemia, então o iSGLT2 é a melhor escolha, se o gato for candidato [a essa terapêutica]”
Martha Cannon, autora das guidelines da iCatCare Veterinary Society
E se a hipoglicemia deixa de ser uma preocupação com a terapêutica oral, Rodolfo Oliveira Leal lembra que os iSGLT2 têm como potencial efeito secundário a cetoacidose euglicémica, “algo com que os médicos veterinários ainda não estão muito familiarizados”, mas passível de ser manejado pelo clínico que segue o animal ou, em caso de dúvida, referenciando para uma consulta mais diferenciada.
Dispositivos de monitorização: uma ajuda preciosa
Outro destaque do documento diz respeito à utilização de sensores de monitorização contínua da glicemia, colocados na pele do animal, uma novidade com poucos anos no mercado da medicina veterinária. Segundo Tomás Magalhães, “estes medidores [contínuos de glicose] têm uma boa precisão e permitem ter as curvas de glicemia sem estarmos a picar constantemente o animal na almofada plantar ou no pavilhão auricular. Do ponto de vista da medicina felina temos aqui uma ferramenta que acaba por cumprir os princípios da abordagem cat friendly” já que reduz o stress sentido pelo animal.
“Estes medidores [contínuos de glicose] têm uma boa precisão e permitem ter as curvas de glicemia sem estarmos a picar constantemente o animal na almofada plantar ou no pavilhão auricular. Do ponto de vista da medicina felina temos aqui uma ferramenta que acaba por cumprir os princípios da abordagem cat friendly”
Tomás Magalhães, presidente GIEFEL
Para Martha Cannon, “o amplo uso dos monitores contínuos de glicose faz uma grande diferença na capacidade de monitorar os gatos que estão a receber insulina” e segundo a especialista, trouxe algum conhecimento sobre a variabilidade dos valores dos felinos.
Não obstante, as ruturas de stocks destes dispositivos nas farmácias para utilização humana também afetam a medicina veterinária e o presidente do GIEFEL admitiu que os tutores também reportam dificuldades. Ainda assim, apesar das polémicas pela partilha de utilização entre humanos e animais, o responsável reforça que os sensores de monitorização contínua da glicose “estão validados para a utilização em animais domésticos. Só que, tal como a diabetes é altamente prevalente na população humana, o mesmo acontece nos animais de companhia e poderá haver dificuldades em termos de gestão de stocks” que afetam ambas as populações.
Tutores são a chave para o sucesso de tratamento
Uma das facetas do documento publicado pela iCareCat mais valorizadas pelos médicos veterinários é o protagonismo dado aos cuidadores. “Nestas guidelines tenho de destacar o cuidado extremo e o grande foco que é dado aos tutores”, sublinhou Rodolfo Oliveira Leal. São várias as caixas ao longo do texto com dicas e orientações para quem cuida do animal fazer a gestão clínica da doença e retirar um pouco o peso do diagnóstico de uma doença crónica. “Não podemos esquecer que esta é uma doença particularmente stressogénica” tanto para o gato, conhecido por ser um animal que não gosta de alterações nas rotinas, como para o tutor que terá de lidar não só com a gestão farmacológica, como também com a gestão da alteração da dieta alimentar. Daí que, na opinião do especialista europeu, é fundamental “terem algumas guidelines de forma a prever melhor como vai ser a gestão do gato diabético em casa”, mas fugindo sempre de uma perspetiva alarmista. Bom senso e diálogo é a receita prescrita pelo presidente da ESVE.
Precisamente o mesmo receituário de Tomás Magalhães. Quando está em causa a gestão de uma doença crónica tem sempre de existir “uma grande componente de conversa e de diálogo com o tutor” e, nesse sentido, “o tempo de consulta tem de ser esticado porque há muita coisa para discutir”. Desde a administração dos fármacos, os horários da terapêutica, como a insulina deve ser mantida em casa, os sinais a que devem estar atentos e contactar o médico veterinário, são tópicos que têm de ser abordados e esclarecidos ao detalhe. Até porque, recorda o presidente do GIEFEL, “de facto, para termos os melhores resultados tem de haver compliance por parte do tutor. Não chega fazermos a recomendação médica, temos de ter a certeza de que a mensagem passou para o outro lado e que, efetivamente, vai haver um cumprimento daquilo que aconselhámos”.
Além da farmacoterapia, os tutores são igualmente essenciais na gestão alimentar do gato com diabetes. As novas guidelines não alteram as recomendações nesta matéria. A dieta terapêutica aconselhada “são alimentos que têm baixo teor de hidratos de carbono e alto teor de proteína”, frisa Tomás Magalhães, lembrando, nomeadamente nos casos a receber insulinoterapia, que “se conseguimos mantê-los com a dieta apropriada, a probabilidade de conseguimos que estes casos entrem em remissão é maior”.
Ideias-chave das guidelines da iCareCat
- A diabetes mellitus (DM) é uma endocrinopatia frequentemente diagnosticada em gatos, resultante de uma deficiência relativa ou absoluta de insulina, e é comparável à diabetes mellitus tipo 2 em humanos;
- Os protocolos de tratamento e monitorização podem ser flexíveis – levando em consideração os fatores individuais tanto do cuidador, como do gato – de forma a garantir a adesão ao tratamento;
- A comunicação aberta com os tutores pode identificar preocupações específicas e reduzir o fardo de cuidar de um gato com DM;
- Com a triagem adequada, os iSGLT2 oferecem uma alternativa às injeções de insulina nos gatos elegíveis. São uma opção adicional desejável e eficaz, mas devem ser reservados para gatos diabéticos clinicamente saudáveis;
- O maneio nutricional com dietas de baixo teor de hidratos de carbono pode otimizar o controlo glicémico e a remissão;
- Complicações como cetoacidose diabética, a cetoacidose euglicémica e a hipoglicemia podem ocorrer, mas conseguem ser controladas com sucesso, através das estratégias disponíveis para mitigar seus riscos.
- Promover a deteção precoce da DM e suas complicações deve ser uma prioridade para otimizar os resultados, independentemente da opção de tratamento escolhida.

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