É entre cesarianas a ovelhas, vacinação de bovinos e microchips de cães e gatos que Luís Miguel Miranda, Luís Barros e Sónia Pereira Miranda passam os dias. A VETERINÁRIA ATUAL conversou com a equipa do Centro Veterinário Oliveiravet para conhecer a rotina de quem se divide entre os cuidados aos animais de companhia e a vigilância sanitária de efetivos que são a matéria-prima para uma iguaria considerada património gastronómico nacional: o Queijo da Serra da Estrela.
No sopé da Serra da Estrela se há coisa que não falta são animais. De Oliveira do Hospital até à montanha mais alta de Portugal Continental são cerca de 50 quilómetros de distância e pode dizer-se que a pequena cidade do interior tem uma vida híbrida entre um quotidiano mais urbanizado e as aldeias serranas que a rodeiam. Nas cercanias, abunda a característica natureza que ainda toca as fronteiras do Parque Natural e os povoados por onde passeiam os rebanhos das ovelhas, grande parte da raça Bordaleira, das quais sai o leite dá origem ao afamado Queijo da Serra da Estrela.
Este foi o ambiente que serviu de berço ao Centro Veterinário Oliveiravet. Abriu portas no mês de outubro de 2023 e é um projeto de uma equipa com vasta experiência na região, sobretudo, nas respostas que a medicina veterinária pode providenciar às diversas espécies de animais que por lá habitam.
Sónia Pereira Miranda conta à VETERINÁRIA ATUAL como tudo começou, no ido ano de 2016. Luís Miguel Miranda, engenheiro zootécnico e médico veterinário, andava de galochas pelos campos da Beira Serra a fazer cumprir a Lei nas explorações animais, enquanto Luís Barros, também médico veterinário, tinha uma atividade profissional mais ligada aos animais de companhia. Outro médico veterinário, que na altura tinha um pequeno consultório em Seia, quis encerrar a atividade profissional e propôs a estes dois colegas ficarem com o espaço. Aceitaram o desafio e a eles juntou-se Sónia, enfermeira veterinária e mulher de Luís Miguel Miranda, acabando por formar o trio de gestores do projeto que fez nascer em 2016 a Clínica Veterinária do Crestelo, em Seia.
Luís Miguel Miranda, também diretor clínico, lembra as dificuldades desse tempo: “Começámos do zero. Não tínhamos clientes, não tínhamos equipamentos e tínhamos uma concorrência forte dos hospitais veterinários em redor”. Todavia, Luís Miguel Miranda tinha um ponto a seu favor, porque sabia que “estava a jogar em casa”. “Sou aqui da região, já tinha imensos clientes de animais de produção, eles também tinham animais de companhia e uma coisa puxa a outra”, conta, lembrando que havia sempre parvoviroses a tratar, piometras para serem intervencionadas e esses casos eram reencaminhados para o centro de atendimento médico-veterinário (CAMV), onde Luís Barros ficou a fazer o atendimento de animais de companhia.
  “Sou aqui da região, já tinha imensos clientes de animais de produção, eles também tinham animais de companhia e uma coisa puxa a outra”
Luís Miguel Miranda, diretor clínico e sócio do Centro Veterinário Oliveiravet
“Foi um início difícil, sobretudo o primeiro ano, mas com esse espaço de Seia conseguimos alguma folga financeira para abrir, em 2023, este centro mais airoso, agradável e já com alguns equipamentos em Oliveira do Hospital”, acrescenta a enfermeira veterinária. A escolha da pequena cidade não foi ao acaso, porque procuravam estar mais perto da creche dos filhos, pois mesmo tratando-se de localidades vizinhas, as estradas do interior exigem sempre tempo e muitos cuidados nas distâncias percorridas.
Responder à diversidade de cuidados animais
A equipa de sócios passou a desdobrar-se entre as duas unidades para dar resposta à miríade de necessidades desta região interior. Luís Barros, para além da clínica de animais de companhia, é ainda veterinário municipal de Tondela e docente na Escola Superior Agrária de Viseu. Luís Miguel Miranda trabalha na Associação Nacional dos Criadores de Ovinos da Serra da Estrela (ANCOSE), dá aulas na Escola Universitária Vasco da Gama e admite, entusiasta, continua a fazer muito trabalho com animais de produção porque “gosto mesmo muito dessa área”. A testemunhar isso mesmo, enquanto conversava com a VETERINÁRIA ATUAL preparava-se para mais uma saída: “Vou estar com ovelhas. Vou cumprir a Lei na parte de sanidade animal, fazer colheita de sangue para a pesquisa de brucella, aproveitar para imunizar contra a língua azul, porque temos um problema em mãos com serotipo 3 na região, e para fazer o restante maneiro profilático dos rebanhos”.
O médico veterinário reforça que, por estarem situados “em pleno coração da região demarcada do Queijo da Serra da Estrela”, são os rebanhos de ovelhas que lhe ocupam grande parte da vida fora do CAMV. É um trabalho que passa muito por assegurar a reprodução dos efetivos – como a sincronização de cios, as inseminações artificiais e o diagnóstico de gestação por ecografia – e fazer medicina profilática nesses animais. Existem também alguns rebanhos de caprinos e bovinos, não esquecendo alguns porcos, mas, em termos absolutos, a ovelha é rainha por estas bandas, numa atividade variada que leva Luís Miguel Miranda até concelhos um pouco mais distantes como Góis ou Pampilhosa da Serra.
Luís Barros foi durante algum tempo o único médico veterinário a fazer clínica de animais de companhia. “As espécies pecuárias, normalmente é mais o Luís Miguel, como anda pela zona e absorve mais esse trabalho, embora ele também faça uma prática mista”, reforça o médico veterinário. Em clínica vêm os habituais gatos, cães e não raras vezes também a cabrinha que não é de produção, mas anda pelo quintal e até foi batizada pelo neto quando veio nas férias grandes visitar os avós. Histórias que são bem habituais na ruralidade nacional. Completamente residual é a clínica de animais exóticos. “Eventualmente, lá aparece um porco vietnamita, mas pouco mais do que isso”, admite Luís Barros.
O que notam na medicina de animais de companhia é ainda a pouca sensibilidade dos tutores da região para a prevenção. Sónia Pereira Miranda conta que recebem uma grande casuística “de casos problemáticos, já numa fase tardia” de progressão da doença. “Ficamos tristes por as pessoas gastarem dinheiro a tratar os animais e não gastarem dinheiro na prevenção, por exemplo com uma vacina. Acontece na falta de vacinação contra a parvovirose, nas cirurgias de piometras por não esterilizarem os animais”, conta a enfermeira. O mito de que não é preciso esterilizar o cão porque não fica prenhe também leva a muitas cirurgias de resolução de patologia de próstata, isto já para não falar na liberdade tão característica destes animais que vivem no campo. Em aldeias onde proliferam os quintais e as quintas, os dias de muitos deles são passados ao ar livre, em contacto direto e constante com a natureza, e embora a vacinação e desparasitação devessem ser uma prioridade, ainda não são uma rotina instalada.
Luís Barros admite que estão localizados “numa zona onde a maior parte das pessoas recorre ao veterinário quando é estritamente necessário e isso acontece, não como prevenção, mas como tratamento”. A explicação pode residir “no tecido económico da região, eventualmente por ser uma zona mais desfavorecida”, mas o médico veterinário nota que este paradigma tem vindo a mudar lentamente. Já começa a crescer o investimento dos tutores na medicina preventiva, mas o grande salto, acredita Luís Barros, virá quando os seguros de saúde animal entrarem em força no quotidiano nacional. “Julgo que o futuro passará muito por haver seguros para animais que sejam competentes e possam cobrir grande parte das despesas, tal como acontece na medicina humana. Desta forma, as pessoas poderão trabalhar mais preventivamente do que de forma curativa”, refere o clínico, acrescentando: “Nós também poderemos realizar um trabalho mais competente porque há coisas que as pessoas deixam de fazer porque economicamente não têm capacidade. Mas, a verdade é que estas pessoas se preocupam muito com os animais de companhia e com os animais de produção. Têm-nos como mais um elemento da família”, refere o clínico.
“A verdade é que estas pessoas se preocupam muito com os animais de companhia e com os animais de produção. Têm-nos como mais um elemento da família”
Luís Barros, médico veterinário e sócio do Centro Veterinário Oliveiravet
Recobro para cães, gatos e o que mais couber pela porta
O espaço físico da clínica de Oliveira do Hospital reflete as necessidades de uma equipa que se divide entre dois mundos na medicina veterinária. Tem dois consultórios, onde fazem os normais atendimentos a animais de companhia, sendo que, refere o diretor clínico, “a colega que está em Oliveira tem muito interesse pela área da Oncologia, gosta muito também da parte da Dermatologia, e eu gosto muito de Medicina Interna. Sempre que posso, também dou sempre uma ajuda nessa área, para além de fazer os animais de produção”.
Depois existe uma sala de tosquia para o grooming e uma sala de preparação dos animais para a cirurgia e a sala de cirurgia em si. E no âmbito cirúrgico, a equipa tanto recebe os casos simples de intervenções em tecidos moles de animais de companhia, como recebe a ovelha para fazer a cesariana que não pôde ser realizada no campo ou o carneiro que foi até à clínica para uma uretrostomia. O princípio é, diz Luís Miguel Miranda com graça, “se puder ser transportado até à clínica e couber na porta, nós operamos”. Todavia, quadros clínicos mais complexos são referenciados para parceiros com maior diferenciação (ver caixa).
O recobro reflete a população recebida na clínica: têm as tradicionais jaulas para cães e gatos e um recobro especializado para ovelhas e cabras, uma jaula gigante onde nunca falta feno e ração.
No Centro Veterinário Oliveiravet estão ainda assegurados os serviços laboratoriais – tanto bioquímica, como hemograma – e têm a visita duas vezes por semana de um serviço de ambulatório para realização de diagnósticos por ecografia. Ainda na componente imagiológica, o CAMV de Oliveira do Hospital tem como suporte o raio-X da clínica de Seia, muito embora as instalações tenham uma sala já pensada para esse fim. Será um investimento a realizar a prazo.
As instalações contemplam ainda uma copa para os profissionais, um espaço de descanso e não podia faltar “vestiários e duches para quando vimos do campo nos prepararmos para ir ver os pequenos animais”, descreve a enfermeira veterinária.
Recursos humanos: o eterno problema da interioridade
O espaço temporal que mediou entre o trabalho iniciado Seia e a abertura do CAMV de Oliveira do Hospital, quase 10 anos, não se prendeu apenas com a parentalidade de Sónia e Luís Miguel e com as múltiplas atividades a que os médicos veterinários se dedicam.
A enfermeira veterinária lembra que não queriam avançar sem ter uma equipa estável e isso, assume, “é muito difícil no interior”. Quem chega de fora costuma vir cheio de entusiasmo, aliciados pela qualidade de vida, pelas rendas baixas e até a possibilidade de ter uma pequena horta e espaço de sobra para criar família, mas o certo é que o peso da interioridade não os retém por muito tempo. Luís Miguel Miranda também reconhece que “é muito complicado fixar pessoas que não sejam de cá” e se a carência de médicos veterinários é um problema transversal ao setor da saúde animal – com queixas ouvidas de norte a sul, do litoral ao interior do País – é, precisamente, nas regiões mais rurais que o problema se agudiza.
O primeiro objetivo dos sócios foi, então, encontrar alguém que assegurasse de forma permanente o trabalho em Seia e “isso demorou”, mas, neste momento, acrescenta a enfermeira, “sem contar com o Luís Barros e com o Luís Miguel, temos três veterinários a tempo inteiro”. E explica: “Temos um médico fixo em Oliveira do Hospital, um médico fixo em Seia e dois enfermeiros em cada lado. Depois temos uma terceira médica veterinária que pode estar em Seia ou em Oliveira para colmatar folgas, o serviço que se acumula, fazer domicílios e ajudar no campo”. O truque para conseguir criar esta equipa?
Apelar ao coração. “O médico que está connosco em Seia [Mário Martins] o Luís Miguel foi buscá-lo ao Porto. Tirou lá o curso, mas é daqui e o Luís Miguel foi ter com ele e argumentou “não queres voltar para as tuas origens? Toda a gente abandona a nossa terra. Nós não podemos abandonar a nossa terra””, conta Sónia Pereira Miranda a sorrir. “E a médica de Oliveira do Hospital a mesma coisa. A Mariana Domingues tirou o curso em Coimbra, pensava ir para Lisboa, mas já não foi”, acabando seduzida pela mesma argumentação dos sócios.
Com os enfermeiros acabou por ser um pouco mais fácil. O mercado começou a crescer com a criação dos cursos universitários de enfermagem veterinária há 20 anos e, de momento, não se registam os problemas de contratação de que a medicina veterinária padece.
Depois das dificuldades sentidas, hoje Sónia Pereira Miranda está confiante e satisfeita com o grupo formado. “Felizmente, conseguimos ter uma equipa que é interessada e residente, ou seja, não é aquela equipa de passagem, como tantas vezes acontece nesta área”, afirma.
“Felizmente, conseguimos ter uma equipa que é interessada e residente, ou seja, não é aquela equipa de passagem, como tantas vezes acontece nesta área”
Sónia Pereira Miranda, enfermeira veterinária e sócia do Centro Veterinário Oliveiravet
Luís Barros considera que, neste momento, a equipa “é bastante versátil e bastante composta, por isso, o que nos fará mais sentido é aumentar as competências e investir na formação dos profissionais”. Com uma casuística muito variada, o médico veterinário aponta a Dermatologia, a Oncologia e o comportamento animal talvez como as áreas com maior necessidade de aprofundamento, a par de todo o saber da Medicina Interna, sempre com o objetivo de “investir no conhecimento e equiparmos com novas competências as pessoas que temos” no sentido de serem “capazes de dar resposta e fazer bons diagnósticos”.
Em termos de equipamentos, a sala de raio-X no CAMV de Oliveira do Hospital é um investimento que será pensado mais para a frente. De momento, aguardam a chegada do ecógrafo recentemente adquirido, não que ponderem prescindir do serviço de ambulatório de ecografia, mas para ajudar em diagnósticos mais simples e melhorar a prestação de serviços tanto aos animas de companhia, como aos de produção. A filosofia da equipa é que todos eles merecem o melhor.
Para a equipa ficou claro desde o início do trabalho em Seia que, a bem da saúde animal e da transparência com os clientes, a rede de parcerias é fundamental. Tudo o que lhes chega no âmbito da cirurgia ortopédica é encaminhado para o Hospital Veterinário Universitário de Coimbra, assim como são reencaminhados os casos clínicos que necessitam realizar exames complementares de imagem mais sofisticados. “Quando percebemos que temos limitações, porque temos, pois não somos um hospital, temos de reencaminhar o caso. O que nos importa, em grosso modo, é conseguir dar uma boa resposta às pessoas”, frisa Luís Barros.Sónia Pereira Miranda advoga o mesmo princípio: “Sou apologista de que não devemos inventar e fica-nos sempre bem se mandamos para alguém que faça as coisas 100% bem. É bom para o colega, é bom para nós, é bom para o cliente e, sobretudo, é bom para o animal”. E a enfermeira lembra o exemplo de um caso recebido um par de dias antes. “Era um gatinho com umas análises horríveis, uma lesão renal gigante. Era sábado e a médica do serviço de ambulatório não estava para ajudar na parte da ecografia. Preferimos mandá-lo para Viseu, por preferência dos tutores. Ligámos aos colegas, encaminhamos o caso e quando lá chegou o médico veterinário falou connosco, fez o exame e o gato depois voltou. Acho que devemos ser o mais transparentes possível. É melhor do que estar a empatar uma situação que depois pode não ter um bom desfecho ou não se resolver tão rapidamente”, conta.Luís Barros acrescenta: “Não tenho ideia de haver um caso que tenha sido mal conduzido. No nosso caso, a referenciação, por norma, é uma coisa que nos corre muito bem”.

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