Um dia com...

“Estes são os animais de ninguém ou de alguém que não quer ou não os pode ter”

Um dia com… a diretora clínica da Casa dos Animais de Lisboa

É o maior centro de recolha de animais abandonados e errantes do nosso país. A Casa dos Animais de Lisboa (CAL), em Monsanto, deixou há três anos de ser canil de abate e Marta Videira está na direção desde essa altura. “Depois de 15 anos em clínica privada, aqui é tudo muito diferente, mas é estimulante. Gosto muito”.

Aqui é tudo diferente, nomeadamente quando se têm de tomar decisões difíceis. Questionada sobre quando têm de eutanasiar os ‘seus’ animais – porque é assim que Marta Videira os trata, ‘os nossos animais’ – a responsável técnica da Casa dos Animais de Lisboa baixa os olhos embaciados e reconhece que “é completamente diferente decidir pela eutanásia com o dono de um animal que não tem esperança ou aqui, quando são nossos e somos nós que temos de decidir”. A diretora clínica da CAL lembra que “estes são os animais de ninguém ou de alguém que não quer ou não os pode ter, mas enquanto estão cá são nossos”. E são muitos: 170 cães, 150 gatos, mais um furão e um porco.

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O dia de Marta Videira começa habitualmente pelas 09h30 com um café no bar-refeitório da CAL. Acompanhamo-la nesse café e a responsável aproveita para explicar que “o refeitório é indispensável porque estamos aqui no meio de nada”. De facto, para chegar à CAS temos de ‘trepar’ por Monsanto numa estrada com curvas apertadas. Mesmo assim, Marta Videira conta que “quem quer abandonar um animal consegue sempre encontrar-nos. Todos os dias temos animais deixados à porta”. Naquele dia foi uma ninhada de cachorros, encontrada num caixote, que foram imediatamente adotados por uma das cadelas residentes da CAL, dos nove cães e cadelas que andam soltos pelas instalações e se cruzam connosco em todos os cantos.

Voltando à ‘mãe de adoção’, “ela está esterilizada por isso não tem leite, mas está a dar-lhes de mamar, o que a magoa certamente, mas ela não se importa e nós deixamos porque estamos a amamentá-los a biberão e ela faz o resto: limpa-os e dá-lhes carinho”.

Maior dificuldade é a falta de pessoal

Marta Videira mostra-nos as instalações da CAL, explica-nos como funciona e vai-nos apresentando a todos os que se cruzam connosco: médicos veterinários, tratadores-apanhadores, encarregados, administrativos, pessoal do bar e cozinha… e também aos animais residentes, quase todos cães e cadelas velhotes que “foram ficando” e que, dada a sua meiguice, se tornaram “mesmo nossos”.

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À entrada fica a receção, a sala de espera e à direita um consultório para as adoções e consultas externas. “Fazemos aqui todas as aplicações da vacina antirrábica e a colocação do chip para os cães dos munícipes e também as consultas de acompanhamento dos animais adotados aqui na Casa, que oferecemos durantes as duas semanas seguintes”. O município oferece também a esterilização dos animais adotados que eram demasiados jovens para fazerem a cirurgia quando foram adotados. A CAL, como quase todos os serviços públicos hoje em dia, luta com “falta de pessoal”, mas a diretora clinica já vê alguma luz ao fundo do túnel quando, ao fim de quase dois anos “está a terminar o concurso para admissão de novos tratadores-apanhadores”. Estes fazem um pouco de tudo na CAL, nomeadamente a assistência aos médicos veterinários nos tratamentos e cirurgias, mas também as recolhas de animais abandonados ou errantes que os munícipes ligam a informar que se encontram a vaguear (ou mortos… a Casa tem um forno crematório), bem como algumas entidades, como a Infraestruturas de Portugal e a GNR que informam ou os vêm entregar. “Entram muitos animais acidentados, com situações ortopédicas ou hérnias, principalmente gatos que são mais frágeis, os cães são mais resistentes”. Mas não estamos a falar apenas de cães ou gatos, embora esse sejam claramente a maioria, mas também furões e até mesmo cavalos e porcos.

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A CAL tem sete médicos veterinários, quatro encarregados de canil, 15 tratadores-apanhadores (cujo quadro irá ser completado em breve), sete assistentes operacionais (administrativos e pessoal do bar- refeitório) e uma técnica superior “coordenadora dos voluntários que trabalham connosco, que vêm passear alguns dos cães que estão em celas”. Marta Videira refere que “os tratadores-apanhadores são responsáveis pela higienização dos espaços, abeberamento, alimentação e higiene dos animais e recolher os animais acidentados, bem como acompanhar a atividade clínica e cirúrgica”. A CAL está aberta 24h sobre 24h, o que obriga a uma gestão ainda mais criteriosa do pessoal. “Os médicos veterinários estão de serviço aos fins-de-semana e escalonados para urgências e noites, mediante chamada de urgência. Os tratadores estão distribuídos por três turnos para assegurar as 24h de serviço”, explica.

Dias iguais, mas sempre diferentes

Voltando à ‘rotina’ – entre comas porque apesar de os dias serem iguais são sempre diferentes – Marta Videira conta à VETERINÁRIA ATUAL que habitualmente faz trabalho de secretária de manhã e ao final do dia. No dia em que a acompanhámos ‘saltou’ esta parte e foi diretamente para a sala de tratamentos, depois de combinar o trabalho do dia com os colegas que estavam dedicados às cirurgias de gatos do programa de Captura, Esterilização e Devolução (CED). Começou por tratar os animais no isolamento (doentes principalmente em tratamento dermatológico) ou em quarentena (onde estão os animais até terem espaço para passarem para os parques ou celas, no caso dos cães, e para o gatil, no caso dos gatos). “As pessoas abandonam muitos animais doentes, por isso praticamente todos os animais do isolamento precisam de tratamento”, lamenta a médica veterinária. E segue-se a rotina de tratamento desses animais, que se prolonga pela manhã e retoma da parte da tarde.

Programa CED já começa a dar frutos

Entretanto, na sala ao lado da de tratamento, está uma médica veterinária e um tratador (no dia em que lá estivemos estavam de serviço, além da diretora clínica, os médicos veterinários Fernanda Pimentel e Rosa Catalão e os tratadores Fernando Pinto, João Lima e Rita Beleza), a tratarem das cirurgias do programa CED. Marta Videira explica-nos que “é um programa de esterilização maciça de gatos silvestres [bravios, que vivem felizes nas colónias pois não são sociabilizados com os humanos] de várias colónias da cidade, que são acompanhados e alimentados por associações e outros voluntários que trabalham connosco, segundo regras bem definidas, com o objetivo de reduzir progressivamente o número destes animais errantes”. As associações com que o município trabalha no âmbito do CED são a Animais de Rua e o Movimento para a Esterilização de Gatos de Lisboa (MEG) e depois de 1044 gatos restituídos no ano passado, em 2016 a contagem ia já em 764 no final de outubro. A responsável técnica assegura que “com o passar do tempo há zonas de lisboa que já estão muito controladas” e defende: “só com uma política de esterilização maciça se vai conseguir reduzir o número de animais nas ruas, mas vai demorar muitos anos”.

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A própria CAL tem uma colónia de cerca de 70 animais “onde colocamos os que são silvestres ou assilvestrados que entram na Casa, não podendo ir para o gatil esperar a adoção. Estão em zonas: uma vedada completamente para ficarem nas primeiras três semanas e se habituarem ao local senão iriam certamente fugir e “nós estamos aqui a 600 metros de vias rápidas e autoestradas”. A outra zona é vedada e também tem camas, água e comida, mas onde os gatos podem sair e andar à vontade na zona de acesso à CAL e na serra. “São felizes, com muito espaço e um ambiente bom, com muitos esconderijos”.

Carinho e dedicação

A médica vai tratando os animais e dando indicações aos tratadores, à medida que consulta o computador com as fichas dos animais. “Tudo está informatizado, mas temos sempre as nossas folhas e podemos também recorrer à folha de entrada do animal para vermos qual a sua história, quem o entregou, quando, etc.”, diz a diretora clínica. Pela sala de tratamento passaram vários cães e gatos, começando por uma cadela abandonada num terreno onde houve um incêndio e estava presa, tendo sido descoberta pelos bombeiros muito debilitada. Segue-se uma outra que “está cá já há muito tempo. Tem cerca de oito anos, sempre esteve na rua, teve muitas ninhadas e entrou com um tumor venéreo, pois esteve sempre a ser maltratada pelos machos. Decidimos fazer quimioterapia e ao fim deste tempo todo está quase boa e a poder ir para adoção”.

Quando faz um teste de Leishmaniose a um dos cães, Marta Videira assume que “quando os animais são positivos analiso as situações caso a caso, mas quando são animais sem problemas hepáticos ou renais faço o tratamento”.

Há os que deprimem e os que ganham vida

Sobre o comportamento dos animais na CAL, a diretora salienta que “há dois tipos: os animais que deprimem por estarem num canil, que tiveram casa, conforto e carinho, ficam ‘anestesiados’ por não perceberem onde estão e os casos contrários, de animais que sofreram maus tratos que ganham vida”. Marta Videira lembra que “quando falamos de animais que tiveram dono não estamos sempre a falar de animais abandonados. Temos aqui muitos animais de grupos de pessoas que nem sempre nos lembramos deles: idosos que vão para lares e não têm família, doentes internados em instituições psiquiátricas, pessoas que foram despejadas e estão a viver na rua, detidos… tenho dois cães nas jaulas de um detido que me escrever com frequência a saber como estão e a pedir que mantenha os aqui até ele sair. Tenho outro caso de um senhor que está a viver no carro… raramente nos lembramos destas situações”.

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Depois dos cães, passamos aos gatos e aparece um caso com coriza. No teste, os pelos são colocados em meio de cultura para fungos, seletivo para dermatófitos “fica fúchsia ao fim de 14 dias, mas pela nossa experiência ao fim de quatro dias já se começa a ver, por isso vamos já começar a tratá-lo topicamente, com Betadine, todos os dias”. Chega depois uma gatinha tigrada com um enorme hematoma debaixo de uma das patas traseiras. “Foi atropelada e tem uma hérnia inguinal de risco, porque há passagem de órgãos, mas não nos parece muito grave, por isso estamos a deixá-la crescer um pouco para a podermos intervencionar”, diz a médica.

Aproveitamos para ver como se está a adaptar uma das gatinhas tratadas pouco antes, amarela cruzada de persa, que teve alta da quarentena. Está enfiada num cantinho, mas “vai-se adaptando, estes são todos muito mansos”.

O gatil tem lâmpadas de aquecimento, ligadas a um termostato para manter a temperatura entre os 17° e os 18°. Nas obras previstas para breve, de alargamento da CAL, Marta Videira revela   que “vai ser feito um alçapão no gatil para poderem ter acesso a um solário para terem melhor qualidade de vida, idêntica aos da nossa colónia”.

Parcerias para valências que CAL não tem

Ao falar de adoções, a veterinária salienta que “temos algumas restituições, quando é feita a adoção referimos que se houver algum problema é preferível devolverem o animal e que não temos objeção. Prefiro que me devolvam os animais do que os abandonem”. Sobre o tipo de tratamento que a CAL pode fazer, Marta Videira afirma que “fazemos tudo o que são cirurgias de castração e a tecidos moles, Rx, ecografia, análises básicas, kits rápidos de Leishmaniose, febre da carraça, FIV e FELV, mas temos parcerias com a Universidade Lusófona, a LPDA e a Associação Zoófila para teste mais completos e complicados, bem como cirurgias mais complexas com as ortopédicas, que são frequentes, e casos de urgência que precisam de cuidados intensivos e monitorização”.

A médica veterinária lembra que, possivelmente por ser a capital, muitos dos animais que recebem não são só de Lisboa, mas dos concelhos limítrofes. O programa de vacinação que a Casa dos Animais segue inclui para os gatos jovens a vacina tripla para as doenças infetocontagiosas, com três reforços e depois anual. Para os cães inclui a Esgana, Hepatite, Leptospirose e Parvovirose, com três reforços nos jovens e dois nos adultos, e depois anual.

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Uma das tarefas administrativas da diretora clínica da CAL é, no início do ano, a encomenda de medicamentos, vacinas e materiais de consumo clínico. De acordo com o gasto no ano anterior são feitas estimativas e “fazemos um caderno de encargos que segue para concurso público”. Periodicamente “é feito também um levantamento das necessidades e uma das minhas administrativas ajuda-me no processo que, dependendo dos valores, a compra pode ser feita por ajuste direto ou não”. A alimentação e areia para os gatos também são compradas em grandes quantidades, já que a Casa gasta cerca de 130kg de ração por dia (cão e gato) e 56lt de areia, que é mudada todos os dias.