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Investigação

Cetáceos têm alto risco de serem infetados pelo novo coronavírus – conheça os animais mais vulneráveis

Cetáceos têm alto risco de serem infetados pelo novo coronavírus – conheça os animais mais vulneráveis

Os cetáceos foram identificados como animais de alto risco de infeção pelo novo coronavírus, apesar de estarem muito longe dos humanos em termos evolutivos.

Num artigo da publicação The Conversation, Esperanza Gomez-Lucia, professora de Saúde Animal e codirectora do Grupo de Vírus Animal na Universidade Complutense de Madrid, em Espanha, realizou uma análise a um artigo científico recente que avalia a suscetibilidade ao SARS-CoV-2 de 410 espécies animais através do estudo dos seus recetores celulares, com base em modelos informáticos da proteína ACE2, que permite que o vírus entre na célula.

De acordo com Gomez-Lucia, os autores classificaram o risco de infeção em cinco categorias, de muito baixo a muito alto.

No artigo, a professora começa por explicar como ocorre a infeção da célula animal pelo vírus SARS-CoV-2. Dá-se na membrana de certas células vertebradas, onde existem as tais moléculas ACE2, cuja função é converter as hormonas angiotensinas I e II em moléculas que funcionam como vasodilatadores e que participam na regulação da pressão sanguínea e do sistema cardiovascular.

Embora a função seja a mesma em todas as vertentes, a sequência destas moléculas varia em diferentes grupos e famílias.

“A ACE2 humana encaixa perfeitamente em certos aminoácidos (a que chamaremos RBD, receptor binding domain) da glicoproteína S do SARS-CoV-2, a mais externa e exposta do vírus. Por conseguinte, atua como recetor do vírus”, explica a professora no artigo.

Após o acoplamento, são enviados sinais para a célula, permitindo que o vírus penetre na mesma. Logicamente, quanto mais distantes os animais estiverem em termos evolutivos, menos semelhanças as ACE2 deveriam revelar, por terem adquirido mutações ao longo do percurso evolutivo.

“Então, porque é que os cetáceos, veados, tamanduás e hamsters dourados, que são todos tão distantes dos humanos e uns dos outros em termos evolutivos, apresentam um risco tão elevado de serem infetados pelo SARS-CoV-2?”, questiona Gomez-Lucia.

Para explicar, a autora utiliza o conceito de evolução convergente – evolução divergente seria a diferenciação progressiva à medida que as espécies se distanciam –, explicando que esta ocorre quando duas espécies encontram a mesma solução para um problema comum.

“O exemplo típico seria a capacidade de voo das borboletas e dos morcegos: ambos desenvolveram membranas que lhes permitem realizar esta atividade. No caso da ACE2, partindo de um ancestral comum, possivelmente no tronco mais indiferenciado dos mamíferos, foram selecionadas mutações semelhantes em humanos, cetáceos, veados e alguns roedores, de modo que o resultado atual é uma elevada semelhança nesta molécula.”

Cães, gatos e tigres apresentam um risco médio

Como podem gatos, tigres e cães ter sido infetados com o vírus e terem até morrido se a previsão é de que o risco de infeção pelo SARS-CoV-2 é médio? No caso dos cães e gatos, a explicação pode ser que tenham recebido uma enorme quantidade de vírus dos seus donos infetados e sejam suscetíveis de adoecer após um contacto próximo e prolongado”, explica Gomez-Lucia.

A quantidade de vírus tem sido tão elevada que permitiu que, “embora a palavra-passe [encaixe] estivesse longe de ser perfeita, algumas células foram enganadas e permitiram a entrada do vírus, especialmente se os animais apresentavam outras patologias”.

Contudo, a autora considera que “é difícil de acreditar que tenha sido este o caso do tigre siberiano no zoo de Nova Iorque”.

“Uma explicação possível para estes casos de infeção com risco médio pode ser a utilização pelo vírus de outra molécula, que não a ACE2, como coreceptor, uma segunda ‘palavra-passe’. Isto não seria excecional, uma vez que a virologia tem muitos exemplos conhecidos deste fenómeno”, salienta.

Um dos casos que Gomez-Lucia usa como exemplo é o HIV-1 (o vírus da sida), que além de utilizar o recetor CD4, também precisa de uma segunda molécula, CCR5 ou CXCR4, nomes que escondem moléculas recetoras de quimiocina.

Consequentemente, poderá levantar-se a hipótese de que o SARS-CoV-2 também utiliza um coreceptor no caso de espécies animais cuja ACE2 não é idêntica à humana. A investigadora salvaguarda que “por outro lado, não devemos esquecer que o estudo em questão se baseia em modelos informáticos que podem não ter identificado perfeitamente os aminoácidos-chave no reconhecimento de ACE2-RBD de S”.

Pangolins e morcegos afinal têm um risco muito baixo

Segundo a autora, a sequência molecular do SARS-CoV-2 é semelhante em 96,2% ao coronavírus de um morcego particular, o Rhinolophus sinicus, podendo ser “um possível avô do coronavírus atual”.

“Dado que a sequência das proteínas S da envoltura do SARS-CoV-2 mostra uma maior semelhança (97,5 %) com a S do pangolim da Malásia, especulou-se que o coronavírus desta espécie poderia ser o progenitor da SARS-CoV-2”, hipótese que foi posteriormente refutada cientificamente.

Como é que o modelo informático coloca a ACE2 destes dois grupos de mamíferos em relação ao seu nível de risco de ser infetado com SARS-CoV-2?

Para explicar o caso dos morcegos, os autores do estudo sugerem que o vírus pode circular entre estes animais, mas não lhes causa qualquer doença.

“É como se houvesse uma espécie de tréguas entre eles. Quanto ao pangolim, esperamos deixar de suspeitar deste pequeno animal”, reitera a professora.

“Em conclusão, há ainda muitas incógnitas sobre a biologia do SARS-CoV-2. Uma vez que não temos as respostas sobre a possível suscetibilidade dos animais domésticos e selvagens ao vírus, é melhor que as pessoas com sintomas ou que apresentem um teste PCR positivo para o vírus fiquem longe dos animais”, conclui.