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“Uma instituição de ensino que não aposte na investigação está condenada a falhar e a ficar para trás”

Abraçou o cargo de reitor da Escola Universitária Vasco da Gama (EVUG), em Coimbra, em abril passado. Com um currículo académico e parte da carreira dedicada à investigação, o também fundador da Vetherapy – uma empresa que comercializa produtos baseados na terapia regenerativa de tecidos e órgãos –, pretende inovar e tornar o ensino mais disruptivo. Pedro Carvalho explicou à VETERINÁRIA ATUAL algumas das mudanças que gostaria de implementar.

Como foi o seu caminho na EUVG até ser nomeado reitor?

Em 2014, fui convidado a integrar o corpo docente, com o desafio de fomentar a investigação e as parcerias nacionais e internacionais. Na altura, o objetivo era aumentar estas colaborações e as publicações científicas, pois era um handicap que tínhamos a nível institucional. Fui contratado porque vinha com um currículo relativamente consistente na área de investigação relacionada com medicina regenerativa.

Passados cerca de dois anos, consegui alguma margem para me dedicar de forma mais exclusiva à área de investigação e criámos o Centro de Investigação Vasco da Gama (CIVG), conseguindo inclusive integrá-lo na lista da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Fomos avaliados, conforme aconteceu com todos os centros a nível nacional, e durante este processo, criei e fundei a empresa Vetherapy, que acabou por ter alguma projeção, ganhando inclusive um Prémio Inovação 2016, nos Prémios Veterinária Atual.

Houve depois a oportunidade de integrar a empresa nos EUA, em finais de 2017, através de um pequeno financiamento, e foi a primeira vez que tivemos um destaque maior no âmbito internacional. Conseguimos solidificar a Vetherapy e o CIVG, concorrendo em parceria a diferentes projetos internacionais e a apoios da FCT. Aprovámos quatro deles na área da medicina regenerativa, em colaboração com a Universidade do Minho, com a Universidade de Aveiro e com parceiros internacionais, trazendo financiamento para o nosso centro. Estamos neste momento a conduzir um ensaio clínico em lesões de coluna em cães traumatizados com a Universidade do Minho.

Houve sempre alguma sinergia entre a Vetherapy e a Universidade?  

Sim, houve. Como a empresa trabalha precisamente a área de engenharia de tecidos e medicina regenerativa, acabava por haver essa proximidade. Neste momento, tenho alguns alunos de doutoramento que estou a orientar, alguns trabalhos de mestrado ou relatórios de estágios desenvolvidos nesta área, alguns com produtos que a empresa disponibiliza.

Não existem quotas nem partilhas de sociedade, são entidades distintas, mas houve sempre esta aproximação e essa ponte, muito fomentada pela minha pessoa e pelo interesse desenvolvido nesta área. Uma das nossas apostas será precisamente no plano do empreendedorismo e na capacitação dos nossos alunos para a criação de startups e a aplicação prática e comercial das suas ideias: temos duas spin-off que vamos criar e uma delas será operacionalizada já este ano na nossa instituição.

Porque é que optou por enveredar pela investigação em detrimento da prática clínica?

Quando terminei o meu curso, ao fim de dois ou três meses do meu estágio profissional e em que comecei a fazer clínica, percebi que me incomodava estar naquele papel rotineiro de prescrever a dose certa, o tratamento adequado, e comecei a pensar que talvez preferisse estar do lado de quem está a procurar respostas. Depois, tive a sorte e o privilégio de contactar e integrar um grupo de excelência mundial, 3B’s, da Universidade do Minho, que têm investigadores de mais de 25 países e infraestruturas de topo, o que foi uma mais-valia muito importante para mim.

Como surgiu o convite para ser reitor da EUVG?

Quando regressei dos EUA, comecei a dedicar-me de forma mais exclusiva a estes projetos e a fomentar a parte de investigação. Fui também coordenador da licenciatura em Ciências Bioveterinárias, única no país, e que foca precisamente a preparação para o mundo da investigação e as técnicas necessárias neste meio, partindo de uma base de ciência animal.

A universidade estava a reconhecer o meu esforço em promover a inovação conciliada com a investigação, o que coincidiu com uma fase em que o anterior reitor, Humberto Rocha, resolveu abraçar outros desafios, portanto, surgiu esta oportunidade. A direção e os meus colegas apontaram-me para este cargo, o que me deixou um pouco surpreendido, até por ser mais jovem do que a maioria deles e pelo próprio tempo em que estive na Escola.

Gostaria de deixar uma palavra de apreço e de reconhecimento relativamente ao antecessor Humberto Rocha pelo trabalho muito sólido que fez durante quase duas décadas, sem o qual seria muito difícil para nós dar continuidade. Ainda que queiramos ser disruptivos, sem este trabalho que foi feito, seria uma tarefa muito mais difícil.

É reitor desde abril deste ano. Um dos seus objetivos é mudar um pouco a perspetiva de ensino, tornando-o mais disruptivo. Que mudanças pretende introduzir?

São cinco os colegas que integram esta nova direção e todos partilhamos esta visão de mudança e de futuro que tudo faremos para alcançar. Por vezes, é preciso uma luta muito grande contra os poderes instituídos, mas acredito que precisamos de aproveitar a massa crítica e dinamizar o ensino de outra forma.

Acima de tudo, quero tentar implementar outra filosofia, uma nova maneira de ser e de pensar um pouco contra a corrente daquilo que vejo desenvolvido em Portugal, no que respeita a medicina veterinária. Acho que a nossa sociedade está em constante mudança, e ou a profissão tem a capacidade de acompanhar as novas exigências ou vamos ter sérias dificuldades. Acredito que seja preciso alguma coragem, mas também alguma visão e determinação para conseguirmos reconhecer o que está a acontecer no setor, antecipar um pouco o futuro e começar a reestruturar a forma como estabelecemos o currículo da própria profissão veterinária.

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É quase uma mudança de paradigma?

É preciso repensar expectativas, tanto dos docentes, como dos alunos, porque continuamos a operar num modelo do século passado em que o docente está em frente dos alunos e se limita a debitar a matéria numa atitude muito passiva. Acredito que esta seja uma postura confortável, mas acaba por ser muito limitadora e não fomenta o pensamento crítico e mais reflexivo por parte dos próprios alunos. É preciso mudar esse paradigma, apostar mais num ensino convertido em workshops e em seminários em que os alunos tenham uma liderança mais ativa, e em que o docente funciona mais como mentor e que atribui capacidade de negociação e de comunicação, que é muito necessária ao estudante para o seu futuro exercício profissional.

O curso de Medicina Veterinária é longo, continua a ser muito maçudo, muito pesado e precisa de ser dinamizado na estruturação do seu próprio currículo. Uma das coisas que defendemos e promovemos na EUVG é uma imersão na parte prática logo no segundo ano, o que consideramos ser uma forte estratégia para a preparação dos alunos para o mercado de trabalho. Estamos neste momento classificados como uma das melhores escolas do país e competimos em pé de igualdade com as escolas públicas, que têm fundos e apoios a que nós não temos acesso, sobretudo na vertente prática, clínica e na preparação dos alunos.

Tem de haver uma integração vertical da própria equipa, incluindo cirurgiões, patologistas, medicina interna, em que o foco está na resolução do problema e em que os alunos possam aprender diretamente com aquela experiência, sem se limitarem a ler manuais de forma estanque. Acredito muito numa colaboração multi-institucional precisamente agora que os apoios às universidades são cada vez mais escassos. Parece-me que a partilha de recursos faz todo o sentido, seja porque há um know-how ou as pessoas certas naquele local, e que podemos aprender com as mesmas em vez de criarmos tudo de raiz.

Hoje em dia, fala-se muito do conceito One Health, que pretende uma formação curricular clínica mais forte junto do público e da parte cooperativa para que as pessoas agreguem conhecimentos, de forma mais específica.

“É preciso repensar expectativas, tanto dos docentes, como dos alunos, porque continuamos a operar num modelo do século passado em que o docente está em frente dos alunos e se limita a debitar a matéria numa atitude muito passiva.”

 

E no que respeita às novas tecnologias, tencionam integrá-las nos cursos?

Estamos numa sociedade em constante evolução, a tecnologia tem tido avanços incríveis comparativamente há 20, 10 anos, e temos de preparar os alunos para lidar com essa tecnologia, dando-lhes as bases e preparando-os para o futuro. Eles devem ter contacto com meios tecnológicos aos mais variados níveis. Temos cada vez mais a inclusão de modelos 3D, mesas de cirurgia virtual, bem como sensores que nos dão alguns parâmetros bioquímicos, biológicos, analíticos e que vão diretamente para o nosso aplicativo no telemóvel. Apesar de tudo isto já ser uma realidade, é necessário incuti-la desde logo, enquanto os alunos estão a aprender todas as outras disciplinas.

A telemedicina, por exemplo, é uma prática que vi nos EUA e que está a expandir-se por imposição de limitações da própria sociedade. Cada vez mais o diagnóstico à distância, que contraria um pouco o nosso código deontológico, que nos diz que se deve analisar o animal de forma presencial, vai ser incontornável. As pessoas não têm tempo para percorrer tantas distâncias ou para ir à clínica por qualquer situação. Às vezes, um pequeno diagnóstico ou mesmo uma triagem podem ser efetuados com telemedicina, que já existe em medicina humana e que já poderia ser uma realidade em medicina veterinária, em Portugal.

Considera que o ensino de medicina veterinária está equiparado ao que é desenvolvido noutros países europeus?

Se compararmos com algumas instituições de topo no estrangeiro, parece que estamos a falar de dois mundos e de duas realidades diferentes, mas uma das nossas principais mais-valias são os recursos humanos, ou seja, os nossos veterinários, até porque muitos têm ido lá para fora aprender para ensinar posteriormente cá dentro.

Tem de se revolucionar um pouco o currículo daquilo que é a medicina veterinária. As pessoas estão cansadas da medicina de receituário em que se prescreve um princípio ativo sem muitas vezes se conseguir atuar na fonte da doença ou do problema. É preciso incutir essas valências nos futuros profissionais, sensibilizando-os para olharem o animal como um todo.

Temos profissionais muito bons e que não ficam nada atrás de pessoas que vêm desses institutos onde estão milhões investidos, embora não tenha havido grandes alterações ao nível de ensino, infelizmente, nem nos sistemas americanos nem no sistema europeu. Em termos de currículos e das disciplinas lecionadas, não mudou muito de há 30 anos para cá, e se calhar é aí que estamos a falhar: em insistirmos em querer manter estes currículos quando os mesmos deveriam ser repensados há muito tempo, mas notamos que os docentes tentam imprimir alguma atualização e dinamização.

Será muito desafiante esta mudança…

Sim, vamos ter uma tarefa hercúlea, mas eu gosto de desafios, e foi por isso que decidi abraçar este convite. Acredito essencialmente nos médicos veterinários e na classe. Acho que, aos poucos, vamos conseguir adaptar-nos àquilo que vai ser a medicina veterinária. Acredito também que a inclusão de literacia financeira nos currículos de medicina veterinária peca por tardia. As pessoas têm de aprender a fazer uma gestão de pequeno negócio, das suas clínicas, e considero que a vertente de gestão financeira tem de ser incluída no ensino da medicina veterinária. É uma necessidade que percebemos que existe, porque não há nada na nossa formação que nos direcione nesse sentido. São ferramentas que não nos são dadas e acredito que, pelo menos, algumas bases deveriam ser passadas aos alunos.

Como tem sido o impulso da investigação na EUVG?

A investigação é um mundo que me é mais próximo e que quero continuar a fomentar aqui na Vasco da Gama, porque considero que uma instituição de ensino que não aposte na investigação está condenada a falhar e a ficar para trás.

Normalmente, os médicos veterinários fazem alguma investigação em determinada área associada a uma linha sobretudo académica (nos trabalhos de doutoramento, por exemplo), mas normalmente, quando falamos do conceito One Health, desde o desenvolvimento do produto o médico só é chamado numa reta final em que é preciso ter um modelo animal, fazer alguma cirurgia, etc. Todo o desenvolvimento que está para trás carece de uma visão mais prática e mais clínica. É por isso que vemos milhões a serem investidos em centenas de projetos, com equipas multidisciplinares, e onde, muitas vezes, não vemos incluídos os veterinários. Eu acho que um veterinário deve fazer parte desta visão multidisciplinar que a investigação tem para contribuir com uma vertente mais clínica. Gostaria de ver a classe com um envolvimento mais direto.

As universidades já vão tendo mais centros de investigação em que os médicos veterinários podem e devem colaborar, mas normalmente quando exercem clínica nas diferentes áreas de interesse, acabam por não equacionar esta vertente.

“Para mim, a discussão das especialidades, que tem causado grande celeuma na classe, foi sempre uma não questão.”

Os alunos da EUVG têm acesso à investigação no currículo por forma a serem integrados na mesma?

Nós tentamos incentivar a participação dos alunos e temos instituído o que chamamos de Prática Veterinária Integrada, em que os alunos, a partir do segundo ano, têm oportunidade de estagiar em diferentes áreas, entre semestres. Tentamos colocar, de imediato, todos aqueles que têm mais vocação para a investigação em contacto com centros de referência.

Quantos alunos estudam atualmente na EUVG?

São cerca de 400. Esperamos chegar aos 500 em breve, quando, ao que tudo indica, completarmos já este ano todas as vagas do curso de Ciências Bioveterinárias.

Considera que há muito mais licenciados em Medicina Veterinária para a oferta existente em Portugal?

De há uns anos a esta parte, temos na Vasco da Gama um contexto europeu em que uma percentagem dos nossos alunos vem de fora (principalmente França), mas depois de terminarem o curso, provavelmente voltarão a esse mercado de trabalho. Ou seja, não estamos a inundar o mercado português com profissionais que depois não vão conseguir ter colocação. Em relação a este tema, tenho uma dualidade de pensamento: acho que há mais oferta formativa do que aquela que o mercado consegue absorver e se calhar deveria repensar-se o número de universidades públicas. Temos países bem maiores do que o nosso com uma universidade pública, e em Portugal, existem quatro, atualmente.

Depois, no caso das privadas, como é o caso da EUVG, temos de ter em conta que os alunos que vêm para o curso de Medicina Veterinária estão altamente motivados e querem mesmo isto, sendo profissionais muito dedicados. Se não tiverem colocação em Portugal, acabam por procurar fora do País, e eu sempre fui um pouco contra o facto de termos de ir lá fora quando temos meios e recursos aqui, que devemos aproveitar. Ainda assim, acho que há muito espaço para veterinários com pensamento inovador e que podem ser alocados em diferentes setores que não só a prática clínica.

Qual a sua opinião sobre a atribuição de título de especialista?

Para mim, a discussão das especialidades, que tem causado grande celeuma na classe, foi sempre uma não questão. Nunca percebi porque é que se está a discutir a atribuição do título de especialista nacional quando a tendência na Europa, cada vez mais, foi a de abandonar essa atribuição e focar no título europeu. A partir do momento em que é criado um organismo europeu, que se rege por um padrão de excelência e tenta garantir, de alguma forma, que todos têm acesso às mesmas condições, não faz sentido estar a discutir eternamente a atribuição do título de especialista. Ainda não se chegou a um consenso.

Na sua opinião, qual pode ser o futuro da Medicina Veterinária?

Estão mais ou menos definidos os desafios com que temos de lidar. O futuro passa um pouco pela mudança de realidade, que ocorre cada vez mais a vários níveis e a veterinária não vai ser exceção. Temos de estar preparados para abraçar essa mudança e, provavelmente, temos de ser menos resistentes à inovação, porque isso não é sinónimo de progresso. A tipologia de cliente é consideravelmente diferente do que era há 20 anos.

Gostaria de deixar alguma mensagem aos colegas?

É preciso acreditarmos mais em nós, naquilo que fazemos, aproveitar o que os nossos colegas fazem lá fora, e rapidamente vamos perceber que não ficamos atrás de ninguém nem de nenhuma instituição. Com todas as situações menos boas com que temos de lidar na classe, gostaria de ressalvar que temos profissionais de excelência em Portugal, mas falta-nos saber inovar e valorizar um pouco melhor a profissão, algo que já se faz lá fora há muito tempo.

 

PERFIL Pedro Carvalho  [2]

Médico veterinário formado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, doutorou-se em 2012, em Engenharia de Tecidos, Medicina Regenerativa e Células Estaminais, pela Universidade do Minho (3B’s Research Group), em Braga. Trabalhou durante um ano nos EUA, no Pennington Biomedical Research Centre, University of Louisiana, e ainda durante um ano e meio, como pós-doutorado, no European Institute of Excellence in Tissue Engineering and Regenerative Medicine, até 2014. É autor de mais de 20 publicações e capítulos de livros em edições científicas internacionais.

Em 2014, foi convidado por Humberto Rocha a integrar o corpo docente do Mestrado Integrado em Medicina Veterinária da EUVG, assumindo também a coordenação da licenciatura em Ciências Bioveterinárias.

Em 2015, funda a empresa biotecnológica Vetherapy, única no país a disponibilizar tratamentos com células estaminais e produtos regenerativos para aplicação clínica veterinária, e a Sociedade Portuguesa de Medicina Regenerativa Veterinária, que preside desde então. Em 2016, a Vetherapy é galardoada com o Prémio Inovação pela Veterinária Atual.

Em 2017, consegue criar o CIVG – sob o conceito One Health –, do qual se torna diretor, e aprova pela primeira vez na instituição vários projetos de I&D nacionais e internacionais. No mesmo ano, a empresa Vetherapy é selecionada para receber um investimento de capital norte-americano e ser incorporada no Silicon Valley.

É, desde abril deste ano, o novo reitor da EUVG.

Este artigo foi publicado originalmente na edição de junho da VETERINÁRIA ATUAL.