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Improve regressa às mãos dos fundadores originais em Portugal

Veterinários não devem ter medo de se focar no negócio

Fundada em Inglaterra, em 1998, a Improve International chegou a Portugal em 2007 pelas mãos de Rui Lobão, Ana Rocha e Heber Alves. Ao longo dos anos, a empresa de formação veterinária e os seus fundadores portugueses têm construído um percurso tão interessante quanto impressionante, operando um pouco por todo o mundo e gerindo grande parte dos negócios do grupo. Depois da sua aquisição, em 2015, por uma multinacional britânica ligada à aquacultura, a Improve Internacional nunca perdeu realmente as suas raízes nacionais, mas foi agora readquirida pelos três fundadores originais em Portugal e por mais cinco sócios do Reino Unido. Em conversa com a VETERINÁRIA ATUAL, Rui Lobão, diretor de operações da marca, fala sobre este trajeto e sobre o futuro da empresa de formação veterinária à medida que esta se vira cada vez mais para o caminho traçado pela pandemia de covid-19 para todos nós – o online.

A Improve foi fundada em Inglaterra em 1998 e em 2007 em Portugal. Pode falar-me um pouco da história da empresa, da sua atuação fora de Portugal, e explicar-me o processo de venda e agora reaquisição?

A Improve International expandiu-se para Portugal em 2007 com uma equipa inicial formada por mim, pelo Heber Alves e pela Ana Rocha. Desde então, a estratégia que delineámos e implementámos passou essencialmente pela vertente da expansão geográfica. Após o sucesso da primeira fase de cursos em Portugal, que tiveram início no segundo semestre de 2007, iniciámos planos para alargar a nossa oferta para Espanha, onde iniciámos atividades em 2009. Em Espanha, a nossa oferta de cursos modulares acreditados pela International School of Veterinary Postgraduate Studies — ISVPS (então ainda denominada ESVPS) revelou-se muito popular e foi com alguma naturalidade que decidimos expandir para França em 2010, para a Alemanha em 2011 e para a Áustria em 2012. Esta expansão foi acompanhada por um aumento proporcional da equipa no escritório de Portugal, onde já damos resposta a várias valências como finanças, marketing, design e atendimento ao cliente, este último realizado por uma equipa multilingue que presta esse apoio no respetivo idioma de cada país.

No que toca às licenças, a primeira que estabelecemos a nível europeu foi na Dinamarca, em 2009. Uma licença é basicamente um modelo de atividade da Improve International em que a responsabilidade da parte de operacionalização dos cursos está a cargo de uma terceira entidade que opera no país em questão. Nestes casos, a Improve International e a ISVPS são essencialmente responsáveis pelo escrutínio da qualidade dos programas.

A primeira licença que estabelecemos fora da Europa foi no México. Esta é uma história interessante, já que foi um orador nosso, que é mexicano e especialista em reprodução equina, que nos levou a estabelecer este modelo naquele país. Ele estava envolvido no nosso curso de Medicina Equina em Espanha e gostou tanto da forma como o programa estava estruturado que quis levar o conceito para o México. Isto foi já em 2015 e, nesse mesmo ano, estabelecemos também uma licença no Japão.

Foi também em 2015 que fomos abordados por uma multinacional inglesa ligada à aquacultura que tinha a intenção de adquirir a empresa. Este grupo tinha um projeto que consideramos interessante, com uma visão holística da veterinária. Na altura, sentimos que esta poderia ser uma boa oportunidade, especialmente do ponto de vista de expansão do negócio, já que nos permitiria ter acesso a recursos que não estavam ainda ao nosso alcance.

Contudo, o que efetivamente aconteceu é que devido à conjuntura difícil do mercado da aquacultura mundial, esse acesso que pretendíamos ter a determinados recursos nunca se concretizou – pelo contrário, acabámos por ver o nosso plano de desenvolvimento estagnado.

“Neste momento, temos muita vontade de reinvestir no próprio negócio e acelerar uma tendência que para nós já era óbvia há muito tempo, inclusivamente antes desta pandemia – a aposta na formação à distância com a criação de versões online ou blended learning dos nossos programas anuais”

No verão de 2019, esta empresa decidiu então voltar a focar-se no seu core business, a aquacultura, e colocou a Improve International no mercado. A equipa de gestão considerou ainda ter vontade, energia e dedicação suficientes para levar a empresa para uma próxima fase e, desde então, e até ao mês de junho deste ano, fizemos um esforço conjunto para a tentar readquirir. Felizmente, conseguimos fazê-lo com o financiamento de um fundo de investimento – a RJD Partners. Escusado será dizer que o processo teve muitos altos e baixos, especialmente quando falamos na compra de uma empresa em plena pandemia mundial… mas isso é outra história [risos].

No escritório português, a equipa composta inicialmente por três pessoas integra agora mais de 20 funcionários, oito dos quais veterinários. Esta estrutura é complementada com colaboradores locais em cada um dos países em que temos atividades e com o suporte de uma equipa de mais de 50 pessoas no escritório do Reino Unido. Neste momento, coordenamos diretamente desde Portugal várias das atividades próprias da Improve, assim como muitas das licenças – contamos já com atividades em mais de 20 países.

Como é que foi a evolução da empresa e do negócio durante este período?

Creio que tivemos fases bastante diversas ao longo destes últimos anos. Diria que, de 2007 a 2015, tivemos um período de crescimento bastante rápido, focado essencialmente na expansão geográfica para diferentes países. De 2015 até agora, vivemos um período de consolidação e de crescimento mais sustentado no desenvolvimento de novos produtos (cursos) e de expansão geográfica dentro dos países em que já estávamos presentes, com aumento da oferta de locais de formação. Por exemplo, na Alemanha, começámos por oferecer formações somente em Frankfurt e agora já estamos presentes em seis cidades diferentes.

O que é que conduziu agora à reaquisição da empresa da sua parte, Ana Rocha, Heber Alves e restantes sócios?

Como referi, houve uma inflexão na estratégia da empresa que detinha a Improve International e um regresso ao seu core business da aquacultura, pelo que a nossa marca deixou de fazer sentido no portefólio de empresas que a detinham.

A equipa de gestão sentiu que ainda tinha uma estratégia a implementar e a visão e determinação necessárias para levar a Improve à próxima fase, pelo que fez um esforço muito grande para poder assumir novamente o controlo. Felizmente, mesmo durante este período de grande incerteza devido à pandemia, existiram vários fundos de investimento que se mostraram interessados em nos apoiar.

Eu, o Heber Alves e a Ana Rocha somos os sócios que estão em Portugal, mas existem mais cinco que pertencem à equipa do Reino Unido.

O que é que muda com esta reaquisição?

A grande mudança está relacionada essencialmente com a estratégia e com o desenvolvimento da empresa. Nos últimos cinco anos, apesar de termos tido um crescimento muito significativo, não nos foi possível crescer ao ritmo que ambicionávamos. Neste momento, temos muita vontade de reinvestir no próprio negócio e acelerar uma tendência que para nós já era óbvia há muito tempo, inclusivamente antes desta pandemia – a aposta na formação à distância com a criação de versões online ou blended learning dos nossos programas anuais.

Como é que a Improve se está exatamente a adaptar a estes tempos de pandemia? Pode falar-me dessas formações online?

Esta pandemia teve um impacto bastante significativo nas nossas atividades e, ao contrário da crise financeira anterior, esta é deveras global. Começámos muito cedo a lidar com as consequências negativas da pandemia no negócio, desde novembro de 2019, nas nossas atividades na China.

Improve celebra aniversário: 20 anos, 20 países

Rui Lobão

É um problema para o qual não existe um guião, mas temos sempre tentado reagir aos acontecimentos e planear os próximos passos com base na melhor informação disponível. Felizmente, temos conseguido gerir esta situação com sucesso e utilizamos todos os meios tecnológicos à nossa disposição para continuar a oferecer aos nossos alunos a melhor experiência de aprendizagem. Nas nossas formações práticas, disponibilizamos todo o material de proteção necessário e adotamos os melhores protocolos de segurança recomendados.

Pessoalmente, penso que a crise não veio trazer nenhum conceito novo, mas sim acelerar uma tendência/necessidade que já tínhamos identificado — a digitalização da formação.

A nossa preocupação desde o início foi sempre a de manter o nível formativo neste novo ambiente online quando comparado com os cursos presenciais. A nossa reputação é muito forte e não queríamos de todo comprometer a experiência dos formandos e a qualidade dos programas.

Com base em estudos de opinião que fizemos, sabíamos que a perceção das pessoas em relação a um curso online é de que o valor do mesmo é menor – e isto acontece somente porque há online… e online. Creio que, na generalidade, as pessoas ainda não têm uma compreensão total das potencialidades do digital. A nossa proposta de cursos online não assenta no puro streaming de palestras presenciais ou em alguns webinars avulsos. Queremos proporcionar uma experiência interativa, personalizável e adaptada às necessidades dos nossos formandos.

Para conseguir atingir o nível que ambicionamos, contamos agora com uma equipa de seis online developers a trabalhar em full-time connosco, equipa essa que vai crescer rapidamente.

Todo o conteúdo dos nossos módulos online é desenvolvido por veterinários especialistas em cada uma das áreas. Esse mesmo conteúdo é depois convertido em lições interativas que permitem beneficiar de múltiplas formas de aprendizagem que potenciam a retenção de conhecimentos. Além disso, todos os programas têm um tutor próprio, acesso a um fórum com intervenção de especialistas e avaliações formativas regulares. As formações que estamos e vamos desenvolver neste formato cumprirão os requisitos necessários para serem acreditadas pela ISVPS e, como consequência, permitirão aceder ao título GPCert.

Neste momento, já temos disponível o curso SAM (Small Animal Medicine) em versão inglesa e espanhola.

Durante os próximos 12 meses ambicionamos ter disponíveis os seguintes cursos: Small Animal Surgery, Feline Practice, Ophthalmology e Cardiology, todos em inglês e espanhol, e Emergency Medicine e Exotic Animal Practice, em inglês.

O nosso curso de medicina interna online, na sua versão inglesa, conta com alunos de 24 países diferentes e o feedback que temos recebido é excelente. A versão espanhola está a receber feedbacks no mesmo sentido, pelo que estamos muito satisfeitos por termos criado um produto de qualidade superior com o qual as pessoas se identificam e que em nada fica a dever aos nossos cursos presenciais.