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Luís Tavares: «Com desinvestimento não se cria desenvolvimento»

VETERINÁRIA ACTUAL – Dirige o CIISA, um dos centros de investigação mais avançados do país, desde a primeira hora de vida desta instituição. Como surgiu a ideia de criar esta entidade?
Luís Tavares
– Como tinha trabalhado numa área de ponta nos EUA, onde adquiri o know-how na apresentação e escrita de mestrados e doutoramentos, conseguimos que a FMVL se candidatasse ao programa Ciência, onde ficámos em primeiro lugar na área das ciências agrárias, conseguindo uma verba então muito avultada (cerca de 300 mil contos), que nos permitiu adquirir equipamentos impensáveis para a altura. Por outro lado, na época, esta faculdade não tinha nem os meios nem os equipamentos que me permitissem continuar com as investigações que iniciara nos EUA em Virologia e Imunologia, e foi essa necessidade pessoal que acabou por estar na origem da formação do CIISA.
A pouco e pouco, acabei por tomar conta da gestão e distribuição de verbas a outras áreas criadas neste centro, o que fez com que eu próprio descurasse as minhas investigações na área da sida, já que fiquei sem tempo.

Trabalhou lado a lado com alguns dos melhores investigadores do mundo. Até que ponto essa experiência contribuiu para que este centro fosse reconhecido como uma referência?
– A experiência americana foi fundamental para que a investigação que se faz no CIISA se aproximasse dos países onde ela é levada mais a sério. Para mim, consegui-lo era muito importante, porque o nosso objectivo era montar um centro português, apetrechado com os melhores equipamentos e onde fossem seguidas as mesmas linhas e procedimentos dos EUA.

Dirige o CIISA há cerca de 15 anos. Qual é balanço que faz deste período?
– Embora a minha visão seja parcial, o balanço que faço é muito positivo. Primeiro, porque temos conseguido captar verbas para promover o envolvimento cada vez maior dos nossos docentes na investigação – posso adiantar que a grande maioria está ligada ao trabalho desenvolvido neste centro -, mas também porque temos formado novos e jovens investigadores, que depois se dedicam a outras áreas ou vão aplicar os conhecimentos aqui adquiridos noutras instituições — a maioria dos investigadores do país passou por cá!
Devo acrescentar que o CIISA começou com um grupo de entusiastas, sendo que, neste momento, temos um núcleo de 126 investigadores, dos quais 74 são doutorados. 

Neste momento, qual o tipo de trabalho que está a ser desenvolvido no CIISA?
– O trabalho é muito vasto. É algo difícil estar a salientar uma área em particular, pois temos 52 linhas de investigação. Mas posso adiantar que o CIISA desenvolve trabalho nas quatro grandes áreas da Medicina Veterinária. Em concreto, trabalhamos na área da saúde animal e prevenção, onde nos dedicamos à investigação de doenças como a peste suína africana (patologia que teve particular incidência em Portugal, e em que o nosso Centro liderou uma investigação europeia, cujos resultados estão prestes a sair); na segurança de todos os componentes da cadeia alimentar que dependem do veterinário, nomeadamente dos produtos de origem animal (onde temos vários grupos de investigadores a fazer trabalho nas áreas da salsicharia, do controlo de qualidade dos lacticínios, etc…); a área de patologia e medicina, onde desenvolvemos trabalhos de investigação em diferentes doenças com repercussão clínica (pesquisas no desenvolvimento do osso, para avaliação de situações congénitas das diferentes espécies, no campo da angio-morfologia, temos um grupo de trabalho que estuda os tumores da mama, etc…); por último, temos o grupo de investigação que se dedica à biotecnologia e de produção animal, onde são estudados os sistemas de produção animal, nomeadamente o estudo das diferentes raças de galinhas e porcos, entre outros. Inserido neste grupo, temos ainda um núcleo de investigadores que se dedica ao estudo da espécie da bioquímica da carne, que pretende inverter a ideia de que a carne “faz mal” à saúde, pois este alimento possui enzimas muito benéficas para o organismo.

Quanto a si, quais são os projectos mais importantes que estão a ser levados a cabo no CIISA?
– Como coordenador deste Centro, não quero estar a particularizar nenhuma linha de investigação, porque não quero acarinhar uns projectos, preterindo assim outros.

A título pessoal, há algum projecto que queira destacar?
– Enquanto virologista, gosto muito dos projectos ligados a esta área – ainda o ano passado realizámos um grande congresso dedicado à Virologia, nomeadamente ao problema da peste suína africana. De resto, saliento que este projecto, com grande visibilidade internacional, ainda que não seja uma novidade, tem merecido a nossa atenção há mais de 20 anos.

Mas há outras áreas muito interessantes, designadamente a área da biologia do desenvolvimento. Estamos a estudar animais transgénicos e genes que são muito importantes no desenvolvimento do tecido vascular e cuja activação, ou não, poderá, a curto prazo, ter um impacto muito grande na luta contra o cancro, uma vez que, se conseguirmos activar um determinado gene que impeça a formação de novos vasos, iremos conseguir que o tumor seja impedido de se multiplicar por ausência de tecido vascular. Este grupo de trabalho está muito ligado à área da Medicina e tem apresentado alguns resultados positivos.

Há ainda um outro grupo que trabalha muito activamente na área da nutrição, e que tem desenvolvido estudos de diferentes enzimas produzidas pelas bactérias, que têm a capacidade de degradar a celulose – tudo aquilo que os animais ruminantes comem é alvo da acção de bactérias, as quais conseguem “degradar” as plantas que alimentam estes animais. Em matéria de reprodução animal, temos pessoas a desenvolver estudos importantes na área da inseminação artificial e reprodução de embriões, com um trabalho de destaque no campo da reprodução do cavalo lusitano.

O CIISA coopera com 71 instituições nacionais e 43 estrangeiras. Que tipo de parcerias são essas?
– Realizamos projectos conjuntamente com outras instituições de investigação. Em concreto, posso referir que o CIISA é líder de um projecto (peste suína africana) em que participam 12 países.
Há, efectivamente, um intercâmbio de investigadores, já que trabalhamos em rede. Entendemos, aliás, que esta é única forma de fazer investigação nos tempos que correm, porque está provado que trabalhar com individualismo é contraproducente. De resto, temos trazido até cá pessoas de grande relevância, e temos incentivado a participação dos nossos investigadores em congressos internacionais e a conhecer instituições estrangeiras, pois é a única forma de “abrir” a mente às novas correntes de investigação que se fazem por esse mundo fora.

O CIISA mantém o contacto com a “sua” Universidade de Cornell?
– Temos mantido essa parceria, mas não é a única, uma vez que cooperamos com instituições que estão espalhadas por todo o mundo. Temos um contacto muito estreito com as grandes universidades americanas, com as britânicas de Bristol e Newcastle, e temos também cooperado com instituições dos chamados ex-países de Leste – onde estamos a dar um contributo de formação em nações como a Roménia, entre outros.

Os PALOP ficaram fora desta rede alargada de parcerias?
– Não, o CIISA tem desenvolvido parcerias com Angola, Moçambique e Cabo-Verde, países com os quais mantemos as melhores relações e que nos enviam os seus estudantes de doutoramento para estudarem aqui.
Na mesma medida, este Centro tem por hábito enviar os seus investigadores para ajudarem a edificar serviços nesses países.

Portugal tem vindo a perder algumas das unidades fabris da Indústria Farmacêutica internacional (Bayer, entre muitas outras) que aqui laboravam. Actualmente, as grandes multinacionais só deixaram por cá a parte comercial. Que comentário lhe merece esta situação?
– Como é sabido, o nosso país perdeu, infelizmente, as grandes empresas como a Bayer ou a Merck, ou seja, a Indústria não fixou a sua parte produtiva em Portugal. Para nós, investigadores, essa situação é muito negativa, já que se estão a perder oportunidades de desenvolvimento cruciais. Mais: estou convencido de que as grandes empresas deviam ter uma colaboração muito mais estreita com a investigação portuguesa. Apesar de tudo, o nosso Centro continua a fazer alguma investigação para as empresas deste sector.

Haverá alguma fórmula que possa inverter esta tendência?
– O país deve encarar a investigação de uma forma activa e competitiva. E, sobretudo, devemos deixar de querer fazer “omeletas sem ovos”, porque ainda estamos muito longe do nível de investigação que já se faz na Europa. Apesar de termos alguma esperança no futuro, e sabendo nós que vivemos em crise, o país não pode esquecer que sem investimento, quer na educação quer na investigação, não saímos deste estado de falta de competitividade…

Pelo contrário, em países como a Irlanda, o Governo deu prioridade à I&D…
– Exactamente. Essas nações cresceram com base no reforço do investimento da investigação e do ensino. Não é possível continuarmos a ter orçamentos para o Ensino Superior que sofrem cortes substanciais. A nossa faculdade está a ser alvo dessas mesmas dificuldades, traduzidas numa diminuição das verbas de 18%. Isto, numa altura em que queríamos aumentar a nossa capacidade de trabalho, leva-nos a considerar que somos alvo de uma enorme injustiça por parte do Governo e de um penoso subfinanciamento.

Embora os responsáveis pelas instituições de ensino afiancem que se tem verificado o contrário, a verdade é que este Governo tem apregoado que quer reforçar o investimento em I&D…
– O Governo tenta demonstrar que tem dado uma componente maior para a investigação, mas o que é facto é que, feitas as contas, nós não recebemos nem mais um tostão, o que é grave. No campo do ensino, vivemos uma situação extremamente delicada, porque estamos com sérias dificuldades para pagar os salários dos nossos funcionários. Com desinvestimento não se consegue crescimento.
Mas, sublinho, apesar do desinvestimento, aumentámos a nossa prestação de serviços, nomeadamente ao exterior.

Perfil

Luís Tavares é um “homem com mundo”. Catedrático da Universidade de Medicina Veterinária de Lisboa, a mais antiga do país, é apontado como sendo um dos mais relevantes médicos veterinários portugueses. É o responsável pela criação do conhecido Centro de Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal (CIISA), que nasceu em 1992, no âmbito do seguimento do trabalho por si desenvolvido na prestigiadíssima Universidade de Cornell (EUA), onde se doutorou, com uma tese sobre a terapêutica anti-retroviral, utilizando o “modelo gato”, trabalhando lado a lado com os maiores investigadores do mundo nesta área.

Actualmente, acumula as presidências do Conselho Directivo da FMVL e do CIISA, um dos centros de investigação mais avançados do país, e que conta nas suas fileiras com 71 doutorados. Dirigir ambas as instituições «não é fácil», e apesar de estar «afogadíssimo em trabalho», diz que trabalha «com um enorme prazer» e para a sua “casa” de sempre.

De trato fácil e cordial, admite que não é grande seguidor do típico “formalismo” luso. A prová-lo está o facto de não gostar de usar gravata, nem mesmo quando sabe que está ser entrevistado para uma nova revista que o vai ‘pôr’ na manchete. Contudo, para remediar a situação, tem sempre esse famigerado adereço num dos armários do seu gabinete. Após, alguns “conselhos” da fotógrafa, resolve desencantar uma gravata… com o logótipo da FMVL.