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Lidar com o luto

Lidar com o luto

O Núcleo Académico de Estudos e Intervenção sobre Luto (NAEIL) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa volta a discutir o luto na saúde animal no próximo dia 16 de julho.

No âmbito do seminário ‘Suportar o luto do outro – o papel dos profissionais de saúde animal’, a organização pretende debater o impacto da perda nos profissionais de medicina veterinária, assim como o seu papel no luto dos tutores.

O debate contará com a presença de Ricardo R. Santos, biólogo e investigador do Centro de Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa; Joaquim Henriques, médico veterinário do Hospital Veterinário de Berna; Carla Sousa, enfermeira veterinária do Hospital Escolar Veterinário da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa; Olga Xavier, do Crematório Funerário de Setúbal; e Nuno Gonçalves, da Funerária Pet – Perpetuate.

“Hoje, a nossa ligação [com os animais] deixou de ser fundamentalmente funcional e passou a ser uma ligação emocional e afetiva, o que quer dizer que os cães e os gatos passaram a ter um significado particular na nossa vida”, diz Ricardo Reis dos Santos, biólogo, um dos responsáveis pela organização do evento, em conjunto com Miguel Barbosa, psicólogo clínico.

“Ora, esta transformação do significado, ou melhor, a construção de uma ligação significativa com os nossos cães e gatos, tem implicações profundas. É que, uma vez que o luto é definido como uma resposta característica a uma perda significativa, no caso da perda de um animal que era significativo para uma determinada pessoa, essa perda vai desencadear uma resposta característica de luto”, explica o biológo. “A segunda razão fundamental é que o luto pela perda de um animal de companhia é, ainda, um luto que não é socialmente aceite (do ponto de vista técnico, é designado de ‘luto desautorizado’), ou seja, as pessoas não encontram um espaço de validação e de partilha da sua dor, têm medo de serem ridicularizadas pelo facto de chorarem a perda do seu cão ou do seu gato, sentem vergonha de sentirem o que sentem por um animal, e tudo isto contribui para que o seu processo de luto se complique, envolvendo muito sofrimento por parte destas pessoas.”

Tendo em conta este cenário, Ricardo Reis dos Santos diz que é fácil perceber “que os profissionais de saúde animal, em particular os médicos veterinários, mas também os enfermeiros veterinários e os auxiliares veterinários, são confrontados, quase diariamente, com casos de luto (incluindo casos de luto antecipatório, isto é, casos de animais em fim de vida) e de sofrimento dos seus clientes pela perda do seu animal, e muitos vezes em circunstâncias muito dolorosas”.

Foi por isso que, há uns anos, o NAEIL se começou a interessar por este “segmento de pessoas que sofre ‘silenciosamente’ e que, por vezes, surgem nas consultas com estas queixas”, afirma o investigador.

O que o NAEIL fez foi criar uma equipa multidisciplinar, envolvendo psiquiatras, psicólogos clínicos, biólogos, sociólogos e médicos veterinários, para estudar o luto pela perda de um animal de companhia, desenvolvendo modelos de intervenção que pudessem ajudar os profissionais de saúde animal a lidar com esta situação.

Sobre o impacto da perda de animais na saúde mental dos profissionais de saúde animal, que estão entre os que mais sofrem de burnout, o organizador do evento acredita que lidar com as emoções dos clientes e ter de eutanasiar animais acarreta consequências graves para os veterinários.

“Por exemplo, há um fenómeno relativamente recente, mas que tem passado despercebido, que é o facto de haver cada vez mais médicos veterinários a mudarem de vida e a irem estudar medicina para serem médicos e abandonarem, assim, a medicina veterinária, ainda que haja alguns casos em que se mantém em ambas as profissões, ou seja, são médicos de manhã e veterinários à tarde”, menciona o biólogo.

Ricardo Reis dos Santos defende também que “é preciso não esquecer as consequências de termos profissionais em burnout, o que aumenta o risco de erro médico”. De acordo com o investigador da FM-UL, atualmente ainda não existe formação que prepare os profissionais para estas questões: “Infelizmente, em termos de comunicação, a medicina veterinária anda demasiado preocupada com a comunicação de marketing, esquecendo-se que, dentro da sala de consulta, a relação que se estabelece com o cliente é eminentemente uma relação clínica.”

Para oferecer uma resposta, o NAEIL tem vindo a colaborar com a Associação Portuguesa dos Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC) para promover ações de formação que ajudem os médicos veterinários a lidarem com estas situações. “Foi justamente com este objetivo que organizámos, em colaboração com a APMVEAC, um workshop especificamente sobre luto e um curso de estratégias de comunicação clínica para que estes profissionais adquiram conhecimentos, teóricos e práticos sobre o processo de luto e o modo como devem lidar com estas pessoas, que, naquele momento, estão numa condição extremamente vulnerável, para não lhes fazer mal […]. Por outro lado, ao aprenderem como estes processos de luto funcionam, ao aprenderem as ferramentas e as técnicas que podem usar nestas situações, estamos certos de que pode constituir um fator protetor para os próprios profissionais de saúde animal”, conclui.