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Especialistas explicam o papel do pangolim no novo coronavírus

Numa fase em que o coronavírus continua a propagar-se [1] e a Organização Mundial de Saúde (OMS) já declarou Emergência de Saúde Pública Global, tendo verificado mais de mil mortes, surgem novas suspeitas sobre a origem do coronavírus.

Victor Briones, professor de Saúde Animal da Universidade Complutense de Madrid (UCM) e investigador do Centro de Vigilância Sanitária Veterinária (Visavet), explica que o pangolim pode ser o intermediário envolvido na propagação do novo coronavírus, uma vez que nesta altura não se realiza a venda de morcegos.  Na sua última palestra, o professor explicou, contudo, que além da presença do animal nos mercados húmidos, não existem provas científicas.

O novo coronavírus, que surgiu em Wuhan, China – tal como outros vírus corona, como por exemplo a Síndrome Respiratória Aguda (SARS) e a Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS) –, é uma zoonose, uma doença que pode ser transmitida diretamente do animal que hospeda o vírus às pessoas. Contudo, pode haver animais intermediários.

De acordo com o professor, estudos publicados em revistas científicas, como a The Lancet and Nature, demonstam que as sequências genómicas de vírus de isolados doentes são semelhantes em mais de 90% a vírus anteriormente isolados de morcegos, nas fezes e outras amostras.

“A origem do coronavírus Wuhan pode estar nos morcegos, mas não se sabe se houve ou não intermediários entre morcegos e pessoas. Como este não é o momento para os morcegos serem vendidos no mercado por estarem a hibernar, podem ter estado envolvidos animais intermediários”, disse o especialista à Animal’s Health.

Nesta “busca” por um intermediário, foi excluída a suspeita inicial que recaía sobre as cobras e surge agora uma nova hipótese: o pangolim.

“Os pangolins também fazem parte da oferta nos mercados asiáticos, mas, tanto quanto sei, não há mais evidências científicas”, explica Briones.

O pangolim, que pertence à ordem de mamíferos Pholidota, faz parte dos animais carnívoros, como linces e tigres (O. Carnivora).

“No entanto, e ao contrário do que tem sido comentado em alguns meios de comunicação, não são parentes dos tatus americanos, embora partilhem algumas semelhanças”, diz José Luis Tellería, investigador do Departamento de Biodiversidade, Ecologia e Evolução da UCM.

Segundo o grupo de especialistas da União Internacional para a Conservação da Natureza, três das espécies asiáticas de pangolins encontram-se à beira da extinção devido ao consumo abusivo da sua carne e ao uso das suas escamas na medicina tradicional.

“Após a quase extinção das suas populações asiáticas, a forte procura deslocou a pressão de extração para África, onde duas das espécies já estão ameaçadas e outras duas são vulneráveis”, diz o biólogo da UCM, comparando o problema com o das barbatanas de tubarão, marfim de elefante ou ossos de tigre.

Tellería exige maior regulamentação e controlo efetivo da captura e utilização de pangolins e outros animais selvagens para evitar o surgimento destas epidemias humanas e proteger suas populações selvagens.

Apesar de até ao momento não existirem provas definitivas que comprovem o envolvimento do pangolim na transmissão do coronavírus, existe algo claro nesta crise global: a falta de controlo de saúde nos mercados como os de Wuhan.

“Nestes lugares há costumes religiosos, questões culturais e exibição de status que são difíceis de suprimir. Isto significa que há animais capturados na natureza e vendidos sem vigilância sanitária”, conclui Briones.