Animais de Companhia

Consequências do confinamento: detentores reportam problemas comportamentais antes inexistentes

Consequências do confinamento: detentores reportam problemas comportamentais antes inexistentes

O número de tutores que tem contactado os médicos veterinários devido a problemas comportamentais inexistentes no período pré-isolamento social parece estar a crescer. O alerta foi dado pelo médico veterinário Gonçalo da Graça Pereira, especialista europeu em medicina comportamental e fundador do Centro para o Conhecimento Animal, que reporta que nas últimas semanas tem recebido casos de cães com manifestações de agressividade dirigida a membros da família antes não apresentadas.

O médico veterinário cita ainda dados de um estudo espanhol, com mais de mil participantes, sobre o estado de gatos e cães após o confinamento. Com base nestes, Gonçalo da Graça Pereira refere que “a grande maioria dos tutores mantiveram os números de passeios dos cães, mas com uma muito menor duração, tal como recomendado pelas orientações dadas pela Direção-Geral da Saúde”.

Os animais fazem assim menos exercício físico, além de terem menos interações com outros cães e também pessoas. “Os cães começam a mostrar-se mais reativos à presença de outros cães nas ruas, outros começaram a apresentar episódios de destruição quando ficam sozinhos, mesmo em momentos de curta duração, mas muitos tutores queixam-se sobretudo que os cães estão a vocalizar mais”, acrescenta.

De acordo com dados do mesmo estudo, numa semana normal antes do início da quarentena, os cães ficavam em média cinco horas sozinhos em casa. Atualmente, a maioria dos animais de companhia está sempre acompanhada por um ou mais elementos da família.

“Apesar de não ser um problema neste momento, temos de pensar em termos preventivos e o que daqui poderá surgir. Efetivamente, iremos deparar-nos com dificuldades na readaptação do animal à redução do tempo que passará a ficar sozinho quando regressarmos à nossa rotina normal”, explica o especialista, que já tinha falado sobre os perigos da ansiedade de separação no pós-confinamento à VETERINÁRIA ATUAL.

Mas, há também boas notícias: metade dos inquiridos da pesquisa espanhola admitiram que os seus cães ou gatos os ajudaram ou estão a ajudar a ultrapassar o período de confinamento, sendo mesmo uma verdadeira fonte de conforto emocional.

E os gatos?

No caso dos gatos, a maioria são de interior e já passavam o dia todo em casa. Para os felinos, a grande mudança está na quantidade de tempo passado com a família. A maior permanência dos tutores em casa pode ter promovido a interação positiva entre tutor e animal. Gonçalo da Graça Pereira defende que, contudo, “a invasão da privacidade do gato, juntamente com um aumento da manipulação dos gatos irá gerar mais conflitos e stresse“.

Especialistas por todo o mundo alertam que os sinais de stresse em gatos são tão discretos que é muito importante que cada tutor esteja atento a qualquer alteração comportamental, que poderá ser indicadora de um problema emocional.

Segundo o médico veterinário, “apesar de os tutores começarem já a apresentar queixas destes problemas comportamentais, nada nos garante que o animal não tivesse o problema antes. No entanto, como passámos a estar mais tempo em casa, começámos a avaliar de forma diferente e apercebemo-nos mais do que se está a passar.

Gonçalo da Graça Pereira deixa ainda um conselho para todos os tutores: “Se o seu animal apresenta já ou começar a apresentar sinais de alterações comportamentais, não hesite e contacte de imediato o seu médico veterinário assistente que o ajudará e encaminhará para um especialista em comportamento animal.