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“Angola entra-nos no sangue e não queremos sair. É outra noção de vida”

Entrevista a João Figueira, Médico veterinário com especial interesse em Ortopedia

Qual a sua área de especialidade?

Ainda não existem especialidades em Portugal, mas a minha área de eleição, onde estava a trabalhar mais, é a ortopedia. Formei-me na UTAD e mais tarde tirei uma Pós-Graduação em Medicina Interna na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia de Lisboa.

E como surgiu a oportunidade de trabalhar no estrangeiro? Angola foi o primeiro destino?

Sim. A oportunidade surgiu por questões familiares, a minha ex-mulher e filhos foram para Angola e acompanhei-os pois tínhamos um projeto de abertura de uma clínica veterinária. Angola peca um pouco em serviços veterinários, não existe grande oferta Luanda. Tínhamos esse projeto, que acabou por não se desenvolver. Depois iniciei trabalho como freelancer em ortopedia, numa clínica veterinária, e após a fase de freelancer continuei e comecei a trabalhar como veterinário a tempo inteiro.

O que faz atualmente?

Agora parei para descansar. Tinha uma vida acelerada, stressante demais, não tem muito a ver com o que se faz no dia-a-dia em Portugal ou noutro país da Europa. São muitas consultas, é tudo muito confuso, fisicamente é cansativo e mentalmente ainda mais. É muito mais difícil fazer uma anamnese em condições, as pessoas têm os cães, que começam a ser uma novidade, mas as pessoas não estão bem preparadas para a criação e o treino. Não conseguem diferenciar determinados comportamentos anormais nos cães.

Quais as raças que estão mais em voga?

Quando cheguei a Angola estavam muito em voga o Rottweiler, o Pastor Alemão e o Pitbull, ou seja, raças de guarda. Neste momento estão a criar uma linhagem, um cruzamento com uma raça que apareceu nos EUA e que está em voga. São cães bonitos, mais calmos, pois hoje em dia já estão a ter outra noção em relação à de criação de cães, ou a terem cães em casa. Já é um negócio que se está a movimentar de outra forma.

E gatos?

Os gatos já começaram a aparecer, mas não são animais muito bem visto em Angola, ou mesmo em África, por razões culturais. Estão associado ao mau-olhado, mas já se começa a verificar uma alteração de comportamento porque começaram a ver expatriados com gatos.

Na sua prática clinica diária como eram os métodos de trabalho? Conseguiu implementar modificações ou ainda há muito a fazer?

Existe sempre muito a fazer. A clínica onde trabalhei funcionava bem, era muito conhecida em Luanda. Tínhamos um grande volume de trabalho, com métodos de trabalho semelhantes ao que se faz na Europa. As dificuldades que existem não estão relacionadas com questões monetárias por parte dos donos, mas com questões de compreensão da evolução de doenças, compreensão de diagnósticos. Não estão habituados aos diagnósticos e diversas patologias que podem surgir nos cães. Anda tudo à base das doenças mais características, como a febre da carraça.

Em termos de ortopedia conseguia desenvolver trabalho?

Sim, na clínica onde trabalhava sempre me incentivaram a melhorar o trabalho, tinha materiais e condições para trabalhar. Há dois anos começou a fazer-se mais ortopedia.

Esse projeto terminou e vai desenvolver um novo projeto?

Sim, vou continuar na mesma linha, mas a fazer mais coisas em Angola. Existem áreas que precisam ser estimuladas, nomeadamente a nível dos animais de grande produção. Existem algumas empresas que estão a incentivar esse crescimento porque a produção primária em Luanda é muito fraca. Não produzem para o consumo que têm (bovinos e caprinos) e há empresas que já estão a ter essa noção e estão a introduzir-se no mercado para aumentar a produção e diminuir a necessidade de importação. Estou envolvido em dois projetos de cruzamento de raças, em que se pretende aproveitar as raças autóctones da zona, vindo buscar alguns animais com melhor tipo de carne a Portugal ou frança, para começar a fazer inseminações, a criar um cruzamento/uma linhagem que aguente altas temperaturas, a pastagem em terrenos muito grandes, mas que tenha uma boa qualidade de carne.

Vai trocar os animais de companhia pelos animais de produção?

Vou continuar a fazer a mesma coisa, só que vou aumentar a área de atuação. Vou retornar o trabalho de freelancer, para fazer ortopedias, e o resto é da responsabilidade das próprias clinicas. Acho preferível pois é uma área mais específica, não há necessidade de ortopedias todos os dias, e em termos de trabalho como freelancer é preferível.

Porque escolheu continuar em angola e não voltar a Portugal?

Uma vez disse uma coisa aos veterinários que chegavam a Angola: ou se gosta ou se detesta, mas quando se gosta é para a vida! Não há hipótese, entra-nos no sangue e não queremos sair. É outra noção de vida.

Se voltasse a Portugal que projeto gostaria de desenvolver?

Possivelmente especializar-me-ia mais em ortopedia, era o que iria fazer mais, mas não queria iniciar uma clínica. É complicado, já passei por essa fase. Iria especializar-me numa área.

Como considera o atual estado da medicina veterinária em Portugal?

Está melhor do que antigamente. As pessoas finalmente chegaram à conclusão que o médico veterinário tem uma determinada capacidade para trabalhar em determinada área e nessa área deve ser muito bom. Aquele pensamento do veterinário que fazia tudo neste momento não é correto porque faz tudo e não faz tudo bem. Penso que estes jovens veterinários estão a caminhar muito nesse sentido, ou seja, cada um dedicar-se mais a uma área. Temos provas na medicina humana e penso que é o caminho que devemos percorrer na medicina veterinária. Deixarmos daquele estigma de não se referenciar um animal para um colega com medo de perder o animal. Cada vez há menos essa ideia, mas ainda existe. Temos de trabalhar numa base de confiança pois é a única hipótese da veterinária evoluir e de trabalharmos cada vez melhor

Artigo publicado na edição de janeiro de 2016 da revista Veterinária Atual