Médicos Veterinários

“A assessoria médico-veterinária em explorações pecuárias é o futuro”

“A assessoria médico-veterinária em explorações pecuárias é o futuro”
Nem numa revista inteira caberia a história de vida de João Cannas da Silva. O médico veterinário e professor universitário é um nome incontornável do setor dos animais de produção em Portugal, fazendo muitas vezes o impensável, quase sempre por “audácia”. Doutorado em Ciências Veterinárias pela Universidade de Viena, ajudou a fundar o European College of Bovine Health Management, fundou e presidiu, durante 15 anos, a Associação Portuguesa de Buiatria, ainda dá aulas, é sócio de um laboratório e consultor, mas é das muitas amizades, daquelas que fez e deixou espalhadas pelo mundo, com professores, alunos e clientes, que gosta de falar. Em outubro do ano passado, venceu o Prémio Carreira nos Prémios Veterinária Atual. Ao receber o telefonema, acusou o espanto e emocionou-se pelo reconhecimento dos pares, mas diz ainda ter muito caminho pela frente. E um manual do vaqueiro para escrever.

É oriundo de uma família de veterinários e agricultores. Havia algum imperativo de estar ligado aos animais?

Não, uma das vantagens e virtudes do meu pai é que ele nunca me obrigou, nem nenhum de nós, dos meus irmãos, a tirar um curso. Cada um de nós tirou o que quis.

Venho de uma família de agricultores que foram crescendo na zona saloia, isto da parte paterna, da parte da minha avó eram mais comerciantes – do meu avô, a família tem raízes na agricultura. O meu avô doutorou-se em 1921, o meu tio era engenheiro, o meu pai e os três irmãos eram todos licenciados. Houve um crescimento na família, um desenvolvimento não só económico, mas também intelectual.

Era apenas natural que se tornasse professor.

Fiz clínica privada durante muitos anos, trabalhei e continuo a trabalhar na indústria farmacêutica. No entanto, achei a certa altura que seria interessante, depois de um convite que me fizeram, começar a dar aulas, porque achava que uma coisa que podia fazer era partilhar toda a experiência que eu tinha. Quando acabei o curso não havia muito trabalho em Portugal e concorri a uma bolsa de estudos.

Licenciou-se em Medicina Veterinária em 1977.

Sim, em 77. Concorri à bolsa através do governo alemão, por acaso o governo alemão concedeu-ma, mas antes disso estive nos Açores. E tive a audácia de ter feito em Santa Maria a primeira cesariana da minha vida sem nunca ter visto nenhuma. Chamaram-me às quatro da manhã, entrei em pânico e disse “Tenho de ir a casa buscar o material”. E fui para casa ler a técnica porque, na minha altura, cesarianas praticamente não se faziam, não nos ensinavam.

Mas como é que acabou nos Açores?

Durante o curso estagiei com o Marques de Almeida, da Várzea de Sintra, uma clínica de pequenos animais. Pensei: “Vou para animais de companhia.” De repente, deu-me uma ‘pancada’ grande e resolvi ser médico de grandes animais, então fui para os Açores.

E acaba a fazer uma cesariana pela primeira vez…

Recordo esse momento com uma certa alegria, porque foi a primeira cesariana feita na ilha. Quando acabei de operar – levei não sei quantas horas -, o produtor tinha uma série de bebidas para se comemorar. O que ainda me dá piada é que fui ver a vaca duas vezes por dia. Foi o princípio da minha audácia de fazer algo de novo.

E a Alemanha?

Recebi mensagem dos alemães, a dizer que me tinha sido atribuída uma bolsa e que tinha de me deslocar para aprender alemão. Fui para lá quatro meses e em quatro meses aprendi alemão. Passei seis meses em Hannover, que foram extremamente difíceis para mim. Durante seis meses assisti à clínica com o professor Stöber, que era fantástico. Todos os dias fazíamos uma visita para ver os animais que tinham entrado de véspera às sete da manhã em ponto. Se eu chegasse 30 segundos atrasado já ouvia repreensão. Pedi autorização para ir para a biblioteca da clínica e li todos os livros alemães que havia sobre ruminantes. Percebi a grande diferença que havia do ensino alemão para o português. Com isso, ao fim de seis meses, estavam assistentes de volta de uma vaca e ninguém sabia o que era. Curiosamente, olhando para papeleta, disse que era febre catarral maligna. A partir daí fui autorizado a fazer cirurgia durante a noite – para que os outros estrangeiros não soubessem – e começaram a falar comigo. A partir daí fiz grandes amizades.

Como é que foi trabalhar lá?

Trabalhei no norte da Alemanha e depois fui para a Baviera. A certa altura, tive um convite para vir para Portugal montar uma grande exploração. Vim montar a primeira exploração que tinha transponders. Estive à frente da exploração não só como veterinário, mas preparei vaqueiros para fazerem partos, tinha de tratar da parte informática, geria a exploração toda. Foi uma experiência extremamente interessante para mim, mas não me satisfazia.

Porquê?

Não fazia aquilo que gostava. Na Alemanha, fazia muita clínica e reprodução. Cheguei a fazer oito cesarianas seguidas, podem-me chamar mentiroso, mas é verdade. Depois voltei para Portugal, para montar a tal exploração. Simplesmente, ao fim de uns tempos, aquilo não era para mim, então cheguei a acordo para começar a fazer clínica. E comecei a fazer clínica, inclusive depois das horas de serviço, muitas vezes trabalhava até às duas da manhã.

O que é que a clínica lhe trouxe?

Comecei a fazer as primeiras cirurgias em bovinos em Portugal. Não quero dizer que revolucionei a veterinária em Portugal, há colegas que dizem que o fiz, mas vinha com uma preparação da Alemanha de uma faculdade extraordinária e, portanto, é evidente que quando cheguei a Portugal senti um baque tremendo, porque reparei que vinha muito mais bem preparado do que os colegas. Comecei a fazer toda a cirurgia, implementei vários programas de reprodução, desenvolvi programas informáticos e comecei a fazer clínica, até que essa clínica foi crescendo. Tinha clínica do Alentejo até Vila da Feira – 365 dias por ano, 24 horas dia.

Diz muitas vezes que é amado ou odiado. Porquê?

Muitas vezes fui inconveniente. Uma vez fui chamado a uma exploração muito importante e quando cheguei ao pé do animal, fui fazer a palpação para ver o que se passava e comecei a contar uma anedota e a falar com a pessoa. Estavam vários veterinários presentes e tinham-me dito que era só cesariana e eu apercebi-me de que eram gémeos. Portanto, desenrolei aquilo tudo e tirei os gémeos. É evidente que fui muito criticado porque muitas vezes fui agressivo, dizia aos colegas: “Vocês não percebem nada disto.”

Sabe que há uma altura em que as pessoas chegam a um nível que acham que podem ofender as pessoas, e eu cheguei e arrependo-me.

Acha que em Portugal ainda falta desenvolver uma cultura de rigor?

Falta, em todas as áreas.

Doutorou-se em 2003. A sua tese foi sobre o quê?

Fui desafiado pelo professor Lage, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, a fazer o doutoramento. Resolvi fazê-lo na Áustria e, num congresso em Sydney, fui contactado por vários professores que queriam constituir o European College of Bovine Animal Reproduction – mudou de nome, entretanto.

A minha tese foi sobre o deslocamento de abomaso – porque é que ocorria com alterações climatéricas. Foi feita com componentes principais. Pedi ajuda a uma prima minha que é professora de matemática, brilhante [Ana Cannas da Silva]. O meu pai era uma pessoa extremamente rígida, lembro-me que quando acabei o doutoramento na Áustria, liguei-lhe e disse que tinha tido louvor e distinção. “Sim, e depois?”, foi a resposta que me deu. Evidentemente, sei que ficou feliz, mas não era pessoa de o transmitir.

A minha mãe morreu com cancro quando eu tinha nove anos, a minha vida não foi fácil. Eu e os meus irmãos fomos distribuídos por diversos familiares. Lembro-me do dia em que a minha mãe faleceu, escondi-me dentro de um armário. Para mim foi um choque tremendo e perder uma mãe é uma coisa brutal. Infelizmente, os meus filhos mais novos passaram por isso há dois anos. Neste momento, sou pai e mãe e resolvi dedicar a minha vida aos meus filhos mais novos.

Quantos tem e com que idades?

Três rapazes e duas raparigas, entre os 41 e os 18 anos.

Voltando ao colégio europeu, como é que foi a sua fundação?

Quando foi criado o colégio europeu, que foi sugerido no Congresso Mundial de Buiatria, em Sydney, pelo senhor professor Wolfgang Klee, foi criado um grupo de trabalho com colegas de renome internacional e mais de 20 anos de carreira. A primeira reunião para discussão dos estatutos e criação do colégio foi nessa altura. Porém, foi marcada nova reunião em Paris, no Instituto Pasteur, com o apoio da Société Française de Buiatrie. O nome do colégio ficou European College Bovine Herd Health Management. O logótipo foi feito por um amigo meu português e ainda é o mesmo. Houve posteriormente diversas reuniões até se chegar a estatutos que pudessem ser aprovados pela European Board of Veterinary Specialisation. Sabia também que havia um ano para se concorrer como de facto diplomate e decidi de imediato que podiam entrar portugueses. Avisei os professores George Stilwell, Niza Ribeiro, Nuno Canada, Saraiva Lima e disse: “Meus amigos, vocês vão concorrer, pois temos de ter portugueses dentro do colégio e vocês entram de certeza”, o que aconteceu felizmente. Tentei mais colegas, mas muitos não quiseram por diversas razões.

Entretanto, tinha prometido ao professor [Matthaeus] Stöber, na altura secretário-geral da World Buiatric Association (WBA), que seria eu a fazer a Associação Portuguesa de Buiatria (APB) e já tinha em mente um objetivo na minha vida, que era fazer o congresso mundial. Este congresso foi aceite em Nice, no Congresso Mundial de Buiatria, após uma reunião durante esse congresso. Foi duro mas conseguimos. Preparei durante seis anos o congresso e fizemos um congresso extraordinário, com uma equipa incrível. É um percurso de vida cheio de sacrifícios. Leio um artigo científico a cada três dias, é uma obrigatoriedade que eu criei – a da disciplina, estar atualizado, tenha que idade tenha. No outro dia perguntaram-me “Quando é que te reformas?”. No dia em que eu achar que não tenho capacidade para transmitir conhecimento, nesse dia reformo-me. Até lá, velhos, não. As pessoas estão um bocado enganadas. As mulheres envelhecem menos, está relacionado com a erosão do cromossoma Y, já leu sobre isso? Tenho um respeito tremendo pelas mulheres.

Falando nisso, um estudo britânico recente destacou a discriminação na veterinária, de género e não só.

Fico entristecido quando vejo que há diferenças de tratamento ou pagamento no mesmo lugar para mulher e homem. Acho criminoso. É um problema e nota-se: quando cheguei da Alemanha, o veterinário na altura era um tipo forte, eu sou magro, mas isso não quer dizer que haja impedimento, porque há técnicas com as quais podemos resolver as situações. A discriminação em relação às mulheres é perfeitamente idiota. Tenho colegas veterinárias que são excelentes no campo, fazem tudo. A discriminação existia e continua a existir: do pouco que sei, nos animais de companhia, grande parte dos hospitais não são de mulheres, são de homens, e isto é grave. Por outro lado, acho que quer a Ordem dos Médicos Veterinários, quer a classe, teriam obrigação de inverter este papel. Trabalhei sempre com mulheres que admiro bastante, como a Alda Pires, que foi minha assistente e agora é professora, ou a Ângela Dâmaso, que trabalha comigo e é organizadíssima. Organiza a minha vida, logo, tem uma vantagem sobre mim.

Em que projetos está envolvido atualmente?

Estou num projeto extremamente interessante, em Angola, na maior exploração agroindustrial de África. Temos oito mil vacas de carne, vamos passar para 20 mil e para 30 mil vitelas de engorda. Vacas de leite, vamos passar para cinco mil. O futuro da alimentação vai vir de África.

Qual é o papel dos veterinários numa altura em que tanta informação é recolhida digitalmente nas produções?

É claro que nos últimos anos temos a chamada pecuária de precisão. Há sistemas que permitem monitorizar os animais e saber antecipadamente que animal vai ficar doente. Cada vez mais é o futuro. Agora, há 19 anos escrevi – e não estou a inventar –, um trabalho em que dizia que o futuro da veterinária iria passar por três aspetos: biossegurança, segurança alimentar e bem-estar. Ninguém me percebeu, por isso é que dizem que o Cannas é maluco. A inseminação artificial é essencial, é impensável ter um touro para cada vaca, mas é evidente que conseguimos produzir mais leite com menos animais. Há uma preocupação importante, vamos ter de produzir proteína porque há um crescimento de população mundial muitíssimo grande. O que podemos fazer é otimizar recursos e, evidentemente, que a mim me assusta quando alguns partidos vêm dizer que querem reduzir o efetivo pecuário em 50% em Portugal – o que tem evitado que haja a total desertificação de algumas zonas do País é a pecuária de subsistência ou extensiva.

Nós temos ainda um longo caminho a percorrer em Portugal, temos de erradicar doenças, temos de meter finalmente na cabeça do Estado que é fundamental que haja um controlo da diarreia viral bovina.

Como veterinário, qual é o meu papel? Há uns anos, operava todas as semanas um deslocamento do abomaso, neste momento, opero dois por ano. Qual é o meu objetivo na exploração? Reduzir problemas. Há um problema grave porque não se consegue transmitir uma informação básica – a assessoria médico-veterinária em explorações pecuárias é o futuro. Tenho de ser pago pelos conselhos que dou e não pelos tratamentos que faço. Eu tenho de evitar os problemas clínicos.

Qual foi o seu maior legado enquanto presidente da APB? Esteve no cargo 15 anos.

Grande parte dos políticos têm assessores que nunca saíram do gabinete e é evidente que fui crítico contra essas pessoas. Enquanto presidente da APB, oferecemos ao senhor ministro e secretário de Estado consultoria pro bono no que dizia respeito aos ruminantes. Nunca quiseram e nunca nos ouviram. O maior legado claro que foi o congresso mundial, em 2012, que foi um sucesso e trouxe gente de todo o mundo a Portugal.

Sei que defende uma espécie de veterinária comunitária, unida entre si.

Porque é que não há residências em Portugal? Sou defensor de criarmos um regulamento de especialidades, aprovado pela Ordem. Tem de haver maior comunicação entre as diversas instituições de ensino. Fazer uma residência em Portugal, numa única faculdade, é impossível. Tem de ser em várias. Se há várias universidades e estão todas de costas voltadas, como é que isto é possível? A base da saúde pública começa na medicina veterinária. Paramos o País em 15 dias, se quisermos.

O que é que ainda lhe falta fazer?

Publicar, escrever um livro da minha vida e fazer um manual do vaqueiro.

Acha que é preciso?

Acho.

*Artigo publicado originalmente na edição 133 da revista VETERINÁRIA ATUAL