Animais selvagens

Um tigre em Nova Iorque, um gato na Bélgica: qual é a história do SARS-CoV-2 e dos felinos?

Um tigre do Jardim Zoológico do Bronx, em Nova Iorque, terá testado positivo para SARS-CoV-2 este fim de semana, de acordo com o New York Times.

Os Laboratórios dos Serviços Veterinários Nacionais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmaram, em comunicado, a presença de SARS-CoV-2 num tigre-malaio de quatro anos, de nome Nadia. As amostras da tigre-fêmea foram recolhidas e testadas depois de vários leões e tigres do jardim zoológico nova-iorquino terem apresentado sintomas de doença respiratória.

Segundo o mesmo comunicado, os funcionários de saúde pública acreditam que os grandes felídeos ficaram doentes depois de terem sido expostos a um zelador do jardim zoológico, infetado com Covid-19, mas que se encontrava assintomático. O primeiro tigre terá começado a mostrar alguns sinais de doença a 27 de março.

Apesar de indicarem que vários animais apresentavam sintomas, apenas um animal foi testado, uma vez que a colheita de amostras de diagnóstico nestes animais requer anestesia geral. De acordo com o comunicado, uma vez que os animais apresentavam os mesmos sintomas, o veterinário responsável considerou que seria melhor “limitar os riscos potenciais da anestesia geral a um tigre para o diagnóstico”.

Contactado pela VETERINÁRIA ATUAL, o médico veterinário Pedro Melo, da Vetnatura – Serviços Veterinários, disse que o foco da investigação relativamente ao novo coronavírus está agora nos felinos: “Na medida em que a investigação está a avançar, os felinos serão eventualmente o grupo de risco. Pensava-se até que os primatas fossem o grupo mais sensível, mas o que se está a ver agora é isto.”

Nuno Alegria, professor auxiliar de doenças infeciosas de natureza vírica e medicina veterinária preventiva na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), explica que “nas espécies em perigo de extinção, a ação deste ou de qualquer outro agente pode ter consequências catastróficas”.

“O relato da infeção nos grandes felinos no zoo de Nova Iorque parece também confirmar a ‘promiscuidade’ deste vírus. Admitindo que o agente permaneça e se dissemine na população humana ao longo do tempo, a transmissão a partir do homem a espécies em risco de extinção deverá ser acautelada”, acrescenta o docente, salientando ainda que “algumas espécies estão em risco de extinção, não por ação deste ou de qualquer outro agente microbiano”. Esta conclusão vai ao encontro das recomendações de um artigo nacional, que descreve os vários coronavírus nos animais e humanos.

Sobre a proximidade entre humanos e animais selváticos, Nuno Alegria defende que “a maior proximidade ao homem resulta dos efeitos nefastos da nossa ação no planeta, pelo que ‘culpar’ os animais […] não faz qualquer sentido” e que “esta pandemia mostra que, mesmo nos países desenvolvidos, continuamos a não conseguir controlar de modo rápido e eficaz estes eventos”. O professor da UTAD diz ainda que “a resposta concertada dos diferentes países a uma crise global” é “claramente insuficiente”.

Estudo na China diz que gatos e furões são “suscetíveis” ao vírus 

Mas os tigres não são os únicos felinos que andam a ter problemas com o novo coronavírus. A equipa do Harbin Veterinary Research Institute, na China, foi recentemente responsável por um estudo no qual os investigadores infetaram em laboratório gatos e outros animais com o vírus SARS-CoV-2. A pesquisa sugeriu que gatos e furões são suscetíveis à infeção por este vírus.

O Comité Científico da Associação Espanhola de Veterinários de Pequenos Animais (AVEPA) pronunciou-se sobre a investigação, pedindo cautela, e recordou que o estudo ainda não foi revisto por pares, logo, os resultados não podem ser considerados conclusivos.

A associação defende que embora esteja a emergir gradualmente alguma informação neste sentido, é necessário estar vigilante, mas sublinhou que de momento ainda não existem provas científicas conclusivas sobre a infeção e transmissão do coronavírus aos animais de estimação.

Contudo, estes resultados “devem ser interpretados com cautela”, uma vez que as condições de infeção, a forma de transmissão e a carga viral foram experimentais, podendo não representar exatamente a infeção natural. Ou seja, os animais podem ter sido infetados com uma dose muito superior ao que seria expectável em condições ditas normais.

“Houve um ensaio laboratorial com cães, gatos e furões. A dose infeciosa que foi dada é altíssima. O que é evidente é que os furões são sensíveis, altamente sensíveis. No relatório não eliminam cargas virais que pudessem fazer contágios interespecífico ou intraespecífico, mas nos gatos pode haver esse risco”, explica Pedro Melo. “Como foi um estudo in vitro laboratorial, há sempre essa reserva. O vírus pode comportar-se de maneira diferente.”

No caso da transmissão da SARS-CoV-2 entre gatos, por exemplo, esta só foi demonstrada em condições de infeção experimental e não em infeções naturais.

“Os resultados deste estudo baseiam-se em experiências de laboratório, em que um pequeno número de animais recebeu deliberadamente doses elevadas do vírus SARS-CoV-2, e não representam interações da vida real entre as pessoas e os seus animais de estimação”, explicou a virologista Linda Saif, da Universidade Estatal de Ohio, citada pela Nature, afirmando também que não há provas diretas de que os gatos infetados tenham carga viral suficiente para o transmitir às pessoas.

Apesar de considerar que, à luz do estudo, “há passagem, [os gatos] amplificam e excretam” — e, ao excretarem, pode haver algum risco que deve ser tido em conta em termos epidemiológicos —, o médico veterinário Pedro Melo explica que “estudos são estudos”.

“As pessoas têm de ler e saber interpretar. Aquilo foi uma carga viral altíssima que foi inoculada intranasalmente e, à partida, não sabemos se o efeito de um vírus tem o mesmo efeito multiplicador e causador de doença. Agora, começa-se a ver que a comunidade felina é suscetível”, acrescenta, ressalvando que “há que olhar para a forma como o estudo foi feito e a carga viral utilizada”, afirma.

A VETERINÁRIA ATUAL contactou também Constança Pomba, professora associada de medicina interna da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, que prontamente explicou: “Eles não ficaram doentes. Eles ficaram assintomáticos, mesmo com elevadas doses de vírus para ver se ficavam doentes.”

E os cães e os gatos que acusaram positivo?

Depois das notícias que anunciaram que dois cães, em Hong Kong, e um gato, na Bélgica, tinham sido confirmados pelas respetivas autoridades sanitárias como positivos para a presença do vírus SARS-CoV-2, o alarmismo em relação aos animais de companhia começou a fazer-se sentir. À semelhança da postura já adotada pela Organização Mundial de Saúde e reiterada pela Ordem dos Médicos Veterinários,  Constança Pomba refreia os medos: “[Quanto ao] gato da Bélgica, o que aconteceu foi que o gato fez uma diarreia, uma gastroenterite e, posteriormente, foi testado para o SARS-CoV-2 e estava positivo, mas não houve associação entre a doença e o estar positivo. Não foi claro que o gato estivesse doente devido ao SARS-CoV-2. E o artigo ainda está para sair.”

“No caso dos dois cães da China, não desenvolveram doença. E no estudo que fizeram nos gatos na China, também o fizeram nos cães e não conseguiram; mesmo com altas doses de vírus, só um dos cães é que ficou portador, mas aí com uma carga viral muito baixa”, explica.

A professora associada da Universidade de Lisboa esclarece que “a experiência foi feita de uma maneira que não tem muito a ver com a realidade”. As conclusões, diz, foram perentórias: “Havia presença de vírus, mas não havia doença.”

Sobre os estudos experimentais em gatos, Constança Pomba concorda com os seus colegas: “Inocularam doses elevadíssimas [por via] intranasal nos gatos, de maneira a fazer com que eles ficassem infetados e eles só ficaram reservatórios, ou seja, ficaram com o SARS-CoV-2, mas não fizeram a doença pneumonia Covid-19, mesmo com doses muito elevadas.”

A professora associada da Universidade de Lisboa esclarece que “a experiência foi feita de uma maneira que não tem muito a ver com a realidade” e que “alguns desses gatos foram eutanasiados para verificar se havia presença ou se havia lesões ou presença de vírus”. As conclusões, diz, foram perentórias: “Havia presença de vírus, mas não havia doença.”

AAFP atualiza diretrizes sobre o retrovírus felinoSobre as experiências de transmissão entre os gatos, elucida que “um dos gatos que tinha o vírus, mas estava assintomático – não estava doente –, foi colocado numa gaiola com outros, e apenas um ficou positivo, mas não desenvolveu doença”, o que aponta para que “entre eles a transmissão não seja simples”.

Além de todas estas informações, uma das observações feitas pela docente é que os gatos utilizados no teste não eram specific-pathogen-free, pelo que não é possível garantir que não tivessem outros problemas desconhecidos.

“Em relação ao caso dos tigres e dos leões, a situação parece diferente. Pelas notícias que saíram no New York Times, ficaram mesmo doentes, aí penso que tem a ver com a suscetibilidade destes felídeos de grande porte ser diferente dos nossos gatos domésticos, já que os nossos gatos são muito mais resistentes. Agora, tem de haver um artigo científico a provar que realmente os sinais respiratórios têm a ver com a Covid. Aí, sim, caso se confirme, poderá dizer-se que eles foram contagiados e foram colonizados e se tornaram portadores do SARS-CoV-2 do tratador que estava assintomático e que desenvolveram doença, não ficaram assintomáticos – reservatório”, nota.

É por isso que, tal como tem vindo a ser advertido por várias entidades e associações, as pessoas, em caso de contágio, devem ter determinados cuidados ao contactar com animais e aplicar o isolamento social também aos seus pets.

“Eles por si só não vão apanhar o vírus, o vírus é sempre de origem humana. Os gatos não são um perigo. A maior parte dos gatos em Portugal estão sempre em casa”, conclui Constança Pomba.

Recomendações

A AVEPA admite, ainda assim, que devem ser tomadas medidas preventivas básicas, recomendando que qualquer pessoa diagnosticada com Covid-19 deve limitar o contacto próximo com o seu gato e interagir o mínimo possível com o animal. Além disso, deve lavar as mãos antes e depois do contacto, incluindo a limpeza do caixote, e evitar a proximidade do rosto.

Estas recomendações coincidem com as da Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA), realizadas no início de março, bem como com as de Francisco Antunes, professor catedrático jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e ainda do Bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários, Jorge Cid.

Se um gato apresentar sinais respiratórios e febre, e tiver tido contacto com uma pessoa infetada por este vírus, recomenda-se que o animal seja colocado em quarentena e que o seu veterinário seja contactado para avaliar a situação.

O desenlace desta pandemia pode ainda estar longe do seu fim, mas a moral da história mantém-se, pelo menos por agora: continua a não existir, até ao momento, qualquer indicação de que os animais de companhia possam transmitir Covid-19.