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Promover o bem-estar animal e profissional em debate nas Conferências Veterinária Atual

A gestão do stresse nos pacientes e nos médicos veterinários não pode dissociar-se da prática clínica. Numa edição dedicada ao bem-estar pessoal e profissional, as Conferências Veterinária Atual [1] ajudaram a refletir sobre a forma como a classe pode ser mais feliz no trabalho e, consequentemente, proporcionar melhor qualidade de vida aos pacientes.  No final do dia, é isso que conta.

As Conferências Veterinária Atual deste ano decorreram no passado dia 30 de setembro, no Auditório da Faculdade de Medicina de Veterinária da Universidade de Lisboa (FMV-UL), com transmissão online através da plataforma Zoom, e contaram com 209 participantes. “Improving animal and professional welfare” foi o mote para um dia de partilha entre profissionais do setor com várias apresentações e mesas redondas de debate sobre o bem-estar animal e profissional.

 

Cátia Mota e Sá, médica veterinária e responsável técnica pelo Serviço de Dor e Reabilitação do grupo Veterinário Oliveiras [2] foi a primeira oradora presente e deu a conhecer o “método do apego” que criou há um ano e que assenta em três pilares essenciais: antecipação, prevenção e gestão da dor. “Uma medicina com mais apego requer uma participação multidisciplinar. A empatia pode ser exercitada ainda que seja uma característica individual”, referiu, dando a conhecer esta “filosofia e uma forma de estar” aos colegas. No final, partilhou algumas estratégias para uma clínica com mais apego.

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COMPORTAMENTO E BEM-ESTAR NA MEDICINA DA DOR – MÉTODO DO APEGO:  Cátia Mota e Sá

Seguiu-se a mesa-redonda “Como promover uma experiência positiva para os animais na minha prática clínica?” com a participação de Joana Pereira, médica veterinária, Diogo dos Santos, médico veterinário e chefe do serviço de anestesia e analgesia na VetOeiras [4], Helena Moreira, médica veterinária na área do comportamento animal e João Pedro Silva, diretor clínico da Animabilis [5]. Helena Moreira criou um serviço de veterinária comportamental ao domicílio focado no bem-estar e comportamento animal depois de ter verificado que havia pouca oferta nesta área e por considerar importante “verificar o ambiente onde o animal vive”. O objetivo é que o animal “não sinta desconforto ou dor e que se sinta descontraído em qualquer contexto onde esteja”.

 

Joana Pereira partilhou a experiência de oferta formativa promovida pelo Centro para o Conhecimento Animal (CPCA [6]). “Infelizmente, com a pandemia, a formação ficou um pouco bloqueada porque implica a vertente prática e não pode ser feita à distância. Se tudo correr bem, iremos agora retomar.” A médica veterinária tem notado um maior interesse por parte dos colegas pela área de comportamento animal. Diogo Santos participou nesta mesa-redonda para abordar a forma como o procedimento anestésico e analgésico tem mudado o paradigma da dor. “Há fatores fundamentais como a redução do stresse porque há pequenas técnicas que podem ser realizadas para que um animal fique tranquilo num procedimento”, explicou, adiantando que estas técnicas são de fácil aplicação, melhoram o bem-estar dos pacientes e a logística do hospital.

João Pedro Silva partilhou que existe a preocupação na Animabilis de recorrer ao reforço positivo para “uma melhor experiência clínica e para melhor controlo da dor”.

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Mesa Redonda – COMO PROMOVER UMA EXPERIÊNCIA POSITIVA PARA OS ANIMAIS NA MINHA PRÁTICA CLÍNICA? : Helena Moreira

Avanços e recuos ao nível da legislação e no Ensino Superior
 

Conceição Peleteiro, médica veterinária e presidente do Conselho Profissional e Deontológico da Ordem dos Médicos Veterinários (OMV [8]) trouxe às Conferências Veterinária Atual, o que há de novo no Código Deontológico do Médico Veterinário na versão mais recente que entrou em vigor a 16 de setembro último. Ao detalhar o que há de novo neste documento, a oradora afirmou que o objetivo não é “defender o médico veterinário mas garantir que o público utiliza serviços médico-veterinários tutelados e regulamentados. Ainda assim, o médico veterinário pode encontrar artigos que salvaguardam os seus direitos”.

A manhã das conferências terminou com a análise de casos práticos relacionados com a legislação de raças potencialmente perigosas e o impacto no bem-estar de animais e médicos veterinários por Manuel Sant’Ana, médico veterinário e especialista europeu em bem-estar animal e Alexandre Azevedo, médico veterinário e residente em bem-estar animal. “Os médicos veterinários têm um paciente e um cliente, deveres para com vários interessados originando conflitos frequentemente”, defendeu o último. Nesta apresentação, concluiu-se que “há que aumentar a capacidade de identificar situações de conflito, apostar em formação em análise ética e moral e obter uma decisão estruturada e justificada” e que cabe à classe participar na melhoria da legislação que existe nesta área e que “é imperfeita”.

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LEGISLAÇÃO DE RAÇAS POTENCIALMENTE PERIGOSAS: IMPACTO NO BEM-ESTAR DE ANIMAIS E MÉDICOS VETERINÁRIOS:  Manuel Sant’Ana e Alexandre Azevedo

 

A parte da tarde foi dedicada ao bem-estar profissional e começou com uma mesa-redonda onde se debateu a “Articulação das universidades com o mundo laboral” e abordou o papel do Ensino Superior na preparação para a entrada no mercado de trabalho. Mafalda Pires Gonçalves, médica veterinária, practice manager do Hospital Escolar da FMV-UL explicou a sua perceção entre as expectativas que sentia quando estudava na faculdade e a realidade que encontrou depois no mercado de trabalho. Não teve dificuldade em encontrar emprego, mas afirma que o que mais lhe custou “foi o grau de stresse e pouco reconhecimento da própria sociedade”.

Carolina Silva, médica veterinária e coordenadora da licenciatura em enfermagem veterinária da Escola Superior Agrária de Elvas [10] do Instituto Politécnico de Portalegre defendeu que “tem de haver uma valorização maior do profissional e é necessário formar os alunos adequadamente para que os enfermeiros percebam qual o seu papel na clínica”.

Por outro lado, Inês Pais, diretora clínica da BBVet [11] partilhou a experiência que sentiu no início da sua profissão “com uma carga horária louca”, em tempos em que trabalhava a recibos verdes, factos que não fizeram grande mossa nos primeiros três anos, mas que trouxeram consequências. “Acabei por vir a perceber que isto tinha feito alguns estragos passados uns anos.” Foi então o momento que designa como “ponto de rutura com a clínica” que a levou a recorrer à ajuda de “uma consultora externa na área de gestão” que veio possibilitar uma vida mais calma e com mais tempo, quer para si, quer para os profissionais que com ela trabalham.

Rita Payan Carreira, diretora do curso de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária da Universidade de Évora [12]referiu a incorporação de algumas alterações procurando agilizar os processos que possam trazer mudança aos currículos, ainda que a tradição seja muito valorizada pelas universidades. “Ao nível de unidades curriculares individuais, os alunos são chamados a participar. Tivemos a oportunidade de alterar a estrutura curricular do curso agora em sede de aprovação e propusemos matérias novas que não eram tão tradicionais, como a de comunicação, por exemplo”, explicou.

A presidente da Associação de Estudantes de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias [13], Leonor Carlos, salientou o facto de muitos professores terem experiência na prática clínica e ajudarem a simular algumas situações que podem vir a acontecer aos estudantes no futuro, sobretudo na relação com os tutores. “A universidade dá-nos 50% das bases para sermos ótimos profissionais, mas cabe aos alunos terem uma boa comunicação com os professores que acabam por ser um bom pilar e uma boa ajuda para o futuro. Os outros 50% podem resultar da proatividade dos estudantes em procurar estágios e ter um papel mais ativo”, referiu.

Como motivar e reter os profissionais?

Depois da mesa-redonda, Ricardo Almeida, médico veterinário e fundador da empresa de formação e consultoria em gestão veterinária StratVet [14] fez uma apresentação que consistiu num quiz para os participantes para ajudar a responder à pergunta “Como recrutar e reter talentos?”. Após a apresentação de alguns dados estatísticos, defendeu que o talento pode ser retido através das seguintes premissas: “Reajustar os planos estratégicos, valorizar a profissão, dar perspetivas de carreira e, depois de tudo isto resolvido, tratar os colaboradores como clientes internos”.

Seguiu-se a apresentação de Carla Martins Lopes, médica veterinária e fundadora da Vetpartners [15] sobre o novo paradigma da contratação veterinária em que se referiu à demografia da profissão e ao impacto das políticas salariais e da emigração. “É fundamental investir nos recursos humanos para que os possamos reter e evitar novos processos de recrutamento. O processo de retenção começa no momento de contratação e é essencial dar formação às pessoas desde o primeiro dia, proporcionando o desenvolvimento e progressão de carreira”, afirmou, defendendo que é preciso alinhar expectativas cabendo a cada CAMV implementar mudanças para que as coisas comecem a melhorar.

E, afinal, como se pode tornar a veterinária menos stressante? Paula Trigo, coach executiva e master trainer partiu do seu exemplo concreto de insatisfação com a sua carreira, ao longo de vários anos, para explicar o papel que o coaching desempenha no que concerne a “libertar o potencial de uma pessoa para incrementar ao máximo o seu desempenho.” Além disso, ajuda a refletir e recorre a “um conjunto de metodologias para que o outro consiga aceder a informações de que já possui, mas que não estão assim tão claras permitindo-as chegar a outros níveis de consciência”.

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COMO TORNAR A PRÁTICA VETERINÁRIA MENOS STRESSANTE? – Paula Trigo

Uma vez que a medicina veterinária é considerada uma das profissões mais stressantes, muito ligada à gestão de emoções, o coaching “é um processo de desenvolvimento de competências, apoiado na descoberta e na clarificação de metas e objetivos pessoais, no incremento da capacidade de tomada de decisões com enfoque na aceitação plena da responsabilidade pela própria vida, de uma forma estruturada e orientada”.

*Leia a reportagem completa das Conferências Veterinária Atual na edição de outubro da VETERINÁRIA ATUAL [17].