Oftalmologia

Pannus: relato de um caso tratado com Células Estaminais Mesenquimatosas

Pannus: relato de um caso tratado com Células Estaminais Mesenquimatosas

Pannus ou queratite superficial crónica é uma patologia inflamatória que ocorre na córnea. A sua prevalência no Pastor Alemão é superior à maioria das raças podendo porém ocorrer nestas. A lesão é progressiva e afecta geralmente os dois olhos em simultâneo.

Inicialmente é observada a formação de tecido fibroso rico em vasos que invadem a córnea da periferia para o centro. Progressivamente a superfície adquire uma coloração negra.

A etiologia não é totalmente conhecida mas julga-se que a causa subjacente seja uma resposta imunitária: um infiltrado linfocitário e plasmocítico na córnea, que agrava com a exposição a  níveis elevados de raios UV.

A idade de apresentação dos sintomas é em média a idade adulta, por volta dos sete anos.

A patologia se não for tratada pode levar à cegueira.

No ser humano a patologia conhecida como Pannuns fibrovascular é uma das consequências da Deficiência em Células Estaminais do Limbo e a sua apresentação é muito semelhante à patologia nos nossos animais. Esta deficiência não permite a re-população do epitélio da córnea. Uma das possibilidades terapêuticas é a o cultivo de células de um dador para posterior transplantes.

O paciente neste relato, o Dick, é um pastor alemão cuja idade na altura de apresentação de sintomas era de 9 anos. O paciente iniciou a apresentação de forma aguda e de rápida progressão, com lesões bilaterais de queratite que progrediram para a pigmentação em apenas 2 meses apesar do tratamento com corticóide tópico.

O diagnóstico de pannus foi feito pela apresentação das lesões e iniciou de imediato terapia com ciclosporina (foto 1).

Após 2 meses de medicação as lesões o Dick tinham agravado em extensão e pigmentação. Foi avaliado e medicado com Tacrolimus via tópica.

O Dick sendo ainda um atleta de agility em competição a urgência em estabilizar e melhorar o seu quadro clínico era maior.

O tratamento com as células estaminais mesenquimatosas (MSC) baseia-se no uso de células multipotentes derivadas de tecido adiposo capazes de diferenciação adipogénica, condrogénica e osteogénica. Possuem também capacidade imunomoduladora cujo mecanismo já foi definido nas espécies humana e em roedores.

As MSC promovem a regeneração dos tecidos através da modulação da resposta imune, diminuindo a produção de células e citocinas inflamatórias e aumentando o fluxo de sangue.

A capacidade de inibição da proliferação de linfócitos T in vitro foi demonstrada em humanos, cães, coelhos, porcos, ovelhas e cavalos.

O Dick por não apresentar resposta favorável ás terapêuticas instituídas tornou-se num candidato ao tratamento com MSC. O tutor foi informado do objectivo do tratamento e do método de acção das MSC e ausência de contra-indicações.

Foi submetido à aplicação conjuntival (foto 2) de MSC (foto 3) e após uma semana os resultados eram notórios (foto 4). O procedimento foi realizado sob anestesia. Ocorreu diminuição da vascularização, da inflamação e ao longo de 3 meses a pigmentação tornou-se menos exuberante em extensão e opacidade.

Até à data, 15 meses após tratamento os resultados mantêm-se e o quadro clínico do Dick encontra-se estável.

Aconselhamos que todas as terapêuticas experimentais devam ser discutidas com os tutores e com os colegas envolvidos na investigação das MSC por forma a que os tratamentos sejam otimizados.

Referências

– Lima, A. M. V.; Sousa, J. H. (2015). Pannus do Pastor Alemão: revisão de literatura. Publicações em Medicina Veterinária e Zootecnia. Maringá, v. 9, n. 10, p. 434-441;

– Carrade, D.; Bprjesson, D. (2013). Immunomodulation by Mesenchymal Stem Cells in Veterinary Species. American Association for Laboratory Animal Science. Volume 63, Number 3, June 2013, pp. 207-217(11);

– Hatch, K. M.; Dana, R. (2009). The structure and function of the limbal stem cell and the disease states associated with limbal stem cell deficiency.  International ophthalmology clinics 2009;49(1):43-52.