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Pandemia da obesidade: Um problema para levar a sério

“Os números da obesidade nos animais de companhia continuam a subir em paralelo com os das pessoas”. Esta é uma preocupação da médica veterinária Mafalda Pires Gonçalves − fundadora do Programa de Perda e Controlo de Peso do Hospital Escolar FMV-ULisboa –, que motivou a sua investigação de doutoramento com foco no impacto da obesidade na prática clínica. Em entrevista, fala da ambição de ser um elemento diferenciador para a mudança de paradigma nesta temática.

O que a levou a focar-se na área da nutrição animal? O que a fascina nesta área?

 

As medicinas − humana e veterinária − ainda estão muito vocacionadas para o tratamento da doença, quando a meu ver conseguiríamos ainda melhores resultados se a abordagem fosse mais numa ótica preventiva. Uma alimentação equilibrada pode prevenir ou retardar o aparecimento de determinadas doenças e cada vez mais se sabe o impacto que os hábitos alimentares têm na saúde das pessoas e consequentemente dos animais de companhia, onde destaco a também pandemia da obesidade. Logo considero que há um potencial enorme de investigação e desenvolvimento neste campo.

De que forma a crescente preocupação dos tutores com os animais de companhia tem contribuído para esta pandemia da obesidade?

 

É com orgulho que observamos que cada vez mais pessoas têm animais de companhia e que a sociedade em geral tem apostado cada vez mais na defesa do seu bem-estar. Ao mesmo tempo, ao considerarmos o nosso animal como mais um membro da família há, inconscientemente, um certo antropomorfismo dos hábitos alimentares e de exercício físico que incutimos ao nosso animal. Havendo uma população cada vez mais sedentária, haverá infelizmente cada vez mais cães, gatos, coelhos e roedores que não gastam energia suficiente para as calorias ingeridas e assim surge o excesso de peso.

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Quais são as raças mais propensas à obesidade e porquê?

Nos cães, a obesidade está efetivamente ligada a uma predisposição genética das raças puras das quais se destacam as seguintes: labrador retriever, cocker spaniel, daschund, pug, golden retriever, o beagle, entre outras. No caso dos gatos são os cruzados os mais propensos à obesidade, tais como o europeu comum, o american ou o british shorthair. Os gatos da raça persa, ragdoll, maine coon ou sphynx também têm tendência para o excesso de peso.
Recentemente foi descoberta na raça labrador uma mutação no gene da proopiomelanocortina (POMC) presente em cerca de 25% dos cães desta raça que pode justificar o seu comportamento de “devoradores insaciáveis de comida”.

 

Que doenças estão associadas ao excesso de peso nos animais?

Está comprovado que animais com excesso de peso têm uma menor esperança e qualidade de vida em cerca de dois anos comparativamente com os animais com o peso ideal. Há doenças que levam à obesidade e há doenças provocadas pela obesidade. Destacam-se as doenças endócrinas, como a diabetes mellitus o hipotiroidismo e o hiperadrenocorticismo; problemas respiratórios, doenças do trato urinário, doença osteoarticular, problemas dermatológicos, neoplasias, etc.

Que papel têm os médicos veterinários na sensibilização para esta temática junto dos tutores?

Acredito que os médicos veterinários devem estar na linha da frente do combate à obesidade nos animais de companhia e que a sensibilização dos tutores para este tema dependerá em grande parte das recomendações da classe. Contudo, é muito importante que a consciencialização para esta problemática se inicie no próprio curso de Medicina Veterinária, e inclusive de Enfermagem Veterinária, que é uma das vertentes que tento inferir no meu projeto de Doutoramento.

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Atualmente já existe uma maior preocupação por parte dos tutores em encontrar alternativas e hábitos mais saudáveis para os seus animais?

A humanização tem esse lado também positivo, é que quem é saudável quer que o seu animal tenha os mesmos hábitos e quer garantir o melhor para ele. Nos últimos anos foi possível observar que há uma maior preocupação da parte dos tutores sobre o tipo de alimentação a oferecer ao seu animal e se é adequada ao seu estilo de vida.

Que mitos ainda estão associados a estas questões da nutrição animal?

Existem vários temas polémicos, tais como a decisão de alimentar com alimentos crus (BARF) e restringir o glúten ou os cereais (Glúten ou Grain free). Criou-se a ideia de que os alimentos compostos têm restos de animais de companhia eutanasiados e alguma confusão entre o significado de termos como “uma alimentação orgânica”, “natural”, “holística”, etc. Por ser uma área menos regulamentada face à área dos medicamentos, há uma margem maior para o uso de marketing, que muitas das vezes tem pouca evidência científica.

Alimentação caseira, húmida, seca, qual a melhor alternativa?

A melhor alternativa é aquela que melhor se adequa à história clínica do animal que temos à frente e ao contexto ambiental e socioeconómico onde vive. Sabe-se que os alimentos comerciais, secos ou húmidos, fabricados pelas marcas mais conceituadas, têm décadas de investigação científica por detrás e que são alimentos completos em termos nutricionais, tendo um selo de qualidade e segurança garantidos. Os gatos devem ter disponível uma fonte de alimentação húmida para complementar a ingestão de água que costuma ser deficiente nesta espécie. A opção de uma alimentação caseira como fonte única de comida, deve ser prescrita e supervisionada por um Diplomado do Colégio de Nutrição, pelo risco elevado de desequilíbrios nutricionais que costumam ter as receitas caseiras feitas a “olho”.

Que dicas costuma transmitir aos detentores dos animais? E de que forma rececionam esses conselhos?

Nem sempre é fácil convencer um tutor de que o seu animal necessita perder peso. É preciso estabelecer uma relação de confiança entre o tutor e a equipa médico-veterinária envolvendo-o na planificação do programa para que a tomada de decisão seja conjunta. Gosto de lembrar que somos da mesma equipa, cuja missão é garantir que aquele animal melhora a sua qualidade de vida sem sofrimento associado. Para isso, precisamos de estar munidos de várias “armas” que tornem o processo mais fácil para o tutor. Desde sugerir colocar a dose diária do alimento em sacos de sanduiches para que não se tenham de preocupar diariamente com a pesagem do mesmo; fomentar momentos de entretenimento associados à refeição colocando grãos de ração em cuvetes de gelo ou alimentação húmida congelada em brinquedos dispensadores de comida; e dicas que facilitem a prática de exercício físico conjunta, ou quando isso não é possível de momentos de interação e brincadeira dentro de casa, etc.

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O que ainda é preciso fazer para aumentar esta consciencialização?

O sentimento que tenho é que o tema da obesidade não é “sexy” na classe médico-veterinária. Diria que para a maioria dos médicos veterinários é muito mais interessante recomendar técnicas avançadas de diagnóstico ou uma cirurgia, do que para o mesmo caso dar um passo atrás ou paralelo e iniciar a abordagem com a recomendação de alteração dos hábitos alimentares ou da prática de exercício físico. Se considerarmos que como cuidadores devemos ser proativos na prevenção desta epidemia, é importante que se criem grupos multidisciplinares entre várias especialidades, visto que a prevenção da obesidade deve iniciar-se logo nos cuidados pediátricos, aquando da recomendação de cirurgias de castração/esterilização, em consultas de medicina interna e ortopedia/reabilitação. A consciencialização é necessária quer dentro da classe, quer diretamente com os tutores através dos media/redes sociais.

Nesta área, o que mais a preocupa?

Preocupa-me ver que os números da obesidade nos animais de companhia continuam a subir em paralelo com os das pessoas e que, se não invertermos esta situação através de uma maior consciencialização desta doença por parte das equipas médico-veterinárias não estamos a fazer tudo o que podíamos.

Como iniciou o seu percurso nos Programas de Perda e Controlo de Peso e quais os moldes do projeto que encabeça?

Iniciei este projeto há cerca de sete anos no Hospital Veterinário do Restelo, juntamente com uma enfermeira e em 2019 criei este serviço no Hospital Escolar da FMV-ULisboa.  Ainda que existam vários modos de implementar um programa, sou da opinião de que o diagnóstico de obesidade, assim como a implementação do plano adequado a cada caso, deva ser sempre realizado pelo médico veterinário. E da minha experiência, percebi que ter um médico veterinário “a dar a cara” faz a diferença para o compromisso do tutor, e, por isso, acompanho a maioria das avaliações, porque se apercebem de que a obesidade é realmente uma doença. Um programa de controlo de peso consiste num plano a médio prazo para perda do excesso de peso e manutenção do peso ideal, através da alteração de hábitos alimentares, de exercício físico e da compreensão da ligação existente entre o tutor e o animal. O que mais me cativa no que faço é o desafio de conseguir manter os clientes motivados e a relação de proximidade que crio com eles.

Quais os projetos para o futuro?

Tenho a ambição de ser um elemento diferenciador para a mudança de paradigma na temática da obesidade em medicina veterinária. Gostaria, por isso, de conseguir criar um serviço de referência nesta área, com uma vertente prática e de investigação, como existe na Universidade de Liverpool, na Universidade de Ghent ou na Tufts University nos EUA, recebendo casos de outros médicos veterinários ou de clientes finais que estejam alerta para esta problemática nos seus animais de companhia. Fico esperançosa ao trabalhar num local que forma futuros médicos veterinários, pois o meu trabalho pode torná-los mais conscientes de que a obesidade é também uma pandemia.

Aferir o impacto da obesidade na prática clínica

Parte do seu projeto de doutoramento foca-se na tentativa de perceber se as equipas veterinárias estão a dar o devido foco a este tema na sua prática clínica: “se consideram que a obesidade tenha sido um tema abordado durante o curso superior, ou se deveria ser mais abordado no futuro e em que moldes”, explica Mafalda Pires Gonçalves. Nesse sentido, recorreu à realização de questionários a médicos, enfermeiros e auxiliares veterinários a trabalhar em Portugal cujos resultados serão confrontados com as respostas dadas pelos tutores face ao comportamento da classe.

A outra parte do projeto incluirá um estudo de campo, a começar muito em breve, com animais que necessitam de perder peso e que ingressem no nosso programa. Convido todos os colegas que estejam a ler esta entrevista, que sigam canídeos aparentemente saudáveis, mas com excesso de peso, a falar comigo, caso queiram participar.

O projeto já permitiu aferir algumas conclusões. “Ainda que estejamos atentos a esta problemática, há certos procedimentos, como a classificação do índice de condição corporal ou a realização de uma avaliação nutricional, que são realizados esporadicamente. Sabendo que mais de metade dos animais que visitam os CAMV têm excesso de peso e que estas ferramentas são recomendadas em cada consulta pela WSAVA, como algo tão importante como a medição da temperatura ou da frequência cardíaca, estima-se que haja um potencial de melhora neste campo.”

 

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O percurso

Começou o seu percurso profissional no Hospital Veterinário de São Bento e também exerceu funções no Hospital Veterinário do Restelo, onde trabalhou durante oito anos, tendo concluído os três módulos da ESAVS de medicina interna, em Utrecht, nesse período. Em julho de 2019 integrou o Hospital Escolar da FMV-ULisboa, e desde então leva a cabo uma investigação de Doutoramento em Ciências Veterinárias.

Atualmente é responsável pelo serviço de Nutrição do Hospital de Animais de Companhia da FMV-ULisboa, nomeadamente pelo Programa de Controlo de Peso, faz a gestão clínica do mesmo hospital e recentemente foi convidada para coordenar o Grupo de Interesse Especial em Gestão e Administração Veterinária (GIEGAV) da APMVEAC.