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Alterar alimentação animal pode libertar alimentos para mil milhões de pessoas

A utilização de resíduos das colheitas e subprodutos de alimentos na pecuária e aquacultura na alimentação animal  [1]pode libertar alimentos para mil milhões de pessoas, mantendo o nível de produção. A conclusão é de uma nova investigação da Universidade de Aalto (Finlândia), publicada na Nature Food [2].

Em comunicado [3], a universidade explica que, atualmente, cerca de um terço da produção de cereais é utilizado como alimentação animal, e cerca de um quarto dos peixes capturados não são usados para alimentar as pessoas.

 

A equipa liderada por Matti Kummu investigou o potencial de utilização de resíduos de colheitas e subprodutos alimentares.  “Esta foi a primeira vez que alguém recolheu dados sobre os fluxos alimentares e de alimentação animal a este nível de detalhe globalmente, tanto a partir de sistemas terrestres como aquáticos, e combinou-os em conjunto. Tal permite compreender quanto dos subprodutos e resíduos alimentares já estão a ser utilizados, que foi o primeiro passo para determinar o potencial inexplorado”, explica o investigador.

A equipa identificou maneiras de alterar os fluxos a utilização de subprodutos alimentares de produtos caso da beterraba-sacarina e os citrinos, os subprodutos da pecuária e aquacultura ou até mesmo resíduos de colheitas na alimentação animal.

 

Com estas alterações, até 10-26% da produção total de cereais e 17 milhões de toneladas de peixe (cerca de 11% do atual abastecimento de produtos do mar) poderiam ser redirecionadas da alimentação animal para uso humano. Dependendo do cenário, os ganhos na oferta alimentar seriam entre 6 e 13% em termos de conteúdo calórico e entre 9-15% em termos de teor proteico. “Pode não parecer muito, mas é comida para cerca de mil milhões de pessoas”, afirma a primeira autora do estudo, Vilma Sandström.

Impactos das alterações na alimentação animal na produtividade pecuária

 

Algumas das mudanças, como a utilização de resíduos das colheitas como alimento para os animais, iriam levar a uma diminuição da produtividade pecuária. No entanto, os investigadores afirmam tê-lo contabilizado na análise.

Outro desafio é que os alimentos atualmente utilizados na produção pecuária e a aquicultura são diferentes dos alimentos a que as pessoas estão habituadas. Por exemplo, uma variedade diferente de milho é usada nas indústrias de alimentos para animais e alguns dos grãos são de menor qualidade. Já os peixes usados na produção de farinha de peixe tendem a ser pequenos peixes ósseos que não são populares entre os consumidores.

 

Para os investigadores, a superação destes obstáculos exigiria alguns ajustamentos nas cadeias de abastecimento. “Por exemplo, precisamos de reorganizar o sistema alimentar para que as indústrias e produtores com subprodutos possam encontrar os produtores pecuários e de aquicultura que precisam deles. E alguns dos sub-produtos precisariam de ser processados antes de serem utilizados como alimento para animais”, diz Vilma Sandström.

Por sua vez, Matti Kummu considera que “não há nenhum problema sério em fazer isto. O que estamos a sugerir já está a ser feito numa certa escala e em algumas áreas, por isso não é algo que teria de ser desenvolvido do zero. Só precisamos de ajustar o sistema atual e aumentar a escala dessas práticas”.