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Médico Veterinário: o herói não (re)conhecido da sociedade

O médico veterinário [1] é um autêntico super-herói dos tempos modernos, cujos superpoderes tardam em receber o reconhecimento geral da sociedade. Ao contrário dos típicos heróis fictícios de banda desenhada, não atuam apenas quando o perigo ronda. Dedicam-se ininterruptamente, de corpo e alma, a combater os perigos e a prevenir a aparição dos mesmos. Desconhecem a palavra parar. Algo que é de enaltecer, mas que muitas vezes o coloca a ele próprio em risco.

Todos os que mantêm um contacto próximo com esta profissão, oriundos de diferentes áreas de atuação, estão conscientes do tremendo nível de exigência associado à medicina veterinária [2]. E os restantes? Será que reconhecem a elevada importância que a classe detém na sociedade?

 

Infelizmente, a resposta é um redondo não. Longe ainda do estatuto e prestígio de que goza a medicina humana, a medicina veterinária é muitas vezes percecionada como apenas mais um ofício. Em Portugal, esta situação é ainda mais evidente. O veterinário é, não raras vezes, considerado um profissional de segundo plano, não sendo realmente percecionado como o verdadeiro médico que é. São vários os casos em que testemunhei tutores que apenas consideravam levar os seus animais aos CAMV quando se tratava de uma urgência. Desses, a larga maioria considera os valores despendidos nessas idas como algo estapafúrdio, mesmo tratando-se de tutores que muito estimam os seus animais. Algo que nunca acontecerá na outra medicina.

Convém referir que o problema não reside nos valores associados aos serviços prestados pela equipa veterinária, mas sim na perceção (errada e incompleta) que os tutores têm do real valor do trabalho realizado pelo veterinário.

 

Como podemos então equilibrar esses dois valores? Fazendo pender um maior peso para o lado da balança que contém o reconhecimento da profissão veterinária. Não apenas aos olhos dos tutores, mas também da sociedade em geral.

Nesse caso, que direção deve ser seguida? Há vários passos, simetricamente importantes, que deverão ser postos em marcha. Deverá haver uma maior comunicação externa na documentação – textual e gráfica – de casos de sucesso, valorizando o CAMV e, por consequência, todos os profissionais de saúde que nele trabalham. Paralelamente, para conseguir transparecer a importância da profissão aos olhos dos tutores, é de extrema importância saber comunicar a relevância do seu papel nas diferentes áreas de atuação.

 

Para isso, deve ser considerado alargar a formação não-veterinária para outras em marketing e comunicação, adquirindo o conhecimento e ferramentas necessárias para uma autovalorização mais ajustada.

A criação de raiz de grupos de veterinários, de forma temporária e rotacional que se dediquem a elevar a classe – de Norte a Sul do País – com casos práticos que exemplifiquem, de forma inequívoca, o papel determinante da veterinária poderá representar um passo primordial neste percurso. Imaginemos que, no município de Foz Côa, se celebra o aniversário das descobertas das gravuras. Será que não haveria espaço e audiência suficientes para falar sobre a preponderância da medicina veterinária?

 

Também as redes sociais são um meio importante para este fim. Falando especificamente do LinkedIn, deve ser equacionada a aposta numa rede que se encontra em clara expansão e cujo ADN é o mercado de trabalho. O médico veterinário tem, no seu dia a dia laboral, acesso a muita informação interessante e útil que pode (e, neste caso, deve) utilizar para divulgar nesta rede. Aqui podemos destacar o impacto que o trabalho de muitos acaba por ter na saúde pública, como é o caso da identificação e prevenção de zoonoses – as dos animais de companhia e de produção – e também no caso das resistências bacterianas advindas de animais de produção.

Estes são alguns dos exemplos que poderão representar um acréscimo de valor na valorização da profissão. No entanto, constituem apenas uma parte do processo, não sendo o suficiente para o tão merecido e desejado reconhecimento de toda a classe.

Para que tal aconteça, existe uma parte que não depende inteiramente dos veterinários. É o caso da escassa presença dos mesmos em cargos decisores. E é aqui que se contribui de forma mais direta para as decisões que afetam o nosso estado social.

O veterinário é ágil e audaz, resistente e resiliente, versátil e virtuoso, um verdadeiro poço de conhecimento, cuja vontade constante de aprendizagem jamais cessa. Restam poucas dúvidas acerca da qualidade e potencial que a classe tem e, mesmo não dependendo exclusivamente dos próprios profissionais, o trajeto a seguir deverá ser o de que todos se tornem, progressivamente, em Paladinos da Medicina Veterinária. É chegado o momento de o veterinário fazer parte do elenco principal.

*Bernardo Soares – UPPartner DVM / Animal Health Advisor  bernardo.soares@uppartner.pt [3]

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 160 da revista VETERINÁRIA ATUAL [4], de maio de 2022.