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Investigação

Investigadores identificam pela primeira vez vírus recombinante da mixomatose da lebre em coelhos

Um grupo de cientistas, composto maioritariamente por investigadores do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), identificou pela primeira vez no mundo um vírus recombinante da mixomatose da lebre-ibérica, uma doença infetocontagiosa, em coelhos-bravos e domésticos no Alentejo.

Fábio Abade dos Santos

Fábio Abade dos Santos, mestre em Medicina Veterinária e investigador do INIAV, afirma que “o impacto do vírus ainda não é possível de prever, mas pode ser desastroso, principalmente para as populações selvagens”.

Até agora, pensava-se que o vírus recombinante da mixomatose, identificado em 2018, afetava apenas lebres-ibéricas e não coelhos, ao contrário da estirpe clássica da doença, introduzida clandestinamente na Europa, em 1952, por um agricultor francês, para controlar a praga de coelhos na sua exploração.

A doença disseminou-se depois a outros países através de vetores, como mosquitos e pulgas, sendo responsável por uma redução na ordem dos 90% a 99% da população de coelho-bravo europeia, incluindo em Portugal.

São estes números que agora preocupam não só os investigadores do INIAV, mas também da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, Instituto Universitario de Biotecnologia das Asturias e Royal Brompton & Harefield NHS Trust, que colaboraram na pesquisa.

Coelho-bravo de pé

É que caso este vírus recombinante tenha a mesma mortalidade no coelho-bravo do que as estirpes clássicas da doença, esta espécie, já classificada em 2019 como “em perigo” pela União Internacional da Conservação da Natureza (IUCN), poderá ser ‘empurrada’ para a extinção funcional, salienta o investigador.

A lebre-ibérica (Lepus granatensis) e o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) são as duas únicas espécies de leporídeos selvagens existentes em Portugal e, por isso, espécies-chave nos ecossistemas mediterrânicos, servindo como presa de base para a cadeia de carnívoros ibérica, desde o texugo ao lince-ibérico.

“Para que uma espécie com as características de resiliência, distribuição [territorial] e reprodutivas do coelho-bravo receba o estatuto de ‘espécie ameaçada’, algo muito preocupante está a acontecer. Não acredito que o coelho-bravo alguma vez seja extinto, mas há o risco de extinção funcional, ou seja, muito embora persistam algumas populações residuais de coelhos selvagens, se esse número for limitado não permitirá que exerçam o seu papel no ecossistema”, explica o investigador.

Além disso, acrescenta Fábio Abade dos Santos, “os seus predadores históricos deixarão, pouco a pouco, de poder contar com a espécie nas suas dietas com as suas flutuações populacionais para estímulo positivo à sua própria reprodução e expansão”.

Focos de mortalidade a Sul

A descoberta foi feita após os cientistas terem sido alertados para focos de mortalidade em coelhos-bravos e domésticos no Sul do país ao longo do verão.

“Soubemos de mortalidade localizada em Beja, em junho primeiro em coelho-bravo. Pouco depois, em julho, ocorreu mortalidade no mesmo distrito numa pequena cunicultura doméstica. Quando nos fizeram chegar os animais ao INIAV, contávamos encontrar infeção pelas estirpes clássicas do vírus da mixomatose”, conta Fábio Abade dos Santos.

“Uma questão que urge perceber é se as vacinas comerciais que existem contra a mixomatose [e que já são usadas em explorações de cunicultura] protegem deste vírus recombinante”

O impacto futuro desta descoberta — que integra o Projeto +Coelho 2, criado em 2017 por despacho do ex-ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, para operacionalizar a monitorização do estado dos leporídeos selvagens nacionais—, está agora a ser avaliado em Portugal e Espanha.

“Uma questão que urge perceber é se as vacinas comerciais que existem contra a mixomatose [e que já são usadas em explorações de cunicultura] protegem deste vírus recombinante.”

Para tal, já está a ser delineado no INIAV um ensaio de vacinação para tentar perceber se a vacina contra as estirpes clássicas de mixomatose também induz anticorpos contra este vírus recombinante, algo que o investigador acredita ser possível e provável.

“Mas os desafios são completamente diferentes quando passamos para o coelho-bravo, para o qual a vacinação no campo não é uma realidade”, refere.

“Este é o cenário do coelho: pouco preocupante no coelho industrial, porque eu acredito, embora não possamos ainda afirmar, que a vacinação vai ser protetora contra o vírus recombinante; muito preocupante no coelho-bravo, porque não sabemos qual vai ser a evolução e o comportamento do vírus na natureza.”

A situação da lebre-ibérica pode ser “ainda mais preocupante”

Mas, o maior problema para os ecossistemas ibéricos poderá ser mesmo o panorama para a lebre-ibérica, que, segundo o investigador, “tem muito menor capacidade de recuperação do que o coelho-bravo, já se encontra menos dispersa no território nacional e cujos números são muito menores”.

Teme-se ainda que este vírus recombinante se transforme numa doença endémica em Portugal, tal como a mixomatose clássica.

A emergência deste um vírus recombinante, em meados de 2018, foi por si só uma surpresa, dado o “salto de barreira de espécie” — de coelho para lebre — que este realizou.

Tal resultou, explica o investigador, que contou com a coordenação de Margarida Duarte, do INIAV, durante a pesquisa, “de um grande evento de recombinação”.

Fábio Abade dos Santos frisa que as alterações que os vírus da mixomatose do coelho têm sofrido ao longo da sua convivência com este hospedeiro foram, até agora, “muito mais pequenas do que as deste vírus natural recombinante e não levaram à passagem da barreira de espécie”.

A descoberta deste vírus recombinante no coelho-bravo e doméstico deu origem a dois artigos científicos: um já publicado, no dia 5 de outubro, na revista científica Viruses (sobre o coelho-bravo), e outro, referente à sua deteção no coelho doméstico e já aceite para publicação, na Transboundary and Emerging Diseases.

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