Texto técnico

Impacto sistémico e prevenção da doença periodontal em cães

A doença periodontal (DP) é uma das doenças inflamatórias mais frequentes e disseminadas em cães, com uma taxa de prevalência a rondar os 80%. 1 No entanto, não é um problema assim tão simples e pode conduzir a consequências sistémicas.

Para começar, uma abordagem da DP em fase avançada torna a gestão clínica mais difícil e potencia complicações, podendo conduzir a situações mais extremas. Neste sentido, Ana Ribeiro, diretora técnica no Espaço Saúde Animal (Pontinha), exemplifica mesmo que “já aconteceu uma cadela ter os dentes tão degradados que houve perda de densidade óssea e, na extração, foi inevitável a fratura do maxilar”. Infelizmente, “a fase inicial é por norma detetada em consulta como achado clínico, sendo muito raro um cão vir à consulta por DP”, acrescenta.

Numa descrição breve, a patogénese da DP inicia-se com a formação de placa dentária, que afeta o periodonto e evolui para inflamação da gengiva (gengivite) e/ou inflamação do periodonto (periodontite). A inflamação persistente também vai lesar o tecido periodontal e contribuir para a evolução da doença. A patologia oral pode ter progressão sistémica, que pode ocorrer por disseminação bacteriana pela corrente sanguínea, produção de resíduos metabólicos, resposta inflamatória, e exposição a fatores inflamatórios.1

Um estudo nacional comparou um grupo de cães com DP e um grupo de controlo, demonstrando o impacto sistémico da doença, a qual pode aumentar a morbilidade e mortalidade. Não se verificou influência do género ou status reprodutivo na progressão de DP.1 Não obstante, observou-se que a idade é um fator de risco para estabelecimento de DP e que as raças pequenas (<10 kg) são mais suscetíveis a esta doença.1 Com efeito, sabe-se que os cães de pequeno porte estão mais predispostos ao desenvolvimento de DP em idade precoce e de quadros mais graves da doença.2 “A acumulação de tártaro tem componente genética, mas também se relaciona com a própria oclusão. Os cães mais pequenos têm mais tártaro, mas também pode ter a ver com o facto dos donos lhes darem por vezes comida mais mole”, salienta Ana Ribeiro.

DP pode sinalizar outras patologias

A médica veterinária sublinha ainda que “é bastante comum a ocorrência concomitante de DP e doença valvular”. Na verdade, a DP tem sido associada a diversas patologias, como doença renal, hepática, tromboembólica e cardíaca, enfarte cerebral e miocárdico, AVC, e aterosclerose.1 Considerando as patologias já associadas à patologia periodontal, o estudo demonstra uma associação estatística significativa entre a DP e a doença cardíaca.1 Os cães incluídos no grupo com DP apresentavam, aliás, características sugestivas de doença valvular mixomatosa. Por outro lado, a endocardite infeciosa é uma doença fatal com baixa prevalência e difícil diagnóstico, surgindo durante uma exposição transitória a bactérias, inclusive durante medidas de controlo da DP.1 Outros autores referem também o impacto da DP no âmbito renal e sugerem uma possível associação com diabetes mellitus, mas esta correlação ainda só está estabelecida na medicina humana.3

Nesta sequência, surge naturalmente a necessidade de fazer prevenção, pelo que, tomando em perspetiva a rotina na clínica, a Ana Ribeiro reforça que “em Portugal não existe a cultura do dono fazer prevenção da patologia oral do cão”. Infelizmente esta situação também se evidenciou num estudo de Minas Gerais, no Brasil: entre os cães que eram levados a um hospital veterinário, 2,67% foram por DP e 88,67% apresentavam DP na avaliação e, nesta amostra, 43,83% dos donos possuíam informação sobre a DP e apenas 17,46% tomavam alguma medida de prevenção e/ou tratamento.4

Para sensibilizar o dono acerca da importância das recomendações de cuidados dentários no animal, deverá ser fornecida informação acerca da DP e pensar num paralelismo com a rotina de higiene pessoal dos donos, como reforçado pelas normas da Associação Americana de Hospitais de Animais (AAHA).1,5 Na verdade “a prevenção primária é uma área crescente”, afirma Ana Ribeiro. Neste sentido, “regra geral, quando o cão é cachorro, o dono tem uma grande compliance, mas depois começa a ficar menos atento a estes cuidados”.

Quando questionada acerca das medidas de prevenção, refere que, “para prevenção primária, quando o animal éainda um cachorro, aconselho a habituação com o uso da dedeira. Mais, quando se inicia a muda dentária, a limpeza com pasta deve começar a realizar-se pelo menos uma a três vezes por semana, atentando a uma boa formulação”. É importante ter em conta que deve ser utilizada uma escova macia e pasta de dentes para cães: a pasta de dentes de uso humano não é de todo recomendada, uma vez que pode ser tóxica para o cão.6 Ainda assim, só a placa será removida, nunca anulando a necessidade de realizar exames, radiografias e tratamentos, similarmente aos cuidados dentários em humanos.5 Infelizmente, 50 a 70% dos donos não seguem as recomendações, em parte por intolerância do cão face à escovagem.6

Como escolher o profissional?

Nesta sequência de ideias, é também inevitável que se insurja a dúvida em relação à escolha do profissional veterinário. Num esclarecimento breve, mas elucidativo: “O veterinário generalista pode proceder a medidas de prevenção primária e cirurgia geral, mas há colegas veterinários cuja área de interesse é dentisteria, de forma análoga à estomatologia na medicina humana. O médico veterinário generalista pode realizar a generalidade dos procedimentos, como extrações, biópsias a gengivas, extração de epúlides e etc., mas determinadas situações devem ser referenciadas porque só o especialista estará na posse de certos equipamentos, como o raio-x intraoral.”

Quanto ao exame oral, a dentição do animal deve ser avaliada pelo veterinário pelo menos uma vez por ano por forma a descartar sinais iniciais de qualquer problema ou, caso contrário, para poder atuar numa fase precoce.9 No entanto, o cão deve ser avaliado mais cedo caso se verifiquem problemas como mau hálito, perda dentária, fratura dentária, dentes supranumerários ou de leite, descoloração dentária ou tártaro, mastigação anormal, perda de apetite e dor, sangramento ou inchaço na boca ou região circundante. Adicionalmente, estas alterações podem ainda vir acompanhadas de irritabilidade e outras alterações no comportamento.9 Contudo, a realização do exame oral como forma de prevenção nem sempre acontece, “sendo que muitas vezes, quando o dono o traz à consulta, o cão tem muita dor, não é colaborante e será necessário anestesiar”. Este poderá constituir um receio comum a muitos donos, mas será a única alternativa continuando a representar um benefício-risco favorável nesta tomada de decisão. “Num cão idoso com DP que manifesta dor, é clara uma necessidade de intervenção, e aí há necessidade de arriscar: pode ser um procedimento mais moroso, mas trabalhamos sempre na base de minimizar o risco.”

A higiene oral não é meramente uma questão estética, sendo mandatório implementar medidas de prevenção, desde os cuidados de higiene oral, dieta e exame oral. O diagnóstico e tratamento precoce numa DP já estabelecida promove a longevidade dentária e diminui a prevalência de condições associadas.

Como evitar a DP6–8

  • “Recomendam-se as barras com cobertura enzimática, a qual terá uma ação abrasiva ajudando a degradar as bactérias responsáveis pela formação de biofilme”, explica Ana Ribeiro.
  • São comercializadas formulações para combate ao tártaro e cáries, que atuam por abrasão ao remover a placa durante a mastigação.
  • O uso de materiais para mastigar pode reduzir a acumulação de placa e/ou tártaro da superfície dentária, quer por abrasão, quer por aumento do tempo de contacto.
  • Os snacks que contêm vitamina C e sulfureto de zinco na sua composição demonstraram ser especialmente eficazes passadas 24 horas em comparação com os restantes.6
  • Outras opções interessantes poderão incluir polifosfatos, como o hexametafosfato de sódio, Ascophyllum nodosum, e snacks de mastigação à base de tapioca.7,8
  • De forma a evitar lesões e fraturas dentárias, é importante alertar os donos acerca dos perigos do uso de brinquedos inadequados para mastigar.
  • Qualquer material para mastigação deve ser adequado à raça e tamanho do cão.6

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  1. Pereira dos Santos JD, Cunha E, Nunes T, Tavares L, Oliveira M. Relation between periodontal disease and systemic diseases in dogs. Res Vet Sci 2019;125:136–140.
  2. Bellows J, Colitz CMH, Daristotle L, Ingram DK, Lepine A, Marks SL, Sanderson SL, Tomlinson J, Zhang J. Common physical and functional changes associated with aging in dogs. J Am Vet Med Assoc 2015;246:67–75.
  3. Rawlinson JE, Goldstein RE, Reiter AM, Attwater DZ, Harvey CE. Association of periodontal disease with systemic health indices in dogs and the systemic response to treatment of periodontal disease. J Am Vet Med Assoc 2011;238:601–609.
  4. Fernandes NA, Borges APB, Reis ECC, Sepúlveda RV, Pontes KC de S. Prevalence of periodontal disease in dogs and owners’ level of awareness – a prospective clinical trial. Rev Ceres Universidade Federal de Viçosa; 2012;59:446–451.
  5. Bellows, J; Berg, M.L.; Dennis S et al. 2019 AAHA Dental Care Guidelines for Dogs and Cats. Vet Pract Guidel 2019;
  6. Andrew Pietraniec, Amy Bauer, Judith Stella, Candace Croney. Preventing Periodontal Disease in Dogs. Purdue Extension 2017;
  7. Roudebush P, Logan E, Hale FA. Evidence-Based Veterinary Dentistry: A Systematic Review of Homecare for Prevention of Periodontal Disease in Dogs and Cats. J Vet Dent 2005;22:6–15.
  8. Gawor J, Jank M, Jodkowska K, Klim E, Svensson UK. Effects of Edible Treats Containing Ascophyllum nodosum on the Oral Health of Dogs: A Double-Blind, Randomized, Placebo-Controlled Single-Center Study. Front Vet Sci Frontiers Media SA; 2018;5:168.
  9. American Veterinary Medical Association. Pet Dental Care. https://www.avma.org/public/PetCare/Pages/Pet-Dental-Care.aspx (19 September 2019)

*Texto publicado originalmente na edição de janeiro de 2020, n.º 134, da VETERINÁRIA ATUAL.