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Humanizar nem sempre é cuidar

Como o próprio nome indica, humanizar significa tornar algo humano ou mais humano. Em certos casos – com maior frequência do que seria desejável -, traduz-se num excesso de zelo para com os nossos animais e num tratamento desajustado que vai contra as necessidades das espécies em questão. Esta tendência faz-se notar sobretudo com cães, mas, em alguns casos, também se observa com gatos.

Muitos tutores têm a tendência de atribuir características típicas da nossa espécie aos seus animais. Os motivos são vários e podem ir desde a falta de informação, excesso de informação incorreta e sem bases científicas, até à enorme divulgação nas redes sociais de outras pessoas que tratam os seus animais como se fossem elas próprias.

 

Mas o cerne da questão – e o ponto de partida na comunicação com os tutores é – será que eles beneficiam com esta abordagem ou, pelo contrário, saem prejudicados?

Antes de responder, é importante salientar que a humanização poderá ser dividida em duas perspetivas: a humanização positiva e a negativa. Esta última está intrinsecamente relacionada com o conceito de antropomorfização, no qual são atribuídas ações, atitudes e qualidades características de seres humanos aos animais.

 

Humanização Positiva

Se encararmos a humanização como a devida preocupação que devemos ter para com os nossos animais – sem qualquer tipo de excesso e com as ferramentas de informação certas ao dispor – então é sem dúvida alguma uma boa prática, constituindo inclusivamente um “atalho” para alcançar o bem-estar e saúde que lhes desejamos. Exemplos disso são reconhecer a existência de emoções, as suas preferências e os limites das mesmas.

 

Humanização Negativa

Falando da alimentação, são vários os casos de tutores que continuam a partilhar a sua comida, sem a plena consciência de que esta prática poderá resultar em cães ou gatos obesos e diabéticos.

 

Em termos de saúde – apesar de estar diretamente relacionada com a anterior – existe uma grande quantidade de aspetos que têm um impacto negativo. Por exemplo, a prática de banhos excessivos – mesmo com produtos específicos para animais -, que provocam uma redução na função protetora da pele. Em muitas situações, tomamos conhecimento de tutores que administram indiscriminadamente certos medicamentos de uso humano, alguns deles que poderão levar a consequências gravíssimas para o animal, como são o caso do Ibuprofeno e do Paracetamol.

Como se não bastasse, existe ainda o tema do comportamento. Um excessivo nível de proteção, que impeça os animais de expressarem os seus comportamentos naturais acabará por influenciar negativamente o seu bem-estar, além de que poderá desencadear o aumento de comportamentos anti sociais nestes animais.

Infelizmente, este é o tipo de humanização mais recorrente e aquele que precisa de ser contrariado.

Mas se este tipo de abordagem é largamente prejudicial para o bem-estar dos animais, de que forma poderemos alertar os tutores?

É sobremaneira importante informar, intensiva e exaustivamente, os tutores sobre as características funcionais de cada espécie, realçando que o nosso cão ou gato, na maioria das vezes, sai a perder com este tipo de tratamento. E que, para o respeitar, é fundamental ter presente as suas características.

Nas consultas, nos CAMV, devem ser, em primeira instância, identificados os tutores que cometem alguns destes erros e, posteriormente, alertar para o facto de que tratar os nossos animais desta forma em nada os favorece. Esta divulgação pode ser apoiada por outros tipos de materiais específicos acerca da humanização. Um exemplo, durante a abordagem deste tema na consulta, pode passar pela oferta de material informativo que explique clara e sucintamente as várias repercussões negativas para a saúde dos animais.

Por outro lado, não nos podemos esquecer que a população portuguesa é uma população altamente envelhecida e que um número considerável de pessoas que pertence a este grupo etário vive numa completa situação de solidão, sendo que grande parte do seu mundo gira em torno dos seus animais. São eles o seu grande amparo e, neste caso, a tendência de os tratar literalmente como família e como humanos é ainda mais acentuada, pelo que a abordagem deverá ser diferente.  Um conjunto de iniciativas reeducativas através de campanhas em Televisão – o meio de comunicação preferencial deste tipo de público – poderão representar um fator decisivo para atenuar esta situação.

Por último, algo em que sempre insistirei, para que este respeito e conhecimento acerca destas espécies estejam suficientemente enraizados na sociedade, a sua divulgação através da inclusão no ensino é imprescindível.

Urge uma amplificação na divulgação dos efeitos nocivos que resultam da humanização negativa. Ainda que insuficiente, têm se vindo a verificar algumas iniciativas de sensibilização sobre este tema. No Reino Unido, após a realização de estudos científicos e inquéritos que comprovaram as consequências negativas desta abordagem, chegou inclusivamente a ser conceptualizada – por profissionais de saúde animal – como killing pets with kindness.

Tal como referi, são diversos os motivos pelos quais não devemos permitir que esta tendência evolua. Afinal de contas, este processo negativo de humanizar os animais não-humanos revela, indiscutivelmente, uma ignorância e desrespeito (mesmo que de forma inconsciente) pelas espécies que acolhemos nos nossos lares.

*Bernardo Soares – UPPartner DVM / Animal Health Advisor  bernardo.soares@uppartner.pt [1]

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 159 da revista VETERINÁRIA ATUAL [2], de abril de 2022.