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Hospital Veterinário Arco do Cego: Manter o foco no paciente

Começou por ser uma clínica com duas médicas veterinárias. Hoje, conta com 20 pessoas numa equipa multidisciplinar e evoluiu para uma estrutura hospitalar para poder dar resposta a mais necessidades dos pacientes. Com a união que caracteriza quem trabalha neste CAMV, o investimento tem sido uma mais-valia, as mudanças sucedem-se em termos de reestruturação do espaço e serão realizadas mais obras para melhoria na área de consultas, de internamento e da área cirúrgica.

Foi em agosto de 2009 que a Clínica Veterinária Arco do Cego foi inaugurada com apenas duas pessoas na equipa, Rita von Bonhorst e Joana Crisóstomo, médicas veterinárias e duas das quatro sócias fundadoras. A ambas, juntaram-se Sheila Teodoro e Marina Coelho, a única que não trabalha atualmente no hospital, mas que já o fez no passado. Além da prática clínica, todas elas partilham as tarefas administrativas e decisões ao nível da gestão.

A VETERINÁRIA ATUAL fez uma reportagem nesta clínica no ano de 2013 e decidiu voltar para conhecer as mudanças e as novidades. E, de facto, há quase uma nova história para contar. A equipa foi crescendo, o espaço foi reestruturado, os horários alargados, aumentando também a oferta de serviços. Ao contrário da primeira visita, atualmente, estamos perante um hospital a funcionar 24 horas por dia, desde há sete anos, com uma equipa multidisciplinar de veterinários, enfermeiros e auxiliares. “Temos uma carteira de clientes que tem vindo sempre a crescer, mantendo, no entanto, uma ótima taxa de fidelização dos nossos clientes, incluindo os mais antigos, que estão connosco desde a abertura”, afirma Rita von Bonhorst.

Na primeira visita que fizemos a este CAMV já era um objetivo das sócias fundadoras ter uma equipa que conseguisse responder a urgências menos comuns. Por outro lado, alguns dos aspetos que gostariam de ver melhorados acabaram por ser concretizados ao fim deste tempo, até aos dias de hoje. E se é verdade que em 2013 o País vivia uma conjuntura económica particularmente difícil, em 2021, estamos em plena pandemia sem dar tréguas e sem fim à vista. “Como sempre trabalhámos em crise fomos gerindo a nossa clínica aos poucos e não tivemos de mudar nenhum aspeto em particular”, explicava Rita, à época. Tempos diferentes, desafios particulares. Mas a atividade do hospital não tem sido penalizada. Pelo contrário. Inovar e apostar em novas valências tem sido imperativo.

Localizado frente ao jardim do Arco do Cego, é possível avistar duas montras com entradas independentes para cães e para gatos. O hospital ocupa um espaço total com cerca de 200m2, distribuído por dois pisos. O piso superior, de atendimento ao público, está dividido fisicamente em duas receções e respetivas salas de espera [com a designação de ‘Aqui há Gato” e “Aqui há cão”] para que cães e gatos não se cruzem nem se vejam. Neste piso localiza-se a área de consultas com quatro consultórios, um exclusivo de cães, outro para gatos e dois mistos.

“Uma melhor colaboração e apoio entre os colegas dos vários CAMV’s é fundamental para crescermos e melhorarmos a medicina veterinária em Portugal” – Sheila Teodoro, médica veterinária e sócia fundadora

“Inovadores na oferta de um serviço cat friendly, sempre tivemos e teremos uma forte componente nos cuidados com os felinos, que muito admiramos e respeitamos”, destaca Sheila Teodoro. Esta separação de espécies é essencial para a adequada gestão do trabalho. “Isto faz toda a diferença se queremos trabalhar bem com estes animais. Os gatos são muito sensíveis. Precisam de uma intervenção e maneio ajustados ao seu comportamento”, explica Joana Crisóstomo. Através desta separação, é possível tratar de pacientes mais tranquilos e cooperantes nas consultas, “o que faz a diferença na hora de exame físico, agilizando o diagnóstico e potenciando um acompanhamento e tratamento mais eficazes”. Mas também a forma como os felinos são tratados neste hospital ajuda a alcançar bons resultados. “Todo o nosso comportamento – passando pelo tom de voz e linguagem corporal – é adaptado aos nossos pacientes. Fazemo-lo de forma intuitiva porque gostamos e entendemo-los, mas muito vem de uma aprendizagem e atualização constantes, neste caso concreto, em medicina felina.”

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Médica veterinária Joana Crisóstomo

No piso inferior, encontramos a área clínica numa zona distinta da área restrita à equipa. A primeira distribui-se em torno de uma sala central multifacetada onde se realizam exames físicos, preparação de pacientes, colheitas e onde se localiza também o laboratório. A partir desta sala, é possível aceder ao internamento de cães, ao internamento de gatos, à sala de cirurgia, à sala de raio-X e à sala de ecografia.  Em cada internamento, existe uma segunda área isolada e destinada a doenças infetocontagiosas. Nas imediações do hospital, está disponível ainda uma área de mais de 100m2, utilizada para apoio logístico e atividades administrativas.

O crescimento da atividade deste hospital tem permitido assim oferecer um serviço e acompanhamento mais abrangente e cuidado. “Atualmente, a equipa é composta por 20 pessoas, incluindo pessoal auxiliar e de enfermagem. A diferenciação dos cargos permite uma melhor organização do serviço e de desempenho da equipa. Temos neste momento vários colegas que nos referenciam casos clínicos, fruto da confiança que sentem no Hospital Veterinário Arco do Cego”, explica Joana Crisóstomo. Alguns profissionais mais ligados à medicina interna têm a responsabilidade de gerir casos clínicos mais complexos. “O facto de termos uma equipa multidisciplinar ‘in-house’, incluindo na área de ecografia e da patologia clínica, permite-nos obter respostas mais rápidas, o que, em muitas situações, faz a diferença”, salienta Sheila Teodoro.

“Temos uma carteira de clientes que tem vindo sempre a crescer, mantendo, no entanto, uma ótima taxa de fidelização dos nossos clientes, incluindo os mais antigos, que estão connosco desde a abertura”, afirma Rita von Bonhorst

Rita von Bonhorst [2]

Médica veterinária Rita von Bonhorst

Além da medicina interna e cirurgia geral, o hospital aposta ainda nas áreas de cardiologia e de ortopedia. “Por forma a garantir o melhor acompanhamento dos nossos pacientes oncológicos trabalhamos em parceria com uma colega diplomada em oncologia que faz acompanhamento e direcionamento dos casos através de teleconsulta. Com o foco no nosso paciente, temos várias parcerias e colaborações com outros colegas, no sentido de dar sempre a resposta mais adequada a cada caso clínico”, sublinha a médica veterinária.

Manter a atividade durante a pandemia

Durante o confinamento de março, abril e maio do ano passado, houve naturalmente uma diminuição do volume de trabalho. “Adaptámo-nos de forma a conciliar o serviço com a segurança da equipa e donos. Reforçámos a triagem telefónica, tornando-a mais pormenorizada e eficiente”, explica Marina Coelho. Desta forma, foi possível priorizar as urgências, reagendar consultas não urgentes e organizar o funcionamento do hospital com equipa e horários adaptados ao confinamento de forma equilibrada. Destaque para o serviço de teleconsulta que permitiu evitar a consulta presencial em casos clínicos e reavaliações simples. “Este serviço foi também uma ótima ferramenta de resposta a muitas dúvidas e receios dos donos que assim se sentiram seguros à distância.” Atualmente mantém-se a restrição da entrada e permanência dos donos dos animais no hospital. Só é permitida a presença de uma pessoa por consulta e as visitas aos pacientes internados estão limitadas por um período breve e para casos em estado grave. A colaboração de todos e a recetividade às novas regras têm sido positivas, garante a médica veterinária. “O profissionalismo da equipa aliado a uma comunicação cuidada, sensibilidade e bom senso foram decisivos neste aspeto. Foram tempos muito difíceis, em que a equipa se uniu e se superou. Estamos profundamente orgulhosas e gratas”, elogia.

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Sofia Pais (médica veterinária) e Tomás Antelo (estagiário)

Devido ao facto de o hospital estar localizado no centro de Lisboa, a equipa não sentiu qualquer alteração por parte dos detentores de animais relativamente à importância da profilaxia. “Os nossos clientes são sensibilizados para a importância da medicina preventiva desde a primeira consulta e de forma constante através das nossas redes sociais”, explica Sheila Teodoro. A aposta numa comunicação direta e próxima através do Instagram e do Facebook é recorrente. “É importante que possam testemunhar o nosso dia-a-dia, com as publicações que fazemos. São casos reais, de pacientes reais. Partilhamos momentos divertidos que envolvem pets, desenvolvemos conteúdos exclusivamente informativos, outros de alerta, sempre que possível”, salienta Joana Crisóstomo. O objetivo passa por conciliar o papel lúdico e educativo nas publicações por acreditarem que é uma forma eficaz de comunicar com os clientes.

“Temos como objetivo principal ampliar a área de cirurgia e de internamentos [até ao final deste ano]. O projeto de arquitetura já está aprovado, mas terá de ser executado por fases para que o funcionamento do hospital não seja prejudicado” – Marina Coelho, médica veterinária e sócia fundadora

O tratamento em constante evolução

Nos últimos anos, a casuística que mais tem vindo a aumentar diz respeito a casos oncológicos ainda que seja cada vez mais possível fazer um diagnóstico precoce. “Têm sido cada vez mais frequentes os pacientes com quadros clínicos ligeiros que, após avaliação, são diagnosticados com uma neoplasia. O facto de as pessoas estarem mais com os seus animais durante a pandemia e com um convívio mais estreito e alargado pode justificar este fenómeno”, explica Rita von Bonhorst, destacando o papel cada vez mais importante dos animais no seio familiar em consonância com a maior atenção e informação demonstrada por quem deles cuida.

E, à semelhança do que acontece em medicina humana, observa-se cada vez mais que os clientes procuram alternativas à medicina convencional e a abordagens que fujam à administração de químicos e alimentos processados aos seus cães e gatos. “Nesse sentido, temos desde sempre trabalhado com colegas com valência nas áreas de acupuntura, fitoterapia e alimentação natural. Sentimos que a procura tem aumentado e o feedback tem sido muito positivo”, sublinha a médica veterinária.

A evolução da medicina veterinária, salienta Sheila Teodoro, tem sido no sentido de oferecer serviços de excelência, inovadores e com recurso a tecnologia de vanguarda. “A telemedicina também terá um papel relevante, principalmente no seguimento de casos, ajudando, entre outras coisas, a manter a compliance dos tutores. Cada vez mais achamos que os CAMV’s necessitam de evoluir para uma profissionalização da gestão, começando a verificar-se algumas ofertas no mercado.” Uma das mudanças a que as sócias fundadoras deste hospital gostariam de assistir no futuro seria o desenvolvimento

do espírito de classe e entreajuda. “Uma melhor colaboração e apoio entre os colegas dos vários CAMV’s é fundamental para crescermos e melhorarmos a medicina veterinária em Portugal”, destaca.

É com este espírito de colaboração que a equipa encontra motivação para desempenhar uma atividade centrada naquilo que é melhor para os pacientes. “Este projeto só é possível graças a uma equipa que tem muito amor e respeito pela vida e com um grande espírito de companheirismo. É urgente ultrapassarmos divergências e unirmo-nos enquanto classe, em prol da saúde, bem-estar e direitos do animal”, salienta Joana Crisóstomo.

“Temos neste momento vários colegas que nos referenciam casos clínicos, fruto da confiança que sentem no Hospital Veterinário Arco do Cego” – Joana Crisóstomo, sócia fundadora e médica veterinária

Os investimentos neste hospital têm sido permanentes ao longo dos anos para cumprir o objetivo de “manter um serviço de qualidade”, refere Marina Coelho. “No final do ano passado fizemos obras de melhoramento na área de consultas aumentando o número de consultórios, situação que se impunha dada a nossa evolução e crescimento”, adianta. Está previsto iniciar em breve a remodelação das áreas de receção e das salas de espera. “Estes espaços vão surgir com um visual mais acolhedor e confortável.” Para o final deste ano está prevista a intervenção da restante área hospitalar. “Temos como objetivo principal ampliar a área de cirurgia e de internamentos. O projeto de arquitetura já está aprovado, mas terá de ser executado por fases para que o funcionamento do hospital não seja prejudicado”, esclarece a também sócia fundadora.

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 151 da revista VETERINÁRIA ATUAL [4], de julho-agosto de 2021.