Veterinários Portugueses pelo Mundo

“Há muitas oportunidades na indústria para Epidemiologistas em big data, data science e real world evidence”

Ana Carolina Antunes: a veterinária apaixonada por big data e data science

Ana Carolina Antunes, médica veterinária a fazer a residência no Colégio Europeu de Saúde Pública Veterinária (ECVPH – European College of Veterinary Public Health). Vencedora em 2018 do prémio para melhor doutoramento na área de suínos da Farmacêutica MSD/Merck Animal Health.

Qual a sua área de especialidade e porque escolheu essa área?

Trabalho na área da Epidemiologia, mais concretamente com sistemas de monitorização e vigilância de doenças. À semelhanca da grande maioria dos alunos que ingressam no curso de Medicina Veterinária na Faculdade de Medicine Veterinária – Universidade de Lisboa, também tinha o objetivo de fazer da clínica de pequenos animais. Quando entrei para a faculdade comecei a fazer estágios nesta área aos fins-de-semana e durante as férias. Ao fim de dois anos apercebi-me que não tinha o perfil para trabalhar na área. No terceiro ano procurei oportunidades junto dos professores de Epidemiologia com o objetivo de aprender mais sobre a área e acabei por gostar.

É uma área vasta e multidisciplinar, o que me permite estar sempre a aprender. Sempre gostei de investigação e de perceber como as doenças infecciosas se espalham, identificar fatores de risco e avaliar o seu impacto nas populações. E isto só é possível através da análise de dados. É uma área desafiante onde tenho de usar o meu conhecimento clínico, de doenças infecciosas, de virologia/ microbiologia/ parasitologia, de saúde pública e de produção animal que adquiri durante o curso. Além disso tive de aprender estatística, modelação de dados, álgebra e programação, áreas que atualmente são uma mais valia no mercado de trabalho.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar no estrangeiro? Onde trabalha neste momento e qual a sua função?

Surgiu na sequência da candidatura ao doutoramento em Epidemiologia, na Dinamarca, um mês após ter acabado a faculdade. Vi o anúncio online no mesmo dia em que apresentei a minha tese, concorri e fui selecionada. Tenho a certeza de que a minha experiência prévia em estágios no estrangeiro (Cabo Verde e Bélgica) abriu-me esta porta, pois deu-me experiência internacional e ajudou-me a iniciar uma rede de contactos essenciais para trabalhar na investigação. Neste momento estou a trabalhar como Postdoc no Instituto Nacional de Veterinária da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU Veterinærinstituttet).

O que a fez tomar a decisão de sair de Portugal?

Procurei emprego na área da Epidemiologia e agarrei a primeira oportunidade que apareceu depois de acabar o curso. Depois de fazer o estágio fora de Portugal não vi limitação alguma em trabalhar no estrangeiro e sabia que a Dinamarca é um país de excelência para se fazer um doutoramento.

Quais as diferenças que encontra entre os métodos de trabalho nos dois países? Ou seja, como é um dia de trabalho normal?

O ambiente no meu local de trabalho é bastante agradável, por exemplo às sextas-feiras tomamos o pequeno-almoço juntos no departamento e é muito raro o dia em que não haja um bolo a comemorar a publicação de um artigo, um aniversário ou o nascimento de um bebé. O ambiente é bastante informal e, apesar de existir uma hierarquia, todos nos tratamos pelo primeiro nome e não por títulos.

Na Dinamarca trabalha-se para viver e não se vive para trabalhar. Há um bom equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, uma grande flexibilidade e as pessoas são bastante eficientes no trabalho. O meu contrato refere que, em média, tenho de trabalhar 7,4h/dia. Tenho um horário de trabalho flexível, sem horário de entrada ou saída, e geralmente tenho 30 minutos para almoçar.

O meu dia inclui tarefas como coordenar projectos, fazer análise de dados (por exemplo resultados de testes laboratoriais, demográficos, sanitários, de mortalidade, de consumo de antibióticos) usando softwares de programação, escrever sumários e artigos científicos, fazer apresentações e preparar reuniões com os vários colaboradores dos projetos, que incluem o ministério da agricultura dinamarquês, a indústria e colaboradores de vários países. A língua de trabalho é o inglês. Como viajo regularmente para cursos e congressos, por vezes trabalho em hotéis, aeroportos e aviões e tenho dias em que trabalho 12h/dia. Felizmente também tenho a possibilidade de ficar algumas semanas a trabalhar em Portugal para matar saudades.

Como é viver fora de Portugal? Conseguiu adaptar-se bem?

Os primeiros três meses foram difíceis porque comecei o doutoramento no Inverno, quando os dias são bastante curtos. Além disso vim sozinha, não conhecia ninguém e, apesar dos meus colegas dinamarqueses serem simpáticos e divertidos, era impossível socializar depois do trabalho. Os dinamarqueses têm uma cultura bastante fechada, mas passado algum tempo comecei a conhecê-los melhor, a socializar e a conhecer mais pessoas que, como eu, tinham vindo fazer doutoramentos. Como tudo na vida, ao fim de algum tempo o nosso cérebro adapta-se às mudanças, começamos a criar as nossas rotinas e fica tudo mais fácil.

Quais os seus planos para o futuro?

Ao fim de cinco anos a trabalhar na academia e com animais de produção preciso de um novo desafio profissional onde possar usar os meus conhecimentos clínicos e de análise de dados, adquirir outras competências e que me abra portas a novas oportunidades a médio e longo prazo. Hoje em dia há muitas oportunidades na indústria para Epidemiologistas em big data, data science e real world evidence e gostaria de experimentar estas áreas na vertente de medicina humana.

Equaciona voltar a Portugal?

A curto prazo sei que será mais fácil encontrar oportunidades no estrangeiro porque o mercado de trabalho português ainda não é tão dinâmico com no norte da Europa. Além disso, o número de empresas com investigação e desenvolvimento em Portugal é bastante reduzido quando comparado a países como a Suíça ou Holanda. Gostaria de continuar a desenvolver a minha carreira a médio e a longo prazo em Portugal e isto inclui trabalhar remotamente a partir de Portugal se for necessário – as tecnologias servem para isso.

Se sim qual o trabalho/projeto gostaria de desenvolver?

Espero continuar a trabalhar na área da Epidemiologia e num ambiente multicultural. As diferenças levam as pessoas a abrirem-se a novos conceitos e formas de pensar. Se ficarmos presos e estagnados na nossa cultura e aprendizagem não evoluímos. Porém não fecho portas a outras áreas pois tudo depende do mercado de trabalho que exista na altura.

Que conselhos dá aos recém-licenciados com dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

Tudo depende das expectativas e ambições pessoais. Se não tiverem mobilidade geográfica, se não apostarem na formacão e trabalharem em áreas em que o mercado de trabalho esteja saturado talvez seja muito difícil encontrarem condições de trabalho que não sejam precárias, o que eventualmente irá contribuir para a desvalorização profissional e pessoal. Os que querem sair da zona de conforto terão maior facilidade em ingressar no mercado de trabalho, que está no mundo inteiro.

Mas é importante frisar que as oportunidades não caem do céu, constroem-se. Aconselho a usar a rede de contactos para falarem com pessoas que trabalhem nas suas áreas e/ou nos países de interesse. É importante informarem-se do mercado de trabalho na área, na cidade e no país de interesse e quais os requisitos para poderem trabalhar. O Linkedin e a internet são úteis para procurar oportunidades como estágios, bolsas ou programas de pós-graduação para aprenderem e experimentarem outras áreas. Mais importante do que saber o que queremos é sabermos o que não queremos e isso só se descobre experimentando.

Qual o seu sonho?

Continuar a alcançar os meus objectivos pessoais e profissionais.