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Médicos Veterinários

Estudantes preferem clínica de animais de companhia, mas faltam profissionais noutras áreas

Universidade de Évora

Com os estudantes de medicina veterinária cada vez mais afastados do mundo rural, a formação em medicina veterinária é hoje predominantemente clínica e cada vez mais próxima da medicina humana. O elevado número de faculdades de medicina veterinária, o boom da formação pós-graduada e a tendência para a especialização exigem maior competitividade aos recém-formados que queiram entrar num mercado no qual, aparentemente, há excesso de profissionais. Mas o problema para a falta de empregabilidade dos jovens veterinários nacionais parece ser outro: a dificuldade em atrair os estudantes para áreas em que a escassez de profissionais começa a fazer-se sentir.

Se, nos seus primórdios, o ensino da Medicina Veterinária estava intimamente ligado às ciências agrárias, hoje, as vertentes além da clínica, como a produção animal, a saúde pública, a investigação ou a inspeção e segurança alimentar esforçam-se para atrair ‘sangue novo’.

Segundo dados da Federação de Veterinários da Europa (FVE), Portugal é um dos países europeus com maior número de médicos veterinários por mil habitantes (cerca de 0,45*) e um dos que tem mais faculdades de Medicina Veterinária. Mas, apesar de muitos apontarem o numerus clausus e o excesso de faculdades no País como a razão pela qual Portugal é um dos países da Europa com uma das taxas de desemprego de médicos veterinários mais elevadas, o problema parece não ser assim tão linear.

Nesta edição, fomos falar com as faculdades de Medicina Veterinária do País e traçamos um retrato de um ensino que está a mudar, cada vez mais próximo da medicina humana e que atrai um novo perfil de estudante.

A medicina veterinária na Europa

  • 309 144 médicos veterinários em toda a Europa
  • 46% dos médicos veterinários europeus têm menos de 40 anos
  • 58% dos médicos veterinários na Europa são mulheres
  • 58% dos médicos veterinários europeus dedicam-se à prática clínica de animais de companhia
  • 14% dedicam-se à saúde pública
  • 11% trabalham na educação e na investigação
  • 4% trabalham na indústria
  • 12% exercem atividade noutras áreas

*dados do VetSurvey 2018 da FVE

A demografia da profissão em Portugal

  • 6622 médicos veterinários registados na OMV em Portugal
  • 4071 (61%) são mulheres
  • 2551 (39%) são homens

*dados da Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) em fevereiro de 2020

O que está a mudar no ensino da Medicina Veterinária
O número de escolas e de estudantes de Medicina Veterinária é hoje maior que nunca, as instalações são mais modernas, com novos equipamentos que vão ao encontro da evolução técnica e científica, e a formação é mais especializada e profissionalizante. A visão é da direção do mestrado integrado em Medicina Veterinária do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (ICBAS – UP), representada por Paula Proença e Augusto Ferreira de Matos, respetivamente diretora e diretor-adjunto do MIMV do ICBAS – UP.

De acordo com a direção do MIMV do ICBAS – UP, o que mais mudou nos últimos anos no ensino de veterinária foi “a perceção e a expectativa dos estudantes sobre a atividade veterinária e, consequentemente, sobre a estrutura curricular necessária à sua formação. Maioritariamente oriundos do meio urbano, com poucas ou nenhumas ligações ao mundo rural, e uma perceção da profissão veterinária limitada às atividades de caráter clínico, conhecem muito superficialmente o ‘animal utilitário’ que, na sua essência, representou sempre o principal objeto de trabalho da profissão.”

Uma opinião semelhante à de Celso Alexandre de Sá Santos, diretor do curso de mestrado integrado em Medicina Veterinária da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douto (UTAD), que defende que a educação em medicina veterinária em Portugal tem “acompanhado todas as mudanças a nível internacional e incorporado no seu ensino muita da investigação que tem sido realizada”.

“Em geral, tem-se adotado um ensino mais centrado no aluno, proporcionando uma boa base formativa para o médico veterinário do futuro, com um elevado hands-on training e integração de estudantes em atividades de investigação”, garante Celso Santos.  “A introdução de unidades curriculares de estágio ao longo do curso, com uma vertente prática em ambiente real de trabalho, tem permitido que os alunos contactem com a realidade e planeiem o seu futuro em áreas anteriormente pouco conhecidas, nomeadamente na clínica de animais exóticos e selvagens.”

Para o diretor do MIMV da UTAD, este objetivo tem sido concretizado com a redução do número de estudantes por docente nas aulas práticas, o que permite ao estudante participar mais ativamente no processo ensino-aprendizagem. “Estabeleceram-se diretrizes mais precisas para medir competências e resultados de aprendizagem. [Além disso] as questões relacionadas com a biossegurança e a implementação de medidas rigorosas de proteção individual e coletiva e de controlo da infeção foram, sem dúvida, uma grande mudança nos últimos anos”, acrescenta.

Para Rita Payan Carreira, diretora do mestrado integrado em Medicina Veterinária da Universidade de Évora (UE), a grande mudança está, sobretudo, no facto de os estudantes terem cada vez mais a oportunidade de colocar ‘a mão na massa’.

A educação em medicina veterinária tem vindo a evoluir no mesmo sentido que a educação europeia, apesar de se encontrar mais limitada pela realidade económica do País e, por isso, os passos são mais curtos e o progresso um pouco mais lento. Um fator importante na forma como a educação médica na área de veterinária evoluiu, e que deverá ser uma das maiores apostas pelas instituições que ministram esta formação, é a aposta na formação para as competências profissionais — e aqui falamos de competências não técnicas e além das cognitivas — em grupos de pequenas dimensões”, explica a responsável pelo MIMV da Universidade de Évora.

Rita Payan Carreira destaca ainda o facto de termos hoje “um ensino mais aplicado, com recursos didáticos que favorecem o treino em modelos e simuladores como forma de evitar a manipulação animal por estudantes menos preparados, e mais próximo da realidade profissional”. Para a diretora do mestrado eborense, de um ensino mais formal e mais sedimentado na memorização, tem-se gradualmente procurado evoluir para um ensino mais virado para o desenvolvimento de competências e a autonomia no momento da entrada no mercado de trabalho. “Mas para isso há que continuar a lutar por regimes de avaliação descentrados na avaliação do conhecimento teórico e incluir também na avaliação a execução técnica e a proficiência processual.”

“De um ensino mais formal, mais sedimentado na memorização, tem-se gradualmente procurado evoluir para um ensino mais virado para o desenvolvimento de competências e a autonomia no momento da entrada no mercado de trabalho” – Rita Payan Carreira, UÉvora

Pedro Carvalho, reitor da Escola Universitária Vasco da Gama (EUVG), em Coimbra, responsável por um dos cursos de mestrado integrado em Medicina Veterinária disponíveis no País, acredita que a constante atualização e adaptação do mercado se tem refletido também na formação de Medicina Veterinária. Contudo, assume que “o currículo dos mestrados integrados em Medicina Veterinária se tem mantido sem grandes alterações nos últimos anos”. E sublinha: “Urge uma maior integração com as tecnologias atuais e inclusão de diferentes áreas com vista a uma maior modernização do ensino da veterinária. Os modelos animais e simuladores que suprimem a necessidade de utilização de animais são um bom exemplo.”

Rui Caldeira, presidente da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa (FMV-UL), a mais antiga do País, é também da opinião de que uma das coisas que mais mudou é “a perceção de que a utilização de animais vivos no ensino deve ser restringida a um mínimo essencial, excluindo naturalmente os animais dos clientes dos hospitais escolares”.

De acordo com o médico veterinário e docente, “há cada vez mais a preocupação de não submeter os animais a procedimentos invasivos, daí terem surgido os modelos para simulação e treino prévio, dispensando muitos procedimentos nos animais. Os estudantes fazem a sua primeira abordagem nesses modelos, passando depois para procedimentos em animais, já na sua maior parte clientes. Este equilíbrio é difícil, tem sido motivo de muita discussão nas escolas de Medicina Veterinária em todo o mundo, mas todas estão a evoluir nesse sentido.”

O presidente da FMV-UL diz, contudo, que o ensino tem hoje maior qualidade, considerando as novas áreas clínicas que vão surgindo e contando com equipamentos de cirurgia e de imagiologia mais avançados.

Um novo perfil de estudante
Mas apesar de, no global, a evolução ser positiva, com uma medicina veterinária cada vez mais próxima da medicina humana e com os estudantes a saírem dos bancos de faculdade “cada vez mais bem preparados” para “um mundo cada vez mais complexo e desafiante, mas também cada vez mais aliciante e estimulante”, a veterinária mudou e atrai hoje um novo perfil de estudante, predominantemente urbano e com interesse, sobretudo, na clínica de animais de companhia.

Segundo Rui Caldeira, “nos últimos anos, a educação tem ido mais no sentido da área clínica de animais de companhia e de equinos, em prejuízo das outras áreas que são também fundamentais para a sociedade que pretendemos servir como a sanidade e a clínica das espécies pecuárias, a saúde pública veterinária, a inspeção sanitária, a tecnologia alimentar e a produção animal”.

“Julgo que esta transferência das preferências dos estudantes que nos procuram tem que ver com a imagem preponderante que os médicos veterinários têm na sociedade, até em novelas, em que se passa a ideia que um médico veterinário é um médico de animais de companhia e as outras competências não são referidas. Há estudantes que chegam à faculdade entendendo que a medicina veterinária é exclusivamente isso, mas essa imagem não é positiva, até pelas distorções que provoca no mercado de trabalho.”

Segundo o presidente da universidade lisboeta, os docentes tentam alertar frequentemente os alunos para as diversas saídas profissionais, mas “a maioria dos estudantes procura a via da clínica de pequenos animais, e de há uns anos para cá também os equinos, embora este seja um mercado muito restrito pelo baixo número destes animais”, explica.

A razão? Um novo perfil de estudante, com menos conhecimento da abrangência da formação em Medicina Veterinária. “Antes tínhamos muitos estudantes oriundos do meio rural, com uma visão mais abrangente da medicina veterinária e com conhecimentos sobre as várias funções do médico veterinário, e hoje em dia temos um estudante maioritariamente feminino e de origem urbana, muito mais sensível a essa tal imagem do médico veterinário de pequenos animais e que não conhece essas outras componentes da medicina veterinária que são muito importantes.”

Esta realidade é relatada também pelas restantes faculdades de Medicina Veterinária ouvidas pela VETERINÁRIA ATUAL. “Nos últimos anos, temos redobrado esforços no sentido de mostrar diferentes caminhos interessantes que o médico veterinário pode seguir, sendo, por exemplo, a investigação um dos que mais temos procurado mostrar […]. Normalmente [os alunos] vêm com uma ideia muito bem definida do que querem fazer quando terminarem o curso e dificilmente são demovidos”, refere Pedro Carvalho, reitor da Escola Universitária Vasco da Gama (EUVG), em Coimbra.

“Urge uma maior integração com as tecnologias atuais e inclusão de diferentes áreas com vista a uma maior modernização do ensino da Veterinária. Os modelos animais e simuladores que suprimem a necessidade de utilização de animais são um bom exemplo” – Pedro Carvalho, EUVG

De acordo com o reitor, para atrair os estudantes para outras áreas da medicina veterinária, há que liderar pelo exemplo. “É preciso que os casos bem-sucedidos de veterinários a trabalhar em diferentes setores sejam divulgados e valorizados pela classe e pelas instituições de ensino. Temos colegas de nível internacional e com provas dadas em diferentes sectores de atividade.”

A direção do MIMV do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (ICBAS – UP) também relata a existência de um perfil de estudante cada vez mais interessado nos animais de companhia.

“Para quem vive numa cidade, esta é a população animal conhecida e, como tal, será presumivelmente ela o centro da atividade do médico veterinário. Perceber que também nos compete proteger e prestar cuidados de saúde a outras populações animais é encarado pelos estudantes com naturalidade. O problema é que, nas espécies pecuárias, o ‘animal’ é substituído pelo ‘efetivo’, a relação afetiva dá lugar à dimensão económica e a abordagem curativa é substituída pelos planos de prevenção. Se a tudo isto somarmos a ideia de que estes animais apenas são detidos para efeitos produtivos e que o seu destino final será o abate, torna-se difícil motivar os estudantes a interessarem-se por estes domínios, mesmo quando a escola se empenha em demonstrar a importância socioeconómica vital destes animais. A mentalidade de cada época não é passível de ser contrariada. Deve, isso sim, ser estudada e compreendida. No ICBAS fazemos esse esforço diariamente com o propósito de enriquecer a perspetiva dos nossos estudantes e melhor os prepararmos para as dinâmicas e desafios futuros”, acrescenta.

Rita Payan Carreira também assume que no momento de entrada no curso “a maior parte dos estudantes não conhece todas as saídas profissionais”.

“Creio que muitos fazem uma escolha pouco consciente do curso, sendo muito influenciados por fatores sentimentais — o gosto pelos animais e o querer fazer tudo para o bem dos animais, em detrimento de uma consciencialização do que é o ambiente e a realidade profissional ou do conhecimento do que exige em termos de envolvimento pessoal e de disponibilidade de tempo e investimento constante em formação”, explica.

“Um dos maiores problemas que potencialmente enfrentamos é o facto de a maior parte dos candidatos que entram nos cursos de Medicina Veterinária serem provenientes de ambientes urbanos, alguns sendo adeptos de regimes alimentares à base de vegetais. A realidade destes estudantes é os animais de companhia e os animais exóticos ou de zoo. Com a desertificação das áreas rurais, poucos estudantes têm contacto e gostam de animais de produção. Será difícil alterar esta realidade. Acresce o facto de existir uma por vezes exagerada humanização dos animais que ‘agride’ a sensibilidade dos alunos para a necessidade de manter animais com objetivos de produção. Como ultrapassar esta situação? Não tenho resposta… Já a sensibilização dos estudantes para o papel do veterinário em equipas de investigação poderá ser trabalhada, tornando explícita a função dos veterinários nestas equipas, quer como investigadores, quer como garantes do seu bem-estar e protetor da sua qualidade de vida”, acrescenta a diretora do mestrado integrado em Medicina Veterinária da Universidade de Évora.

Celso Alexandre de Sá Santos, diretor do mestrado da UTAD, conta que naquela universidade os estudantes têm contacto com todas as saídas profissionais do curso, desde as tradicionais áreas dos animais de produção, equinos e animais de companhia, aos exóticos e selvagens, graças ao Centro de Recuperação de Animais Selvagens da UTAD. Contudo, acredita que “as alterações da sociedade, com um decréscimo e abandono do mundo rural, com a perda da vivência com os animais de produção, mesmo que em regime familiar, com a diminuição dos agregados familiares e a posse, por parte destes, de animais de companhia” tem levado os estudantes a optaram pela via da clínica de animais de companhia.

 “O problema é que nas espécies pecuárias, o ‘animal’ é substituído pelo ‘efetivo’, a relação afetiva dá lugar à dimensão económica e a abordagem curativa é substituída pelos planos de prevenção. Se a tudo isto somarmos a ideia de que estes animais apenas são detidos para efeitos produtivos e que o seu destino final será o abate, torna-se difícil motivar os estudantes a interessarem-se por estes domínios” – direção do MIMV, ICBAS – UP

“Atrair jovens para a área dos animais de produção teria de passar por alterações mais profundas em termos da nossa sociedade, com a valorização real e efetiva do mundo rural, pois medidas avulsas e mudanças constantes ao ritmo de ciclos políticos não contribuem para a sustentabilidade e rentabilidade da produção animal, como é o caso do setor leiteiro. A investigação em Portugal está praticamente limitada às instituições de ensino, com todos os constrangimentos por demais conhecidos, tornando-se assim difícil atrair médicos veterinários exclusivamente para a investigação”, acrescenta.

Já Rui Caldeira, da FMV-UL, acredita que expor os estudantes a outras realidades fora do meio urbano pode ser uma boa forma de atrair profissionais para áreas que nos últimos anos têm sido preteridas pelos estudantes de Medicina Veterinária.

“As visitas a explorações no Interior, mais ligadas à sustentabilidade, poderão ser mais convincentes do que aulas numa sala, mas, infelizmente, os horários dos estudantes estão cada vez mais cheios e não deixam muita margem para visitas muito distantes. Procuramos fazer muitas visitas ao longo do curso, mas aqui na região de Lisboa, porque os horários não permitem ir para muito longe”, admite.

Para o presidente da FMV-UL, exibir essas realidades e mostrar a sua importância para o desenvolvimento e sustentabilidade das regiões dentro de uma prática agropecuária sustentável é fundamental. “Alguns já têm essa perceção e fazem estágios nas espécies silváticas e até nas espécies selvagens, áreas que antes eram marginais e que hoje já não o são. Essa sensibilidade existe cada vez mais, mas a ela também se juntam ideias como ser contra a produção animal, por exemplo, e isso, de algum modo, em termos da profissão, complica a abordagem. Temos de aceitar essas opções todas e enquadrá-los o melhor possível para lhes dar a consciência de que a sociedade espera muito deles. O Estado, provavelmente, ao financiar um curso de Medicina Veterinária, está mais à espera que eles tratem desses outros componentes do que façam clínica de pequenos animais… É certo que a sociedade hoje em dia vê com muita importância os animais de companhia, até em termos da relação que têm com as pessoas, nomeadamente com pessoas isoladas, como frequentemente os idosos, mas a inspeção sanitária e a segurança alimentar são fundamentais na sociedade e dependem dos veterinários”, defende Rui Caldeira.

“A investigação em Portugal está praticamente limitada às instituições de ensino, com todos os constrangimentos por demais conhecidos, tornando-se assim difícil atrair médicos veterinários exclusivamente para a investigação” – Celso Alexandre de Sá Santos, UTAD

A culpa é do numerus clausus?
A somar-se à preferência dos estudantes pela clínica de animais de companhia, há ainda o elevado número de cursos de Medicina Veterinária no País e o respetivo numerus clausus, que nos últimos anos tem sido apontado como o culpado pelo aparente excesso de profissionais do setor. As faculdades nacionais dizem, no entanto, que há que ver além dos números.

Rui Caldeira afirma que a ideia de que existem demasiados profissionais em Portugal “é discutível”, contudo, não nega que haja demasiados cursos de Medicina Veterinária no País. “Mais do que o numerus clausus, parece-me excessivo o número de cursos de Medicina Veterinária em Portugal. Temos seis cursos e, segundo as informações que tenho, foi aprovado um sétimo curso pela A3ES [Agência de Validação e Acreditação do Ensino Superior]. Considerando que a formação em Medicina Veterinária é a mais cara de todas, mais cara até que a medicina humana, porque temos de criar os nossos próprios hospitais escolares, considerando os escassos recursos do País, e que num país equivalente a Portugal na União Europeia há um ou dois cursos de Medicina Veterinária, parece-me evidente que algo de errado se passa em Portugal, em Espanha, Itália, etc.”, explica.

“Quanto ao eventual excesso de profissionais, também é discutível, acho que há sobretudo uma má distribuição. Atualmente, de acordo com a página do acesso ao Ensino Superior, em 2019 havia 2,1% de formados pela FMV-UL inscritos no IEFP [Instituto do Emprego e Formação Profissional], enquanto na totalidade do ensino público em Medicina Veterinária o valor era de 3,7%. Isto são valores baixos. Continuo a não saber se há profissionais a mais ou a menos. Gostaria muito que em Portugal, tal como acontece noutros países, se fizessem estudos para perspetivar as necessidades de médicos veterinários a médio prazo e se financiasse melhor esse número de estudantes que se perspetiva que são necessários. Estar a deixar abrir cursos uns atrás dos outros, de formações que sabemos que são muito caras, não me parece uma boa medida. O Estado devia apostar numa formação de muito boa qualidade, mas aproveitando os recursos que estão instalados e restrita ao número de profissionais que se perspetiva que virão a ser necessários”, acrescenta ainda Rui Caldeira.

Pedro Carvalho também defende que devia ser estabelecido um numerus clausus nacional para as diferentes formações e profissões que refletisse as necessidades da população e dos profissionais. Porém, garante que há mais fatores a contribuírem para a perceção de que existem demasiados médicos veterinários para as necessidades do País.

“Há cada vez menos profissionais noutras áreas igualmente importantes da medicina veterinária, mas cada vez menos flexibilidade e capacidade de adaptação dos recém-licenciados, que não querem nem admitem poder trabalhar noutra área ou local que não seja aquele que haviam pensado para si desde o início, acabando por criar clínicas e hospitais uns em cima dos outros, e uma competição que prejudica toda a classe. Por outro lado, continuam a existir áreas vitais da nossa sociedade em que o médico veterinário podia, e devia, integrar equipas multidisciplinares e ter um papel mais relevante, como por exemplo, na Proteção Civil e Ordenamento de Território, como aliás se viu no rescaldo dos grandes incêndios de Pedrogão e região Centro”, afirma.

“Quanto ao eventual excesso de profissionais, também é discutível, acho que há sobretudo uma má distribuição. Atualmente, de acordo com a página do acesso ao Ensino Superior, em 2019 havia 2,1% de formados pela FMV-UL inscritos no IEFP, enquanto na totalidade do ensino público em Medicina Veterinária o valor era de 3,7%. Isto são valores baixos” – Rui Caldeira, FMV-UL

Rita Payan Carreira não tem dúvidas de que “para um País com as dimensões do nosso, existe um número exagerado de instituições do Ensino Superior a oferecer a formação em Medicina Veterinária”. Contudo, reconhece que há setores e regiões do País onde faltam profissionais, “o que sugere que o problema do excesso de veterinários decorre de um desequilíbrio entre as expectativas dos estudantes para a sua vida profissional, área profissional e local de trabalho”.

Paula Proença e Augusto Ferreira de Matos, que compõem a direção do mestrado do ICBAS – UP, acreditam, por seu lado, que a concorrência na profissão pode trazer vantagens.

“Antes do numerus clausus, foi o número de cursos que foi acusado de ser a fonte desse ‘mal’ [o excesso de profissionais no setor]. Depois nasceu o conceito de que, mais do que o número de cursos, era o número de profissionais lançados no mercado que talvez fosse a raiz do mesmo. Entendemos que culpar ou preconizar intervenções generalistas neste campo é uma luta quixotesca que terá pouco resultado. Na realidade, vivemos numa sociedade concorrencial e liberalizada em que a procura é lei e qualquer tentativa de controlo da realidade de mercado por parte de uma organização ou de um País, se não acompanhado por um regime fechado e ditatorial, está condenada ao fracasso. Temos de nos consciencializar que enquanto houver procura — entenda-se, pessoas que pretendem formação médico-veterinária —, haverá quem se dedique a dar resposta — entenda-se, criar formações. Se o Estado decidir reduzir o numerus clausus, a consequência será a proliferação de formações privadas a preços bastante superiores”, defende.

“É verdade que a profissão cresceu muito e é maioritariamente constituída por gente jovem, dificultando a procura de um posto de trabalho e até, nalguns casos, piorando as condições de trabalho, mas se pensarmos no quanto evoluiu a qualidade dos serviços prestados ao público pelos profissionais médicos veterinários, teremos uma noção melhor das vantagens, e não só dos prejuízos, da concorrência”, conclui a direção do MIMV do ICBAS – UP.

Excesso de profissionais combate-se com especialização
A concorrência de que fala a direção do mestrado do ICBAS tem ainda um outro efeito no setor: a tendência para a especialização e um consequente aumento na oferta de formação pós-graduada. E no que diz respeito à formação, os responsáveis pelos cursos de Medicina Veterinária do País são perentórios: a procura de novas competências deve acompanhar os estudantes ao longo de todo o seu percurso profissional.

O reitor da EUVG afirma que existe, de facto, uma crescente procura pela especialização em determinadas áreas. “Cada vez mais o médico veterinário adquire essa formação e exerce nessa área específica, deixando de fazer um pouco de tudo como até aqui para se dedicar apenas à sua área de interesse. Também durante a formação académica vai havendo maior oferta formativa pelas instituições e uma maior procura desta formação pelos alunos que ambicionam exercer em determinada área […]. As mudanças sociais, com especial impacto na forma como olhamos e tratamos os animais de estimação, e o próprio mercado de trabalho veterinário, têm proporcionado que os profissionais possam dedicar-se em exclusivo a determinadas especialidades, à semelhança do que acontece há muitos anos na medicina humana. As pessoas esperam o mesmo grau de atenção e qualidade no atendimento e acompanhamento clínico dos seus animais e os veterinários têm sabido responder da melhor forma.”

A direção do MIMV do ICBAS – UP acrescenta que sempre defendeu “que a formação de base alargada é um pilar fundamental para sustentar formações de maior especialidade pós-graduadas”. Para Paula Proença e Augusto Ferreira de Matos, o crescimento da oferta formativa pós-graduada é “natural, saudável e bem-vindo”.

“Em primeiro lugar, essa oferta é indispensável para o acompanhamento da evolução dos conhecimentos científicos e técnicos. Por outro lado, tal como sucede com várias profissões, a formação de base pode não ser suficiente para uma atividade performativa a alto nível ou para o exercício de funções muito específicas e, como tal, é indispensável enriquecê-la com formação complementar. Assim, a qualidade e diversidade da formação pós-graduada serão determinantes para o prestígio do nosso trabalho, bem como para o alargamento do campo de trabalho dos médicos veterinários, possibilitando a sua melhor dispersão por todo o amplo território zoológico.”

Já Rita Payan Carreira acredita que a especialização é necessária e defende que a formação pós-graduada pode ajudar os médicos veterinários a crescer profissionalmente.

“Eu, pessoalmente, vejo a formação pós-graduada como uma forma de atingir um crescimento e desenvolvimento maior, focado numa área da profissão e que é do meu interesse particular. E este pressuposto está intimamente ligado à especialização da profissão, que é necessária, para mim, não à saída da universidade, mas ao longo do meu percurso profissional. A constante evolução do conhecimento e das tecnologias permite-me ir ao encontro dos anseios dos utilizadores dos meus serviços e permitir-me-á ainda distinguir-me ou sobressair do geral”, sublinha a diretora do mestrado de Évora.

Para Rui Caldeira, “é cada vez mais evidente que a especialização tem de ser feita depois da formação de base e isso vem também da medicina humana”, sobretudo, “face à imensidão atual do conhecimento e à velocidade a que ele cresce”.

“É um facto que há cada vez mais necessidade de especialização. Os estudantes sentem isso e tanto é assim que, quando acabam, grande parte deles vai fazer outro percurso complementar que o leve a esse grau de especialização e que lhes traga um aporte salarial diferente”, garante o presidente da FMV-UL. “Naturalmente que, numa área tão vasta quanto a medicina veterinária, mesmo com cinco anos de formação, não é possível estar preparado para responder a qualquer desafio e não se tem o à-vontade que um profissional que está há dez anos no mercado tem. Isso não acontece em nenhuma profissão. Para se ser competitivo nesta profissão, é necessária uma ótima formação de base, formações complementares na área em que se pretende trabalhar e uma constante atualização de conhecimentos. Isto é muito incutido por nós e pela associação europeia: devemos durante a formação de base incutir aos estudantes o hábito da atualização e a noção de que no fim de cinco anos de formação têm de continuar a estudar. Ninguém consegue hoje ser competitivo no mercado no conjunto de todas as áreas da medicina veterinária. Há muitos veterinários e naturalmente que só os melhores têm compensações salariais à altura”, conclui.

*Desafios da evolução demográfica veterinária em Portugal, Emir M. Chaher e Paulo Alexandre Gomes Pereira

Nota da jornalista: A direção do curso de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, na pessoa de Laurentina Pedroso, foi contactada para este artigo e inicialmente aceitou o convite, mas até à data de fecho não foi possível obter resposta às questões enviadas pela VETERINÁRIA ATUAL

*Artigo publicado originalmente na edição de setembro de 2020 da VETERINÁRIA ATUAL.

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