Investigação

Especialista em coronavírus felino diz que veterinária está a ser “ignorada” no combate à covid-19

Especialista em coronavírus felino diz que veterinária está a ser “ignorada” no combate à covid-19

Um dos especialistas mundiais em coronavírus felino (FCoV), Niels Pedersen, da Universidade da Califórnia, EUA, considera que a investigação do coronavírus “está muito mais avançada na medicina veterinária do que na medicina humana” e acusou o setor da saúde humana de ignorar a ciência veterinária na luta contra a covid-19.

Em questão está um artigo que o professor emérito de medicina e epidemiologia publicou no ano passado sobre um análogo nucleósido do remdesivir, o GS-441524, que foi utilizado com sucesso em ensaios para tratar casos de peritonite infeciosa felina ou PIF, a doença causada pelo FCoV em gatos.

O remdesivir é um composto usado para combater o ébola, cuja utilização foi aprovada nos casos mais graves de covid-19 nos Estados Unidos da América. O Reino Unido encontra-se também a testar o tratamento em pacientes do novo coronavírus, à medida que vários países do mundo buscam uma vacina para combater a transmissão da covid-19 ou de tratamentos que possam ajudar à sobrevivência dos doentes.

Segundo Niels Pedersen, este medicamento semelhante ao remdesivir, o GS-441524, poderia ter grandes implicações nas investigações atuais para combater a covid-19, mas o professor considera que os estudos veterinários estão a ser ignorados. “A medicina veterinária, com toda a sua experiência com doenças por coronavírus em animais, está a ser ignorada neste momento”, refere o médico veterinário, citado pela Vet Times.

“O vírus da PIF e o SARS-CoV-2 estão intimamente relacionados entre si e tanto a PIF como o coronavírus entérico felino seriam modelos, tanto para o tratamento como para a vacinação”, acrescenta.

A PIF tem baixa incidência, mas a doença apresenta uma taxa de mortalidade muito elevada em gatos e a transmissão e o desenvolvimento da doença são imprevisíveis.

Sobre o trabalho feito com remdesivir, Pedersen explicou que os medicamentos que usou contra a PIF em gatos são semelhantes aos que estão a ser usados em humanos para combater a covid-19: “Gilead [o fabricante americano de remdesivir] aumentou a potência do GS-441524, adicionando um grupo de fosfatos, e depois protegeu esse grupo de fosfatos para permitir a absorção nas células, circundando-o por alguns grupos alquilo e arilo. Este monofosfato protegido de GS-441524 é o remdesivir.”

Tanto o remdesivir como o GS-441524 inibem a capacidade de replicação do vírus no corpo de um hospedeiro e o investigador defende que ambos deveriam estar a ser utilizados nos ensaios realizados em humanos.

“Verificámos que o GS-441524 é, como o remdesivir, igualmente inibidor do vírus — e como foi diretamente absorvido, não havia qualquer vantagem em utilizar o remdesivir”, explica o professor, acrescentando que, “além disso, havia a possibilidade de o remdesivir ser mais tóxico, mas o grande problema era que era muito mais dispendioso de produzir em relação ao GS-441524”.

“Se fosse eu, estaria a utilizar GS-441524 em ensaios em humanos, em paralelo com o remdesivir. A minha previsão é que o GS-441524 seria mais eficaz, menos tóxico, e muito mais barato”, conclui.