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Ensino: Uma viagem de três anos com destino à microbiologia veterinária

A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) vai receber este ano a primeira aluna para a obtenção do título de Especialista Europeia em Microbiologia Veterinária em Portugal, com a orientação da professora e investigadora Patrícia Poeta. O Laboratório de Microbiologia Médica da UTAD é, assim, o primeiro Training Centre aprovado pelo Colégio Europeu de Microbiologia Veterinária.

O primeiro Training Centre do Colégio Europeu de Microbiologia Veterinária foi validado para instalação no Laboratório desta especialidade da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Esta distinção − a primeira em Portugal, nas palavras da responsável pelo Laboratório Patrícia Poeta − foi autorizada pelo Ínterim Executive Committee do Colégio Europeu de Microbiologia Veterinária em 2018, entidade que tem como função a garantia e atualização da qualidade dos Especialistas Veterinários Europeus em Microbiologia Veterinária. “A partir daqui foi sempre a construir mais e melhor fazendo acreditar que seria possível ter um médico veterinário a candidatar-se à residência e a conseguir a sua aprovação”, começa por contar a docente.

 

O Laboratório de Microbiologia Médica da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro é composto por uma equipa multidisciplinar, empenhada no diagnóstico microbiológico de doenças infeciosas de origem animal. Esta equipa presta serviços de microbiologia laboratorial nas áreas de diagnóstico e disponibiliza informação sobre o prognóstico utilizando tecnologias adequadas. Fazem parte das competências deste serviço: “o diagnóstico microbiológico, bioquímico e molecular de infeções de origem bacteriana com realização de antibiogramas, identificação e diagnóstico de doenças de origem fúngica e viral; atividades de formação e ensino no domínio da microbiologia (estágios e doutoramentos); ainda análise bacteriológica de águas; e ainda a colaboração com o Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro que disponibiliza  diagnósticos atempados de doenças infeciosas de origem animal”, explica Patrícia Poeta.

São estas as ferramentas que permitirão ao aluno médico veterinário realizar a residência em microbiologia veterinária, com a colaboração do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (ICBAS-UP) e do Laboratório Clínico Veterinário CEDIVET. O programa decorrerá sob a direção e supervisão da professora Patrícia Poeta, que considera a sinergia entre a UTAD e as duas instituições acima referidas como uma mais-valia, na medida “que permitem obter um plano de trabalhos multifatorial, holístico e abrangente na área da microbiologia aplicada ao diagnóstico numa perspetiva One Health”. A residência contará ainda com o apoio de outros dois diplomados portugueses membros do ECVM, a professora doutora Ana Cláudia Coelho da UTAD e o professor doutor João Mesquita do ICBAS-UP.

 

Aprofundar “o mundo infinitamente pequeno da microbiologia”

 Vanessa Silva é a primeira candidata portuguesa cujo programa de residência alternativo foi aprovado pelo ECVM. A médica veterinária, mestre pelo ICBAS-UP tem, desde que terminou o curso, desenvolvido a sua atividade profissional na área do diagnóstico clínico em microbiologia veterinária.

 

“60% das doenças infeciosas nos humanos são de origem zoonótica e a cada ano, das cinco novas doenças que afetam o Homem, três são de origem animal”. A “colaboração contínua” da medicina humana e animal torna-se assim “essencial na prevenção de doenças de origem animal com elevada transmissibilidade para o ser humano”.

Patrícia Poeta [1]

Patrícia Poeta

O interesse pelas temáticas da One Health e da Saúde Pública integrada surgiu logo durante o curso, o que a levou e realizar um estágio curricular na Unidade de Saúde Pública da Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN), onde desenvolveu um projeto no âmbito das doenças zoonóticas de declaração obrigatória. Após a conclusão do estágio ingressou num laboratório de diagnóstico microbiológico na área da qualidade do leite e desde então tem vindo, cada vez mais, a direcionar a sua atividade para o diagnóstico clínico. Neste momento, integra a equipa do laboratório clínico veterinário CEDIVET, onde é responsável pela área de Microbiologia.

 

“A microbiologia acabou por ser uma descoberta”, atira Vanessa Silva. “Nenhum de nós ingressou no curso de Medicina Veterinária com particular interesse pelo trabalho de laboratório e, no fundo, creio que todos temos a visão do médico de animais de companhia ou de animais de produção e eu não sou exceção a esse sonho!” À medida que o curso se foi desenrolando, o fascínio da médica veterinária pelo “mundo invisível” dos microrganismos consolidou-se. “Os dois mundos [o nosso e o dos microrganismos] são indissociáveis e as ações que tomamos em qualquer um dos dois têm repercussões no outro.” A curiosidade foi crescendo e levou a médica veterinária a voluntariar-se para um estágio num laboratório de microbiologia. “Assim que comecei a trabalhar no laboratório apaixonei-me. Passados estes anos continuo a ter o privilégio de fazer diariamente o que mais gosto”, revela.

Todos os sinais indiciavam que Vanessa Silva seria uma potencial candidata à Residência em Microbiologia Veterinária. As condições estavam reunidas e o desafio partiu do seu chefe, o diretor médico do laboratório CEDIVET, Hugo Carvalho. “Partindo desta vontade conjunta, estabelecemos contacto com a professora Patrícia Poeta que aceitou o repto e que, desde o primeiro momento, tem sido incansável na forma como tem mentorado, no empenho e no auxílio que tem prestado à concretização deste projeto.”

A residência terá início este ano e a expectativa da médica veterinária passa por aprofundar conhecimentos sobre o “mundo infinitamente pequeno da microbiologia”. “Vejo o programa de residência como um caminho que me permitirá travar conhecimento mais profundo e aprender com mentores como a professora Patrícia Poeta e outros especialistas europeus, que espero ter a oportunidade de partilhar a bancada de trabalho com eles.” No futuro? A viagem é de três anos, mas o trajeto já está definido e o destino avista-se com a perspetiva de contribuir para ajudar os colegas na resolução efetiva dos seus casos clínicos. “Espero também que a residência me traga a oportunidade de explorar a minha curiosidade científica, mas neste momento estou focada no caminho. Quero apreciar a viagem destes três anos de residência”, sublinha.

Patrícia Poeta vai assumir o papel de coordenação da residência, com foco na orientação do “trabalho laboratorial, de revisão de artigos, apresentação de palestras, escrita de relatórios, adequação dos timings, entre outros”, detalha a docente. Neste trabalho vai contar com o apoio dos coorientadores: a Prof.ª Ana Cláudia Coelho da UTAD na parte da micologia e do Prof. João Mesquita do ICBAS na parte da virologia, assim como da CEDIVET. “Um trabalho desta envergadura só fará sentido e chegará a bom porto sendo encarado como trabalho em equipa, com várias valências, estratégias e com uma visão holística do tema”, revela.

“A residência vem reconhecer a excelência das instituições nacionais”

Por enquanto será apenas Vanessa Silva a frequentar a residência, mas num futuro próximo o objetivo passa por chegar a mais profissionais. Pelo menos, assim espera Patrícia Poeta. “Sabemos que obter uma avaliação positiva por parte do comité educacional do Colégio Europeu de Microbiologia Veterinária, não é tarefa fácil. Bastante exigente até. Contudo, é muito importante para a classe médico-veterinária e mesmo para o seu reconhecimento nacional e internacional a obtenção de títulos europeus do género”.

O programa alternativo de residência consiste num plano de trabalho estruturado ao longo de três anos em que o tempo será dividido entre o Training Centre da UTAD, sob coordenação e orientação da professora Patrícia Poeta e da professora Ana Cláudia Coelho, o laboratório do ICBAS-UP sob orientação do professor João Mesquita. Não esquecendo a rotina profissional da residente no CEDIVET. “Será desenvolvido um vasto conjunto de atividades, mas que se focam principalmente em aperfeiçoar e desenvolver as competências no diagnóstico microbiológico”, refere a residente. Após a conclusão do plano, o candidato é submetido a um exame final que será a última prova a prestar antes da admissão no Colégio Europeu de Microbiologia Veterinária (ECVM). Mas de que forma este título irá refletir-se na carreira profissional da residente? Para Vanessa Silva, o título representará o reconhecimento dos pares e marcará o fim de uma primeira etapa. No entanto, considera mais relevante o caminho trilhado para a sua obtenção mais importante, que inclui “a aprendizagem, os conhecimentos adquiridos no processo e os colegas com quem terei oportunidade de o partilhar.”

“À medida que o curso se foi desenrolando, o fascínio da médica veterinária pelo “mundo invisível” dos microrganismos consolidou-se. “Os dois mundos [o nosso e o dos microrganismos] são indissociáveis e as ações que tomamos em qualquer um dos dois têm repercussões no outro.”

Vanessa Campos da Silva [2]

Vanessa Campos da Silva 

A médica veterinária enaltece o significado da aprovação do primeiro programa alternativo de residência pelo Colégio Europeu de Microbiologia Veterinária (ECVM) em Portugal que, na sua opinião, “vem reconhecer a excelência das instituições nacionais quer na formação, quer no diagnóstico médico-veterinário e premiar o carácter pioneiro do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela professora Patrícia Poeta”. Do ponto de vista pessoal, denota o privilégio que sente em desenvolver a maior parte das atividades no decurso do programa de residência, assim como o reconhecimento que lhe foi concedido pelo seu percurso profissional.

O foco na estratégia One Health

O programa de residência alternativo terá uma forte componente na One Health, assente numa estratégia global de saúde pública, tal como tinha sido anunciado pela UTAD em meados do mês de novembro. Patrícia Poeta justifica a pertinência desta abordagem citando os números da OIE, que indicam que “60% das doenças infeciosas nos humanos são de origem zoonótica e a cada ano, das cinco novas doenças que afetam o Homem, três são de origem animal”. A “colaboração contínua” da medicina humana e animal torna-se assim “essencial na prevenção de doenças de origem animal com elevada transmissibilidade para o ser humano”.

Os conteúdos programáticos assentam, assim, nas componentes de:

– Bacteriologia (estrutura e morfologia, taxonomia; metabolismo e genética; virulência e patogenicidade; isolamento e identificação; agentes antibacterianos);

– Micologia (estrutura e morfologia, taxonomia; metabolismo e genética; virulência e patogenicidade; isolamento e identificação; agentes antifúngicos);

– Virologia (estrutura e morfologia; taxonomia; replicação; patogénese; imunidade antiviral e profilaxia);

– Imunologia veterinária (defesas do corpo, respostas imunes mediadas por anticorpos e mediadas por células);

– Interação hospedeiro / patógeno (expressão génica, reconhecimento de antígeno, polimorfismo genético e sua associação com indicadores de patogenicidade microbiana e resistência do hospedeiro), ação dos agentes antimicrobianos e de resistência aos antimicrobianos;

– Compreender os princípios da epidemiologia, diagnóstico e gestão de doenças infeciosas;

– Microbiologia molecular (princípios da biologia molecular, alvos de genes microbianos para deteção, identificação e classificação, indicadores de resistência genética a medicamentos, expressão génica), entre outros.

A microbiologia no seio dos estudantes de veterinária

Há mais de 20 anos na área da microbiologia veterinária e das doenças infeciosas, Patrícia Poeta tem vindo a verificar um crescente interesse por parte dos estudantes de medicina veterinária nestas temáticas, o que lhe causa agrado. “Há uns anos, a grande parte queria seguir o ramo clínico ou de inspeção sanitária e era muito difícil fazê-los enveredar pela investigação científica aliada à microbiologia do diagnóstico.” Atualmente, a situação é diferente e para isso a docente destaca o contribuído das universidades. Obviamente destaco a UTAD, quer pelo nível de produtividade científica na área, quer pelo facto de possuir um Training Centre europeu aprovado na área da microbiologia veterinária. Por outro lado, os laboratórios privados que dão suporte ao diagnóstico veterinário, cada vez com mais e melhores equipamentos e pessoal com formação complementar.”

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 155 da revista VETERINÁRIA ATUAL [3], de dezembro de 2021.